Entrevistas

Rafael Marques: "Presidente de Angola gere o país como propriedade privada"

Luanda - Desde Dezembro, Isabel dos Santos, filha do presidente de Angola, foi apresentada como líder de três projetos públicos. O império da mulher mais rica de África continua a crescer. A restruturação da Sonangol, maior empresa pública de Angola, o Plano Diretor Geral Metropolitano e a Comissão de Reajustamento da Organização do Setor dos Petróleos são os novos três projetos abraçados por Isabel dos Santos.


Fonte: DW

 

Rafael Marques, jornalista e ativista angolano, deu uma entrevista à DW África e comentou a situação.


Isabel dos Santos tem mais de 30 empresas e participações financeiras. A seu ver, qual é o motivo pelo qual Isabel dos Santos assume tantas funções?
Um dos motivos é a forma como o Presidente da República atribui essas funções a Isabel dos Santos. Por nepotismo, por corrupção e ao arrepio da legislação angolana. O segundo aspeto tem muito a ver com a mentalidade do passado comunista do Presidente de concentração absoluta de poder. Neste momento, o Presidente vai perdendo cada vez mais confiança nos seus colaboradores e vai concentrando cada vez mais responsabilidades do Estado nas mãos dos seus filhos que se tornaram nos seus principais conselheiros hoje. Praticamente já não se ouve falar do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) como partido político, que está no poder há 40 anos. O que se houve falar é da família presidencial. O MPLA serve apenas para legitimizar essa família presidencial.

 

Considera que esta concentração de poder pode colocar alguns problemas no seio do partido MPLA?
Não, porque o MPLA se transformou num partido de oportunistas, de negociantes, de indivíduos que estão ali apenas para enriquecer de forma ilícita. Este é que é o grande poder do Presidente, por isso também é que está a entregar a Sonangol à filha, precisamente para que todos esses indivíduos do MPLA possam dirigir-se à filha, para fazer o “beija-mão”. José Eduardo dos Santos, ao não ter sido bem sucedido com o filho a ser potencial candidato à Presidência da República, está agora a tentar com a filha. Desde Dezembro a filha apareceu em três funções de alto perfill: na governação de Luanda, através do Plano Diretor Geral Metropolitano, na restruturação da Sonangol e na restrutação do setor petrolífero em Angola (com a Comissão de Reajustamento da Organização do Setor dos Petróleos). Deste modo, este é o país da família dos Santos. É como se o Presidente estivesse a distribuir já a sua herança pelos filhos e a herança é o património público.

 

Acha que esta concentração de poder, tendo em conta o panorama de crise em Angola, pode ser o estrangulamento da economia angolana?
Não é um estrangulamento porque a economia angolana já está praticamente desagregada porque é uma economia que não foi diversificada, sempre dependeu dos altos preços do petróleo. As grandes receitas que obtivémos foi sobretudo entre os membros da elite, incluíndo a Isabel dos Santos, para que se tornassem bilionários e tivessem estilos de vida extravagantes, quer em Angola, quer no exterior do país. Estamos a viver uma situação apenas de agravamento da crise por falta de soluções e porque a única solução que o Presidente vê, com medo que o poder lhe escape, é concentrando mais poder nas mãos dos filhos.

 

Considera que esta situação possa levar a uma confusão entre que bens é que pertecem ao Presidente, que bens pertecem a Isabel dos Santos e que bens é que são,de facto, públicos?
Não há confusão. Neste momento o Presidente da República gere o país como propriedade privada. Há uma efetiva privatização do Estado. A soberania de Angola foi praticamente desestruturada, foi afetada por esta forma como o Presidente gere o país. Não temos soberania. Então, as consequências deste ato poderão ser o descontentamente cada vez maior e concentrado na família presidencial. Porque as pessoas hoje, mesmo os indivíduos ignorantes, começam a olhar para o Presidente como o principal problema e a principal causa da situação que estamos a viver.


Houve também algumas pessoas que dizem que José Eduardo dos Santos deve demover a filha de tomar posse de tantas empresas e participações financeiras. Qual é a sua opinião?
O Presidente não deve demover a filha. A filha não tem poderes institucionais para se colocar nesses lugares. Se ela está nesses lugares é porque o Presidente a colocou lá, ou seja, o problema aqui é o Presidente, não é a filha. É o Presidente que dá esses poderes à filha. Mas a questão aqui nem é demover o Presidente de tomar esse tipo de atos, pois são atos ilegais à luz da legislação angolana e que devem encorajar os angolanos a iniciar procedimentos criminais contra o Presidente da República para a sua destituição, porque está a violar a legislação angolana. Apesar de haver essa ideia de que Isabel dos Santos está a participar apenas como consultora. Ela não é consultora, ela é que está a mandar neste momento.

 

Como justifica a falta de participação do povo angolano em apontar o dedo ao Presidente e inciar, eventualmente, esses tais procedimentos criminais?
Este é um dos principais problemas dos angolanos. O Presidente está há 36 anos no poder e continua fortalecido. A sociedade angolana habituou-se a fingir que trabalha. As pessoas aqui foram levadas a acreditar que a única forma de realizar os seus sonhos de uma vida melhor é através da corrupção. Institucionalizou-se a corrupção, corrompeu-se a mentalidade coletiva do angolano. Sem trabalharmos na desmistificação desta mentalidade que se foi criando ao longo dos anos, vai ser muito difícil a sociedade reagir contra este mal porque as pessoas acreditam piamente que a sua maior oportunidade na vida, é terem uma oportunidade de corrupção, que coloque nas suas maõs os meios necessários para uma vida diferente. Hoje em dia os pais já não estão preocupados com que os filhos estudem, mas em ter meios para corromper os professores, em ter meios para que quando levem os seus filhos a uma unidade de saúde ou aos hospitais, tenham dinheiro para pagar aos médicos e dinheiro para pagar às enfermeiras. Quando vão tratar de um documento na função pública precisam de dinheiro para corromper os agentes públicos, ou, na rua, quando os cidadãos são parados pelos agentes dos trânsito, já sabem que os agentes estão a mandar parar para receber a sua “gasosa”, que é o termo utilizado para pequena corrupção. Os atos administrativos tornaram-se praticamente em bancadas de corrupção e temos que desagregar esta forma de pensar, esta forma de gerir a sociedade angolana.

Maria Eugénia reage a homenagem da Cerveja CUCA ao Presidente Neto

Luanda - Com a comemoração dos 40 anos de Independência de Angola a CUCA produziu uma série limitada onde foram seleccionados 4 momentos importantes da história dos 40 anos de independência, que marcaram de forma vincada a história de Angola.

Fonte: Pravda

No tema escolhido para o 1º momento, seria incontornável, não ser recordada a figura do primeiro Presidente de Angola, Dr. António Agostinho Neto. É nesse enquadramento que a Dra. Maria Eugénia Neto se disponibilizou para uma pequena entrevista, enquanto mulher e Presidente do Conselho de Fundadores da Fundação Dr. António Agostinho Neto.

Como se sente ao comemorar os 40 anos de Independência de Angola?

Sinto-me muito orgulhosa porque também dei muito para que Angola se tornasse independente ao lado do Dr. António Agostinho Neto. O Camarada Agostinho Neto estaria muito feliz por ver o resultado da dedicação que teve toda a sua vida a esta causa.

Para nós, foi uma vida de sacrifício, pois ao regressar a Luanda no final de 1959, com um filho de 20 dias, 6 meses depois o Camarada Agostinho Neto foi preso pela Pide. Desde aí e até ao regresso a Luanda em 1975, foi uma vida de sacrifício e luta em que eu tive a honra e o prazer de acompanhar.

A sua coragem e determinação para perpetuar e manter presente nas gerações, principalmente na juventude, a imagem e o trabalho de Agostinho Neto, levou à constituição da FUNDAÇÃO AGOSTINHO NETO. Sente-se compensada pelo trabalho realizado?

Sim, porque há uma grande adesão da população às iniciativas que temos levado a cabo quer em Angola, quer fora de Angola, constatando que nos colóquios as salas se enchem de pessoas de vários estratos sociais, com muito respeito e curiosidade, manifestando verdadeiro interesse em perceber o trajecto do Pai da Nação.

Relativamente à campanha do tributo da CUCA, para comemorar os 40 anos da Independência de Angola, em que a CUCA fez questão de colocar a imagem do Presidente no 1º momento da independência, gostaria de comentar?

O enquadramento que foi feito, foi uma homenagem ao momento da independência, embora se pudesse ter falado um pouquinho mais do Pai da Nação.

A família e a Fundação estarão sempre ao lado de iniciativas que ajudem a perpetuar a memória do Camarada Presidente Agostinho Neto.

Relembrando uma estrofe do poema Sagrada Esperança, gravada nas paredes do Memorial:

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

"Maioria dos automobilistas em Luanda pratica condução perigosa" - comandante da Unidade de Trânsito

Luanda - Uma avaliação da Unidade de Trânsito de Luanda revela que os automobilistas na capital do país realizam com frequência condução perigosa. Em entrevista à Angop, que se segue na íntegra, o comandante da Unidade de Trânsito de Luanda, superintendente-chefe Catarino Roque José da Silva, explica como e os riscos desse comportamento negativo.

Fonte: Angop
No terceiro domingo de cada Novembro assinala-se o Dia Mundial em memória às vítimas das estradas. Que análise se pode fazer sobre a institucionalização da efeméride?
A celebração desta data significa, por um lado, a evocação pública da memória daqueles que perderam a vida nas estradas e ruas de Angola, particularmente em Luanda. Por outro, significa reconhecimento do Estado e da sociedade da trágica dimensão da sinistralidade e ajuda aos sobreviventes a conviver com o trauma e memórias dolorosas, resultantes de acidentes rodoviários. Em nove meses, isto é de Janeiro a Setembro de 2015, somente em Luanda pereceram 626 cidadãos, em consequência de mil 433 acidentes de viação, deixando mil 24 feridos. Como podemos observar, a problemática é grave, sendo a segunda causa de morte em Angola, pelo que deve ser entendida como uma preocupação de todos nós, merecendo a intervenção das esferas da sociedade no sentido de mitigarmos a situação.

Para si, quais são as principais causas da elevada taxa de sinistralidade rodoviária?
Recentemente foi elaborado um estudo, pela Unidade de Trânsito, de avaliação para a percepção do estilo de condução em Luanda e chegou-se à seguinte conclusão: a imagem dos condutores foi avaliada de maneira negativa por parte dos inqueridos, numa amostra de 1050 casos. É assim que 69% foi definido com uma condução arriscada; 79% condução apressada; 43% condução negligente; e 82% considerados maus condutores.

Na base da avaliação negativa, feita aos condutores de Luanda, ficou patente ainda que a maioria dos condutores realiza, frequentemente, um conjunto de práticas de condução perigosa. Destaca-se excesso de velocidade dentro e fora das localidades, as famosas “mbaias” - ultrapassagem irregular, condução em estado de embriaguês, desrespeito à sinalização do semáforo, a não observância do limite de distância entre veículos e uso de telemóvel durante a condução.

Entre os condutores, dois grupos etários foram considerados com estilo de condução particularmente perigosa. Aos condutores seniores (idosos) foi associado a uma condução perigosa de baixa velocidade, mas pouco atenta a envolvente que, não sendo infractora, coloca os outros em risco por afectar a fluidez do trânsito. Aos jovens foi associada uma condução de elevado risco, principalmente devido à velocidade excessiva. Estas imagens de condução em velocidade foram partilhadas pelos próprios condutores jovens.

E os profissionais?
Os condutores profissionais (motoristas de táxi e de veículos pesados) e os motociclistas foram vistos globalmente como os condutores descritos entre os que apresentam maior agressividade e negligência na prática de condução. A par do exposto, uma das grandes causas que tem contribuído também para o aumento da sinistralidade é o comportamento censurável dos peões, que tem sido de risco, subalternizado face aos automobilistas. Embora se tenha reconhecido que o condutor deve ter um cuidado acrescido junto das zonas onde os peões efectuam a travessia, também foi tornado claro que os peões devem ser os primeiros a preocupar-se com a sua própria segurança.

Por onde passa a solução, para, no mínimo, reduzir os números actuais?
Face ao actual quadro, reconhece-se todo o esforço e iniciativas desenvolvidas pelo Governo, através dos órgãos de tutela, no sentido de melhorar as condições que permitam a redução dos acidentes e suas consequências nefastas. Porém, diante da dimensão do fenómeno, julgamos haver a imperiosa necessidade de serem tomadas medidas multissectoriais no intuito de garantir a paz nas estradas, que passaria por soluções pontuais como: educação rodoviária, trabalhada nas escolas, como componente curricular inter-disciplinar ao inserir seus conteúdos nos programas escolares, visando construir nos alunos conhecimentos e componentes capazes de reduzir o número de acidentes rodoviários.

