Luanda - O empresário Silvestre Tulumba concedeu um exclusivo ao Jornal A. República em que aproveitou a ocasião para responder a ex-PCA da ANIP, Maria Luísa Abrantes. Falou dos seus projectos. Da sua ligação ao general Kundi Paihama e mais ao fim acusou o ex- ministro das finanças e um sócio português Antônio Ferreira “Tony” de deslealdade para consigo: “Roubou-me o dinheiro, ele e o José Pedro de Morais”.

Fonte: Jornal Republica

'Convidei angolanos mas  fugiram na criação do meu banco' 

Jornal AR: O senhor empresário foi visado pela Dr.a Maria Luísa Abrantes. Quer comentar esta situação?

Tulumba: Eu não sou um cágado que foi metido numa árvore ou num muro, sou um empresário e sempre trabalhei, a minha empresa vai agora celebrar 19 anos de existência, criei as minhas empresas de raiz a partir da província da Huíla, servi muito o sul de Angola em 2001/2002, após a guerra, em termos de viaturas. É verdade que conquistamos algumas pessoas que, de facto, acreditaram em nós, e pelo volume de negócio que nós fazíamos tínhamos boas referências de depósitos na banca nacional, é verdade que o único silenciamento que tenho – isso digo em letras grandes – é que contraí no Banco de Poupança e Crédito, o BPC, no qual surgiram aquelas listas polémicas, com cada um a comentar da sua forma, e eu disse a minha família e às

 

pessoas próximas a mim, “a dívida é individual, não é colectiva. A lista é colectiva, mas os compromissos, individuais”. Eu tenho os meus recursos bem aplicados e tenho estado a trabalhar para pagar os meus compromissos no BPC.

Jornal AR: Está a dizer que, de facto, deve 500 milhões ao BPC?

Tulumba: Não, não. Não devo 500 milhões ao BPC.

 

Jornal AR: Quanto é que deve mais ou menos?

Tulumba: Não quero adiantar números, mas não devo 500 milhões ao BPC.

 

Jornal AR: É menos?

Muito menos.

 

Jornal AR: Então, por que a Dr.a Maria Luísa Abrantes o citou naquela entrevista?

Eu acho que as pessoas quando têm os seus problemas devem resolvê-los, não devem misturar nos seus problemas o nome dos outros. Eu não conheço a senhora, nunca estive com ela pessoalmente, conheço a filha simplesmente, que é minha colega no comité central, é uma pessoa com quem nunca tratei de nenhum negócio, para que fique bem claro, eu nunca tratei de negócios com nenhum filho de Sua Excelência Presidente José Eduardo dos Santos, nunca! Eu, Silvestre Tulumba, não conheço a porta do Fundo Soberano, não conheço a cor, a porta, ou as pessoas que fazem expediente no Fundo Soberano. Portanto, é uma situação que me entristeceu porque, na verdade, há uma cabala de pessoas que não conseguiram desenvolver as suas próprias oportunidades, não investiram no país e, hoje, querem contrariar tudo e todos, querem arranjar culpados. Vou dar-lhe um exemplo: eu quando comprei os meus aviões – uma oportunidade que tive – eu próprio fiz um documento, porque os meus aviões eram iguais aos que usavam os ditos donos do país, que eram generais que controlavam a economia e o poder deste país, eu fiz a carta por duas vias, uma para o gabinete do Presidente da República com a matrícula do avião, onde o compre, como o tinha financiado, e outra entreguei na mão do general Kopelipa para que não me criassem constrangimentos. Dei a conhecer ao Presidente José Eduardo dos Santos, porque sou angolano e investi no meu país, até hoje tenho a minha frota, nisso eu não me quero lembrar das palavras feias e insultuosas que a senhora Maria Luísa Abrantes falou na rádio MFM, é triste, porque ela tem que resolver os seus problemas com quem os tem em vez de evocar o nome dos outros. Eu desafio seja quem for a dizer que eu, Silvestre Tulumba, já fui apoiado pelo governo liderado por José Eduardo dos Santos.

 

Jornal AR: Mas há quem diga que a sua amizade com Tchizé dos Santos facilitou a criação do seu banco.

É mentira, porque cada um na vida tem o seu mérito, cada um tem a sua estrela a brilhar e cada um na vida tem o seu dom para fazer as coisas. Eu nunca pedi, nem à Tchizé, nem ao Presidente Eduardo dos Santos, nem ao Coréon Du, nem ao José Filomeno, qualquer ajuda para um negócio meu, muito menos para a criação da instituição financeira, foi um grupo bancário dos Emirados Árabes Unidos que me ajudaram, criaram uma matriz, depois, fui buscar consultores britânicos e portugueses para criar este banco, como qualquer um dei entrada do pedido ao Banco Central de Angola, reunia todos os requisitos, convidei angolanos que fugiram...

 

Jornal AR: Pode dizer um deles?

