Luanda - Carlinhos Zassala, um dos grandes impulsionadores da Psicologia em Angola, defende uma reforma geral no Sistema de Educação e Ensino angolano, com vista a conferir-lhe qualidade e eficiência. Outrossim, insiste na existência de um exame nacional para o Ensino Primário e Secundário. O também docente universitário, autores de 5 obras científicas, bastonário da Ordem dos Psicólogos de Angola e Presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Superior, em entrevista exclusiva ao ONgoma News, abordou, igualmente, questões ligadas à educação da juventude, bem como ao papel do psicólogo em Angola.

Fonte: ONGOMA

Como caracteriza o subsistema de ensino superior em Angola?

Não há nenhuma sociedade que poderá desenvolver-se sem investir no Sistema de Educação e Ensino. O nosso merece uma reforma geral, a partir do Ensino Primário até ao Ensino Superior porque cada nível de ensino tem objectivos a alcançar. O Ensino Primário tem como grande objectivo o domínio da leitura, do cálculo e da escrita. Ora, o que verificámos é que muitos dos nossos alunos que terminam o Ensino Primário não têm o domínio nem da leitura, nem do cálculo, nem da escrita. O que significa que não conseguem alcançar os objectivos do Ensino Primário. Essas falhas e lacunas verificadas têm depois repercussões ao nível dos subsistemas posteriores: o Ensino Secundário e o Superior. Ao nível do Ensino Secundário, é nesse ciclo onde é dada a formação técnica e profissional da força de trabalho activa porque nenhum país se desenvolve apenas com quadros superiores. Os que fazem funcionar uma economia são os técnicos médios. Ora, felizmente, já se está a tentar corrigir muitas falhas cometidas ao nível do Ensino Secundário quando, em Angola, em todas as instituições existiam centros pré-universitários (Puniv) que não davam nenhuma formação profissional aos jovens. Entretanto, aqueles que terminavam o Puniv também não tinham acesso ao Ensino Superior, principalmente na fase em que só existia a Universidade Agostinho Neto. Então, há uma grande falha ao nível do Ensino Secundário porque é a partir daqui que deve existir a orientação dos jovens, a fim de poder formar-se nas várias áreas de formação técnico profissional. Por isso, são necessárias reformas pontuais no Ensino Primário, no Ensino Secundário e no Ensino Superior porque, hoje em dia - aliás, os nossos altos responsáveis já confirmaram isso - nós já formámos muito em termos de quantidade, mas, em termos de qualidade, estamos muito distante. Eu não comungo com os teóricos que dizem, primeiro, a quantidade, depois, a qualidade. Temos de combinar as duas coisas porque, por exemplo, eu sou um docente que, às vezes, costumo visitar algumas universidades da Região, como a de Namíbia, Kinshasa, etc. e constato com muita preocupação o facto de o nosso país, até hoje, não existir normas curriculares para a formação ao nível do Ensino Superior . Não encontro outro país no mundo onde , por exemplo, indivíduos formados numa mesma área , no mesmo curso, cada um tem uma formação diferente. Hoje em dia, o médico é formado na UAN, no Piaget, o psicólogo é formado na UAN, na Unia, todavia, cada um tem uma formação completamente diferente.


E não acha essa diversificação uma mais-valia?

A diversificação é saudável, mas deve existir uma base de comparação. É por isso que felicito a nova direcção do Ministério do Ensino Superior por ter criado uma comissão técnica, da qual faço parte, felizmente, para a harmonização dos planos curriculares no país. Muitos estão a confundir harmonização com uniformização. Em nenhuma parte do mundo há uniformização. Harmonização significa que, em cada curso, temos que ter um plano curricular básico, mínimo e obrigatório. E cada instituição, consoante a sua missão, objectivos, pode acrescentar outras cadeiras ou cursos que vão, justamente, diferenciar de outros cursos, mas tem de existir um plano curricular básico, mínimo e obrigatório porque a ausência dessa harmonização faz com que, hoje em dia, não haja possibilidade de transferir um estudante de uma instituição para outra, não há possibilidade que haja mobilidade docente de uma instituição para outra por que tudo é diferente. O projecto já está elaborado pela comissão, à semelhança do que foi feito com o Estatuto da Carreira Docente, com vista a criar-se um documento que vai definir as normas curriculares gerais , depois de aprovadas , esta vai criar as normas curriculares em cada curso. Só desta maneira é que haverá comparabilidade em termos de formação e só é também desta forma que haverá mobilidade discente, docente e de investigadores.