Contrariar a visão fatalista do fenómeno, mostrar que os sinistros ocorrem frequentemente devido a comportamentos de condução perigosas e desajustadas às condições da via, as quais podem ser controladas e evitadas por quem as realiza. Desmontar a imagem positiva que os condutores luandenses têm de si próprios ajudar a reconhecer e valorizar os comportamentos de risco na estrada e a identificar áreas de melhoria. Sistema integrado de transportes públicos colectivos facilitará a mobilidade de várias pessoas de forma rápida e segura, na medida em que são poucos os casos em que envolvem este tipo de meios. Desta forma, com a redução e a utilização de veículos pessoais, o número de acidentes reduziria consideravelmente.

Qual tem sido a actividade da Unidade que dirige, junto da sociedade ou organismos públicos e privados para ajudar a estancar a situação?
A Unidade de Trânsito tem influenciado, de certa forma, a sociedade no geral para mudança de comportamento e atitudes dos utentes da via, através da divulgação nos meios de difusão massiva de programas sobre educação viária, promoção de campanhas de sensibilização viária, junto das instituições religiosas, escolas, creches e na via pública. Acresce-se também a elaboração e execução de acções relacionadas aos programas e fiscalização do trânsito automóvel, rigorosidade das acções de fiscalização.

Quais os pontos negros e a média diária de mortes por acidente de viação em Luanda?
Em Luanda morrem em média cinco cidadãos, resultado de acidentes de viação, deixando 10 feridos. Os pontos negros são as avenidas Deolinda Rodrigues, Pedro de Castro “Loy”, Camama, estradas Nacional números 230, 100 e Via Expressa, cuja natureza dos acidentes são as colisões, atropelamentos, falta de pedonais, fraca iluminação pública e declive na via.

Os taxistas e motoqueiros continuam a ser os principais protagonistas dos acidentes?
O veículo motorizado tornou-se popularizado em Luanda, devido ao défice de transportes públicos, trazendo vantagens na mobilidade que ele proporciona. Também fez com que surgissem outras implicações desastrosas. Os acidentes de viação e as suas consequências derivam dessa mesma presença massiva dos veículos motorizados na província de Luanda. É de reconhecer que este fenómeno surgiu sem o acompanhamento de certos organismos, o que permitiu que proliferassem de maneira desordenada, na medida em que as associações não exercem nenhum controlo eficaz sobre os associados e muito menos têm influência sobre os mesmos.

Quanto aos taxistas, não poderemos generalizar, na medida em que o Decreto Presidencial -128/10 de 06 de Julho (Regulamento de Transportes Ocasionais de Passageiros) define dois tipos de táxis: os convencionais (aquele cuja capacidade global do veículo é posta à disposição de um só cliente) e os táxis colectivos (veículos cuja disposição é posta para uma pluralidade de clientes), os chamados azuis e brancos. Para esta última classe, segundo os nossos registos, não são os que mais acidentam. Porém, os que mais vítimas causam quando envolvidos em sinistros, devidos ao número de passageiros que transportam. As medidas são tomadas de forma geral. Não há distinção da fiscalização, embora exista uma certa atenção aos táxis pela maneira como conduzem.

O fenómeno "gasosa" (suborno) continua a ser um facto...
O fenómeno “gasosa”, infelizmente, ainda é um facto. Porém, bastante reduzido, tendo sido instruídos até o terceiro trimestre de 2015 um total de 19 processos disciplinares, que culminaram com a despromoção e a demissão compulsiva dos que assim procederam. Por outro lado, ainda falta colaboração e denúncia dos cidadãos, pois têm sido o principal mentor. Até ao momento foram julgados e condenados 189 automobilistas por tentativa de suborno aos agentes da autoridade.

Pode ser mais concreto em número de acidentes, mortes e feridos até terceiro trimestre de 2015?
De Janeiro a Setembro de 2014 registaram-se mil 952 acidentes de viação com 695 mortos e mil 273 feridos. Em 2015, notificaram-se mil 433 sinistros rodoviários, tendo com consequência 626 mortes e mil 24 feridos.

Acredita que o trabalho de prevenção deve começar nas escolas primárias?
A educação tem como finalidade a formação integral da pessoa, isto é, do homem, indivíduo útil à sociedade, na qual está inserido. Quatro pilares que sustentam a Educação: O saber, através do qual o indivíduo adquire conhecimentos graças à instrução; o saber fazer, através do qual o indivíduo adquire aptidões, habilidades, capacidades e competências para a vida e para o mercado de trabalho; o saber ser, caracterizado pela socialização ou integração, processo pelo qual se incute ao indivíduo atitudes, comportamentos, hábitos e valores indispensáveis para a manutenção da coesão social; e saber viver em comunidade, pilar que arrasta todos os outros anteriores e que inclui a educação ambiental para a paz e direitos humanos e todos os direccionados para o desenvolvimento sustentável.

Estes pilares constituem uma unidade dialéctica. São categorias interligadas que se devem, de facto, ter em conta na construção do currículo escolar. Há países onde existem escolas dotadas de circuitos rodoviários, que permitem promover acções teóricas e práticas de educação rodoviária junto dos alunos, proporcionando conhecimentos e competências necessárias a uma adequada integração na circulação rodoviária.

Assim, há também a perspectiva de implementar um “Projecto Global da Educação Rodoviária nas Escolas”, no país, visando elaborar material de sensibilização em forma de módulos para o aluno e o professor. Este módulo terá uma parte teórica, a ser leccionada numa sala de aula e exercícios práticos no circuito rodoviário, onde os alunos terão a possibilidade de colocar em prática aquilo que apreenderam.

A Educação Rodoviária é um processo de formação ao longo da vida do cidadão como passageiro, peão e condutor, e implica o desenvolvimento de competências que permitam viver em segurança no ambiente rodoviário, assim como o desenvolvimento de atitudes e valores como o respeito, a responsabilidade e a tolerância, enquanto componentes essenciais da educação para a cidadania.

As câmaras de vídeo e vigilância poderiam dar uma ajuda na monitorização...
A tecnologia de vídeo e vigilância é cada vez mais recorrente nas sociedades contemporâneas e ocidentais, de forma a garantir um maior controlo das vias, através do monitoramento permanente e em tempo real das situações que forem ocorrendo. Por outro lado, reduz significativamente a presença de efectivos na via pública.

PERFIL
Nome: Catarino Roque José da Silva
Natural de Luanda, casado e pai de quatro filhos
Formação Policial: Licenciado em Ciências Policiais e Segurança Interna
Cargos já exercidos: Chefe de Operações da Brigada Moto/UOL, chefe de Operações da Brigada Auto/UOL, comandante da Brigada Auto/UOL, chefe do Posto Comando/CPL, 2º comandante da Divisão do Sambizanga, 2º comandante da Divisão do Kilamba Kiaxi, comandante da Unidade de Polícia da Cidade do Kilamba
Cargo actual: Comandante da Unidade de Trânsito de Luanda

“Embora se diga o contrário, procuramos elevar o nome do nosso país” – presidente da UNITA

Luanda - Isaías Samakuva, líder da UNITA, maior partido da oposição, aspira ao poder para efectivar o seu projecto de sociedade. Em entrevista ao Jornal de Angola, fala do que pensa sobre a realidade socio-política e económica do país e responde às críticas que lhe são feitas.

Fonte: JA
Samakuva acredita no processo de diversificação económica e concorda com o apelo lançado pelo Presidente da República na mensagem do final de ano, mas propõe uma nova abordagem e uma metodologia para que os resultados sejam atingidos.

Samakuva reafirma uma convicção na força transformadora da paz e no valor do diálogo, propondo-o como fórmula para os jovens que reclamam direitos, que devem continuar a ser ouvidos para se compreender a essência das suas inquietações.

A paz é uma das grandes divisas conseguidas pelo povo angolano há 13 anos. O que representa para si este inestimável bem?
A paz é um elemento fundamental para a realização daquilo que pode ser útil para o cidadão. Há necessidade de promover a conservação da paz e esta é uma questão que tem de ser sempre tida em atenção. Mas é fundamental considerar que a paz não é apenas a ausência da guerra. A paz é o emprego mas é também a capacidade que a pessoa tem de resolver os seus problemas mínimos. Caso contrário, vive permanentemente preocupada e na aflição. Nestas circunstâncias, devo dizer, não há paz. A paz deve se traduzir na capacidade de se materializar as aspirações básicas do dia-a-dia.

Acusam-no de uma clara e insofismável falta de sentido de Estado, pois tende a levar assuntos do país para o exterior. Como tem encarado isso?
Tenho lido e ouvido acusações do género e muitas vezes acho-as interessantes. Porém, chego à conclusão que essas acusações só podem vir de pessoas que ou são à partida meus detractores ou ignoram o facto de Angola ser hoje parte do concerto das nações. É ingenuidade pensar que o que fazemos aqui não é conhecido no mundo. Temos aqui embaixadas e muita gente que se movimenta, escreve e tira imagens que leva para fora. É quase “tapar o sol com a peneira” calarmo-nos quando as situações que reportamos realmente existem. O que dizemos aqui dentro chega lá fora e o que dizemos lá fora chega cá dentro. Por isso, considero essas acusações fortuitas, porque elas não têm nada de especial. O nosso discurso é o mesmo aqui e lá fora. Não creio que estejamos a lavar roupa suja lá fora. Se alguém sabe que o que estamos a fazer é sujo, o melhor é não fazer, pois uma vez feito, passa a ser conhecido lá fora. Estou confortável em relação a este aspecto. Os próprios governantes tratam de questões do país lá fora, igualmente. Onde está a diferença?

A diferença está provavelmente no facto de o senhor levar para fora apenas as coisas negativas e dificilmente mencionar as realizações positivas que ocorrem no país?
Não há nada que eu tenha levado para fora que nunca tenha sido dito aqui no país. A única questão é que aquilo que digo aqui dentro é de alguma forma abafado. Levantamos situações negativas e de uma forma geral levantamo-las para chamar a atenção, como críticas positivas, a ver se conseguimos parar com estas situações, mas ninguém as menciona. Elas são levadas ao conhecimento mas morrem ali. É, como se costuma dizer, “morrem no deserto”. O problema é que de uma forma geral, as pessoas gostariam de não ouvir aquilo que fazem de negativo. Isto é o que incomoda.

Está agora no quarto mandato como líder do seu partido. Está confortável com esta caminhada política e o que representam para si os valores da democracia e as maiorias absolutas?
Sinto-me confortável estando no quarto mandato na direcção do meu partido, porque não violei nem normas partidárias nem normas nacionais ou internacionais. Agradeço-lhe por ter levantado esta questão porque na verdade sinto que há uma deturpação de conceitos e muita gente agarrou-se a estes conceitos e confunde as coisas, quando na realidade a democracia é acima de tudo, tal como a própria palavra significa, o poder do povo para o povo e tem características que constituem o seu significado. A democracia traduz o cumprimento de normas, reflecte o Estado de Direito, envolve a participação dos cidadãos, o respeito pelos direitos humanos e obriga-se à separação de poderes. Nos partidos políticos, ao contrário do que acontece no Governo, não há limitação de mandatos. Se for a fazer a sua pesquisa vai encontrar que todos os estatutos dos partidos estão sem quaisquer cláusulas de limitações de poderes.

É reconfortante haver exemplos desse género pelo mundo fora fundamentalmente para justificar uma posição muito criticada?
Não vejo por que razão para um europeu tal não representa problema algum e os problemas surgem quando tal acontece com um africano. Se o partido tivesse uma cláusula que limitasse o mandato, naturalmente essa cláusula seria cumprida. Mas deixe-me que, para este contexto, mencione alguns exemplos. A chanceler alemã Angela Merkel está no seu 15.º ano como presidente do Partido Democrata Cristão Alemão (CDU) e no terceiro mandato como chanceler. Outro exemplo é do presidente Lula que esteve quatro mandatos à frente do seu partido até vencer as eleições. A Alemanha tem outro caso, que é o de Helmut Kohl, que esteve à frente do seu partido durante 16 anos e na Inglaterra o caso de Margareth Tatcher que esteve três mandatos na direcção do seu partido.

A componente ética não é aqui chamada?
Pergunto-me porquê apelar à questão ético-moral? Eu não me impus. Curiosamente, desde o primeiro mandato, tenho passado pelas eleições com uma maioria significativa. Outros há que dizem: “perdeu as eleições gerais e agora devia deixar a cadeira”. Quando perdi as eleições em 2008, apresentei a minha demissão numa reunião do comité permanente. Mas ao invés de aceitarem a minha demissão, sai dessa reunião com grande apoio. Estou completamente à vontade. Porém, temos limites fisiológicos e acho que aqueles que pensam que Samakuva quer estar à frente da UNITA até morrer enganam-se. Só se morrer agora. Mas se Deus me der mais uns dez anos, neste período não estarei certamente à frente da UNITA.

