Luanda - Nacionalista ligado à Revolta Activa está há quase uma década à espera do seu passaporte e entidades angolanas escrevem ao PR a fim de inverter a actual condição de Adolfo Maria.

Fonte: NJ


Nacionalista exilado em Lisboa (desde 1979) espera
pelo passaporte para regressar ao país

Várias entidades angolanas, ligadas a distintas áreas da vida sociopolítica e económica do país, tomaram parte de um abaixo-assinado, dirigido ao Presidente João Lourenço, que pretende inverter a “condição de apátrida” (indivíduo que não é titular de qualquer nacionalidade) a que está votado o nacionalista angolano Adolfo Maria, que foi expulso de Angola, após três anos de auto-exílio, durante o tempo que andou foragido da polícia política do então regime, a Direcção de Informação e Segurança de Angola (DISA).

A situação de denegação do nacionalista no seio da entourage do MPLA surge na ressaca da sua participação, em 1974, na criação de uma tendência do Movimento Popular de Libertação de Angola, a conhecida “Revolta Activa”, que reivindicava na altura a democratização entre os Camaradas.

Após a amnistia presidencial decretada em Setembro de 1978, Adolfo Maria, que ficou resguardado da fúria da DISA, que prendeu nessa altura muitos dos seus camaradas, foi expulso em Janeiro de 1979 para Portugal, onde foi obrigado a fixar residência. Desde 2010 que Adolfo Maria está à espera do seu passaporte, cujo pedido deu entrada naquele país europeu.

“No consulado angolano, onde meti os papéis, fui lá perguntar, passado um ano ou dois, responderam-me que a documentação estava em Luanda. Agora não sei quais são os critérios que seguem para dar o passaporte ou não”, disse há quatros anos quando foi entrevistado pelo portal Rede Angola.

Os autores do abaixo-assinado — a que o NJ teve acesso e subscrito por nomes como os de Jacques Arlindo dos Santos, Fernando Pacheco (conselheiro do PR), Pepetela, Gustavo Costa, Raul Feio e Wanda Lara — fundamentam o documento com a necessidade de se “corrigir uma injustiça histórica”.

“Acreditando no seu espírito de Presidente de todos os angolanos e no interesse por V.ª Ex.ª manifestado várias vezes de corrigir muitos dos erros históricos por nós cometido, e na persuasão de que estaremos a corrigir uma injustiça histórica, entendemos por bem trazer esta questão à Presidência da República, para que o cidadão Adolfo Maria possa ter […] o acesso ao direito legítimo de ter o Bilhete de Identidade e o Passaporte do País onde nasceu e pelo qual, à sua maneira, tanto lutou”, lê-se no documento que data de 12 de Março deste ano.

Num outro argumento, os autores do abaixo-assinado afirmam também que, nestas circunstâncias, “não sendo uma questão, na nossa opinião, de difícil resolução”, a inversão da situação de Adolfo Maria “representa mais um passo no sentido de legitimar uma das inúmeras injustiças que se foram praticando no nosso País e que, acreditamos, pode ser, ao mesmo tempo, o reconhecimento moral, intelectual e ético de que, independentemente das divergências ideológicas, o cidadão em questão está numa situação que não é admissível para as nossas consciências.”

O abaixo-assinado lembra ainda que há várias décadas que o nosso país decidiu enveredar pelo caminho da reconciliação nacional e do reconhecimento de que todos os angolanos, independentemente da sua situação específica, desde que preenchessem os requisitos estabelecidos pela Lei da Nacionalidade, teriam pleno direito à cidadania.

Adolfo Maria nasceu em Luanda, em 1935. Cresceu observando a violência colonial sobre o povo angolano, o que o levou, desde jovem, a lutar contra o colonialismo português. A partir de 1957, foi um dos dirigentes do Cineclube de Luanda e da Sociedade Cultural de Angola onde era membro do corpo redactorial do Jornal Cultura. Na luta política foi membro do segundo PCA angolano e do MLNA, tendo sido preso pela PI-DE portuguesa em 1959. Foi redactor do jornal diário luandense ABC, em 1961. Partiu para o exílio em 1962 para se juntar às forças nacionalistas.

Em Argel foi um dos fundadores do Centro de Estudos Angolanos, em 1964. Transferido em 1969 para a segunda Região político-militar do MPLA, dirigiu a Rádio “Angola Combatente” e, temporariamente, o Departamento de Informação e Propaganda do MPLA.

