Luanda - Na vida, como costume, acontecem muitas coisas, que no fundo lançam-nos na meditação profunda. Pois, o pensamento do ser humano resulta-se do reflexo de tantas coisas que desenvolvem no meio ambiente, provocando incertezas e curiosidades, com um impacto enorme sobre a consciência do homem.


Fonte: Club-k.net

Portanto, o passamento físico do General João Baptista de Matos, antigo Chefe do Estado-Maior General das FAA, em certa medida, fez-me recuar no tempo, vivendo as memórias tristes do passado, em busca do calar das armas, da liberdade, da igualdade, da justiça e do bem-estar social. Sendo Nacionalista, da Luta Anticolonial, tenho uma percepção profunda sobre os fenómenos que ocorrem no nosso país, que têm sido encarados de tabus, mas cujas consequências nefastas são evidentes.


A discórdia, exclusão, prepotência, arrogância e o sectarismo excessivo fizeram parte da Doutrina Totalitária do Nacionalismo Angolano, que conduziram à ruptura e aos confrontos violentos entre os três Movimentos de Libertação Nacional - FNLA/MPLA/UNITA. No fundo, havia o Conceito de Grandeza e de Supremacia, assente no Etnocentrismo, como matriz ideológica, para a conquista da Independência Nacional e da manutenção do Poder Político.


O pressuposto da Independência Nacional fundou-se nesta Doutrina, como sustentáculo do etnocentrismo, assente na hegemonia politica. Portanto, o Sistema Socialista, de Partido Único, correspondia tão bem a este sentimento étnico-cultural, enraizado na supremacia politica e cultural, que era dominante no seio dos três Movimentos de Libertação Nacional. A discórdia do Pós-Alvor, a Guerra Civil Prolongada, a Concentração e Centralização dos Poderes, o Monopólio Económico-Financeiro, e a Manutenção definitiva do Poder do Estado, por um Partido Politico, são frutos do Conceito Étnico-Cultural que prevaleceu desde a Luta Anticolonial.


Logo, a conquista da paz e da reconciliação nacional só seriam viáveis se baseassem neste pressuposto, de desigualdade e da supremacia, como forma de perpetuar o poder politico. Qualquer evolução no sentido contrário era uma Declaração de Guerra, como aconteceria no rescaldo das eleições de 2017, quando se questionava a legalidade e a veracidade do procedimento do escrutínio.


Na verdade, este elemento, acima caracterizado, tivera sido o factor principal que esteve na base do prolongamento da Guerra Civil dolorosa, até a eliminação física do Presidente-Fundador da UNITA, Dr. Jonas Malheiro Savimbi. Em 1998, na qualidade de Coordenador Politico dos Quadros da UNITA, que se encontravam em Luanda (no GURN, na Assembleia Nacional e na Comissão Conjunta), tivera recebido uma incumbência do Presidente-Fundador da UNITA, Dr. Jonas Malheiro Savimbi, através do Vice-Presidente Eng.º António Sebastião Dembo, para contactar o Chefe do Estado-Maior General das FAA, General João Baptista de Matos, para saber junto dele o seguinte: “Qual é o posicionamento da Direcção do MPLA: o retorno à guerra civil; ou a busca da paz, por via do dialogo?”


Contemplei sobre esta missão delicada e arriscada. Além disso, não sabia quem a pessoa que teria coragem de pedir audiência ao General João Baptista de Matos. As minhas opções foram muito limitadas. Contudo, fui ter com General Arlindo Isaac Pena, Ben-Ben, que era Chefe do Estado-Maior General Adjunto das FAA. Ele ficou relutante, dizendo-me que, “não seria a pessoa mais indicada para este efeito; porque isso poderá suscitar muitas interrogações e complicar a situação.” Fim de citação. Na verdade, evitei revelar o conteúdo ao General Arlindo Isaac Pena, Ben-Ben do assunto que havia de tratar com General João Baptista de Matos. Apenas disse-lhe que, tinha uma comunicação verbal urgente da Direcção do Partido para transmitir ao Chefe do Estado-Maior General das FAA.


Passando dois dias, o General Arlindo Isaac Pena Ben-Ben compareceu em minha Casa, no Maculosso, dizendo-me que, “as 10h00 amanhã o Mais Velho esteja no Gabinete do meu Chefe, na Cidade Alta, para ser recebido.” Fim de citação. Posto lá, tive uma recepção cordial por General João Baptista de Matos, no seu Gabinete, tête-à-tête, num ambiente sereno. De uma forma diplomática, introduzia-lhe a mensagem verbal que tinha-me sido incumbido pelo Presidente da UNITA para trazer ao conhecimento dele e avaliar as perspectivas da paz ou da guerra.


