Quem é Quem

Victor de Carvalho, o novo DG adjunto do Jornal de Angola

Luanda - Nascido e feito homem em Portugal,  chegou à Luanda nos anos 90 como delegado da agência  Lusa. Aqui chegado “descobriu” o seu pai biológico, e acabou por se tornar angolano, não regressando mais  a  Portugal no fim da missão como representante da agência de noticia portuguesa. Seu pai de nome “Marques”, era a época um responsável do sector de publicidade do Jornal de Angola.

Fonte: Club-k.net

 Victor Manuel Branco Silva Carvalho, de sua graça,  deixou ao meio o curso de direito, em Portugal  dedicando-se a “full-time” a profissão de jornalista. Porém, na condição de correspondente da agência  Lusa, em Luanda, cobriu as negociações de paz entre o governo de Angola e a UNITA, em Abidjan, capital da Costa do Marfim, onde também conheceu uma autóctone local com quem veio a contrariar matrimónio. Ambos viveram na Maianga, e mais tarde na vila Clotilde.

 

Nos  tempos de  representante da Lusa, Victor Carvalho viveu durante muito tempo no Hotel Mundial, na rua Júlio Conselheiro de Vilhena, em Luanda, precisamente na mesma rua onde está situado o Folha 8, jornal para o qual iria trabalhar no futuro.

 

Do Folha-8 para Presidência da República

 

Ao desvincular-se da agência Lusa, que o trouxera a Angola, Victor Carvalho passou a trabalhar para o Folha-8, assumindo a chefia da redação, em substituição de Graça Campos.  Diz-se que a sua entrada no Folha-8, foi assinalada com a perda de certa qualidade do jornal, por efeito da saída de um grupo de redatores que iriam se juntar a  Graça Campos que estava num outro projecto “O Angolense”.

 

Contudo, no seguimento de desentendimentos com William Tonet, abandonou o Folha-8 e muda-se para outras publicações até ser chamado a colaborar no gabinete do então porta-voz da PR, Aldemiro Vaz da Conceição.

 

A sua mudança para a Presidência, foi visto como algo inédito no relacionamento entre o regime e os profissionais da  media privada. Até aos dias de hoje, há quem sustente  que ele terá sido recrutado enquanto chefe de redação do Folha-8, por Aldemiro Vaz da Conceição a quem  levava pequenos relatórios de todas as matérias que seriam publicadas , bem como o nome dos jornalistas.

 

Na prática, passou a ser um consultor do Gabinete de Estudos e Análises da Casa de Segurança do PR e, em particular, de Aldemiro Vaz da Conceição. No palácio  presidencial, era a figura que tinha a missão de distribuir comunicados de imprensa da Presidência da Republica aos órgãos de comunicação social.

 

Dai seria nomeado adido de imprensa nos Marrocos e mais tarde na capital Zimbabuena, até  ser chamado para se tornar administrador executivo das Edições Novembro e novo Director Adjunto do Jornal de Angola em substituição de Filomeno Jorge Manaças.

 

Enquanto esteve no estrangeiro como adido de imprensa Victor Carvalho colaborava para o Jornal de Angola assinado regularmente artigos sobre actualidade africana com o pseudónimo de “Roger Godwin”.

 

Particularidades 

 

No plano pessoal é  descrito  como uma pessoa educada, cortes e muito dedicada ao trabalho. Fala francês fluentemente. É apreciador de cigarro. A excepção do Gin, sua bebida prêferida, Victor Carvalho não faz uso de outro tipo de  bebidas alcoólicas.