Não vou dizer, mas convidei angolanos que fugiram, eu é que meti o Cunha Velho.

 

Jornal AR: Sérgio da Cunha Velho?

Sim, está aí vivo, eu é que o convidei por ter sido amigo do meu pai, era amigo do meu pai, é uma pessoa por quem sempre tive uma consideração, não conseguiu realizar o capital na primeira vez, o banco tem outros accionistas, isso para dizer que o convidei. Fui ter com outras pessoas, apenas dois aceitaram, eu tenho as minhas acções entregues a um parente meu.

 

Jornal AR: Mas o senhor acionista não é empresário do banco, é?

Sou, sim, sou acionista do banco.

 

Jornal AR: Dizem que as acções estão em nome dos seus familiares.

Sou accionista no meu capital, eu tenho irmãos que têm mais capital que eu, o que eles fazem na Nigéria é superior ao que fazemos aqui.

 

Jornal AR: Sente-se perseguido?

Perseguido não, invejado pelas pessoas de poucas ideias, mas isso não é de hoje, vamos fazer uma leitura, quais são os grandes grupos económicos em Angola? Em Angola, tinha que haver, no mínimo, entre sete e oito bilionários, temos dois ou três, não vou citar nomes porque não é minha obrigação, tinha que haver sete a oito bilionários, esta economia rolou num círculo de seis pessoas, não mais do que isso, o dinheiro dos angolanos durante anos rolou no seio de cinco/seis pessoas, impediram que o país crescesse economicamente, os mesmos criaram embaraços a muitos de nós empresários, há empresários que hoje não têm nada, vêm as suas empresas falidas por culpa de alguns que não queriam deixar os outros trabalhar, eu não me envergonho, eu conheço e em quase todos os países tenho amigos, eu participo de um sindicato, no Dubai, de empresários nigerianos, empresários que eu vejo e questiono por que Angola não conseguiu construir uma economia forte, os maiores bancos da Nigéria são presididos por amigos meus e eu desafio seja quem for a dizer que este banco que criámos vai à falência, vejam o rácio de depósito no Banco Central, vejam os regulamentos desse banco junto do Banco Central, se o pedido que demos entrada no Banco Nacional de Angola, para entrar no capital um acionista estrangeiro, for aceite, então, estaremos na linha de frente entre os quatro melhores bancos de Angola, sem exageros, sem vaidade.

 

Jornal AR: Quem é o acionista?

Temos um grupo forte, se for ver o rácio ao Banco Nacional de Angola, temos um parceiro muito forte.

 

Jornal AR: O paceiro é português, americano?

Não conheço o mercado americano, não tenho parceiros em Portugal, tenho fornecedores, tenho funcionários, as vezes que fui aos Estados Unidos foram a consulta, um político sem vergonha foi ver se tenho casa no Brasil, se tenho fazendas no Algarve, eu não preciso, as minhas coisas estão em Angola, tenho duas casas em Portugal, um apartamento e uma vivenda, uma é da minha família, dos meus irmão, e outra, minha e dos meus filhos, portanto, não preciso de levar o meu dinheiro para fora de Angola, não o levei e não preciso levá-lo.

 

Jornal AR: Como se diz, o senhor empresário defraudou deliberadamente José Eduardo dos Santos “Coréon Du”, ao não o incluir na sociedade do Banco de Crédito do Sul. Isso é verdade?

É puramente mentira! Nunca estive sentado com o Coréon Du, os filhos do Presidente José Eduardo com quem já sentei são, Isabel dos Santos, e a Josiane, que por acaso é minha afilhada de casamento, os restantes não os conheço, nunca convivi com eles, nunca me deram confiança, nem eu a eles, eu nunca privei com o Zenu, já disseram que o Zenu financiou o meu projecto agrícola, dando-me um bilião de dólares, é mentira,Zenu nunca me deu dinheiro, porque davam-no ao estrangeiro, não havia apoio para os angolanos no Palácio presidencial, todos os projectos de angolanos eram barrados, inclusive, documentos meus foram engavetados, mas ainda bem que não saiu, o dia em que o Estado angolano me pagar pelas coisas que eu fiz, nomeadamente obras, ambulâncias que forneci, os apoios que dei no combate à cólera, nas cheias de Benguela...

 

Jornal AR: O Estado deve-lhe muito dinheiro?

Muito dinheiro!

 

Jornal AR: Quanto?

No momento não sei precisar, mas o Estado deve-me e tenho fé que com as políticas do novo Executivo seja possível recuperar parte do valor, porque não houve contratos, foi à base da camaradagem. Os carros que andam aí de cima a baixo, os dos Serviços de Emigração e Estrangeiros, fui eu quem os forneceu e recebi metade.

 

Jornal AR: O senhor empresário também trabalhava sob orientação?


Nunca! As orientações eram para os donos, nunca recebi um cartão, seja de quem for, para me financiar no Banco de Poupança e Crédito, nunca.

