Luanda - Li algures, que Angola se rege pelo paradigma do MPLA. Esse paradigma, permitiu a João Gonçalves Lourenço apoderar-se de uma das principais bandeiras da oposição - a luta contra a corrupção - deitando por terra, num ápice, a prosa da oposição que pouco mais tinha a acrescentar.

Fonte: Club-k.net

Desde a independência que Angola segue o paradigma do MPLA que se constituiu num padrão de referência, uma forma de ver e sentir Angola. Angola e o MPLA tornaram-se numa única e mesma entidade. A Bandeira da República, o Hino Nacional, os meios de comunicação social, a partidarização do Aparelho do Estado, governantes empresários, generais no activo empresários, etc,etc

Se nós entendermos os paradigmas como normas orientadoras de um grupo, (neste caso o MPLA) que estabelece limites e que determina como os angolanos devem agir dentro desses limites, fica fácil concluir que certos hábitos vão permanecer incólumes, não sendo desta forma expectável, grandes mudanças com a transição operada no Partido da situação. Porque como como é usual dizer na actual semântica: está-lhes no ADN.

Aos angolanos, eu admiro a arte de identificarem um culpado para tudo.

A culpa já foi da guerra. A culpa é do petróleo quando é mais caro, gera mais receita e por conseguinte torna o governo mais dependente do petróleo e não pensa na diversificação da economia. A culpa também é do petróleo quando é mais barato gera menos receita e a crise fica instalada. Aliás também é fácil adivinhar o que vem a seguir: a culpa é do JLO porque, vão dizer, se o JES não tivesse saído tudo teria sido diferente. Não há luz porque choveu pouco, Não há luz porque choveu muito. Enfim houve, há e sempre haverá desculpas para todos os gostos

Luigi Pirandello disse: É próprio da natureza humana, lamentavelmente, sentir necessidade de culpar os outros dos nossos desaires e das nossas desventuras.

E eu, para não fugir à regra, resolvi eleger também um culpado. E o culpado é…O culpado é…O culpado é… a oposição, porque não consegue constituir-se numa alternativa! Não consegue constituir-se em alternativa, porque não compreendeu que tem de trabalhar primeiro para a mudança do paradigma em Angola.

Como pode a oposição pensar que pode mudar o que não está funcionando bem, se continuar também ela, apegada aos mesmos padrões de percepção de antes? Num raciocínio elementar, a lógica diz-nos que para resolver um problema é necessário colocá-lo sob uma ótica diferente daquela que o criou.

A oposição, toda ela, parece não ter compreendido este fenómeno, porque só no momento em que exista um condicionamento destes costumes, estaria dado o primeiro passo para a mudança real e objectiva no País. Não consegue a mais elementar condição sine qua non para destronar o dito paradigma do MPLA que é ter a capacidade de constituir-se num bloco inexpugnável de oposição ao regime.

Os Partidos da oposição precisam de renovação, precisam de conhecimento, visão, persistência, honestidade, mas sobretudo precisam saber identificar as prioridades. Saber distinguir o essencial do importante é, no nosso caso, de importância capital

Que entendimentos poderemos esperar entre Isaías Samakuva e Abel Chivukuvuku? Não se entenderam dentro do Partido UNITA, vão se entender sobre o Pais?

É usual ouvirmos os desabafos de uns e de outros sobre os vários entendimentos que foram procurando ao longo dos tempos: - roeram a corda…! Roeram a corda, sabe-se lá quem, na INDRA e no SINFIC como alguém irá brevemente roer a corda no gradualismo das eleições autárquicas. Roer, ao que parece, é que o está na berra!

Ao que parece todos roem as cordas, porque as lideranças não conseguem vislumbrar para lá da cortina do paradigma do MPLA .

Convido-vos agora a uma incursão por cada um dos Partidos da oposição:

A UNITA

O debate interno neste Partido, por enquanto apenas em surdina é sobre a liderança. Hesitam entre o pragmatismo e a tentação.

Enveredar pelo pragmatismo era perfilar os eventuais candidatos à sucessão de Isaías Samakuva e concluir, como todos os Angolanos com dois dedos de testa já concluíram, que o melhor candidato da UNITA para confrontar o Cabeça de Lista do Eme nas próximas eleições seria, sem sombra de dúvida, aquele que menos interessasse ao MPLA. Assim, sem mais nem menos.

Numa, Alcides Sacala, Massanga, Pedro Cachiungo, Adalberto da Costa Júnior, Gato eventualmente, eis os candidatos anunciados, embora nem todos se tenham ainda pronunciado àcerca do assunto.