Luaty Beirão, o herói insolente

Lisboa - Henrique Luaty da Silva Beirão, 33 anos, é o improvável herói de um movimento de democratização que cresce todos os dias, tirando o sono ao presidente José Eduardo dos Santos. O ativista está a mudar a História de Angola. No dia em que Luaty foi condenado a cinco anos e meio de prisão, republicamos livremente um texto de José Eduardo Agualusa, saído a 17 de outubro de 2015 na revista E, no qual o autor relata a importância do rosto mais visível dos 17 ativistas que Angola condenou a penas de prisão efetiva

*Eduardo Agualusa
Fonte: Expresso

Vivia-se em todo o mundo, e em particular no continente africano, a euforia da Primavera Árabe. A 17 de dezembro de 2010 um jovem tunisino, Mohamed Bouazizi, suicidou-se, ateando fogo ao próprio corpo, em protesto contra a injustiça social. A morte de Bouazizi deflagrou uma série de protestos, levando o Presidente Ben Ali a fugir para a Arábia Saudita apenas dez dias mais tarde. O movimento democrático propagou-se depois pela Argélia e Egito. Durante alguns meses os democratas dos países africanos sujeitos a regimes autoritários viveram a ilusão de que a Primavera Árabe floresceria em todo o continente.

 

Naquela noite, 27 de fevereiro de 2011, perto de três mil jovens juntaram-se nas instalações do Cine Atlântico, em Luanda, para assistir ao concerto de Bob da Rage, um jovem músico luandense radicado em Lisboa. O evento contava ainda com a presença de MCK e de Ikonoklasta, um dos nomes de guerra de Luaty Beirão, à época ainda pouco conhecido fora do universo do hip hop angolano. Era o primeiro concerto em Angola de Bob da Rage. O jovem músico lembra-se muito bem dessa noite: “Disse ao Luaty que entre o público estava um dos filhos do Presidente, o Danilo, que sempre foi meu fã.”

Então, sem prevenir Bob, que foi completamente apanhado de surpresa, assim como os organizadores do evento, Luaty subiu ao palco e mostrou porque escolhera o nome de Ikonoklasta. “Sou um kamikaze!” — Gritou, antes de se voltar na direção de Eduane Danilo dos Santos: “Senhor Danilo vai dizer ao teu papá. Não queremos mais ele aqui. 32 é muito. É muito! (...) Senhor Dino Matross, senhor Virgílio de Fontes Pereira, todos pro caralho! Paulo Flores deu aquela dica, explorador dos oprimidos — fora!”

Convocou então o público a participar numa manifestação a favor da democracia: “Tragam só panelas, tragam só mambos que não tenham agressão. Muito obrigado.”

A manifestação fora convocada semanas antes, de forma anónima, através das redes sociais, para o dia sete de março, na Praça da Independência. Luaty abandonou o palco, com o público enlouquecido, e Bob da Rage substituiu-o, atuando durante hora e meia. Quando finalmente saiu foi para discutir com Luaty: “Eu estava furioso. Hoje, sabendo tudo o que aconteceu a seguir, compreendo o que o Luaty fez e acho que fez bem. Mas naquela altura achei um desrespeito para comigo, para com os organizadores e até para com o filho do Presidente.”

Os dirigentes angolanos receberam a notícia sobre a desabrida intervenção de Ikonoklasta no Cine Atlântico com enorme susto. Alguns dos rostos mais conhecidos do MPLA desfilaram, aterrorizados, pelos estúdios da Televisão Pública de Angola, TPA, nos dias seguintes, enfatizando as enormes diferenças entre os países do Norte de África e Angola. Na intimidade não escondiam o espanto por verem alguém como Luaty, filho de um velho militante do partido, João Beirão, primeiro diretor da FESA, Fundação Eduardo dos Santos, a assumir posições críticas ao regime.

Dias depois, Luaty gravou e colocou nas redes sociais um vídeo a desculpar-se diante de Eduane Danilo, ao mesmo tempo que respondia aos que o acusavam de ser um “filho do regime”: “Eu chamo-me Luaty Beirão, sou filho de João Beirão, o primeiro diretor da FESA, Fundação Eduardo dos Santos, sou portanto, como me acusam, um filho do regime, mas não vejo porque isso me obrigaria a seguir a linha de pensamento do meu pai. (...) Tenho o meu próprio cérebro.”