Essa mobilidade é ao nível do país ou da região?

Primeiramente, ao nível do país. Também a comissão técnica analisou não só a mobilidade ao nível do país, mas também tivemos em conta a nossa região da SADC. Baseámo-nos para a elaboração deste documento nas normas curriculares de Moçambique, da RDC, etc., porque temos de colocar a vaidade de lado. A nível do continente africano, o primeiro país que teve a melhor universidade a Sul de Saara foi o Congo Belga - a Universidade Lovanium, actualmente conhecida como Universidade de Kinshasa. Então, a harmonização tem de ter também em conta a realidade da nossa região , principalmente a SADC.

E não tiveram em conta as normas curriculares de países para onde o Estado angolano envia bolseiros?

Como somos um país que fala a língua portuguesa, também tivemos em conta as normas curriculares do Brasil e de Portugal. É quase impossível nós considerarmos todos os países para onde Angola manda os seus estudantes porque, de uma certa forma, estamos a pagar algumas falhas que cometemos, logo depois da independência, ao encaminharmos estudantes quase ao nível de todos os países do mundo.

Isto pressupõe uma falta de orientação escolar ?

Exactamente!

E quem deve orientar escolar e profissionalmente o estudante?

São os psicólogos escolares, sob a responsabilidade do Ministério da Educação. Felizmente, estamos a tentar corrigir os erros. Aqui, eu apoio um dos lemas da [actual] campanha [eleitoral ]: “melhorar o que está bom e corrigir o que está mal”. Em 2011, o Presidente da República aprovou um Decreto Presidencial que obriga as escolas a terem um gabinete de apoio psico-pedagógico e isto também está a obrigar a formação dos psicólogos escolares porque a primeira área de aplicação da Psicologia foi a escolar e não a clínica, nem a de trabalho. O jovem deve ser orientado a partir do Ensino Primário não só escolar e profissionalmente, mas também a nível social, uma vez que é justamente entre os 6 e 18 anos que ele é carente, tem muitos problemas e precisa, portanto, de bons orientadores. Por isso, os que devem orientar são os psicólogos escolares.

 

Mas as nossas escolas não têm gabinetes de apoio psico-pedagógicos. A Ordem dos Psicólogos, junto do Ministério da Educação, já insistiu para que se regularizasse essa situação?

Estamos a trabalhar de forma positiva para a existência desses gabinetes porque a ausência de orientação escolar e profissional não permite uma sociedade ou um país colocar cada indivíduo no seu devido lugar. Só o psicólogo formado em matéria de orientação escolar e profissional tem um conjunto de técnicas, métodos para poder conhecer o indivíduo que deve ser orientado, para conhecer as necessidades do mercado de trabalho do país e para conhecer as instituições onde esse indivíduo se deve formar porque todo o exercício de uma profissão está sempre correlacionado com a personalidade do indivíduo, então, não há nenhum pai ou nenhuma mãe que pode orientar os seus filhos. Só o psicólogo escolar tem bagagem científica necessária para poder justamente orientar as nossas gerações para as profissões e também orientar as nossas gerações para a cidadania, porque é na escola onde se forma o cidadão.

 

É daí os curriculuns da formação de professores deverem adequar-se a isso?

Naturalmente. Aliás, o psicólogo escolar trabalha directamente com os professores, os alunos, pais e encarregados de educação, bem como com gestores escolares.

 

A investigação científica é um dos grandes desafios do Ensino Superior em Angola. Há quantidade e qualidade na investigação que se faz no país?