Esta é uma tentativa de enviar um sinal de que é um líder que segue à risca um dos princípios que pretende subordinar a política à ética?
Absolutamente. Mas como a ética coloca questões de violações do bem e do mal, deviam dizer-me onde é que violei a ética. Assim o debate seria outro.

Que sinal a sua vitória no maior partido da oposição envia à juventude anggolana, que, quer queiramos quer não, passou a fazer alguma leitura dos tempos?
O que vejo é a juventude a aplaudir e a encorajar a minha vitória. Mas existirão aqueles que criticam a continuidade de Samakuva exactamente nos termos em que falamos aqui porque acham que estamos a violar normas democráticas. Mas digo: não ha violação de normas democráticas. A porção da juventude que me encorajou a continuar é significativa. Temos de saber que nunca encontraremos consensos na totalidade, mas vamos orientar-nos pela posição das maiorias. Tanto no partido como fora dele vejo isso.

Uma das grandes matrizes do partido passa por caracterizar-se como um projecto de sociedade em si. Continua a reiterar isso e como pensa efectivá-lo, uma vez que este projecto já vai nos seus 50 anos?
A UNITA é um projecto de sociedade. Os princípios que enformam esse projecto são aqueles em que acreditamos e que fariam uma Angola diferente daquela em que estamos a viver. Dura quase 50 anos. Mas existem projectos que duraram muito mais tempo antes de poderem impor-se. A luta dos sul-africanos com o projecto de criarem uma África multirracial levou muito tempo. O facto deste projecto levar este tempo não significa que não seja válido. Hoje vemos que aqueles que rejeitavam a UNITA começam a abraçar os seus ideais porque acham que são os mais justos e os que mais se preocupam com a vida do cidadão. É uma questão de tempo.

Enquanto líder do maior partido da oposição faz grande fé no processo de diversificação económica ou alinha pelo eixo dos cépticos?
Acredito nesse processo. Penso que a economia deve ser diversificada, mas já devia ter sido feito. Só não acredito que ela venha a acontecer da forma como está a ser teorizada presentemente. Fiquei, de certa forma, satisfeito ao saber que o senhor Presidente da República chegou também a esta conclusão. Estamos a falar da diversificação, mas ela não está acontecer. Ela nunca há-de acontecer só pelo facto de criarmos mais uns projectos agrícolas.
Não chega. Tanto mais que estes projectos estão a ser criados numa lógica de latifúndio, que mais uma vez pertencem a uma certa elite, que por sinal nem o faz com vista à diversificação económica mas visando os seus lucros. Pensamos que a diversificação deve ser feita. No sector minério, não podemos olhar apenas para o diamante ou para o petróleo, temos de olhar para o ouro, o fosfato, o cobre, o urânio, entre outros.

O que propõe em concreto?
Proponho que as inteligências ou as mais-valias que temos no país sejam de facto utilizadas. Angola tem recursos humanos que poderiam ajudar significativamente o processo de diversificação económica, mas encontram vários obstáculos. É ainda difícil criar uma empresa dadas as dificuldades impostas pela burocracia e acesso ao crédito. Temos um banco de desenvolvimento que, penso, devia fazer mais. A burocracia deve diminuir. Esta é uma área que tem sido melhorada, mas que ainda não chega. Conheço países onde podem ser criadas empresas em uma ou duas horas. Além do que já mencionei, existem algumas questões políticas que também impedem que os angolanos possam participar com o seu saber e as suas energias na economia e na diversificação.

Questões políticas, o que quer dizer exactamente?
Falo de questões políticas que acabam por ser mecanismos discriminatórios que impedem pessoas que não sejam do partido que sustenta o poder de desenvolver os seus projectos, não conseguindo também o apoio de bancos. Todo este conjunto de situações precisa de ser melhorado ou alterado. Sempre pensei que com a conquista da Independência fosse reduzir-se ao mínimo possível o sofrimento do povo, mas constato que na realidade depois da Independência esse sofrimento não só se mantém como se avoluma.

Como avalia o contexto socio-político e económico que o país atravessa?
O actual contexto está difícil. Está difícil para aqueles que procuram envolver-se em projectos e que não conseguem e está também difícil para os que tinham projectos em marcha e que de um momento para outro se viram afectados pela chamada crise. Penso que é uma situação que ainda vai continuar por algum tempo. Mas acredito na capacidade realizadora dos angolanos e creio que é uma fase que vai passar. Há quem diga que talvez tenha sido melhor o emergir desta fase, pois parece que também está a ser uma escola. Oxalá tiremos sérias lições para evitar que situações do género venham a repetir-se no futuro.

Sente que a forma como se posiciona na política distancia-se muito pouco da que foi a filosofia de Jonas Savimbi ou tem uma abordagem muito mais original e própria?
Não sei se é verdade dizer que me distancio muito pouco da filosofia do Dr. Jonas Savimbi. O que sei é que a linha política que a UNITA segue é aquela que foi traçada desde os primórdios da sua fundação, assente nos princípios do que chamamos Projecto de Muangai, que continua válido até hoje. É importante considerar que as épocas são completamente diferentes. O Dr. Savimbi dirigiu o partido num período de conflito armado. Nessa situação havia necessidade de se aplicar um determinado número de normas com algum rigor e força. Isto não pode ser feito agora numa fase de paz e em que buscamos a reconciliação e procuramos o diálogo com todas as franjas da sociedade. Não faz sentido aplicarmos a metodologia daquela época quando buscamos a harmonia e uma convivência pacífica. Aqui o discurso tem de ser diferente daquele que se utilizava na época passada. Temos de ter em consideração a época que vivemos, os objectivos que pretendemos atingir.

Se a UNITA fosse convidada a formar uma frente única para o pleito de 2017 estaria receptiva e favorável ao “ecumenismo político”?
Não vamos esperar que sejamos convidados. Nós é que estamos a trabalhar no sentido de convidar os outros no futuro e vamos continuar. A UNITA tem convidado os outros partidos a ensaiar os primeiros passos para uma frente comum. Demos estes passos em 2004 quando tentámos criar uma plataforma, que, devo dizer, não foi bem sucedida. Em 2008, após as primeiras eleições em tempo de paz, voltámos a convidar os partidos com vista a atingir objectivos concretos, como foi no caso da elaboração da Constituição de 2010 e também da nova Lei Eleitoral. Porém, mesmo ali onde os objectivos eram claros, em determinada altura vimos que não foi alcançado como desejávamos. Continuamos com a cooperação com outros partidos com ou sem assento na Assembleia Nacional. Na política é a necessidade do momento que determina a acção.

A Assembleia Nacional, à semelhança de outras instituições, representa o pilar da democracia. Sente que o papel para o qual foi criado ou existe está a ser bem cumprido?
Já manifestei a minha posição sobre o desempenho da Assembleia Nacional e devo dizer que não tem cumprido o seu verdadeiro papel. Acho que tem estado, de certo modo, a seguir a marcha do Executivo e não se tem projectado como um contra-poder. Por isso tenho estado a dizer que não existe ainda separação de poderes no país. Quero acreditar que à medida que o tempo passa os deputados assumam essa responsabilidade e revejam a maneira como funcionam. O Executivo terá sempre a tentação de rebocar a Assembleia Nacional. Dependerá dela própria manter a sua autonomia e saber que tem de haver uma interdependência . A Assembleia Nacional tem de saber que é um outro poder e que deve exercer esse poder como tal. Na minha opinião, isso não tem acontecido. A Assembleia Nacional devia manter a sua autoridade, enquanto um poder diferente do Poder Executivo.

Com toda a franqueza, como vê o desempenho do Executivo?
Penso que o desempenho do Executivo explica a situação que vivemos. Se estiver satisfeito com a situação que estamos a viver poderá dizer que o desempenho do Executivo é bom, mas se o desempenho traduz aquilo que vemos na prática, aí já é outra questão. Estive a ver uma peça de televisão que retratava a degradação da estrada entre o Nzeto e o Soyo, uma situação vivida todos os dias há dez anos. Sempre que chove aquela estrada está assim, e trata-se do Soyo, que produz petróleo. O que diremos do desempenho do Executivo? Onde está? Existe? Já não falo do desempenho. Eu pergunto se existe? Vejamos o que se passa com o lixo e com a questão da água. Tenho denúncias de pessoal médico do Hospital Maria Pia que me dizem que a unidade de saúde não tem Raio X porque está avariado. A ser verdade, pergunto: o que falta, vontade política ou não existem condições de trabalho? O que falta aos meus compatriotas, muitos deles meus conhecidos e até com quem tenho boas relações. Como é que permitem situações dessa natureza?

Tem apregoado o diálogo. O que diria para os jovens que tendem a usar fórmulas de protestos pouco ortodoxas ou mesmo até subversivas para se fazerem ouvir sempre que sentem os seus direitos ameaçados?
Acho que os homens deviam desenvolver cada vez mais capacidades para o diálogo. O diálogo deixa as pessoas conversarem, conhecerem-se e entenderem-se. Mesmo no dia-a-dia, quando temos apetência para o diálogo, empenhamo-nos para ouvir o outro. Ganhamos sempre alguma coisa e corrigimos mal entendidos. Os jovens não são maus. Só precisam de ser entendidos para que depois passem a entender os outros. Não existe outra fórmula senão o diálogo. Se por um lado este diálogo é abrangente a todas as faixas etárias e sectores da sociedade, por outro lado sinto que as gerações mais adultas precisam de entender os fenómenos da actualidade, o comportamento e as atitudes dos jovens. É preciso estreitar a distância que nos separa dos jovens. Eles são sempre irrequietos, radicais e procuram fórmulas mais rápidas para os seus objectivos. Por isso, precisamos antes de mais de entender esta maneira comportamental dos jovens para compreendermos o que fazem e a partir daí ouvi-los. Isto deve acontecer nas famílias, na comunidade e entre governantes e governados. Creio que se isso acontecer, evitaremos muitos problemas.

Este novo ano traz um legado de dificuldades de 2015, mas é apesar de tudo um ano de pré-campanha. Que desafios espera enfrentar?
É um ano de pré-campanha com certeza e a UNITA precisa de mobilizar os angolanos para que acreditem no seu projecto. Ela precisa de dizer aos angolanos que percam o medo. Se tiverem medo o país não vai avançar para a mudança.

É de facto o que quer dizer? Acha que estamos, nós os jovens angolanos, impregnados de medo?
Não todos, existem alguns que não seguem por este caminho. Mas a maioria está impregnada de medo, medo de dizer as verdades e até de escutá-las. É preciso alguma coragem na ordem e no sistema democrático estabelecido, o grande problema é que muitas vezes o sistema está estabelecido mas não se faz cumprir. É preciso que trabalhemos para que a juventude deixe de ter medo e para que o cidadão acredite que existem histórias contadas no passado quenão são verdadeiras. É preciso escutar mas também é preciso dialogar.

Economia, emprego, classe média e ambiente. O que representam para si estas palavras para o contexto em que o nosso país se encontra?
Falar de economia é falar de desenvolvimento, tranquilidade, ambiente e falar também de política, mas é fundamental que nos sintamos estáveis, e quando digo estáveis falo numa banca que funcione de facto e onde não exista falta de “sistema”. Estabilidade é também saber que quando alguém acaba os estudos pode trabalhar e pode ter uma casa confortável para o seu nível. Para o nosso contexto, tudo isso precisa de ser reavaliado e reajustado para que nos sintamos num país verdadeiramente em paz e estável. Caso contrário, as palavras estarão despojadas do seu sentido real.

A UNITA é o único partido da oposição que integra a Internacional Democrática do Centro. Que vantagens busca o seu partido ao filiar-se nesta organização?
Depois da guerra procurámos aliar-nos a outros partidos. Olhando para a nossa linha ideológica, achámos que estávamos com credenciais para estar na Internacional Democrática do Centro e na Internacional Socialista, mas nesta última já estava o MPLA com uma candidatura. A nossa ideia de pertencer a essa família política não teve sucesso. Aproximámo-nos da Internacional Democrática do Centro e fomos admitidos há 13 anos e conseguimos conquistar uma das vice-presidências da organização. No seio da organização damos a conhecer aos partidos de 92 países que pertencem a esta família política o que a UNITA faz para a promoção de valores e de princípios universalmente consagrados. Na última reunião, do México, falámos sobre a proliferação do terrorismo, do fundamentalismo e de questões climáticas. Devo dizer que a nossa presença tem sido positiva nessas reuniões e estamos certos que, embora se diga o contrário, procuramos elevar o nome do nosso país.