Adolfo Maria reage à petição a João Lourenço «Politicamente respira-se muito melhor em Angola»


Nacionalista reage à petição para resgatar o seu passaporte, cuja emissão está suspensa desde 2010 e diz-se confiante em João Lourenço, definindo-o como “homem decidido”.

Privado da nacionalidade angolana há oito anos, o nacionalista Adolfo Maria, desterrado em Portugal desde 1979, quando foi expulso pela Direcção de Informação e Segurança de Angola (DISA), a polícia política de então, reagiu esta semana ao Novo Jornal ao abaixo-assinado que algumas entidades nacionais fizeram chegar à Presidência da República, a fim de que lhe seja emitido o passaporte cuja renovação aguarda desde Fevereiro de 2010.

Adolfo Maria, um dos integrantes da conhecida facção que emergiu no seio do MPLA em 1974 e que ganhou o nome de Revolta Activa, reconheceu ter ficado “profundamente tocado” ao saber da petição enviada ao Presidente João Lourenço, mas não deixou de lamentar pelo modo como tem sido tratado, sobretudo pela “desconsideração” que tem sofrido, apesar do seu “passado de luta pela independência do país”.

O facto de a petição ter seguido num momento em que o país tem novo Presidente da República anima o nacionalista, que admite “novas atitudes do poder político em vários aspectos” com a chegada ao poder de João Lourenço, uma chegada, aliás, que tem sido alvo de comentários do próprio nos foros em que intervém como analista.

“Tenho expresso publicamente, por escrito ou oralmente em órgãos de comunicação social, a ideia de que o novo Presidente da República, João Lourenço, adoptou postura e estratégia muito diferentes das do anterior, sendo grande a diferença quanto ao relacionamento com a sociedade civil e à mobilização de vontades para se enfrentar a grave situação do país e a escolha das vias do progresso. Politicamente, hoje, respira-se muito melhor em Angola”, comentou quando lhe questionado como olhava para os novos ventos da governação em Angola.

Apesar de não ter muitas referências do novo Presidente da República, além das que são publicamente conhecidas, Adolfo Maria considera que João Lourenço “compreendeu o momento histórico que atravessamos”, facto que o nacionalista atribui ao carácter de um homem que definiu como sendo “decidido”, salientando que, “para isso, contribuiu a sua formação militar, a sua experiência política e, é claro, o seu carácter”.

Mesmo não tendo certeza do que haveria de fazer se, hipoteticamente, o caso não for resolvido desta vez, Adolfo Maria mostra-se optimista em relação à reacção de João Lourenço à petição subscrita por algumas entidades, que inclui o engenheiro Fernando Pa-checo, que é igualmente conselheiro do Presidente da República.

“Creio que o Presidente João Lourenço, ao ter conhecimento directo do meu caso, não deixará de o resolver. Recordo que, quando chegámos à Independência em 1975, eu tinha dado à luta nacionalista mais de metade dos meus anos de vida e nunca o meu patriotismo pôde ter sido posto em causa (porque divergências dentro de um movimento ou partido são uma coisa e combate ao inimigo colonialista são outra).”, frisou na correspondência que teve com este jornal via mail.

Adolfo Maria nasceu em Luanda, em 1935. Cresceu observando a violência colonial sobre o povo angolano, o que o levou, desde jovem, a lutar contra o colonialismo português. A partir de 1957, foi um dos dirigentes do Cineclube de Luanda e da Sociedade Cultural de Angola na qual era membro do corpo redactorial do Jornal “Cultura”.

AUTO-EXÍLIO Os três anos que valeram desterro

Em 1974, Adolfo Maria participou na criação de uma tendência do MPLA, chamada Revolta Activa, que reivindicava a democratização do Movimento. Cinco meses depois da Independência de Angola, em 13 de Abril de 1976, o MPLA decidiu prender vários membros dessa tendência, entretanto, extinta. Conseguiu esconder-se e viveu cerca de três anos em clandestinidade.

Após a amnistia presidencial, em Setembro de 1978, apresentou-se e ficou em detenção. Em Janeiro de 1979, foi expulso para Portugal. Neste país, com Gentil Viana e Mário de Andrade, fez parte de um Grupo de Reflexão que procurava vias para o fim da guerra civil em Angola e que fez vários contactos diplomáticos e políticos nesse sentido.

Depois dos acordos de Bicesse entre o MPLA e a UNITA, voltou livremente a Angola, em fins de 1991 e Maio de 1992, acompanhando Gentil Viana na apresentação do seu plano de convivência nacional a partidos e personalidades, tendo sido recebidos pelo presidente da República.


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