Luanda - 1. Em 2015, os neurónios do general José Maria, então chefe do Serviço de Segurança Militar (SSM), transformaram um encontro de 15 jovens, que liam e debatiam o manual “Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura”, do professor universitário angolano Domingos da Cruz, numa acabada concertação para um golpe de Estado que culminaria com o assassinato do então Presidente da República.

Fonte: Correio Angolense

Posto ao corrente da fantasiosa leitura dos factos e porque se reviu no título do manual, José Eduardo dos Santos “comprou” de imediato o embuste e ordenou aos seus sequazes para agirem em “conformidade”.


Com a carta branca na mão, os “tonton macoutes” de José Eduardo dos Santos põem-se rapidamente em campo: na tarde de sábado do dia 25 de Junho detêm e encaminham para paradeiros incertos 20 activistas políticos.

Apenas quatro dias depois, o então Procurador-Geral da República, General João Maria de Sousa, aderiu ao embuste, acusando os jovens activistas de crimes contra a Segurança do Estado.


No dia 2 de Julho, José Eduardo dos Santos, o pretenso alvo dos activistas, pronuncia-se sobre os acontecimentos e estabelece uma analogia com o 27 de Maio de 1977, sobre cujo “miolo” nunca abriu a boca, não obstante a sua condição de coordenador da comissão de inquérito criada após a tentativa do suposto “putch”.


Depois de a 5 de Abril o Ministério Público atribuir formalmente aos activistas “actos preparatórios para uma rebelião e atentado contra o Presidente”, no dia 15 de Novembro iniciou o julgamento dos activistas, uma maratona que se prolongaria por 184 dias sem que fosse apresentada qualquer prova material que vinculasse os jovens aos factos que lhes eram imputados.


Encurralado pela ausência de provas, no dia 29 de Julho José Eduardo dos Santos chama os seus coadjutores, numa reunião do Conselho de Ministros, um órgão meramente consultivo, para lhes comunicar que a única saída “honrosa” para o imbróglio em que o General José Maria o empurrara seria a aprovação de uma Lei de Amnistia. Todos saíram do conclave felizes da silva porque, além de visar subliminarmente os activistas, a Lei tinha em vista também limpar o cadastro da maior parte dos “mãos sujas” deste país.


Submetida ao Parlamento, a Lei da Amnistia foi aprovada no dia 20 de Julho de 2016, com o entusiástico apoio do MPLA, um partido no qual se acoitam, para se protegerem, os principais larápios deste país, com o voto contra da quase generalidade da oposição.


Enfim, a Lei da Amnistia foi o melhor que ocorreu a José Eduardo dos Santos para amenizar uma situação que, interna e externamente, lhe causou à falsa imagem de democrata danos irreversíveis. Com os quais terá que conviver até ao seu último suspiro.


2. A fantasiosa história do golpe de Estado ou de “actos preparatórios para uma rebelião e atentado contra o Presidente”, como, sem fundamento algum, o Ministério Público preferiu lhes chamar, é aqui revisitada porque, no MPLA, há gente que, à falta do que fazer ou de melhor, entrega-se a exercícios delirantes.


No dia 8 deste mês, a versão online do Novo Jornal noticiou que cinco “pessoas são acusadas de tentativa de homicídio do vice-Presidente de Angola por alegadamente terem ‘estacionado a sua viatura junto à residência de Bornito de Sousa, num condomínio de Luanda”.


Citando o advogado dos cinco indivíduos, a publicação digital refere que eles estão detidos desde sábado, 3, “altura em que estariam a transportar materiais de construção para obras de reabilitação numa das residências do condomínio Jardim de Rosas”.


“Chegaram e estacionaram a viatura próximo à residência do vice-presidente da República, os guardas que lá estavam foram ter com eles e na sequência foram detidos, conduzidos a uma esquadra móvel para serem interrogados, porque haviam estacionado a viatura naquele espaço, disse ao Novo Jornal digital o advogado Sebastião Assureia. De acordo com o relato do jornal, que cita o advogado, “uma outra viatura surgiu depois e disse ter encontrado uma arma e uma catana na viatura”.


“Eles ficaram espantados e responderam que havia apenas no carro material de construção, porque foram contratados para fazer obras naquele local”.


Segundo a mesma publicação o advogado disse ainda que os seus constituintes sofreram “agressões e coações físicas por parte de efectivos da Unidade de Guarda Presidencial (UGP) e da Polícia Nacional e apenas terça-feira foram ouvidos. Os jovens estão detidos na esquadra de Talatona e foram apenas ouvidos na terça-feira”.