O estrangeiro não pode ser tido como o principal no desenvolvimento do país" - Reverendo Francisco Sebastião

Luanda - A construção e proliferação de escolas, onde se instalava a Igreja Assembleia de Deus Pentecostal, para alfabetizar os angolanos antes da independência nacional, ajudou a despertar a consciência dos cidadãos, elevando o seu sentido patriótico e libertador, afirmou o reverendo da instituição, Francisco Domingos Sebastião.

Fonte: Angop
Senhor reverendo, que contributo deu a Igreja Assembleia Pentecostal na história do país?
Bom, é verdade que partindo do princípio histórico, é sabido que quando os portugueses chegaram a Angola vieram também com a religião. Quer dizer, se numa mão estava a espada, na outra estava a cruz. A religião veio com a própria colonização.
Só que com o passar do tempo foram vindo também, isso já depois da reforma protestante do século XVI, outras igrejas evangélicas e a partir do século XVIII, XIX foram chegando outras religiões e claro, assim sendo, podemos dizer que a educação estava intrinsecamente ligada à religião. Primeiro com a Igreja Católica, por causa da concordata em que o governo português, no ultramar, tinha responsabilidade de educação para essa denominação. Depois há a outra parte em que a religião protestante entra, fixando em cada lugar onde se fazia presente uma escola, cujo foco era alfabetizar os autóctones ou nativos.
Logo, podemos dizer que a igreja participou da revolução libertadora de Angola, na medida em que mudou a consciência das pessoas em compreender o seu estado político como cidadãos.

Como surge a Igreja Assembleia de Deus Pentecostal em Angola?
Assembleia de Deus Pentecostal surge nos anos 40, com a chegada do primeiro casal de missionários de nacionalidade americana, os senhores Stark e estabelecem-se na região do Cuanza Sul, com o objectivo de desenvolver uma missão. O marido da dona Stark é acometido por uma enfermidade que, naquele tempo, era normal e morre, tendo a senhora resolvido voltar para o seu país, passando por Portugal, na Igreja Assembleia de Deus Pentecostal local, e faz um apelo no sentido de enviar um substituto do esposo a Angola para sequência do trabalho.
É então que um jovem de nome Joaquim António Cartaxo Martins, na altura com 24 anos, acabado de se casar, vem a Angola, atracando no Porto do Lobito, em finais de 1948, e um ano depois começa a reactivar o trabalho, baptizando a primeira angolana convertida que ainda vive em Benguela. Por falta de condições para a prossecução do trabalho nessa província, o missionário resolve ir para a área em que esteve o casal Stark, no Cuanza Sul, na localidade do Kirimbo Gar, onde constrói uma escola para educação de indígenas e, à medida que as crianças iam aprender, consigo viam os pais e assim nasce a Assembleia de Deus, naquele pequeno núcleo do quilómetro 70 do Posto Kirimbo.
A partir daí se desenvolve a igreja. Dessa localidade monta outra igreja em Porto Amboim, depois no Sumbe, Gabela e daí em diante.

Alguma vez a Assembleia de Deus foi convidada a participar do processo de pacificação de espíritos, no período pós-guerra entre angolanos?
Nós sempre fomos chamados a participar, quer em fóruns próprios, quer indirectamente através dos órgãos de Comunicação Social. Existem blocos inter-eclesiásticos, nos quais as igrejas fazem parte. No entanto, nós Assembleia de Deus fazemos parte da Aliança Evangélica de Angola, que são igrejas que se identificam com a mesma visão e objectivos. Depois temos o CICA, Conselho de Igrejas Cristãs de Angola, que também alberga um grande número de igrejas. Existe também a CEAST - Igreja Católica e todas as suas paróquias e surgiu um novo grupo que se chama Grupo das Igrejas Independentes, que não se revêm nos demais.
Todos esses grupos são muitas vezes chamados para conversar com o Estado, naquilo que são os projectos e para darmos o nosso contributo na pacificação de espíritos e fizemo-lo com alegria e continuamos a fazer, pós o trabalho da igreja é levar a transformação da mentalidade do homem, segundo a Bíblia, porque nós não oferecemos riquezas para as pessoas. O nosso maior contributo é mudar a mentalidade da pessoa e sabemos que uma pessoa bem equilibrada mentalmente é um cidadão saudável.

Está satisfeito com o desenvolvimento registado pela Igreja Assembleia de Deus no país?
É claro que sim… Como qualquer instituição tem altos e baixos e tem etapas. A Igreja Assembleia de Deus Pentecostal conhece pelo menos quatro etapas: a primeira é a da sua implantação em 1949 com a chegada do missionário António Cartaxo Martins, que iniciou este trabalho e que vai até mais ou menos 1956, quando o primeiro missionário implantador do trabalho volta a Portugal de férias e depois, não sendo permitido voltar, tendo o trabalho sido continuado pelo seu irmão mais novo, Manuel Cartaxo Martins, até finais de 1958/59.

A terceira etapa vai desde a saída dos missionários até 1967, altura em que chegam outros missionários. Neste período de aproximadamente oito anos, tivemos uma liderança activa dos nativos, que ainda não tinha grande traquejo, mas aguentaram a obra e ela desenvolveu-se. Por exigência do governo colonial, foi-nos imposto mandar vir missionários brancos de Portugal para liderar a igreja e começam a chegar nos finais de 1967 e o quarto período vai até 1974. O dos missionários ou da grande missionação da obra, tendo-se conseguido construir algumas igrejas no interior do país, sendo em Luanda apenas uma, igual número na Gabela e em outras paragens.
Depois entramos para o período pós-independência, com a retirada dos missionários, e nós angolanos tivemos que assumir esta obra debaixo de dificuldades, mas graças a Deus ela cresceu, desde 1975 a 1983, quando fizemos uma grande reforma, na própria dinâmica, na organização do trabalho, entrando uma nova geração de liderança que acompanha o trabalho até hoje.

Ao longo desses anos, a Igreja Assembleia de Deus implantou-se em todo o território nacional, estando assim actualmente nas 18 províncias, e em todos os municípios do país. Estou satisfeito com as conquistas alcançadas, mas elas não podem deixar uma liderança satisfeita, porque como líder eu tenho uma filosofia, segundo a qual nunca estou satisfeito com aquilo que estou a fazer, pois se disser o contrário não farei mais nada.
Ainda tenho um caminho longo a percorrer. O que fizemos até aqui não pode nos satisfazer, senão nos sentiremos acomodados. É claro que conseguimos alcançar patamares visivelmente satisfatórios, como edificar infra-estruturas que hoje dignificam a Assembleia de Deus Pentecostal como uma Igreja reconhecida no país e que tem uma palavra a dizer. Temos a nossa sede no município de Cacuaco, um edifício grande que orgulha a todos, centenas de templos espalhados pelo país, mormente nas capitais de províncias e municípios.
Estamos agora numa grande revolução para substituir as várias igrejas de construção precária, sobretudo no interior, para definitiva. Pena que o país conheceu agora uma crise económica, que de igual modo afecta também os projectos da igreja. Mas continuamos a trabalhar para o efeito.

Há uma crescente proliferação de seitas religiosas no país. Como é que encara este fenómeno e o que deve ser feito para a normalização da situação?
Olha, eu sempre disse e vou tornar a dizer que numa casa quando há desordem a culpa não pode ser dos filhos; tem que ser dos pais. Porque existem igrejas que se consideram matrizes, vamos chamá-las de igrejas-mãe. Eu não vou aqui mencionar denominações. Existe neste país igrejas que se consideram matrizes ou mães. Se essas igrejas matrizes não conseguiram treinar bem o seu pessoal e esse pessoal está a sair para abrir novas igrejas é porque há discórdia e se assim é então o nosso apelo é que essas lideranças se envolvam mais no diálogo com essa nova geração, para ver se também conseguem ceder naquilo que são as suas exigências. Por outra, existem motivos também que podem estar a influenciar isso. Há igrejas que abrem por instigação que alguém diz, sai e abra também a sua. E às vezes quem faz a tal agitação é uma pessoa que está fora, mas graças a Deus e, por causa das leis do país, esse espírito de aventura de abrir novas igrejas está um tanto ou quanto refreado.
Não somos contra a abertura de novas igrejas, desde que o objectivo seja para ganhar almas, prepará-las para o bem desta sociedade, não olhando apenas para o bolso, para as necessidades do pobre.

O que se deve fazer para continuar a preservar a paz e que conselho deixa aos jovens que frequentemente se manifestam descontentes?
O meu conselho é que se volte para a Bíblia. A Bíblia Sagrada diz: - "toda alma está sujeita as autoridades, porque as autoridades que existem foram levantadas por Deus". Se fizermos o bem, alcançaremos misericórdia das próprias autoridades e se fizermos o mal o castigo e a correcção será o caminho. O meu conselho é que os jovens se lembrem que para alcançarmos o bem não pode ser do dia para a noite. Tudo o que se quer vai-se alcançar, mas é preciso a contribuição de todos.

Angola é um estado democrático e de direito. Que opinião tem sobre o assunto?
Bom, isso é discutível. Depende como interpreta o Estado de Direito, se é de acordo com a Lei escrita no papel ou se é na prática. Eu penso que Angola é sim um estado democrático na medida em que eu posso me exprimir. E só não é um Estado de Direito quando eu não me comportar como tal. Se eu fizer o que quiser, aí o Estado vai me dizer o que devo ou não fazer e eu vou dizer então que não existe o Estado de Direito. O Estado de Direito só o é quando o próprio cidadão também sabe reconhecê-lo. Se houver libertinagem, diremos que não é um Estado de Direito e se houver paz já diremos que o Estado é de Direito. É preciso que todo o cidadão saiba interpretar a lei e saiba também respeitá-la. A lei não é só boa quando nos diz respeito e má quando não nos diz respeito.

Que leitura faz das tentativas de manifestações e descontentamentos?
Ora, todo país sempre vai ter algum tipo de pressão, mas os angolanos sempre resistiram a pressões, quer sejam internas, quer externas, porque os angolanos deram provas do que sabem e o que querem. Fizeram-me esta pergunta há pouco tempo que a situação não está boa e como exemplo eu disse que quando as crianças brincam no quintal é porque o Estado é bom, o problema é brincarem fora do quintal. Por isso, como pais devemos saber onde é que os nossos filhos brincam. Portanto, o nosso país está bem, sem crise, apesar de que muitas forças externas gostariam que Angola entrasse em colapso. Mas nós já experimentamos isso e não queremos mais problemas e tudo faremos para que o país continue em paz.

Considera o povo angolano participativo?
Basta ver o hino do partido no poder “Com o povo heróico e generoso...”. É sim um povo heróico e generoso, é um povo participativo sim, contando pela nossa história. Se não fosse participativo, não teríamos alcançado o que alcançamos. Por outro lado, é preciso que o país reactive as profissões liberais, porque nem todo mundo tem que ser licenciado ou doutor. O país precisa de serralheiros, de carpinteiros, de pedreiros, de ferreiros, de ladrilhadores e se conseguirmos fazer isso poderemos alcançar patamares altos e não precisaremos tanto de estrangeiros.

Defende maior envolvimento das pessoas nas questões sociais, económicas e de cidadania para o desenvolvimento de Angola?
Sim. É preciso que as pessoas se envolvam mais. Como? Trabalhando, se aplicando, não guardar para depois o que se pode fazer hoje, porque essa Angola para se desenvolver vai e está a precisar do envolvimento do próprio angolano. O estrangeiro não pode ser tido como o principal no desenvolvimento do país, pois não será ele quem fará a continuação e, sobretudo, a manutenção de tudo quanto está a ser erguido.

Como é que caracteriza a justiça social em Angola?
Essas questões são muito difíceis de nós nos pronunciarmos. Eu diria que toda a sociedade tem divisão de classes. As chamadas classes sociais, os sociólogos dizem que a sociedade é como um armário de várias gavetas e o esforço de se sair da gaveta de baixo para a seguinte deve ser o próprio homem e a vontade de permanecer nela depende de cada um.
Agora eu interpreto a justiça social como aquela que os órgãos de justiça estabelecem. O próprio Governo estabelece colocar à disposição as ferramentas para que cada um consiga dar passos firmes e enquadrar-se como um cidadão de sucesso.