 

Fez questão, contudo, de realçar que o pedido de desculpas não era extensivo aos dirigentes políticos que insultara. Lamentava apenas não ter citado mais nomes: “Quando temos uma elite governante que faz discursos com ameaças, sinceramente... A reação teve o mesmo peso e medida, da maneira que podemos fazer. Eu reagi, se houve um abuso do direito de liberdade de expressão, eu estou à espera, e entendo que num país com leis as pessoas que as violam tenham as suas consequências legais. A estas personalidades não sinto o dever de pedir desculpas.”

Nunca se soube ao certo quem convocou a primeira manifestação independente contra o regime de José Eduardo dos Santos. Provavelmente, estudantes angolanos na Europa. O que se sabe é que nesse dia apareceram na Praça da Independência apenas 12 jovens, logo detidos pela polícia. Um desse jovens era Luaty Beirão. Nos meses seguintes, Luaty organizou uma série de outras manifestações pacíficas, várias delas violentamente reprimidas pela polícia ou por milícias armadas, ligadas a altos dirigentes angolanos. No dia 10 de março de 2012, no bairro do Cazenga, em Luanda, cerca de quarenta manifestantes foram cercados e atacados por uma dúzia de homens empunhando bastões, facas e pistolas. Luaty foi para o hospital com uma ferida aberta na cabeça. O economista Filomeno Vieira Lopes, secretário-geral do Bloco Democrático, um pequeno partido político, sem representação parlamentar, mas com relativa influência nos meios intelectuais, procurou refúgio numa residência particular. As milícias forçaram a entrada na residência, agredindo-o com barras de ferro. As imagens de Luaty e de Filomeno Vieira Lopes, com os rostos ensanguentados e a roupa rasgada, provocou grande comoção e revolta em Luanda, inclusive em círculos próximos do poder.

Na manhã de 11 de junho de 2012, Luaty Beirão dirigiu-se ao aeroporto de Luanda. Iria viajar para Lisboa com o objetivo de participar numa digressão do grupo Batida, de que foi integrante, juntamente com Pedro Coquenão. Pouco antes de entrar no avião, um funcionário do aeroporto reconheceu-o, confessou a admiração que sentia por ele, enquanto músico e ativista cívico, e disse-lhe que vira dois polícias a mexer na sua bagagem. Ao chegar a Lisboa, muito nervoso, Luaty foi conduzido para uma sala onde o interrogaram. Na única bagagem que trouxera no porão, uma roda de bicicleta, foi encontrada mais de um quilo de cocaína. A polícia portuguesa terá recebido uma denúncia vinda de Luanda. O juiz de instrução criminal deixou Luaty sair em liberdade, após ter dado como provado que o músico fora vítima de uma cilada.

Não se conhece qualquer reação do Governo português perante esta situação. Vejamos: o Governo angolano tentou incriminar um cidadão que também é português, introduzindo ilegalmente cocaína em Portugal. O que fez Portugal? Nada. Portugal permaneceu em silêncio. Este episódio, que não mereceu grande interesse nem da imprensa portuguesa nem dos partidos na oposição, ilustra de forma exemplar o grau de submissão do poder político e económico em Portugal relativamente ao regime angolano.

A detenção em Luanda, no passado dia 20 de junho, de 15 jovens ativistas, acusados de tentativa de golpe de Estado não me surpreendeu, a não ser pelo teor da acusação. Poucos dias antes conversara com Luaty, no Facebook, a propósito de uma manifestação que ele estava a organizar. Era algo muito simples — um “buzinão”. Luaty e o seu pequeno grupo de “jovens revolucionários”, ou revus, como se tornaram conhecidos, pretendiam convencer o maior número possível de cidadãos a buzinarem, num determinado dia e hora, a favor da democracia e dos direitos humanos. Pediu-me um depoimento para apoiar a iniciativa e eu enviei-lhe um vídeo, acrescentando não acreditar muito na eficácia do protesto: “Há que ir tentando estas pequenas buzinadelas daqui, manifestações espontâneas dali” — respondeu. E acrescentou: “Temos de estar dispostos para arcar com as consequências da nossa insolência e esperar que cada uma destas pequenas iniciativas possa servir de gota de água, até fazer o copo transbordar. Temos estado a refletir sobre o day after, porque a fruta já está madura e temos de estar preparados para quando ela cair. Não podemos ser apanhados de calças na mão.”