Com raras excepções, como por exemplo o Centro de Investigação Científica da Universidade Católica, não se faz uma investigação séria no país por causa da política investigativa vigente. Os grandes investigadores são, em primeiro lugar, os professores universitários. Não é em vão que a carreira da docência universitária começa com a assistência estagiária e termina com o professorado titular. Os professores associados e titulares não deviam ter muito tempo para a docência, deviam ter muito tempo para as aulas de pós-graduação e para a investigação científica, mas não é o que acontece em Angola. Eu sou professor titular, quase 85% do meu tempo dedico à docência a nível da graduação e quando é que terei tempo para a investigação? E também não oferecem condições adequadas para a investigação. Para investigar, em primeiro lugar, a pessoa deve ter a satisfação das necessidades básicas: ter uma residência condigna, ter um meio de transporte, em caso de doença, saber onde tratar-se, ter um salário condigno porque investigar exige uma grande concentração. Ora, o professor universitário angolano sobrevive porque não tem as mínimas condições necessárias para investigação. Em segundo lugar, a investigação exige fundos. Ora , em Angola, não tenho o conhecimento ao nível do de OGE uma verba destinada à investigação científica. Nós, em Angola, ainda não podemos falar da investigação científica, talvez de forma literária ou retórica, mas na realidade não há condições criadas para a verdadeira investigação científica. Eu desafio todo aquele que poderia enfrentar-me num debate porque para poder publicar uma obra académica é um calcanhar de Aquiles. [Por isso], temos que, na realidade, fazer um grande esforço porque, no meu livro, “Iniciação à Pesquisa Científica”, eu afirmo que “nenhum país é verdadeiramente independente quando depende da ciência alheia” . Todo o país deve criar a sua própria ciência e tecnologia. Só desta forma ele poderá desenvolver-se e ser independente. Deste modo, a investigação científica deve ser uma prioridade, principalmente, a investigação básica ou fundamental porque concede depois subsídios para a investigação.


Na mesma senda, não acha haver um desperdício de monografias ao nível das instituições do Ensino Superior de Angola, pelo facto de os resultados das pesquisas ficarem apenas no papel?

Muitas monografias produzidas em Angola não têm rigor científico, principalmente em termos de aplicação da estatística. Quando se realiza uma investigação, o tema é bonito, mas o trabalho de campo, os dados colectados não são interpretados à luz da estatística exigida para interpretar dados científicos. Há muitos trabalhos por aí divulgados e interpretam com base na percentagem. Percentagem é para os jornalistas. Um cientista tem de recorrer a teste de decisão, a testes adequados de acordo com a ciência estatística. Por isso, temos de começar a tomar a sério a orientação de monografias, dissertações e teses, porque quando leio os temas dos trabalhos que estou a orientar, e mesmo a forma de elaborar o projecto, deixam muito a desejar.

 

Então, aqui a questão de investigação/ pesquisa científica tem falhado?

Naturalmente, tem falhado porque, em primeiro lugar, não existe um rigor na admissão do corpo docente, no financiamento da investigação e, principalmente, esse divórcio entre os detentores do saber científico e os detentores do poder político é prejudicial, porque quem deve dar subsídios para os detentores do poder político são os detentores do poder científico. A universidade é o centro de produção e divulgação do saber científico, mas lamentavelmente, no nosso país e não só, quase ao nível do nosso continente, há divórcio entre os políticos e os cientistas académicos.

 

O país manda, anualmente, estudantes para o estrangeiro como bolseiros. Em que medida, na sua óptica, os saberes desses bolseiros são aproveitados para questões que afligem Angola?

Em 92, o nosso Presidente esteve no Rio de Janeiro e eu, enquanto Presidente da Associação dos Estudantes de Pós-graduação, mantive um encontro com ele, no qual analisámos as razões de muitos estudantes angolanos enviados para o exterior não querem regressar para Angola quando terminam. E esse fenómeno acontece na maioria dos países africanos porque , quando regressamos, somos portadores de muitos conhecimentos científicos, mas encontramos muitos constrangimentos e dificuldades para se pôr em prática o que aprendemos. Por isso, diria que não há incentivo. Quer dizer, os países africanos gastam muito dinheiro com bolseiros, estes vão formar-se, mas, no regresso, não são aproveitados. Então, são poucos aqueles que conseguem resistir, outros acabam por abandonar o país e voltam para os países onde foram formados, a fim de encontrarem melhores condições de vida. Quem perde em tudo isso é o país que investiu e que depois não aproveita os conhecimentos adquiridos. Praticamente não existe aproveitamento científico destes quadros.

 

Ainda mantém a ideia de um exame nacional para o ensino geral?