O General João Baptista de Matos ficou atento, fixou-me nos olhos, deu um sorriso leve, forçado e amarelo. Em resposta, disse-me o seguinte:
«Senhor General Kandanda, digo-te, há muitas coisas tristes e reprováveis que estão acontecer. Eu não sei quem esteja por trás destas acções, de carácter provocativo. Parece-me ser uma forma de arranjar o pretexto. Tenho andando pelo interior do país, as vezes disfarçado, para entender bem o que de facto passa. Por isso, digo-te com toda sinceridade, se dependesse de mim, a minha opção seria a paz, através de criar mecanismos eficazes do Diálogo sério e credível, no sentido de consolidar a paz frágil que alcançamos até aqui».


«Infelizmente, dizia João de Matos, como militar, não posso fazer nada. A decisão de fazer a paz, ou de fazer a guerra, depende do poder político. Somente os políticos têm autoridade de determinar o caminho a seguir nos próximos tempos. Porém, pelos vistos, a guerra é inevitável. Os que estão apostados na guerra, vão fazer a guerra. Irão fazê-la com toda violência, não obstante a destruição de vidas humanas que isso vai causar». Fim de extracto das palavras do malogrado General João Baptista de Matos.


Separamo-nos num ambiente sombrio, de dois patriotas, dos lados opostos, que buscavam a paz, mas que não tinham poder nenhum para evitar a retomada da guerra civil atroz. Afinal, havia interesses ocultos para alimentar a guerra, contra a vontade do povo angolano, cujos filhos e filhas eram apenas carne para canhão. Muitos dos quais hoje andam na desgraça, totalmente esquecidos, e abandonados à sua sorte. Ao passo que, os Senhores de Guerra enriqueceram-se ilicitamente, tornando-se Magnatas dos mais ricos do mundo. Além disso, ter mergulhado o país na bancarrota e na pobreza extrema à maior parte da população, que vive na penúria.


No rescaldo deste encontro de busca da paz, acima referido, sucedera uma sequência de acontecimentos trágicos: General Arlindo Isaac Pena Ben-Ben, de repente, ficou gravemente doente e evacuado de emergência para Africa do Sul, onde faleceu. General João Baptista de Matos foi destituído do seu cargo e lançado ao deserto. General Carlos Kandanda, como Deputado, em efectividade de funções, é detido e encarcerado, durante dez meses, no Laboratório Central Criminalística de Luanda. É lançada uma ofensiva de grande envergadura em todo país, em perseguição do Presidente da UNITA, Dr. Jonas Malheiro Savimbi; tendo sido assassinado brutalmente, na Província do Moxico, na Região do Lucusse.


Em síntese, o propósito desta reflexão não é de carácter retrospectivo, mas sim, de servir-se do passado e do presente a fim de corrigir as tendências erróneas, como medidas preventivas, para o futuro do nosso País. Pois, estamos diante um grande desafio, de superar as insuficiências dos «Conceitos Arcaicos» do Nacionalismo Angolano, que já não correspondem ao Mundo contemporâneo da globalização, da Idade Cibernética e das TICs, que veiculam velozmente as informações, os conhecimentos e os valores da cultura moderna.


Alias, estamos num mundo de grandes exigências, em que há um conjunto de direitos humanos, que salvaguarda e promove a cidadania, das sociedades modernas. Por isso, o nosso grande desafio em Angola consiste essencialmente no Conceito de Desigualdade, assente na «miopia política de grandeza e de superioridade, de pensar que o Poder Político é o «direito exclusivo» de uma classe politica, que pertence a uma comunidade predefinida. Alias, lembro-me tao bem, dos tempos mais recônditos de 1965, na preparação de condições necessárias para abertura da Frente Leste. Numa das várias conversas tidas em Lusaka, com Dr. Jonas Malheiro Savimbi, tinha-me alertado ao seguinte:
«O problema principal que Angola irá enfrentar será de livrar das mentes dos nossos irmãos do MPLA o complexo de superioridade, de pensar que, somente eles têm a legitimidade política de representar, libertar e governar Angola». Fim de citação.


Enfim, olhando bem para a conjuntura actual de Angola, o Conceito de Grandeza e de Superioridade, do apego ao poder, a todo o custo, é dominante. Oxalá! O actual Presidente Angolano, General João Manuel Gonçalves Lourenço terá a vontade politica de alterar este quadro, de desigualdade e de exclusividade. Fazendo com que, a cidadania prevaleça, em que cada angolana e cada angolano tenha os mesmos direitos, os mesmos deveres e as mesmas oportunidades, a ser tratado com dignidade. Acabar definitivamente com a classificação de angolanos, na base partidária, entre os da primeira, da segunda e da terceira classe. Obedecendo, neste respeito, à vontade (por sufrágio universal directo) do Povo Angolano como sendo o Único Fundamento da Autoridade dos Poderes Públicos.



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