O próprio Presidente da República, José Eduardo dos Santos, defendeu, num discurso pronunciado diante do Comité Central do seu partido, a dois de julho, a acusação de tentativa de golpe de Estado, comparando o sucedido com os dramáticos acontecimentos de 27 de maio de 1977, na sequência dos quais o regime de Agostinho Neto desencadeou uma vaga repressiva, de extrema violência, que custou a vida de milhares de angolanos.

A acusação de golpe de Estado baseia-se essencialmente em dois factos: quando foram presos, os jovens revus estavam a discutir a adaptação para língua portuguesa de um ensaio muito conhecido de Gene Sharp, “From Dictatorship to Democracy, A Conceptual Framework for Liberation”, o qual propõe uma série de estratégias de combate contra regimes autoritários por meios pacíficos. Sharp é um conhecido teórico pacifista, tendo sido já por quatro vezes nomeado para o Prémio Nobel da Paz. O livro, publicado em 1994, inspirou também alguns dos jovens egípcios envolvidos nos protestos que derrubaram Hosni Mubarak. O segundo facto apontado pelo Ministério Público angolano para apoiar a tese de tentativa de golpe de Estado é ainda mais extraordinário: os jovens estariam na posse de um documento, nem sequer produzido por eles, no qual se listam personalidades integrantes de um futuro Governo de Unidade Nacional.

 

Pedro Coquenão, 39 anos, conheceu Luaty em 2002. Na época, Coquenão realizava um programa na Rádio Marginal, o Radio Fazuma. Um dia recebeu uma mensagem de um ouvinte, Luaty Beirão. Não prestou muita atenção ao nome até tropeçar, meses depois, num tema, “Os Mosquitos Inofensivos”, a lembrar Fela Kuti, que o maravilhou. Ao ver os créditos percebeu que o tema era da autoria de Luaty e escreveu-lhe. Iniciou-se assim uma colaboração que se prolongou por alguns anos e teve como resultado, entre outros, o documentário “É Dreda Ser Angolano”, baseado no disco “Ngonguenhação” do conjunto Ngonguenha. Mais do que isso, aquela primeira troca de mensagens deu início a uma bela amizade: “Não é muito difícil gostar dele, concordando ou discordando do que pensa. Ouvimos muito o que cada um diz. Impressiona-me, ao visitá-lo na cadeia, abraçá-lo e sentir-lhe os ossos. Isso custa-me muito.”

Antes da intervenção cívica, antes da música, Luaty Beirão concluiu uma primeira licenciatura em engenharia eletrotécnica pela Universidade de Plymouth, no Reino Unido, e uma segunda, em Economia e Gestão, pela Universidade de Montpellier, em França. Após os estudos decidiu que era chegada a altura de conhecer o continente africano. Pareceu-lhe que a melhor maneira de o fazer seria viajando, por terra, de Marrocos até Angola. Fez-se à estrada com 115 euros no bolso, quatro T-shirts, três calções e um saco com dois quilos de frutos secos (Luaty é vegetariano). Contava com a solidariedade da gente simples que fosse encontrando no caminho e não se desiludiu. Quando entrou em Luanda, seis meses mais tarde, ainda lhe sobrava um quilo de frutos secos.

Em julho de 2012, Luaty deu uma entrevista ao jornalista Rafael Marques, publicada no site Maka Angola, durante a qual falou sobre esta viagem: “A minha intenção era palmilhar por terra o máximo de países africanos possíveis, beber da experiência, enriquecer-me espiritualmente. Eu não sou crente, mas acredito no ser humano, acredito que existe a bondade ainda suficiente para nos inspirar, para nos servir de combustível, para sermos também pessoas melhores. E isso para mim é que é a manifestação do divino. Porque não tenho religião, não acredito em Deus, sou ateu, mas acredito nos seres humanos. Então, foi essa busca da bondade do ser humano, essa partilha, esse encontro, que eu sabia que iria marcar-me de uma maneira que até hoje não percebo plenamente.”