O exame nacional permite, em primeiro lugar, as várias escolas acompanharem, de perto, os programas nacionais e, ao mesmo tempo, força as escolas a poderem dar um ensino de qualidade aos seus alunos porque , quando estes terminam, quem sanciona as escolas é o exame nacional. Naquela escola em que o exame nacional proporcionar boas notas isso dá uma imagem ao Ministério da Educação, no sentido saber em que instituições escolares os programas foram cumpridos, em que escola temos ensino de qualidade e até serviria de base para incentivar em termos de subsídios aquelas escolas que vão tendo bons resultados no fim da formação. Ora, quando não temos exame nacional, em primeiro lugar, não é possível saber se os planos nacionais estão a ser cumpridos; em segundo lugar, não há fiabilidade em termos de certificados. É por isso que hoje temos muitos certificados falsos porque não existe um parâmetro nacional para poder analisar todos os que terminam o Ensino Secundário . Por isso, até hoje eu continuo a defender o exame nacional a nível do Ensino Secundário e, ao mesmo tempo, tornar funcional a missão dos inspectores escolares porque há muitos inspectores escolares que, quando vão a uma escola, não costumam inspeccionar nada.

 

Defendeu, recentemente, o ensino do latim nas escolas . Em que medida isso ajuda a emancipação do conhecimento?

O português, o francês, o espanhol, o italiano, etc., são línguas neolatinas. Então, estudos científicos demonstraram que, para alguém ser bom professor de línguas, tem de saber as raízes dessa língua. Como o português é uma língua neolatina verifiquei que, se os nossos professores de português têm muitas falhas, é porque abolimos, infelizmente, o ensino do latim para os professores de língua portuguesa. Eu quando oriento trabalhos de fim de curso, por exemplo, às vezes até dá vontade de desmaiar quando recebo um finalista que apresenta o seu trabalho com erros ortográficos e gramaticais e quando lhes pergunto o que fazem profissionalmente dizem “sou professor de português”. Por isso, continuo a defender que devemos recuperar o ensino da língua latina para os professores de português.

 

Em contrapartida, parece que a UAN tem pretensão de ensinar mandarim. Tem conhecimento sobre isso?

Sim! Até fui convidado para a abertura dessa instituição. Penso que, quando tomamos medidas não devemos fazer com base no sentimento ou nas influências do momento porque se for assim agora temos muita cooperação com a China, vamos ensinar o mandarim. Amanhã teremos mais cooperação com o Japão e vamos ensinar o japonês e quem sabe qual será a próxima civilização? O mais importante é reforçarmos, primeiro, a língua oficial e também reforçar as línguas africanas.

 

E sobre as línguas africanas, o que acha sobre a inserção delas no Sistema de Ensino angolano?

Na minha minha dissertação de mestrado, “Orientação Escolar e Profissional em Angola”, eu constatei que o não ensino das línguas africanas nas escolas não permite às nossas crianças amadurecerem a língua materna e o não amadurecimento da língua materna complica a aprendizagem de outras línguas porque há um grande filósofo francês, Jean Jacques Rosseau , em cujos estudos chegou a conclusão de que “ quem não conseguiu amadurecer a língua materna ao longo de toda a vida não saberá ter o domínio de uma língua”, porque o homem, na sua vida, só fala bem uma língua, que é a materna. A outra traduz. Por isso, verifiquei que uma das coisas que está na base do insucesso escolar no nosso país é o facto de a partir dos 6 anos o aluno entrar para a escola primária e imediatamente começar já a aprender o português, sem a menos ter o domínio da língua materna, sobretudo nas zonas rurais. Também há um estudo que mostrou que aqueles que começaram a aprender o português como língua materna, mas de forma deficiente, quando começam a aprender o português gramatical têm dificuldade de poderem corrigir os erros provocados pelo condicionamento operante.

 

Acha que há compatibilidade entre os diversos cursos existentes nas várias universidades de Angola e as reais necessidades do país?

Mais um problema! Porque quando falei da figura do psicólogo escolar ou conselheiro de orientação profissional é que este, quando quer orientar alguém profissionalmente, deve ter em conta as tendências do mercado de trabalho para que haja a menos uma aproximação entre o perfil de saída e o perfil de entrada no mercado de trabalho. Ora, no nosso país, temos essa grande lacuna, de tal maneira que muitos que entram no mercado praticamente encontram mil dificuldades de adaptação porque, em primeiro lugar, o nosso ensino é também altamente teórico, quase sem prática. Há cursos que exigem a prática profissional durante a formação, mas tal não existe. Por outro lado, as empresas não são exigentes, não conseguem criticar ou corrigir as falhas verificadas naqueles que terminam a sua formação em termos de lacunas e carências no mercado de trabalho. Então, devemos ter um mercado de trabalho exigente.