 

Jornal AR: Considera-se uma pessoa de muitos inimigos?

Tenho muitos inimigos. Considero que estamos num país de muito cinismo, as pessoas à frente são uma coisa e atrás, outra. As pessoas não gostam de trabalhar, muitos pensam que são empresários, mas não o são, eu vejo, às vezes, nas redes sociais, comentários de algumas pessoas a dizer que todos são gatunos, não, eu não participei e nunca participarei, sabe o que o meu avô disse? “Na minha família pode haver bêbados, mas gatunos não”, se as oportunidades tivessem sido dadas na generalidade, sem sobrenomes, ou tom de pele, não estaríamos nesta crise, a crise é fruto de uma instabilidade mental, porque a economia angolana não está na mão dos angolanos, contam-se os angolanos que têm dinheiro em Angola?

 

Jornal AR: Acha que a economia angolana está nas mãos de quem?

Do estrangeiro! Eles são bem-vindos, eu não posso ir contra as políticas do Estado, mas posso ir contra quem os implementa fora das regras do Estado, porque o ministro marca com alguém para às 15 e outro para às 16, mas pela sua agenda não recebe o das 15 nem o das 16, mas vai receber às 16h30 cinco ou seis empresários quando há duas pessoas que chegaram primeiro, portanto, recebe o de tom mais claro e eles são unidos, nós somos pretos, os pretos criam dificuldades um para o outro, já os brancos são unidos.

 

Jornal AR: As suas dívidas em Portugal estão pagas, senhor Tulumba?

Nunca tive dívida em Portugal.

 

Jornal AR: Mas ouvimos dizer que vieram pessoas aqui e houve quem não tivesse sido pago...

Estes foram pagos, não pagámos antes porque houve um grupo de pessoas que disse que não receberia o dinheiro, queriam receber quatro vezes mais, porque era para eles ficarem quatro anos aqui, entretanto, a crise veio e o ministério da Construção suspendeu as obras e dispensou as pessoas, houve quem quisesse o dinheiro em mãos, entregámo-lo, portanto, paguei.

 

Jornal AR: Sente-se um homem realizado?

Sinto-me.

 

Jornal AR: Qual é o seu maior sonho?

Estar na lista dos melhores empresários de Angola, ser um dos maiores empreendedores de Angola, tenho um grande projecto voltado para a agricultura e outro num outro sector no litoral, eu nos próximos dois anos atingirei a cifra de 5000 funcionários registados na segurança social.

 

Jornal AR: Projecto agrícola?

Não, industrial. Estou a fazer uma fábrica de cerveja, uma de refrigerantes e outra de lacticínios, a primeira em Angola.

 

Jornal AR: Onde está localizada?

Na Huíla.

 

Jornal AR: Acredita que um dia será governador da Huíla?

Não.

 

Jornal AR: Não é o seu desejo?

Ser político não é o meu desejo, nunca pensei nisso. A minha paixão sempre foi a aviação, gostava de ser mecânico de MIG.

 

Jornal AR: Qual é a ligação com o general Kundi Paihama?

Falar do general Kundi Paihama é falar do meu pai, do meu avô, eu devo sentir-me como um dos netos mais queridos, ele é o meu maior e melhor amigo, quem não o

conhece pela forma dele de ser devido aos cargos que exerceu neste país não sabe que de coração o general Kundi Paihama é uma grande pessoa. Quando vim para Luanda definitivamente, em 2012, o meu avô já tinha os seus sócios, mas nunca me quiseram juntar ao negócio, nunca me juntei aos negócios do meu avô, mas ajudo-o, eu fui agora a Londres para arranjar soluções por forma a tirar o banco do meu avô dos problemas em que está envolvido no Banco Central.

 

Jornal AR: Ouviu-se também que o senhor empresário teve um desaguisado com um empresário português, na altura marido da Marisa. O que se passou de facto?

Roubou-me o dinheiro, ele e o José Pedro de Morais, mas é melhor não meter mais lenha na fogueira.

 

Jornal AR: Por que é que não faz uma fusão entre o seu banco e o do seu avô?

Isso depende dos accionistas, nós temos um banco com liquidez, com plano de negócios, não é um banco de retalho, é um banco corporativo, então, talvez o fundo de estratégia não coincida, mas posso ajudar o meu avô de outra forma.

 

Jornal AR: Acha que o Riquinho tem Razão?

Sim, tem razão. É porque muitos têm receio, se não seriam dois ou dez mil riquinhos a fazerem cobranças ao ministério das Finanças, porque estamos todos nesta situação. Eu, Silvestre Tulumba, afirmo, sou a favor do empresário Riquinho, porque também estou na mesma situação, não vamos esconder, ele forneceu os carros, eu via no Lubango, vi o carro que andava com o tio São, da selecção de basquetebol.



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