O que tem a dizer sobre valores morais e cívicos na sociedade?
Nós, os mais velhos, falhamos na execução do TPC (Trabalho Para Casa). Nós ainda temos algum valor, porque recebemos isso dos nossos pais. Mas não estamos a conseguir passar esses valores aos nossos filhos. Temos o hábito de dizer aos nossos filhos deixa lá, isso é normal. Eles são jovens. Então a perda dos valores morais tem a ver com a educação que os pais deram a estes jovens.
Isso é uma chamada de atenção, não só para a igreja, mas para a sociedade no geral. É preciso investir nas escolas desde pequeno. É ali onde se costuma dizer que é desde pequeno que se torce o pepino. É preciso inculcar nas mentes das crianças os princípios de boas maneiras e estamos a deixar isso por conta da televisão.
Acho triste ver que se a criança canta é porque aprendeu na televisão, se ela se expressa, aprendeu na TV, enquanto os pais não têm tempo de conversar com elas. Hoje os pais só estão interessados em ter filhos na Calemba, no Rangel, no Cazenga,.. e então essas crescem sem autoridade paternal. Logo um menor assim, depois de grande, tem desvios. Actualmente, as famílias não estão mais interessadas em transmitir os princípios cívicos morais aos filhos. É difícil encontrar um pai sentado à mesa e observar o seu filho como segura os talheres e como se alimenta. O meu apelo é que voltemos ao princípio, educar as crianças a partir de tenra idade em casa.

PERFIL

Nome: Francisco Domingos Sebastião
Idade: 61 anos
Local e data de nascimento: 11 de Maio de 1954 (mas oficialmente nos documentos nasceu em 1956), município de Viana (Luanda).
Profissão: Marceneiro, mas hoje é pastor evangélico
Formação académica: Formou-se em Sociologia e também em Teologia pela Escola Superior de Teologia de Oeste África.
Cargos exercidos: Já foi na igreja por 12 anos pastor dos pastores da província de Luanda. Foi também líder de duas igrejas locais, a de Maculusso é a terceira, por quase 30 anos, assim como é vice-representante legal da instituição.
Funções actuais: Há cinco anos é presidente do Comité de Cooperação da Aliança Evangélica de Angola, vogal da Ordem dos Pastores de Angola e conferencista internacional.
Livros escritos: Dois (As sete maneiras de agarrar o cônjuge; e Liderança Emergente no Sec. XXI).
Línguas: Português e Kimbundu. O restante é apenas para identidade ou saudação

"Não vejo como erguer estátuas de Holden e Savimbi ao lado do Presidente Neto" - Adelino de Almeida

Luanda - Adelino Marques de Almeida é político e jornalista. Já foi deputado da Assembleia Nacional pelo MPLA e chefe do Departamento de Informação do seu partido. Foi também director da Televisão Pública, da Rádio Nacional e do Jornal de Angola.

"Devemos dar alento à luta contra a improbidade e ostentação de riqueza"
Fonte: JA
É precisamente em entrevista a este jornal que Adelino de Almeida expõe o que pensa sobre a vida política, económica e social do país e fala no que pode vir a ser Angola no futuro. Numa alusão ao respeito pela soberania, diz que “o país será o que nós quisermos, se tivermos arte e engenho suficientes para denunciar e tirar o adversário das tocas e acertar-lhe com o golpe de misericórdia nas urnas”.

Formado no Instituto Jugoslavo de Jornalismo, Belgrado, em 1978-1979, este homem de comunicação revela enorme satisfação pelo facto de terem sido estabelecidas as bases para a reconciliação genuína entre todos os angolanos, a reconstrução do essencial do país, a entrada para o desenvolvimento económico, o pleno usufruto das garantias e direitos dos cidadãos consagrados na Constituição.

Adelino de Almeida aconselha os angolanos a não deixarem de reconhecer os passos gigantescos que foram dados pelo Estado angolano para unir fisicamente o país e fortalecer a auto-estima nacional.

Como é que prefere ser tratado: comentarista, jornalista ou político?
Sou um político que utiliza as ferramentas da técnica jornalística para fazer política. Nas condições do nosso país, que se confrontou com o colonialismo e as suas sequelas, teve de fazer face às agressões externas e à subversão interna, um jornalista não pode colocar-se “em cima do muro”. Pelo menos, resisti aos cantos de sereia que apelam à isenção perante as tentativas de subjugação de Angola aos ditames do Império.

Como vê o país 40 anos depois, particularmente nestes 13 anos de paz?
Sinto-me orgulhoso de ser cidadão de um país livre e independente. Que venceu a guerra de agressão e eliminou o essencial da subversão interna, corporizada pela FNLA e pela UNITA de Jonas Savimbi. É com enorme satisfação, júbilo até, que verifico terem sido estabelecidas as bases para uma reconciliação genuína entre todos os angolanos, a reconstrução do essencial do que foi destruído pela guerra e a entrada para o desenvolvimento, o pleno usufruto das garantias e direitos consagrados na Constituição e, não menos importante do que tudo isso, a entronização – ainda que de forma incipiente – da regra do mérito, que tem muito a ver com a desejada qualidade da Educação, um sector de actividade que não se compagina com atitudes e práticas discriminatórias. É o estabelecimento de políticas que levem à igualdade de oportunidades, tendo como centro um sistema público de Educação de qualidade, que valoriza a unidade na diversidade. É aí, suponho, que está a chave para ultrapassarmos, decisivamente, preconceitos como o etnicismo, o tribalismo, o racismo e o regionalismo.

A actual conjuntura, marcada pela desaceleração do ritmo de crescimento económico, deve ser motivo de grande preocupação?
Convenhamos que não podem ser dificuldades conjunturais, independentes do desempenho do Governo, que nos irão desviar do caminho certo. Deixar de reconhecer os passos gigantescos dados pelo Estado para unir fisicamente o país e fortalecer a auto-estima dos nossos concidadãos, dentro e fora do país, é um exercício inominável. De tal sorte que caem por terra as peregrinas ideias samakuvianas de que Angola “precisa de uma nova Independência”, tanto como as elucubrações de Chivukuvuku, para quem o colonialismo português teria cedido aos “colonos angolanos”. Ele chama a esse arroto “teoria da substituição”, pseudo-tese que arrancaria nota zero a um júri constituído para apreciar os exames de quarta classe de qualquer escola primária deste país. É certo que a conjuntura marcada pela desaceleração dos ritmos de crescimento da economia – não confundir com recessão, como lembrou recentemente o Presidente José Eduardo dos Santos – convoca adversários e inimigos para o palco. Multiplicam-se as opiniões de think tankers, elaboradas no conforto de centros de análise instalados no exterior do país, alimentados porventura por informações “independentes” dos seus serventuários locais. Até aqui nada de novo. E não será nova a atitude serena mas firme com que as autoridades legítimas de Angola lidarão com esses epifenómenos. Que o digam os chamados “revus”...

O que ficou por se fazer volvido este tempo?
Não temos como nos furtar aos efeitos do, chamemos-lhe assim, “fogo amigo” ou “danos colaterais”, resultantes da arquitectura da economia de mercado, em contraposição à falência do “socialismo científico”. Ainda assim, acredito, devemos dar alento à luta contra a improbidade, a opulência e a ostentação de riqueza, nem sempre obtida de forma justa e honesta. O nosso foco deve manter-se na luta contra a pobreza e a miséria. É assim que entendo e aprecio os esforços do MPLA, e do Governo que sustenta, ao anunciar para o próximo ano despesas de cerca de metade do Orçamento do Estado para o sector social. Ainda não ouvimos os aplausos das oposições.

Angola tornou-se num país democrático e de direito na década de 90. Hoje, diante do cenário político em que intervêm poucos partidos políticos com diferentes ideologias e perspectivas, que avaliação faz do trabalho desenvolvido por estas formações?
Ainda bem que o MPLA se demarca dos diferentes actores pelo seu perfil político-partidário nacional, independente e progressista, baseado numa perspectiva política de esquerda dinâmica, defendendo os ideais de paz e de bem-estar, de liberdade e democracia, de igualdade e justiça social, solidariedade e humanismo, conforme determina o seu Programa. A existirem programas políticos distintos dos nossos, como existem de facto, vê-se bem das nossas diferenças idiossincráticas, não faltando às oposições o desejo ardente de revanche, ao entenderem o exercício do poder como o achado de uma panela cheia de comida que se deve comer rapidamente, não vá o sucessor encontrar sobras...Em boa verdade, esses partidos estão condenados ao fracasso, o que não elimina, no entanto, a necessidade de intensificação e sofisticação do trabalho de mobilização, sedução e conquista, reduzindo factores de risco para a manutenção do poder político pelo MPLA, como o aparente auto-afastamento de alguns sectores da população, por sinal dos mais instruídos e susceptíveis às “ondas de choque” proporcionadas pela desinformação produzida na ex-metrópole e arredores.

Os partidos têm, na sua opinião, a seriedade e a visão que se impõem para a jovem democracia angolana?
Não é sério o suficiente quem vai advogar em Lisboa, junto dos antigos colonizadores, uma nova Independência para Angola, não é sério quem advogou a “somalização” do país, nem é sério quem identifica o MPLA como o substituto dos colonos portugueses. São faces da mesma moeda, que vêm do programa de Muangai, que objectiva para o nosso já sofrido país a implantação de uma “República Negra Socialista”. Os “federalistas” demonstram, eles também, um profundo desconhecimento da alma angolana, dos angolanos que não se cansam de repetir que, de Cabinda ao Cunene, somos um só Povo, uma só Nação! Já os “revus”, Rafael Marques, José Eduardo Agualusa, João Adelino Faria, João Soares, as manas Mortágua, Catarina Martins, Francisco Louçã e o Bloco de Esquerda local, para só citar estes, são... um nado morto! As oposições angolanas ao partido no poder, diga-se, precisam de reinventar-se, se disso forem capazes. Não me parece que lhes esteja no ADN.

O longo conflito militar em Angola é entendido de várias formas: “guerra civil”, “conflito interno” com influências externas ou mesmo uma extensão da chamada Guerra Fria. Qual é a sua visão?
Porque é de uma opinião que me é solicitada, sem prejuízo do rigor que os especialistas em história e em politologia poderão emprestar a este debate, defendo que Angola foi objecto de uma intervenção política e militar em grande escala por parte da África do Sul do apartheid e do Zaire de Mobutu, com o alto patrocínio dos Estados Unidos da América, entre outras potências ocidentais, para a qual concorreram os seus aliados locais, a UNITA e a FNLA, no âmbito da clivagem Leste/Oeste. O MPLA, depositário das tradições de luta do povo angolano, resistiu as invasões estrangeiras, tendo beneficiado da ajuda exemplar de Cuba e da então União Soviética. Ao manter a sua independência e integridade territorial, Angola tornou possível a independência da Namíbia e do Zimbabwe e a eliminação do apartheid na África do Sul. Eliminados os factores externos, o Governo angolano neutralizou, primeiro, a FNLA de Holden Roberto, tendo promovido uma política de clemência que acomodou os seus principais responsáveis. Em seguida, enfrentou e derrotou, inapelavelmente, a UNITA que, recorde-se, chegou a controlar manu militari cerca de 70 por cento do território nacional. O corolário de todo esse processo foi a liquidação física, em combate, de Jonas Savimbi, chefe da UNITA, em 2002, na província do Moxico.

A narrativa que faz sobre o modo como se desenrolaram os acontecimentos não é demasiadamente áspera para o momento que o país vive?
Acredito que esta narrativa possa magoar algumas pessoas mais sensíveis, o que lamento. Mas o processo de reconciliação nacional não pode escamotear ou reinventar a História. Não vejo como erguer estátuas de Holden Roberto e Jonas Savimbi ao lado do Presidente Agostinho Neto. Nem junto de José Eduardo dos Santos. Se as novas autoridades de Pretória assim o permitissem, fotografias de Savimbi poderiam ser exibidas, sim, no Museu do apartheid. Ou as de Holden Roberto, nas paredes nuas do Palácio de Gbadolite, onde o marechal-presidente com ele privou. Isso se o Presidente Kabila aceitasse a sugestão, é claro...

Como analisa o actual momento político e económico do país e a relação entre a situação económica e a política. Que soluções aponta?
Lénine dizia, salvo erro, que a política é a condensação da economia. Ambas estão, intimamente, ligadas. Sendo certo que o panorama económico e financeiro é marcado pela descida do preço do nosso principal produto de exportação e a consequente redução do rendimento nacional, isso repercute-se, negativamente, no ritmo de execução dos programas nacionais de afirmação, na resolução dos nossos problemas. Vem daí a satisfação incontida dos analistas ultramarinos, e não só, que se deleitam ao prognosticarem os mais sombrios cenários para o nosso futuro próximo, apocalípticos mesmo. Os nossos críticos e detractores gostam de lembrar que as oportunidades para diversificar a economia foram desaproveitadas nos períodos de expansão. Mas isso não é totalmente verdadeiro. Ignora-se, deliberadamente, que a escassez de recursos, que não é de hoje, para apoiar a diversificação, leva a que seja necessário recorrer aos mercados e isso encarece o processo. Ignora-se, ainda, que o financiamento interno suporta apenas 65 por cento do investimento, abaixo da média dos países em desenvolvimento.

