Agostinho Neto, lutador sanguinário e a versão União Soviética

ImageRussia - As relações entre Agostinho Neto, dirigente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), e os dirigentes da União Soviética poucas vezes foram pacíficas. Os documentos dos arquivos soviéticos revelam que a desconfiança mútua era uma das principais razões para a conflitualidade entre as partes.

Isso é particularmente evidente nas vésperas do 25 de Abril de 1974, num período de crise que teve início em 1972 e só terminou em 1975, quando Angola adquiriu a independência.
Nos finais de 1972, Agostinho Neto assinou um acordo com Holden Roberto com vista à criação de uma frente unida do MPLA e da FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), onde Neto teria aceite ser o "número dois" da nova organização.

Esta notícia foi mal recebida em Moscovo. Piotr Evsiukov, funcionário do Departamento de Relações Internacionais do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), escreveu a propósito: "Esse passo desorientou completamente os partidários e membros do MPLA, bem como a nós."

Em Janeiro de 1973, Agostinho Neto chega a Moscovo, à frente de uma delegação do MPLA, para tentar convencer a direcção soviética de que esse acordo era "uma nova etapa para o movimento" e devia permitir ao MPLA chegar aos "centros vitalmente importantes do país", porque, até então, o caminho dos combatentes do MPLA era cortado pelas autoridades do Zaire, que apoiavam a FNLA. Neto sublinhou que, embora Holden Roberto chefiasse a nova frente, ele, enquanto vice-presidente, iria dirigir o secretariado, o fornecimento de víveres e armas, os assuntos militares, acrescentando que "o MPLA continuará a existir como organização, embora em união com a FNLA".

O dirigente do MPLA falou também de "comportamento estranho" de algumas pessoas que tentaram utilizar "o tribalismo e o regionalismo", o que revelava um aumento crescente da tensão no interior dessa organização. A posição soviética sobre todos esses problemas está bem patente num relatório elaborado, a 21 de Dezembro de 1973, pelo general Vladimir Kulikov, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas da URSS, para o Comité Central do PCUS.

Depois de constatar que, "nos últimos tempos, o movimento de libertação nacional em Angola tem vindo a enfraquecer" e que "o principal partido combatente, o MPLA... atravessa uma séria crise", o general Kulikov aponta as causas dessa situação: "O facto de o presidente do MPLA, Neto, e a sua equipa ignorarem o problema nacional na formação dos órgãos dirigentes, a subvalorização do trabalho político-educativo e os métodos autoritários de direcção conduziram à agudização brusca das contradições tribais e à cisão no partido."

Vladimir Kulikov não tem dúvidas em apontar o dedo crítico a Agostinho Neto: "Em vez de esclarecer as causas da crise, Neto tentou esmagar à força o descontentamento crescente. Neto desconfiou sempre dos quadros preparados na URSS, que lhe poderiam prestar a ajuda indispensável, vendo neles condutores da influência soviética."

"Tendo anunciado, no início do ano corrente", continua o general soviético, "a existência de uma conjura no MPLA, Neto fuzilou os cinco mais activos adversários seus. Chipenda, considerado a segunda pessoa na direcção, foi acusado de estar envolvido na conjura e demitido de todos os cargos. Só a interferência das autoridades zambianas impediu Neto de o liquidar fisicamente."
As repressões descritas não surtiram o efeito esperado. Pelo contrário, fizeram aumentar o descontentamento entre os combatentes do MPLA. "Em Agosto do presente ano, revoltaram-se os combatentes dos principais acampamentos do MPLA no território da Zâmbia, que foram apoiados por parte dos destacamentos que se encontravam em Angola. Os revoltosos estabeleceram contactos com Chipenda e exigiram a convocação de uma conferência regional para eleger uma nova direcção. Neto recusou-se a satisfazer essa exigência e suspendeu os fornecimentos aos revoltosos", continua o general Kulikov. E acrescenta: "Isso levou à suspensão das acções armadas em Angola. Muitos combatentes foram obrigados a regressar à Zâmbia. O número de destacamentos militares do MPLA diminuiu de cinco mil para três mil homens. Os portugueses estabeleceram o controlo de uma série de regiões libertadas e tiveram a possibilidade de enviar parte das suas forças repressivas de Angola para a Guiné-Bissau."

Vladimir Kulikov volta a atirar para Agostinho Neto todas as culpas da situação lastimosa em que se encontra o MPLA: "Por insistência do Comité de Libertação da Organização de Unidade Africana e das autoridades da Zâmbia, foram criadas, em Novembro, comissões de reconciliação de seguidores de Neto e Chipenda. Contudo, elas não conseguiram resultados positivos até agora. Neto protela de todas as formas o trabalho das comissões."

O enfraquecimento do MPLA é acompanhado do reforço das posições da FNLA. "Com o apoio do Presidente Mobutu, formam-se no Zaire destacamentos militares da FNLA, cresce a actividade da Frente na política internacional. Actualmente, Holden encontra-se de visita à República Popular da China e, proximamente, tenciona visitar a Roménia", constata Kulikov, que conclui: "No momento actual, o MPLA praticamente não leva a cabo operações militares nem a partir do território da Zâmbia, nem a partir do território do Zaire."

A fim de resolver a crise, Kulikov propõe as seguintes medidas: "1) Encarregar os embaixadores soviéticos na Zâmbia e na República Popular do Congo de transmitir a Neto e a Chipenda a nossa preocupação face à actual situação no MPLA e chamar a sua atenção para a importância da adopção de medidas urgentes, a fim de superar a crise e recomeçar a luta de libertação. Lembrar-lhes que do estado da luta depende a ajuda que a União Soviética prestará ao MPLA; 2) Se for decidido convidar o Presidente do Zaire, Mobutu, a visitar a União Soviética, discutir com ele o problema das perspectivas da luta conjunta do MPLA e da FNLA em Angola no plano do estudo da necessidade de estabelecermos contactos com a organização da FNLA de Holden Roberto."

A 7 de Janeiro de 1974, R. Ulianovski, vice-chefe da Secção Internacional do Comité Central do PCUS, junta a esse documento outro, que constitui o resumo do primeiro, mas contém uma explicação das lutas tribais no MPLA: "O Movimento Popular de Libertação de Angola atravessa uma séria crise, provocada pela luta pelo poder na direcção e por contradições entre tribos." "O MPLA", continua Ulianovski, "dirige a luta armada de libertação nacional em Angola, que tinha lugar principalmente na Frente Oriental a partir do território da Zâmbia. A tribo umbundo constitui a massa fundamental de combatentes da frente. Porém, na direcção do partido há um único representante dessa tribo: Daniel Chipenda. Activistas do MPLA exigiram a realização de um congresso do partido para eleger uma direcção com representação proporcional das tribos. Agostinho Neto, presidente do MPLA, acusou D. Chipenda e os activistas umbundo de traição e excluiu-os do partido."

Depois de discutida a situação, o Comité Central do PCUS decidiu enviar um telegrama ao embaixador soviético, onde se lhe recomenda encontrar-se com Chipenda e Neto para superar a cisão no MPLA. E para que não fosse de mãos vazias, o CC do PCUS recomenda: "Informe que os pedidos do MPLA sobre a prestação de ajuda militar e material para o ano de 1973 foram satisfeitos. O material para o MPLA foi fornecido para a República Popular do Congo e a Tanzânia. Todavia, as contradições no MPLA dificultam a prestação de ajuda por parte de organizações soviéticas ao partido."

Fonte: darussia.blogspo






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