Reacção de um sobrevivente à declaração do BP do MPLA sobre o 27 de maio de 1977

Luanda  - Tomei conhecimento da declaração do Bureau Político do MPLA sobre o 27 de Maio, apenas quando procedia ao lançamento da minha mais recente e modesta obra – A CHAGA − no Anfiteatro da Liga Africana, evento que não contou com a presença dos órgãos de difusão massiva públicos e privados controlados pelos detentores do poder no meu país, porque tais órgãos foram orientados a lá não comparecer, fundamentalmente a Televisão Pública de Angola e a TV Zimbo, mesmo depois de previamente solicitados em nota de imprensa, tendo apenas coberto o acto o Repórter da Rádio Eclesia. No entanto os mesmos órgãos de difusão massiva do Governo do MPLA, não se fartam de repetir até a exaustão, que em Angola há liberdade de expressão e de comunicação e que a censura há muito deixou de existir por força do Estado de Democrática de Direito instituído desde 1992 e agora reforçado com a entrada em vigor da nova Constituição (atípica) em 2010. Engane-se quem quizer.


Depois de lida a referida declaração, muito sinceramente fiquei mais uma vez completamente estarrecido, porque confesso, que desta vez não estava a espera de uma declaração vinda de uma organização como é o MPLA, organização onde militei durante 38 anos, e por não me rever na forma como o partido estava a ser conduzido, estatutariamente renunciei a minha militância em 29 de Maio de 2012, mas ainda assim, continuo acreditar que esta organização pauta a sua conduta na humildade e, por isso, evolui no tempo. Enganei-me redondamente, porque confrontei-me com uma declaração completamente vazia de conteúdo e cheia de ambiguidades. E é sobre essas ambiguidades que sou forçado a reagir.


Diz a tal declaração, logo no primeiro parágrafo, “haver um aproveitamento político com os acontecimentos do dia 27 de Maio de 1977 até por parte de pessoas que não estiveram ligadas a tais acontecimentos”. O que se quer dizer com a expressão “aproveitamento”?


Fazer uma declaração como a que fez o Bloco Democrático, um partido político legalmente constituído, organizar uma manifestação ou vigília pacífica em memória dos que foram barbaramente assassinados neste dia e nos subsequentes, publicar um livro versando assuntos relacionados com os trágicos acontecimentos de 27 de Maio considera-se isso aproveitamento?

Sinceramente, não consigo compreender como é que a direcção do MPLA ainda não se convenceu que a questão do 27 de Maio pela sua gravidade e magnitude, quer se queira quer não, é hoje uma questão transversal, que diz respeito não apenas ao próprio MPLA enquanto instituição responsável pela tragédia que agora ousa minimizar, mas sim a todos angolanos, quer sejam elas pessoas singulares ou colectivas, assiste-lhes legitimidade para com a suas ideias contribuírem para a solução deste bicudo problema criado por um punhado de dirigentes perfeitamente identificáveis, cuja responsabilidade cimeira recai, sem sombra de duvida, ao MPLA e, em última instância ao Estado angolano. Por isso, não pode agora o MPLA vir com este argumento falacioso de “aproveitamento”.

Diz também a mesma declaração que “com tal atitude se exacerbam tais factos que estimulam o ódio e fomentam a divisão entre os angolanos”. Outra vez a mesma astúcia de sempre, esta mesma que antes tinha sido usada tendo como bandeira a palavra “FRACCIONISMO” para depois legitimar o massacre. Quem, afinal, exacerba ódio e fomenta a divisão?

Aquele que minimiza um acontecimento tão grave como é a tragédia de 27 de Maio de 1977, e que pensa que um acontecimento desta gravidade e envergadura se resolve com uma simples declaração difundida até a exaustão pelos órgãos de difusão massiva que absolutamente controla sem um pingo de pudor; que reprime jovens manifestantes, sendo dois deles desaparecidos até hoje, sem que as famílias saibam onde os mesmos se encontram; quem tem a responsabilidade de proteger a vida humana cuja garantia está consagrada na constituição maioritariamente por si sufragada e nada faz para que os responsáveis pelo desaparecimento de tais vítimas sejam responsabilizados, ou os que se manifestam pacificamente ao abrigo da lei e são reprimidos, os que apelam constantemente ao diálogo por meio de cartas e livros ou declarações? Haja pelo menos um pouco de rigor, caros senhores!

Para justificar a matança de milhares e milhares de angolanos cujo número certo eu desconheço, o MPLA, diz ainda na referida declaração, como sempre, “que houve excesso de zelo por parte dos seus principais agentes”. Mais outra ambiguidade e até falta de rigor, mesmo com a quantidade industrial de jovens “pensantes” que possui.

Salvo opinião diferente dos experts do MPLA, entendo que a palavra “excesso”, significa aquilo que excede, ou seja, o que está para além do que é devido, o que, portanto, está a mais. Ora, se essa asserção for verdadeira, então, aqui a palavra excesso na visão dos dirigentes do MPLA que aplaudiram e parece que ainda continuam a aplaudir o que se fez nos acontecimentos do dia 27 de Maio de 1977, é tão-somente isto:

Foi perfeitamente normal terem sido mortas pessoas (cujo o número não interessa determinar) das mais variadas maneiras e com todo o requinte de crueldade que, eu Michel, presenciei ali no Campo da Calunda no Moxico, sem qualquer espécie de julgamento, só que o número é que foi exagerado, ou seja, deviam sim senhor matar os fraccionistas, só que matou-se um pouco a mais, dai os excessos. Francamente! Um partido que diz defender a vida humana, a liberdade, a justiça.

Não vou comentar o resto que a referida declaração contém, cabendo a opinião pública, fundamentalmente os que têm ainda um pouco de dignidade, e que certamente ainda existe na nossa terra muita gente, apesar de hoje a dignidade ter sido atirada para a sarjeta por causa dos cargos que permitem (argumentam) o “pão das crianças.” Mas é só mesmo o pão das crianças?

Se em Portugal onde os milionários deste país estão a investir rios de dinheiro que conseguiram não sei como, está sob resgate, então, meus senhores, me desculpem. Porque, se para um assunto tão grave como é o do 27 de Maio, quem dirige o Estado que em princípio deve ser uma pessoa séria e, acima de tudo, sensível, minimiza a questão a pontos de pensar que um problema desta magnitude se resolve com uma simples declaração, desprezando e se opondo a qualquer tipo de iniciativa que vise solucionar a questão duradouramente, parece que em Angola estamos a beira do resgate da Troika europeia. Não por défice financeiro, porque até temos cumbú a mais, a pontos de estarmos a enterra-lo na Mukueba a môko môko (como dizem os kiokos) e estes aplaudem, mesmo com a miséria a dar nos ossos da maioria dos descamisados, mas por défice de sensibilidade e democraticidade de quem nos governa. Haja coração!

Luanda 29 de Maio de 1977

Miguel Francisco “Michel”

Sobrevivente da Tragédia de 27 de Maio






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