Serena Mansini, irmã de Luaty por parte da mãe, recorda o maior sonho do irmão: “Ele sempre me disse que gostaria de sair de Luanda, e de ir viver para o interior de Angola. Quer construir uma escola no meio do mato, dar aulas aos miúdos, e ao mesmo tempo cultivar a terra, fazendo agricultura biológica. Durante aquela viagem por África ele parou um tempo no Gana, para fazer um pequeno curso de agricultura biológica.”

Serena, 23 anos, a viver em Lisboa desde a adolescência, foi a responsável por uma recente vigília, no dia nove de outubro, no Largo de São Domingos, destinada a chamar a atenção da opinião pública portuguesa para a situação do irmão e dos restantes presos políticos angolanos: “O meu irmão ensinou-me muita coisa. Aprendi com ele que uma única pessoa pode fazer a diferença. Quando um se levanta, vários outros o podem seguir.”

A prisão dos 15 jovens democratas desencadeou um movimento de solidariedade, estruturada a partir das redes sociais. Alguns dos mais ativos elementos desse grupo são rostos muito conhecidos da vida cultural angolana, como o ator Orlando Sérgio, o primeiro negro a representar o Othelo em Portugal; o artista plástico Kiluangi kia Henda, o escritor Ondjaki, o fotógrafo Rui Sérgio Afonso, os músicos Pedro Coquenão e Aline Frazão, a arquiteta e curadora Paula Nascimento e o cineasta Mário Bastos. Nos primeiros vídeos produzidos pelo grupo participaram personalidades angolanas como os músicos Kalaf Epalanga e Paulo Flores, o artista plástico Nastio Mosquito, e ainda figuras públicas de outras nacionalidades, como o escritor moçambicano Mia Couto, o cantor e compositor brasileiro Chico César, ou a espanhola Pilar del Rio, presidente da Fundação Saramago. O grupo organizou vários espetáculos, em Luanda e Lisboa, com o objetivo não apenas de chamar a atenção para a situação dos presos políticos mas também de angariar fundos que permitissem apoiar as famílias dos detidos.

Após o início da greve de fome de Luaty, e de mais três companheiros seus (os quais, entretanto, suspenderam essa forma de protesto), o movimento expandiu-se ainda mais, saindo das redes sociais para as ruas, sob a forma de um conjunto de vigílias, a última das quais, na noite do passado domingo (11 de outubro), foi interrompida pela chegada de forças policiais fortemente armadas.


Um aspeto interessante do “movimento revu” tem a ver com o facto de ter conseguido juntar jovens de classe média e média-alta, pertencentes a famílias dos círculos do poder, e jovens de origem humilde, como Manuel Nito Alves, preso pela primeira vez com apenas 17 anos, por distribuir T-shirts com frases contra o Presidente José Eduardo dos Santos.


Este é já o mais importante movimento cívico a emergir em Angola desde a independência, e o maior desafio enfrentado pelo regime desde o fim da guerra civil. Um pouco à semelhança de Luaty, um “filho do regime”, também muitos dos jovens ativistas que estão por detrás do amplo movimento de solidariedade que cresce em Angola são originários de famílias pertencentes aos círculos do poder político e militar. Nas redes sociais são cada vez mais frequentes os alertas e comentários contrários à atuação dos dirigentes angolanos, por parte de conhecidos militantes e simpatizantes do MPLA.