EDUCAÇÃO DA JUVENTUDE


Como encara o comportamento dos jovens angolanos na sociedade?

Muitas vezes, tenho ouvido pessoas a dizerem que os jovens de hoje não têm rumo, estão a perder valores. Mas os que estão a perder valor são os mais velhos porque os valores são transmitidos da geração mais velha para as novas gerações. Hoje em dia , posso confirmar sem medo de errar que os nossos jovens estão desorientados. Em Psicologia, há um capítulo que costumo dar, que fala dos processos grupais. Existem os processos grupais benignos, que ajudam a socialização da geração mais nova; e os processos grupais malignos, que desorientam a juventude e parece-me que nós aqui autorizámos bastante esses processos grupais malignos. Posso partir de um exemplo concreto. Eu não concordo com essa forma de pipocação de seitas religiosas no nosso país porque elas constituem uma verdadeira máquina na formação e mudança de atitudes. Ora, quando o Governo tem conhecimento de seitas religiosas que não são legais, mas operam livremente, mas não sabe o que ela transmite aos jovens. Isso é preocupante. Eu tomei conhecimento com muita preocupação, através da Rádio Luanda, de uma seita religiosa chamada “Igreja da Verdade” que anunciava o fim do mundo em Setembro deste ano, tendo alertado aos fiéis que não trabalhassem. Esses são processos grupais malignos . É para semear confusão. Os jovens são muito mais influenciados pelo sentimento, pela moda, portanto, devem ser protegidos, orientados pelo Estado. Contrariamente, os processos malignos conduzem para a deterioração da própria sociedade.

 

Qual é o papel da família na educação da juventude?

A família é o núcleo de qualquer sociedade. Mas para que seja núcleo de qualquer sociedade, o Estado deve potenciá-la. Quando numa família os pais não são capazes de poder satisfazer as necessidades básicas dos filhos, de ter o poder sobre os filhos, praticamente podemos dizer que é muito do que acontece, em muitos países, a criança, antes de atingir 18 anos beneficia de apoio financeiro do Estado. Mas nós em Angola, se realizarmos um inquérito, vamos verificar que há muitos pais que nem sequer se preocupam em tratar o subsídio para os filhos menores porque não se ganha quase nada e há muita burocracia para se tratar a documentação. A criança em Angola não é protegida.

O PAPEL DO PSICÓLOGO EM ANGOLA


Quais são os grandes desafios da Ordem dos Psicólogos de Angola?

Disponibilizarmos uma formação de qualidade para os nossos estudantes de Psicologia. É por isso que a Ordem tem sempre lutado e parece que estamos a encontrar já um espaço para que haja harmonização da formação do psicólogo em Angola. Não só o psicólogo de Angola, temos a Federação de Psicólogos da CPLP e, portanto, é um problema recorrente nas nossas reuniões: temos de formar psicólogos de qualidade. Também é um desafio da Ordem termos bons professores de Psicologia porque essa não deve ser dada por aventureiros nem amadores. Estes bons devem transmitir não só aspectos teóricos mas também práticos. Temos uma carência de professor de Psicologia, assim, se quisermos melhorar o ensino da Psicologia temos que abandonar a máxima que diz que “ quem não tem cão caça com gato”. Nós vamos procurar lá “o cão” onde se encontra. A ciência é universal. Depois de a qualidade dos professores de Psicologia melhorar, a Ordem tem como desafio organizar bem o estágio profissional daqueles que terminam as suas licenciaturas, de maneira que possam adquirir a prática antes de entrar para o mercado de trabalho. Outrossim, é nossa pretensão lutar pela investigação científica em Ciências Psicologias de qualidade porque muitos problemas sociais têm soluções na Psicologia, sem esquecer a defesa dos interesses dos nossos membros porque o psicólogo quando se inscreve na Ordem e recebe a cédula precisa de ter formação permanente para pode actuar condignamente na sua profissão e também deve ser protegido. Por exemplo, o problema de empreendedorismo em Ciências Psicológicas, há muitos que pensam que o psicólogo só pode trabalhar como um profissional dependente. Ele pode trabalhara também como profissional liberal, conseguindo crédito bancário, abrindo consultório. E, por fim , é uma preocupação da Ordem divulgar a cultura psicológica na sociedade angolana. Temos encontrado dificuldades porque alguns confundem uma consulta médica de uma psicológica. Dificilmente, aqueles que nos contactam conseguem terminar as suas sessões. Basta participar na primeira, segunda e terceira depois desaparecem porque tentam confundir a consulta médica com a psicológica . Ora, temos que cultivar o espírito de atendimento psicológico.