A agricultura, apesar dos riscos “naturais” que apresenta, é uma importante solução para a situação económica do país?
A agricultura afigura-se ainda como um sector de risco, pela ausência de seguro agrícola, ou, melhor dito, por ausência de experiência na análise de planos de negócios no sector. Ao que se somam limitações nas competências de gestão por parte do empresariado nacional, nomeadamente, dificuldades na elaboração de planos de negócios. Numa aula magna dada pelo Dr. Abrahão Gourgel em Junho deste ano, no Centro de Formação Política (CEFOP) do MPLA, foram referidos, precisamente, esses elementos. Para ele, a aspiração máxima do programa executivo de diversificação da economia consiste na promoção do desenvolvimento sustentável da economia, aumentando a riqueza não petrolífera produzida, promovendo o emprego e melhorando o comércio de bens e serviços com o exterior. Para isso, é necessário dinamizar os “clusters” estruturantes da alimentação, agro-indústria e pescas, a cadeia produtiva do petróleo e do gás natural, a habitação, o turismo, o lazer e outros serviços, e, finalmente, água e energia, transportes e logística.

Na sua opinião, o papel do Estado neste processo deve ser de intervenção directa ou de mero regulador?
Está decidido que ao Estado compete a liderança na estruturação dos “clusters” principais e sua regulamentação, maximizando o aproveitamento dos recursos nacionais, o papel de aceleração dos grandes investimentos públicos e o de coordenação dos esforços. O Estado afirma-se como arquitecto da diversificação. Quanto ao empresariado angolano, cabe-lhe a liderança de projectos ao longo da cadeia produtiva, aproveitando aspectos como a incorporação local e a concessão das operações, assumindo papel central nos serviços domésticos, tendo em consideração o seu profundo conhecimento da realidade local. Já ao empresariado internacional, é-lhe dado um papel relevante na aceleração do desenvolvimento de projectos para os “clusters” principais, o estabelecimento de parcerias com operadores locais para a transferência de know-how e para a operação de infra-estruturas, aportando conhecimentos distintivos e tecnologia de ponta, assim como capital para projectos promotores da diversificação.

É esta a visão que deve ser o pilar para o que deve ser o nosso porvir, na sua opinião?
É esta a visão clara, fundamentada e escalonada no tempo, do que deve ser o nosso porvir. É isso que nos distingue, indiscutivelmente, das diferentes... oposições. O MPLA e o Governo têm propostas concretas para a resolução dos problemas do povo e do país, contrariamente aos arautos da desgraça, que se excitam de modo exuberante a cada oscilação negativa do preço do crude, antecipam referendos à Constituição de 2010 para permitir “eleições independentes” ao cargo de Presidente da República ou ainda aos que se propõem ressuscitar mortos de morte matada durante e na sequência da intentona de 27 de Maio de 1977.

Como projecta o país a médio e longo prazo?
O país será o que nós quisermos, se tivermos arte e engenho suficientes para denunciar, isolar, tirar o adversário das tocas onde se acha entrincheirado, forçar que se ponha a descoberto, em terreno plano e assestar-lhe então o golpe de misericórdia. Nas urnas, obviamente. Teremos prestado, assim, um bom serviço à Nação. Não disse o grande escritor soviético N. Ostrovsky que fomos temperados pelo aço? Pois bem...

Governador de Luanda anuncia como prioridade a prevenção da mortalidade materna e neo-natal

Luanda - A grande prioridade do Governo Provincial de Luanda, em 2016, será a prevenção da mortalidade materna e neo-natal, disse à Angop o seu governador Graciano Francisco Domingos.

Fonte: Angop

Eis a entrevista na íntegra:

Angop: Governador que novidades existem para a província de Luanda no sector da saúde?

Graciano Domingos (GD) – Temos muitas novidades, mas a título de exemplo deixa-me dizer-lhe que no domínio da saúde o grande desafio para 2016 será necessariamente a prevenção da mortalidade materna e neo-natal. Em Dezembro, vamos inaugurar um hospital municipal no Zango. No primeiro trimestre de 2016, temos um hospital municipal na Barra do Cuanza. Vamos inaugurar na Cidade do Sequele um centro de saúde e voltaremos a realizar uma campanha contra a raiva animal. Temos estado a efectuar várias campanhas como a vacinação de 354 mil crianças contra a rota-vírus, 55 mil crianças imunizadas contra a hepatite B em recém-nascidos e no combate à raiva vacinamos 242.581 animais.

Angop: De uma forma geral, que Luanda temos hoje?

GD – Luanda que temos hoje, e no meu caso que vivi o período colonial, é aquela Luanda que mostra que Angola é nossa e nós estamos a construir a nossa capital com o nosso trabalho, com o entusiasmo e que ela hoje ainda não é de facto aquilo que gostaríamos que fosse. Mas que está a caminhar rapidamente para que seja a capital que representa o orgulho dos angolanos.

Angop: Luanda recebe pessoas de várias partes de Angola e do estrangeiro. Como é possível o seu controlo migratório?

GD – Bom, a província de Luanda, particularmente a capital, é o principal centro económico do país e com a subida do preço do petróleo tornou-se uma capital de um país pulsante do ponto de vista económico. Isto atrai para Luanda não só os nacionais, mas também os estrangeiros.

No entanto, esta atracção a Luanda pode ser melhor pulverizada se projectos de desenvolvimento acontecerem nas demais províncias do país. É necessário que o planeamento do desenvolvimento seja feito de forma equilibrada, evitando as assimetrias regionais e criando condições para que haja também pulverização do emprego ao nível de todo o território nacional. Isto é, quanto mais investimentos houver em Luanda mais atracção haverá de pessoas para Luanda. Se nós distribuirmos de forma equilibrada o investimento por todo território, teremos a população a caminhar em várias direcções e não unicamente para Luanda.

Angop: Muitas crianças, jovens e adultos posicionam-se durante dias inteiros ao longo das principais estradas que dão para os grandes mercados, como o do 30, pressupondo-se que estejam fora do sistema de ensino, para o transporte das compras dos clientes e destes conseguirem gorjetas. Isso preocupa o governador?

GD – É um fenómeno que preocupa, porque se as crianças não frequentarem a escola na idade apropriada nós estaremos a criar marginalidade para o futuro. Temos em Luanda o Gabinete Provincial de Assistência, Acção Social, Cultura e Desportos que cuida efectivamente desse problema. Aliás, neste momento, há um programa que está a ser dirigido pela vice-governadora para área Política e Social, para a inserção dessas crianças. Neste momento, ainda se encontram na rua. Fora do sistema de ensino e também fora de algum enquadramento familiar. Isto é, no quadro da protecção social, o nosso objectivo é retirar essas crianças da rua e colocá-las em instituições vocacionadas para sua recuperação e dessa forma procurar inseri-las na sociedade luandense, por um lado, e por outro temos estado a desenvolver programas de regresso que por vezes chegam a Luanda sem o conhecimento dos pais.

Angop: Há pessoas que desconhecem a actual divisão administrativa da cidade. Pode esclarecer, referindo-se também dos benefícios e constrangimentos?

GD – Bom, a alteração da divisão político-administrativa da Província de Luanda teve como primeira finalidade aproximar a administração dos cidadãos. Neste momento, temos Luanda - província com sete municípios; município de Luanda, dividido em vários distritos urbanos que correspondem aos antigos municípios da Ingombotas, Rangel, Sambizanga, Maianga, Samba e Kilamba Kiaxi, embora o último esteja em perspectiva da criação de um novo município. Portanto, Luanda passará a contar com oito municípios, contando com Belas, Cazenga, Cacuaco, Icolo e Bengo, Luanda, Quiçama e Viana. Em termos de constrangimentos, o que estamos a fazer é transferir as responsabilidades para os municípios e procurar dotá-los de infra-estruturas, de quadros e capacidade para prestarem serviço público à população. É evidente que numa reforma nem sempre tudo acontece com a rapidez que o cidadão deseja. Mas neste momento nós temos a responsabilidade pela solução dos problemas de cada município, localizados nos respectivos corpos administrativos. Isto é, no caso do município de Luanda, cabe à Comissão Administrativa da Cidade de Luanda resolver os problemas da sua circunscrição. Naturalmente, no município ocorrem projectos da responsabilidade local, do GPL e outros que são dos órgãos sectoriais centrais, como o Ministério da Energia e Águas, da Indústria, enfim entre outros. No essencial, aquilo que é vocação dos municípios será a prestação dos chamados serviços comunitários. A questão da limpeza e higiene, iluminação pública, reparação das vias, a segurança pública, o embelezamento, tudo que permite aos cidadãos viverem com dignidade no seu município. Portanto, podemos dizer que temos constrangimentos de ordem financeira, mas também constrangimentos de ordem infra-estrutural. É necessário que as administrações municipais disponham de infra-estruturas suficientes para albergar os serviços que os compreende, para que possam prestar serviços de qualidade à população.

Angop: Existe algum modelo que garanta uma governação salutar para capital do país?
 
GD – Em termos de organização, a estrutura que temos neste momento está em condições de responder os desafios do desenvolvimento, por exemplo do município de Luanda. O necessário é que tenhamos à frente desses municípios pessoas comprometidas com o serviço público, que é necessário prestar a esses municípios, pessoas que tenham capacidade de dialogar regularmente com os cidadãos, de mobilizar todos residentes do município para uma causa que é de mantê-lo em ordem, limpo, onde os cidadãos têm direito à palavra, participam e ajudam na solução dos seus problemas, por um lado. Por outro lado, a experiência da desconcentração administrativa, a transferência das responsabilidades da província para o município vai apontar para aquilo que nalguns casos tem sido motivo de reivindicação em alguns sectores políticos, que tem a ver com a descentralização ou a criação das autarquias locais.

O que estamos neste momento a fazer é criar capacidade nas administrações municipais, para que no futuro haja quadros capazes de levar avante um processo de descentralização ou um processo de autarcização da vida ao nível dos municípios. Portanto, o que é desejável é que a melhor governação assente numa descentralização administrativa, numa governação democrática, participativa, em que os gestores sejam eleitos, possam prestar contas à população e democraticamente a população tenha uma palavra forte no sentido de fiscalizar a gestão destes gestores locais.

Angop: A província de Luanda ainda se debate com saneamento do meio. Como é que se pode implementar a co-participação dos munícipes na limpeza?
 
GD – Bom, apresentamos a todos os municípios uma proposta de tabela de taxa municipal de recolha de resíduos e os municípios reuniram os conselhos municipais de auscultação e concertação social e submeteram à consulta essa proposta, e a opinião unânime é que a população deve participar do esforço de limpeza na Província de Luanda. No mesmo sentido, orientou-se o Conselho Provincial de Auscultação e Concertação Social, o GPL colheu o parecer favorável do Ministério do Ambiente, da Agência Nacional de Resíduos e, neste momento, aguardamos o parecer do Ministério das Finanças para que formalmente possamos submeter à consideração do Titular do Poder Executivo a referida tabela de taxa e que acreditamos que, se for aprovada, vai criar uma espécie de legitimidade activa dos cidadãos residentes em Luanda, relativamente à prestação de serviços de recolha de resíduos. Uma vez que vão contribuir, poderão exigir com maior frontalidade a qualidade desse serviço e também
permitir que ao nível dos prédios, quarteirões, bairros e comunas a população se consciencialize de que é necessário incorporar no seu quotidiano os hábitos de higiene e limpeza, porque as consequências que resultam daí acabam atacando a todos aqueles que convivem bem com o lixo e os que vivem no ambiente limpo.

Angop: De que forma seria cobrado o lixo?

GD – A taxa de recolha de lixo, numa primeira fase por exemplo, temos de olhar para perspectiva da institucionalização da mesma, de forma dinâmica, sendo cobrada por residência. Cada um, de acordo com a área em que vive, por exemplo, os que vivem em zonas urbanizadas pagarão um tipo de taxa, os que vivem em áreas semi-urbanizadas outro tipo de taxa e os que vivem em zonas precárias também outro tipo. Portanto, haverá aqui uma segmentação dessa cobrança da taxa de resíduos, o mesmo sucederá com os que exercem as actividades económicas. Uma lanchonete pagará uma taxa, uma cantina outra e uma grande superfície também outra.
 
Angop: Essa forma de cobrança e pagamento não incentivará a corrupção entre o fiscal e o cidadão?