Jogando fora a demagogia barata de uns, e o amorfismo de outros, não será difícil identificar quem é fluente quanto baste, quem tem imagem, urbanidade nas discussões, desassombramento no apontar das injustiças e irregularidades. Numa palavra, aquele que tem capacidade de ir buscar votos fora do círculo restrito deste Partido.

Todos esperam maturidade suficiente em Isaías Samakuva para evitar que caia na tentação.

Tentação seria imaginar, que se pode enganar toda a gente e copiar em sentido inverso a estratégia do Eme. Eu explico:

No Eme a estratégia seguida foi manter JES como presidente do Partido e colocar JLO como cabeça de lista às eleições. Neste caso da UNITA, a tentação passaria por escolher um líder para o Partido e Isaías Samakuva ser catapultado como cabeça de lista às eleições de 2022.

Só este pensamento estratégico, pode justificar manter Samakuva até a realização do próximo Congresso em 2019, que com manha quanto baste, só se realizaria no último trimestre.

Com as eleições autárquicas marcadas para 2020, seria mais uma desculpa a juntar a mais umas tantas sem nexo, para permanecer à frente dos destinos do partido.

Era de todas a pior estratégia. Samakuva iria perder, como já perdeu nos três pleitos anteriores e o líder arranjado não resistiria à hecatombe que se seguiria. A tentação é como um anzol. Quem o morde, acaba se destruindo!

A UNITA tem bons quadros, antigos e recentes com capacidade para fazer leituras. Nesta hora crucial espera-se deles a coragem de aconselhar Samakuva a anunciar a sua saída e engajar-se na transferência de liderança. Palavra de rei não pode voltar atrás:

“Afirmei aos angolanos antes e durante a campanha eleitoral que depois das eleições deixaria o cargo de presidente da UNITA para servir o partido numa posição diferente. Mantenho e reafirmo esta decisão”

O tempo escasseia. A UNITA necessita encontrar o mais rapidamente possível a liderança futura.

CASA CE

Poderia alongar-me bastante sobre a CASA CE, mas como não é esse o meu objectivo, ficar-me-ei por aquilo que ressalta à vista de todos. Abel Chivukuvuku não teve arte nem engenho, para congregar meia dúzia de Partidos, além de ter anunciado no inicio da sua cruzada, que se candidataria apenas a dois mandatos. Falar mais para quê?

Que os almirantes avancem…!!!

PRS

Ainda não se compreendeu bem, se com a liderança Benedito Daniel, o Partido se mantém na tónica dita federalista e progressista? O seu líder é simpático e foi a votos.

FNLA

É um dos históricos e é confrangedor assistir ao desmantelamento de uma força política que no passado representava uma parte significativa do eleitorado angolano. A pergunta incómoda é: de que pode Lucas Ngonda se orgulhar?

Esta é, em resumo, a oposição que temos.


A maioria dos líderes que já alcançaram o poder nos variados Partidos não aceitam em hipótese alguma perder os privilégios. E são acusados miúde que para se manterem no poder submetem-se a qualquer negociata. Tomados pela soberba e arrogância esquecem-se das promessas que fizeram. Alteram as normas e regulamentos. Desrespeitam os estatutos, os regimentos internos, usam a seu bel prazer os recursos dos Partidos para obterem e manterem vantagens de ordem pessoal. Quase sempre estão rodeados de bajuladores, defensores de plantão e pseudoprofetas que também são beneficiados pelo sistema e não querem perder seu quinhão.
A tentação do poder pelo poder dentro dos Partidos deve ser enfrentada e combatida com firmeza. Os militantes não devem ceder aos apelos e caprichos das lideranças.

Acredito que só com novos protagonistas nas lideranças da oposição é possível ter visão para romper o Paradigma vigente. Que saudades tenho da época dos livres pensadores que não hesitariam em lutar contra a tradição, a superficialidade e o automatismo das reflexões.

O caminho mais fácil é acreditar-se naquilo que os demais acreditam, não havendo muito espaço para a opinião pessoal efectiva. Os sensos comuns, tornaram-se a base do modo de pensar hegemónico. Quem se arrisca em direção contrária, costuma sofrer forte oposição e o medo tende a instalar-se.

Esta luta deveria constituir-se na prioridade nacional. Mudança de paradigma – já!

O mote está dado. Mudar as lideranças da oposição, formar um bloco único e deixar de roer a corda…!

Quem sabe se na procura de alianças partidárias futuras, com novos protagonistas, e novas propostas para o País se consiga alguma unanimidade? porque acredito que se assim não for, dificilmente terão o apoio da sociedade. E a minha derradeira esperança é que a oposição consiga transformar-se num bloco unido, e que por agora, tenha apenas um único objectivo: derrubar o já velho e caduco paradigma.

Manuel Hotville



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