 

Mas as desistências não serão porque os pacientes não têm condições para suportar as sessões?

Naturalmente! As consultas psicológicas são sempre caras em qualquer parte do mundo. É por isso que, na maior parte das obras profissionais, tanto a nível da CPLP como do mundo, eles recebem sempre um apoio do Governo. Significa que beneficiam do estatuto de utilidade pública para poderem atender aqueles que não têm muitos recursos financeiros. Então, essa justamente é uma luta que estamos a levar a cabo. Hoje vivemos apenas de contribuições das quotas dos nossos membros e de donativos. Não beneficiamos de nenhuma verba do OGE, então, não há possibilidade de podermos atender àqueles que não têm recurso.

 

Quais são os critérios para se filiara à Ordem dos Psicólogos de Angola?

O critério fundamental é ter licenciatura em Psicologia e nas áreas que a Ordem reconhece.

 

Quais são essas áreas?

Psicologia Clínica, Psicologia do Trabalho, Psicologia Organizacional, Psicologia Escolar, Psicologia Educacional, Psicologia Forense, Psicologia Criminal, Psicologia Desportiva. Também estamos a prever a Psicologia Comercial. Acho que neste momento, com a industrialização do país, vamos precisar de psicólogos comerciais. Então, essa área a OPA reconhece.

 

Onde é feito o estágio profissional?

No local de trabalho. Por exemplo, o psicólogo escolar faz na escola, o clínico faz nos hospitais.

 

E a ordem tem uma relação com instituições onde acontecem os estágios?

Naturalmente! Todo aquele que é inscrito para o estágio profissional tem um supervisor ao nível da instituição e um orientador ao nível da Ordem.

 

Quantos filiados tem a ordem?

Temos neste momento 664 membros efectivos. Já é um bom número porque há dois anos tínhamos dificuldades de os psicólogos se inscreverem, vinham com tanto preconceito e argumento. Agora estamos a verificar essa cultura de inscrição. Nós orientámos as instituições públicas e privadas no sentido de não admitirem ninguém como psicólogo se não for portador da cédula profissional.

 

E têm cumprido com esse facto?

Estão a cumprir, principalmente o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação.

 

Qual é a periodicidade de reuniões da ordem?

O Conselho Nacional da OPA reúne semestralmente; a direcção, sempre que é necessário. Mas temos a dificuldade em reunir a assembleia geral devido a um problema que até agora não conseguimos resolver, que se prende com o facto de, apesar da ordem ter sido apreciada pelo Conselho de Ministros, no dia 23 de Março, os estatutos não foram ainda publicados no Diário da República e, por esse facto, as contas da Ordem são solidárias. Então, muitos ainda desconfiam, pensam que o dinheiro vai para conta de indivíduos e não podemos abrir as contas bancárias em nome da Ordem, enquanto não apresentarmos o Diário da República.

 

E qual é o impedimento para os estatutos constarem do Diário da República?

Estou sempre atrás dos dois ministérios que tutelam a ordem: o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação. As últimas informações que tive é que tudo está pronto para se publicar no Diário da República. Mas houve uma certa confusão porque o Presidente da República disse, devido a dificuldades financeiras, para suspender todas as solicitações de estatuto de utilidade pública. Ora, nós não estamos nessa fase, mas sim na de divulgação do estatuto orgânico. Esclareci esse problema e os dois ministros que tutelam a ordem disseram que vão actuar junto do Conselho de Ministros para que se acelere o problema da divulgação dos estatutos.

 

 




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