Ismael Mateus, um dos mais respeitados jornalistas angolanos, publicou na passada terça-feira, na sua página no Facebook, um texto que exprime muito bem a perplexidade e insatisfação de um grande número de angolanos, próximos do partido no poder, mas que não se reconhecem na forma como os dirigentes angolanos estão a enfrentar a presente crise: “Está muito claro aos olhos de todos que o nosso Governo, os nossos dirigentes não estão a saber lidar com a situação. Estão a seguir o caminho da manipulação, da mentira e da mania da perseguição. Em vez de enfrentar de modo adulto e responsável toda esta crise, o Governo está a portar-se como um pai autoritário que confrontado pelos filhos decide trancá-los em casa, para provar quem manda. Mesquinhices, meras mesquinhices, que podem pôr em perigo a estabilidade nacional. Querem-nos reféns do medo, o medo de falar, o medo de pensar, e agora até o medo de orar. Os nossos dirigentes revelam-se assim mais ingénuos do que imaginávamos, ao acreditarem que se consegue parar a força do povo com armas na mão. Um erro político crasso para quem tem a nossa experiência, e um grave problema de memória histórica, que os impede de ver a nossa própria lição, onde todo o poder militar colonial não conseguiu impedir o grito pela liberdade.”

Nos próximos dias, nas próximas horas, não se irá jogar apenas o destino de Luaty Beirão. Irá jogar-se também o destino de José Eduardo dos Santos. O Presidente angolano ainda vai a tempo de libertar todos os presos políticos e de retomar o processo de democratização. A cada hora que passa, à medida que se deteriora o estado de saúde de Luaty, deteriora-se também a imagem de José Eduardo dos Santos.

Espero que Luaty possa regressar a casa, muito em breve, para abraçar a esposa, a fotógrafa Mónica Almeida, e a filha, a pequena Luena, com apenas dois anos de idade. Não poderá tão cedo, imagino, cumprir o seu sonho de construir uma escola algures na Huíla, de onde é originária parte da família (tem também raízes em Aveiro), e dedicar-se ao ensino e à agricultura biológica. Mas será — já é! — um herói vitorioso. O que existe hoje em Angola ultrapassou a simples vaga de solidariedade com um grupo de jovens injustamente presos, para se transformar num verdadeiro movimento pró-democracia. O que quer que venha a acontecer, algo mudou para sempre. A História de Angola não será a mesma e Luaty Beirão faz parte dela.

Lúcio Lara, nacionalista e co-fundador do MPLA

Fonte: MPLA

Símbolo de coerência e integridade 

Estamos aqui, hoje, familiares, companheiros e amigos de longa data, militantes do MPLA e das suas Organizações Sociais e Associadas, distintas entidades públicas e da sociedade civil, profundamente consternados para  acompanharmos à última morada o Grande Nacionalista, Patriota e Militante Consequente do MPLA, Camarada Lúcio Rodrigo Leite Barreto de Lara,  que teve como nome de guerra “Tchiweka”.

MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES,

 

Cremos não existirem palavras que retratem, com a fidelidade que se impõe, a grandeza incomensurável do camarada Lúcio Lara, um ícone da luta de libertação nacional pela Independência e autodeterminação do povo angolano. Com o seu desaparecimento, o MPLA e a nação perdem um pilar da sua gesta heróica e generosa.

 

O camarada Lúcio Lara, filho de Lúcio Gouveia Barreto de Lara e de Clementina Leite Barreto de Lara, nasceu a 9 de Abril de 1929, na cidade do Huambo. Fez os seus estudos primários, secundários e universitários, no Huambo, Lubango, Lisboa e Coimbra, respectivamente.

O Camarada Lúcio Lara foi professor do ensino secundário, leccionando as disciplinas de matemática, física e química na Guiné-Conacri e em Portugal, onde a partir de 1949 participou em actividades patrióticas na Casa dos Estudantes do Império, de que foi dirigente em Coimbra, sob presidência do Saudoso Dr. António Agostinho Neto, com quem também formou o primeiro núcleo clandestino, antes da fundação do MPLA.

Com Agostinho Neto, Humberto Machado, Zito Van-Dúnem e outros patriotas angolanos e de outras colónias portuguesas em África, fundou o Clube Marítimo Africano, que era a capa para as actividades nacionalistas.