GD – Eu penso que a corrupção é como o casamento. Tem de haver marido e mulher. Tem de haver corruptor e corrupto. Se não houver corruptor, não haverá corruptos. O que nós pedimos é que temos de exercer uma cidadania activa, denunciando aqueles comportamentos que acabam por estrangular todo o funcionamento normal da máquina administrativa. É uma questão de assumpção do exercício da cidadania activa. Temos de lutar no sentido de deixarmos de colaborar com as práticas imorais. Temos que caminhar para normalidade, mas o que discutimos na criação dessa taxa é que os municípios deverão contratualizar esses serviços, recorrendo ao mercado, solicitando empresas que assumindo o encargo de investirem a montante, possam montar todos um sistema de cadastramento das residências, fazer as cobranças e serão pagos em função do valor que cobrarem, sob a fiscalização do Ministério das Finanças.

Angop: Luanda debate-se com excessos de cortes de energia eléctrica. Há perspectivas de melhorias do fornecimento deste bem?

GD – As perspectivas de facto existem. Basta notar que Campanda está ali, Cambambe está a ser alteada e está a ser construída uma nova barragem no Rio Cuanza e tudo isso tem por finalidade aumentar a oferta de energia e também estão a ser construídos pela cidade novos postes, no sentido de facilitar a transportação dessa energia. Agora com a aprovação do Plano Directório Geral de Luanda, vai facilitar também a distribuição da energia eléctrica, já que vamos apostar mais em áreas planeadas, urbanizadas e o caos urbano que assistimos na cidade, que também acaba criando dificuldades na prestação de serviços públicos como o fornecimento de energia, vai reduzir-se significativamente. Mas o que lhe posso dizer é que a ENDE, em coordenação com o GPL, tem estado de facto a aumentar a prestação desse serviço, apesar dos cortes que se registam da responsabilidade da empresa que fornece o produto a montante. Acredito que a situação tenderá para melhor.

Angop: Tem se registado nos últimos meses crimes chocantes. Que análise faz sobre a situação?

GD – Bom as causas podem ser variadas, desde de natureza emocional, económica e outros mesmos que têm a ver com a própria educação das pessoas. Isto implica que a questão da criminalidade em Luanda não é apenas um problema da polícia ou dos tribunais, tem a ver com a própria organização da sociedade, com a moralização da sociedade e aqui teremos necessariamente de convocar outras profissões, como os educadores sociais, as igrejas, o reforço da autoridade paterna nas famílias e a própria educação moral e cívica da sociedade, o reforço do espírito de auto-censura por parte dos membros da sociedade luandense e, sobretudo, a cultura do respeito pelo outro, para nos ajudarem a enfrentar o problema.

Temos de lutar para uma sociedade mais solidária, onde o respeito pelo outro seja de facto o centro da actuação de cada um de nós, o espírito de auto-censura seja suficientemente elevado para criar esse equilíbrio, porque quando isso não acontece certamente assistimos os casos hediondos que acontecem na nossa sociedade.

Angop: Podemos dizer que Luanda é uma cidade segura?

GD – Sim, Luanda é uma cidade segura. Porque repare. Nós temos 6,5 milhões de habitantes num espaço bastante exíguo. Se formos analisar a estatística da criminalidade com o número de habitantes, veremos que pode não ser tão assustadora, embora o desejável é que não houvesse crime algum. No entanto, para que esta situação da criminalidade seja reduzida, temos de melhorar a mobilidade nos bairros, aumentar a iluminação nos bairros, reforçar o policiamento e reforçar o diálogo entre a população e a polícia. A população deve denunciar as situações criminosas e a polícia deve procurar autuar com a devida oportunidade quando situações delituosas são denunciadas, evitando casos de impunidade que podem eventualmente degenerar na justiça privada.

No último Conselho de Auscultação e Concertação Social, apelamos a polícia para que continue a aperfeiçoar os seus agentes no combate ao crime, para que se aproxime cada vez mais da população, dos líderes comunitários, religiosos, no sentido de todos nós formarmos uma espécie de um cordão na luta contra o crime.

Angop: Há bem pouco tempo, a polícia ensaiava mecanismos de instalação de vídeo-câmaras para vigilância na Província de Luanda. Em que situação está esse processo? 

GD – Nós temos ruas em Luanda em que estas câmaras já estão instaladas. O recurso às novas tecnologias ajuda a que não tenhamos muitos homens dispersos pela área metropolitana de Luanda e também vai ajudar no esclarecimento de muitos crimes que eventualmente venham a ocorrer e modernização aponta no sentido de que a colocação de câmaras na via publica é um investimento importante, porque vai permitir que nas áreas consolidadas elas desempenhem essa função de vigilância e podemos utilizar mais homens para acudir a periferia que naturalmente ainda não terá esse serviço no mais curto espaço de tempo.

Angop: Que esforços estão a ser empreendidos com vista a reabilitação das vias de comunicação na província, já que também tem sido uma das principais reclamações da polícia, sobretudo nas áreas peri e suburbanas?

GD – Temos em todos os municípios neste momento programas de intervenção nas vias terciárias e secundarias, se notar, por exemplo no município do Cazenga, existem já algumas ruas recuperadas; no município de Luanda o exemplo mais paradigmático é o distrito urbano do Kilamba Kiaxi. Visitamos recentemente Viana e notamos que existem algumas vias a serem recuperadas. Naturalmente que o trabalho que está sendo feito ainda não é na dimensão que desejaríamos em virtude dos recursos manifestamente insuficientes. O levantamento da rede terciária e secundária está feito. Na medida dos recursos, as administrações vão intervindo na criação de condições de transitabilidade nessas vias e no óptimo é intervir com obras de fundo com pavimentação, iluminação, saneamento, etc. mas creio que todos os meses, pelo menos, algumas artérias são reabilitadas na área periférica de Luanda.

Angop: Relativamente ao programa de combate à fome e à pobreza. Quais são os resultados mais palpáveis obtidos pelo GPL até ao momento?

GD – Só para lhe dar uma indicação, no período entre 2014 e 2015, sem citar município, em termos de trabalho concluído no programa de combate à fome e à pobreza, temos por exemplo 20 escolas construídas, 33 reabilitadas e adquiridas 19. Temos 36 unidades sanitárias construídas, 13 reabilitadas e compradas 11 outras; construídos 18 postos policiais, reabilitados seis e adquiridos três. No que diz respeito a chafarizes, foram construídos 469, postes de transformação de energia 872, visando a melhoria da vida dos cidadãos.

Angop: Como é que imagina Luanda até 2030?

GD – Uma Luanda moderna, próximo da Malásia ou da Singapura (risos).

Angop: Falando da mobilidade rodoviária em Luanda, atendendo aos congestionamentos que se verificam, há alguma política para que se desafogue um pouco a cidade?

GD – Luanda já tem um Plano Director Geral que aborda de modo integrado o desenvolvimento da província e os transportes é uma vertente que está abordada nesse Plano. As soluções técnicas estão desenhadas. Naturalmente que os recursos escasseiam para a sua implementação. Mas neste momento já existem obras a decorrer, como a questão do metro de superfície, a ligação ao novo aeroporto, a construção da via rápida para autocarros. Mas achamos que para se melhorar a mobilidade em Luanda é necessário que se distribua a actividade económica por todo o território da província. Neste momento, notamos movimentos pendulares, onde de manhã todos saem da periferia para o centro e à tarde o inverso. A periferia praticamente desempenha a função de dormitório, o que faz com que todos tenham que se deslocar para o centro da cidade para resolverem os mais variados problemas.

Agora se tivermos os serviços espalhados por toda província de Luanda não haverá necessidade de alguém que vive em Viana ter de vir a Luanda para levantar dinheiro, pagar uma multa, procurar emprego ou tratar um bilhete de identidade. Logo, é necessário que haja investimento na periferia, pulverizemos o desenvolvimento pelo território e evitemos ao mínimo possível os movimentos pendulares que actualmente notamos na nossa vida quotidiana.

Angop: Ainda relativamente a esta questão, o tempo da conclusão das vias Estádio 11 de Novembro/Estalagem e Benfica/11 de Novembro aprazados para 2016/2017, será cumprido?

GD – Bom, continuo a acreditar que estes timings serão cumpridos. No entanto, como a obra está a ser dirigida pelo Ministério da Construção, ela é a melhor propriedade para fazer referência a isto. Mas eu acredito nos prazos que foram anunciados e tudo está a ser feito para que estes prazos sejam observados.

Angop: Senhor governador, quanto mais acidentes maior é o número de mortes. Qual a sua opinião sobre o assunto?

GD – Somos 6,5 milhões (risos). Somos muitos num espaço bastante exíguo e é natural que quando acontece um acidente isso possa ocorrer, mas temos que continuar a investir na prevenção rodoviária e na colocação de mais agentes de fiscalização na via e evitar que pessoas alcoolizadas, desencartadas conduzam.

Angop: Que estratégias são gizadas pelo governo no sentido de evitar desastres em zonas de risco em tempos de chuva?

GD – Nós temos um plano provincial de contingência, que é actualizado todos os anos. Nós autuamos em cadeia. Há responsabilidades municipais, provinciais e responsabilidades do nível central. Por exemplo, sempre que ocorrem chuvas, o primeiro a autuar é o município. Se este se sentir incapacitado acciona a província e este, por sua vez, recorre ao Ministério do Interior.

No que diz respeito à prevenção de desastres, temos de continuar a insistir na educação das populações no sentido de não construírem em áreas de risco. Está em revisão alguma legislação para responsabilizar os chefes de família que edificam habitações em zonas de risco, porque põem em perigo a família para se evitar situações menos boas que ocorrem sempre que chove.

Angop: Não será que a fiscalização tem estado a falhar na prevenção das transgressões?

GD – Penso que não há fiscalização que seja suficiente para estar em todo lado e a toda hora. Acho que uma das grandes apostas que devemos fazer é na educação e consciencialização das pessoas; não podemos agir como se fôssemos irracionais. Há aqui uma anormalidade mental, porque é inconcebível que um chefe de família, sabendo do risco que corre, erga a casa em área de risco, pondo em perigo toda sua família. Tem de haver aqui a intervenção dos assistentes sociais e até mesmo de psicólogos.

Angop:  Luanda ainda tem zonas sem escolas?

GD – O que posso dizer é que as escolas nunca são suficientes, porque a população continua a crescer. Mas neste momento temos escolas espalhadas por todo território da Província de Luanda. Normalmente ocorre dizer que há muita criança fora do sistema de ensino, mas o que nós constatamos no dia-a-dia, todos os pais, mesmo não estando no sistema formal de educação, procuram sempre colocar o filho numa explicação ou em algum colégio e devem ser pouquíssimos casos em que os pais deixam o menor sem o acesso à educação, mas vamos continuar a trabalhar no sentido de aumentarmos a oferta de escolas, porque as crianças que não estiverem no sistema de educação poderão se tornar num problema social no futuro. Então estamos a lutar para que num futuro breve Luanda possa ser uma província sem crianças, fora do sistema de ensino.

Angop: Que abordagem pode fazer com relação ao fenómeno mata-aulas?

GD – Já abordamos esse problema no Cinema Atlântico com pais e professores, e o que podemos aconselhar é que eles são responsáveis pela construção do seu futuro e o futuro assemelha-se à vida do agricultor. Um agricultor que planta uma mangueira, colherá no futuro mangas e o que planta espinheira terá dificuldades em colher frutos.

Aqueles que são dedicados aos estudos, respeitam os professores, os pais e são bem comportados, Deus ajuda-os a terem um futuro mais risonho, mais brilhante. Aquilo que hoje os jovens pensam que estão na moda, amanhã poderão pagar com muitas lágrimas e muita tristeza. O seu comportamento actual e aí terão que recorrer aquilo que eu chamo “o santo se eu soubesse”, ou então aquilo que por vezes ocorre a um pai que enquanto jovem não estudou, não se dedicou ao trabalho e vê seu ex-colega na televisão agora ministro ou juiz e diz ao filho aquele foi meu colega, ao que lhe respondem e o papá porquê que não conseguiu? (risos).

Então penso que os jovens devem olhar para o futuro com responsabilidade, porque o seu bem-estar depende do empenho que tiverem hoje. Aliás, está escrito em variados livros que todos nós nascemos iguais e todos os dias Deus dá-nos uma riqueza que é o tempo. Deposita na conta seja do príncipe, seja do camponês, 24 horas. A forma como usamos as 24 horas vai determinar o nosso futuro.

Quando estudava, deram-nos uma lição que eu gostava muito, com o título "a cigarra e o gafanhoto". No tempo bom, a formiga trabalhou e a cigarra cantarolava; quando chegou o tempo ruim, a cigarra que passava a vida a cantar não tinha alimentação e foi bater a porta da formiga ao que esta perguntou o que se passava e dizia solícita que precisava de alimentos e a formiga retorquiu, dizendo: o que fazias no tempo da plantação (risos)? E ela respondeu; eu cantava. Por sua vez, a formiga disse-lhe; então agora dança (risos).

