Lisboa - Com o cerco ao império da família do ex-Presidente angolano José Eduardo dos Santos a apertar, os dois portugueses que foram convidados por Isabel dos Santos para integrarem o novo Conselho de Administração da Sonangol deverão regressar a Portugal sem ser empossados.

* Gustavo Costa
Fonte: Expresso

Portugueses em risco de não ir para a Sonangol

A nomeação de Susana Brandão e de Emídio Pinheiro, segundo apurou o Expresso, poderá ter perdido eficácia depois de ter expirado, na semana passada, o prazo estipulado por lei para a sua validade.

Mais do que ‘peões’ de um mero processo jurídico, estes dois portugueses, aliados no passado de Isabel dos Santos na Vieira de Almeida e Associados e no Banco de Fomento Angola (BFA), respetivamente, estão a ser vítimas do ajuste de contas políticas que marca em Angola a ascensão ao poder de João Lourenço. O Expresso tentou falar com eles, mas não foi possível ouvi-los até ao fecho desta edição.

“Na tentativa de proteger a filha, José Eduardo enredou-se num decreto traiçoeiro e agora está a ser engolido pela loucura da sua ambição”, disse ao Expresso o diretor do “Correio Angolense”, Graça Campos.

No arrastão foi apanhado também outro administrador, Ivan Sá de Almeida, ex-quadro angolano da Sonangol, que trabalhava para a Esso no Brasil.

O relatório da comissão encarregada de avaliar o contencioso que opõe a Sonangol às petrolíferas estrangeiras a operar em Angola, que será apresentado ao Presidente João Lourenço na próxima semana, ao destapar falhas estruturais clamorosas e incumprimentos que resultam numa dívida em cash call de 6 mil milhões de dólares, deixa Isabel dos Santos numa situação muito embaraçosa.

“Ou demite-se ou arrisca-se a ser humilhada com uma demissão compulsiva. E os portugueses que foram por ela contratados também deixaram de ter condições para continuar em Angola a trabalhar para o Estado”, disse ao Expresso o jurista Américo Figueiredo.

Quem deverá ter o mesmo destino é Sarju Raikundala, de nacionalidade indiana, que de administrador não executivo, pela mão da filha de Eduardo dos Santos, passou a deter funções executivas, como homem forte do pelouro das finanças. Para muitos analistas, a situação de Sarju Raikundala, proveniente da PwC, a consultora que audita as contas da Sonangol, tornou-se eticamente insustentável.

A presença de Susana Brandão e de Emídio Pinheiro serviu de mote para o general Alberto Neto, do Comité Central do MPLA, em entrevista à emissora LAC, denunciar a existência de um “claro conflito de interesses” na Sonangol.

A forma como o antigo Presidente desencadeou este processo mereceu, por isso, um sentimento de profunda repulsa por parte da opinião pública. João Lourenço decidiu mesmo ignorar a existência de Isabel dos Santos como presidente do Conselho de Administração da Sonangol.

Mas a Sonangol não é a única dor de cabeça para Isabel dos Santos. A mudança de liderança operada na Sodiam (filial da Endiama — Empresa Nacional de Prospeção, Exploração, Lapidação e Comercialização de Diamantes de Angola) também está a causar perturbação.

Com esta medida, o novo Presidente desarticula o monopólio que a filha de Eduardo dos Santos e o genro, o congolês Sindika Dokolo, detinham na compra e venda de diamantes, através da Victoria Holding, num negócio avaliado, por ano, em mais de mil milhões de dólares.

Desarticulado ficou também o monopólio de inspeção de produtos que o irmão, Filomeno dos Santos, através da Brumangol, tinha sobre todas as importações angolanas. “Só com os produtos alimentares embolsaram nos últimos dois anos e meio mais de 25 milhões de dólares”, disse ao Expresso o empresário Carlos Cunha.

 



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