Salvo erro, até hoje quer a Procuradoria-Geral da República, quanto a direcção do Serviço de Investigação Criminal, quanto o próprio Bornito de Sousa não se pronunciaram sobre o caso. Em se tratando da pessoa do vice-Presidente da República, cuja vida teria sido posta em perigo, a PGR e o SIC já deveriam ter vindo a terreiro explicar o que houve. Se, de facto, houve alguma coisa.


O silêncio dessas entidades legitima a presunção de que podemos estar perante mais uma fantasia daquelas que só desprestigiam os órgãos do Estado.


Completamente ofuscado pelo Presidente João Lourenço, e praticamente ignorado pela comunicação social, situação que se agravou depois que em Dezembro deu o “peito” à bicefalia, Bornito de Sousa pode propender para a autovitimização de modo a atrair alguma atenção da opinião pública para a sua pessoa.


Finalmente, algo intrigante: constituindo a mesma unidade, por que razão os membros da UGP não se atiram contra o cidadão comum que se aproxima do Presidente João Lourenço? No final do ano passado, ao Mussulo, o PR aproximou-se do cidadão comum, interagiu com ele e regressou à casa sem nenhum arranhão. No caso do VP, a UGP tem instruções para se atirar, como um lobo esfomeado, ao primeiro cidadão que se abeire dele?


3. Os dicionários associam à desfaçatez a falta de vergonha, o descaramento e outros conceitos. Em Angola, há gente que convive pacificamente com a falta de vergonha, com a desfaçatez ou com a falta de pudor e de carácter. Entre essa gente, incluem-se os homens e mulheres agrupados na chamada Amangola.


Até há pouco mais de 6 meses, a Amangola era das mais aguerridas organizações, entre muitas, que o então regime criou, para venerarem o ex-Presidente da República. Sustentada por fundos públicos, a organização calcorreou o país para exaltar a clarividência, a genialidade, a magnanimidade de José Eduardo dos Santos. Com o ex-Presidente ao leme, os membros da Amangola e outros apêndices pareciam viver no paraíso.


Para eles, José Eduardo dos Santos dirigia Angola como nenhum outro estadista em qualquer tempo do mundo o conseguiu: um país dirigido sob o império do direito, da transparência, da igualdade de direitos. Sob o prisma da Amangola e dos seus semelhantes, aqueles que ousaram imputar directamente a José Eduardo dos Santos o alto patrocínio da corrupção, do nepotismo, da opacidade, da roubalheira feita à luz do dia eram, no melhor dos casos, apodados de antipatriotas, inimigos da paz, invejosos. Se coisa pior não lhes aconteceu, como a falta de acesso aos serviços e entidades públicos.

 

Em suma, sob o regime de JES, Angola era um verdadeiro paraíso terreno 

Apenas cinco meses depois do herói ter sido defenestrado do poder real, os homens e mulheres que integram a Amangola e outros apêndices, de entre os quais se encaixam muitos jornalistas e ditos analistas políticos, saltaram todos do barco, deixando o antigo comandante numa sofrida solidão.


A aproximação que a Amangola faz ao Presidente João Lourenço e às suas bandeiras (combate à corrupção e ao nepotismo) é das mais cínicas e repugnantes inflexões políticas de que há memória no país. A Amangola não tem condições políticas e, sobretudo, morais para se associar à luta de João Lourenço contra a corrupção, a impunidade e o nepotismo. Ela nasceu e prosperou com a corrupção. Sim, porque os membros da Amangola foram corrompidos em troca da sua devoção a José Eduardo dos Santos. O ex-Presidente incluiu a Amangola entre as “coisas” a quem atribuiu discricionariamente o Estatuto de Entidade Pública para, à sombra de recursos humanos, financiar a adulação à sua pessoa.


O Presidente João Lourenço, que já tem vindo a dar passos concretos em áreas como o nepotismo, por exemplo, não deve permitir “ruídos” nessa cruzada.


Os homens e mulheres da Amangola não são guiados por quaisquer princípios. Eles só são leais ao dinheiro. O exemplo está aí. José Eduardo dos Santos é hoje visto por eles como uma repugnante coisa do passado.


Seguramente, a súbita e surpreendente adesão da Amangola à cruzada de João Lourenço não é indiferente ao OGE que será aprovado proximamente. Afinal, muitos dos integrantes dessa organização só sobrevivem enquanto homens e mulheres graças ao dinheiro público.



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