Os jovens que não se empenham na escola, se calhar no futuro vão atribuir culpas ao Estado, mas a verdade é que o Estado cria as condições periféricas e cada um de nós procura aproveitar ao máximo essas benesses. Portanto, é uma questão de atitude. Esta atitude mata-aulas é negativa e prejudica os próprios jovens. 

Angop: Como é que o governo está a controlar a ocupação ilegal de terrenos dos camponeses em Luanda?

GD – Este é um fenómeno que existe na Província de Luanda e nós estamos neste momento já organizados. Criamos um programa de regularização fundiária, em que em todos os municípios existem locais sob a orientação das administrações municipais para regularizar os terrenos daqueles que vivem nesses municípios. Queremos também determinar quais são as entidades competentes para conceder terrenos para evitar situações de burla e levar às barras da justiça aqueles que se dedicam a essas práticas de venda de terrenos que não são sua propriedade

José Eduardo Agualusa: “Não conheço alguém que em privado defenda o regime angolano"

Lisboa - O escritor, um dos rostos da luta pela democratização de Angola, diz, em entrevista à Renascença, que José Eduardo dos Santos já não tem dinheiro para calar a contestação. "Não tem alternativa: ou insiste neste percurso e vai acabar mal ou percebe que só sobreviverá abrindo o caminho à democracia".


Fonte: Radio Renascença


O escritor José Eduardo Agualusa nasceu em 1960 em Angola. A 11 de Novembro de 1975, quando Angola declarou a independência, era adolescente. Viveu esses primeiros anos da Angola independente com euforia, mas a guerra, as divisões internas e a falta de democracia matizaram o sonho.

Em entrevista à Renascença na sua casa, em Lisboa, o escritor diz-se optimista. Vê um “endurecimento” do regime de José Eduardo dos Santos, mas encara-o como o “canto do cisne”.

 

Nasceu com o país em guerra. Era adolescente quando Angola se tornou independente. O que recorda desses tempos?
Sim, era muito jovem, de facto, mas, naquela época, mesmo os mais jovens, adolescentes, participaram nesse movimento de euforia e de consciencialização que foi a independência. Lembro-me muito bem dessa época e de ter sentido uma grande alegria, que era o que toda a gente sentia. O sentimento geral era de que havia ali alguma coisa a começar, embora de forma errada, porque havia uma guerra começando também. Mas nós não tínhamos percepção nenhuma de que essa guerra iria continuar por tanto tempo. Não acreditávamos que a guerra pudesse durar muito tempo; acreditávamos, sim, que estávamos diante de todas as possibilidades, de todos os sonhos.


Acreditavam que a independência uniria o que nasceu dividido? 
Acho que sim. Foi uma época muito intensa. Recordo-me que havia esses confrontos, morria gente, mas, ao mesmo tempo, havia um sentimento geral de euforia.


Quando é que começou a desiludir-se ou a ver o sonho ficar mais matizado, menos sonho?
De uma forma geral, as pessoas nunca pensaram que a guerra se fosse prolongar durante tanto tempo. Havia sempre aquela ideia: "Para o ano a situação será melhor". Mas, ao mesmo tempo, aconteceram episódios que não foram apenas resultado de guerra. A seguir à independência, o regime era extremamente repressivo. Muitos amigos meus acabaram por ser presos. Mesmo estudando em Portugal, os meus contactos e as minhas companhias eram angolanos e alguns deles tinham passado por momentos difíceis.


Como é que essa percepção face à política e ao país tem evoluído nestes 40 anos?
Houve vários momentos. Houve momentos em que voltamos a acreditar, como em 92, quando aconteceu a paz e houve as primeiras eleições em Angola. Infelizmente, tem sido assim: há momentos de esperança e momentos de menos esperança. Mas também é importante dizer que ao longo desse tempo todo houve coisas que foram sendo construídas e que têm valor por si só. A independência é um valor por si só, a dignidade das pessoas não tem preço. Apesar de todos os contratempos e da má gestão política, a verdade é que muita gente foi para as escolas, se formou, etc.. Isso é uma realidade completamente diversa da realidade do tempo colonial. Evidentemente que a preocupação do colonialismo não era a melhoria do povo angolano.


Este aniversário fica marcado pela prisão dos 15 jovens, entre os quais Luaty Beirão. O que é que este caso revela? Por um lado, vemos uma inflexibilidade do regime; por outro lado, é impossível calar o impacto mediático e global da luta dos jovens. No meio disto tudo, como é que o José Eduardo Agualusa se situa: mais optimista ou mais pessimista?
Sou sempre mais optimista, creio. Todos os angolanos são optimistas. Acredito que estamos outra vez diante de um momento de viragem e que pode ser encarado com optimismo. Acredito que estamos a assistir ao fim de um ciclo. Acho que o regime angolano está a viver os seus últimos dias e o único caminho possível é o da democratização e da pacificação completa do país. Encaro com optimismo, embora também com alguma preocupação porque este período de transição que vamos viver, ou já estamos a viver, tem também muitos perigos.


Que perigos?
Há um endurecimento do regime, efectivamente, mas também há um movimento a favor da democracia que parece ter sido criado e que já parece estar a funcionar no terreno. E eu acho que não tem volta atrás. Instalou-se na sociedade angolana uma discussão intensa sobre democratização, sobre pacificação efectiva do país, sobre todos estes anos que o Presidente leva no poder. Acredito que, ainda que estejamos a assistir a um endurecimento do regime, esse endurecimento é já em si um sinal de fraqueza. Portanto, não me parece que haja grande alternativa se não abrir as portas a uma efectiva democratização do país.


Este endurecimento que diz existir é já o regime na defensiva?
Exactamente. É uma espécie de canto do cisne. O regime está confuso, não sabe como reagir. Estamos a ouvir todos os dias manifestações desencontrados, como esta do ministro do Interior, Ângelo Tavares [disse que Luaty é um “jovem que valoriza muito pouco o bem vida”]. O que traduzem é uma enorme perplexidade e confusão, o regime não sabe muito bem o que fazer, está confuso. Está a endurecer, a prender mais jovens, mas não pode continuar por esse caminho.
Não acredito que esse caminho seja possível. Não acredito que, com este tempo de crise que se vive em Angola, o regime tenha condições de se perpetuar porque este regime sempre sobreviveu redistribuindo dinheiro aos seus clientes. E neste momento o dinheiro acabou. O Presidente José Eduardo dos Santos não tem alternativa: ou insiste neste percurso e vai acabar mal ou percebe que só sobreviverá abrindo o caminho à democracia.


Não tem mais trunfos?
Ninguém segue o Presidente por questões ideológicas, ninguém segue o Presidente devido ao seu carisma ou por razões de amizade. As pessoas dentro e fora do país que apoiam o Presidente e que têm apoiado ao longo de todos estes anos têm-no apoiado por interesses económicos. Tão simples como isto. A partir do momento em que o Presidente não tem mais possibilidade de redistribuir esses fundos públicos pelos seus apoios, não me parece que tenha possibilidade de persistir no poder. Neste momento, José Eduardo está na mesma situação que estava Jonas Savimbi quando foi abatido – é um estorvo para o seu próprio partido, é um estorvo para o próprio sistema.


Ao falar que José Eduardo dos Santos pode “acabar mal", vai ao encontro da tese de Rafael Marques de que é urgente criar um quadro de transição?
Evidentemente que quem ter o poder de derrubar José Eduardo dos Santos não são 15 jovens estudantes, quem tem o poder para fazer isso são as pessoas do seu próprio partido e os militares. O que acontece é que há uma inquietação dentro do próprio partido. Uma situação dessas pode acontecer. Para evitar isso, o Presidente deveria assumir o papel principal de abertura, de diálogo com todas as forças políticas e sociais e avançar com um efectivo processo de democratização do país – convocar eleições e afastar-se a seguir.


Nestes anos em que tem sido uma das vozes críticas do regime, já foi alvo de represálias?
Acontece comigo o mesmo que acontece a todas as pessoas envolvidas neste processo de democratização do país e que manifestam opinião sobre o assunto. O regime tenta alcançar essas pessoas de todos os pontos de vista. Comigo também. Através da família, através de rendimentos da vida pública, etc.. Comigo é um pouco mais difícil, sou escritor, não dependo de Angola para sobreviver, é um pouco mais difícil exercer pressão económica sobre mim. Mas há outras formas de exercer pressão. Sobre a família, etc….


Que tipo de pressões?
Não vale a pena particularizar porque o que acontece comigo é o que acontece com toda a gente.


Mas são ameaças à integridade física ou outras, mais veladas?
Para quem tem emprego não se dá emprego às pessoas. Há sempre maneiras de tentar sufocar as pessoas, de tentar pressionar, mas comigo é um pouco mais difícil.


Foi um rapper que pôs, de novo, os olhos do mundo em Angola. Os escritores também têm um papel na luta pela democratização de Angola?
Os artistas de forma geral sim. O movimento começou por música, este movimento é iniciado nas ruas por vários rappers. Mas o movimento de solidariedade que se fundou a seguir e que se generalizou teve por base também jovens artistas angolanos – de todas as áreas: do cinema, das artes plásticas, da música, da literatura.

Os rappers têm impacto directo noutros jovens através das suas letras.

A música tem um impacto mais geral na sociedade, em particular numa sociedade como a angolana, que não tem muito acesso ao livro. Não são os escritores que têm grande impacto, quem tem maior impacto são os músicos. Sobretudo estes rappers, que têm presença nos musseques, nas zonas mais desfavorecidas, e que fazem da luta por uma maior justiça social o seu próprio trabalho enquanto artistas. Os rappers têm uma presença maior e uma capacidade maior de mobilização social.

Disse há pouco que há uma “inquietação” dentro do próprio partido no poder, o MPLA. Mas publicamente os diplomatas e responsáveis do governo argumentam que Angola é uma democracia.

Não, acho que o regime está muito isolado e que nem os próprios apoiantes do regime acreditam nesse tipo de argumentação. Defendem-na publicamente, mas em privado não a defendem. Não conheço alguém que em privado defenda o regime angolano. Mesmo da parte dos militantes mais acérrimos do regime, há esta percepção de que estamos a viver um fim de ciclo. Em privado essas pessoas reconhecem que é preciso mudar.


No jornal “Rede Angola” escreveu: “Como é que um jovem idealista, de coração puro, se transforma num tirano?” Referia-se a José Eduardo dos Santos. Consegue dar resposta à questão?
Infelizmente, vemos isso por toda a parte. Regimes como o angolano tendem a puxar pelo pior das pessoas. Democracias têm o efeito contrário: puxar pelo melhor das pessoas. É mais natural encontrar isso em regimes totalitários, mas acontece em todo o lado – pessoas que quando eram jovens eram idealistas e quando envelhecem tornam-se egoístas. Infelizmente, é uma espécie de linha da vida.


Subsiste a ideia de que o colonialismo português era mais benigno do que os outros colonialismos?
Essa ideia em si mesma é absurda. É como dizer: a cólera é melhor do que a peste. O colonialismo é em si um sistema perverso porque é um sistema de dominação de umas pessoas sobre as outras. O colonialismo português assumiu características especiais? Talvez, sobretudo porque Portugal era um país muito pobre e muitas das pessoas que foram para Angola eram pessoas de origem muito humilde e encontravam-se numa situação socialmente semelhante ao da maioria dos angolanos. E portanto era mais fácil as pessoas terem relações, terem filhos, casarem, etc..

No caso Luaty Beirão, Portugal foi criticado por não ser mais activo na defesa dos direitos dos activistas ao mesmo tempo que Angola também o criticava por ingerência.

Angola critica Portugal porque tem a percepção que o regime e o governo portugueses são frágeis. Angola tem essa percepção de que pressionando, chantageando o governo português, obtém resultados. E tem essa percepção porque historicamente tem sido assim. Faz isso com Portugal, mas não faz com o Brasil, não faz com os Estados Unidos. Angola critica Portugal porque Portugal se deixa criticar.


A crise económica em Angola não deveria mudar esse quadro?
A verdade é que mesmo antes Portugal tinha a faca e o queijo na mão. Sempre teve. Muitos dirigentes angolanos têm os seus bens em Portugal, processos que já deram processos judiciais. Portugal sempre teve uma posição muito frágil em relação a Angola e vai continuar a pagar por isso.


É o complexo de ex-colonizador?
Não tenho explicação, não sei explicar, sei que há uma relação muito diferente da que a que Inglaterra e França têm com as suas antigas colónias.

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