O camarada Lúcio Lara foi também co-fundador do Movimento Anti-Colonial (MAC), precursor do MPLA, que agrupou patriotas de todas as colónias portuguesas de então, nomeadamente Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Noémia de Sousa e Mário Pinto de Andrade. Em 1956, é cooptado para o efémero Partido Comunista Angolano.

O Camarada Lúcio Lara é co-fundador do MPLA, cujo manifesto foi divulgado em Luanda, a 10 de Dezembro de 1956.

O seu alto sentido patriótico, senso de justiça e repulsa pelo regime fascista colonial português, que reprimia os angolanos na sua própria terra, colocaram-no na lista negra da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). Assim, em Março de 1959, foge de Portugal, passando sucessivamente, pela então República Federal Alemã e República Democrática Alemã. Posteriormente, instalou-se em Accra, capital do Ghana, mantendo aí contactos com o Centro de Libertação Africana.

Firmemente empenhado na luta pela liberdade do seu povo, participou igualmente no segundo Congresso dos Escritores e Artistas Negros, em Abril de 1959 em Roma, estabelecendo contactos com o FLN argelino através de Franz Fanon, com quem planifica a preparação do primeiro grupo angolano de guerrilha.

Em Janeiro de 1960 chefiou a delegação do MAC (que mais tarde se transformou em Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional - FRAIN) à Conferência Panafricana de Túnis, onde consegue autorização para o MPLA e o PAIGC instalarem, na Guine-Conakry, pela primeira vez no exterior, os seus escritórios. Após a conferência, deslocou-se a Casablanca a convite de Mahjoub Seddick, Líder da União Marroquina do Trabalho, de onde segue para Conakry.

 

O Camarada Lúcio Lara integra em Conakry o primeiro Comité Director do MPLA,  com as funções de responsável da Organização e Quadros.

Em Conakry, Accra, Rabat e Argel participou em diferentes actividades relacionadas com a luta de libertação e em Brazzaville mantém contacto com o Camarada Manuel Pedro Pacavira, enviado do Presidente Neto, em Maio de 1960.

Em Julho de 1962 recebeu o Saudoso Presidente Neto, em Conakry, após a evasão deste de Portugal, sendo, posteriormente, chamado para Leopoldiville no quadro da  preparação da 1º Conferência Nacional, em Dezembro de 1962, na qual é eleito membro do Comité Director do MPLA.

Nos anos de 1962/63/64 realizou um intenso trabalho de organização nos Congos para o desenvolvimento da 1ª e 2ª Regiões político-militares do MPLA.

Assistiu à eclosão da Revolução das Três Gloriosas Jornadas de Agosto de 1960, no Congo Brazzaville, onde se instalou o Comité Director do MPLA, o seu novo quartel-general.

Participou na Conferência de Quadros realizada em Brazzaville, em Janeiro de 1964, que abordou a crise criada com a expulsão do MPLA de Leopoldville.

Em 1965 foi nomeado Comissário Político nacional, membro da Comissão Militar do MPLA e da Comissão Militar Especial, de apoio à 1ª Região Político-militar.

De 1964 a 1969 desenvolveu actividades no Congo, na frente de Cabinda, frequentou um curso militar expedito em Moscovo e, participou em diversas actividades de carácter internacional.

Em 1969/72 o Camarada Lúcio Lara foi para a 3ª Região, onde ocupou várias funções, sendo depois foi responsável da 2ª Região,  em Cabinda.

É de realçar que dentro da estratégia do então Movimento, o Camarada Lúcio Lara desenvolveu o Departamento de Educação e Cultura, promovendo, com uma equipa de professores, uma larga colecção de livros escolares.

Neste período integrou delegações presidenciais que visitaram a China, a Coreia, do Norte, o Vietnam, a ex URSS, a Bulgária, a Roménia e a Jugoslávia.

Fez parte da delegação que participou em 1970 na Conferência de Roma de apoio ao MPLA, Frelimo e PAIGC e acompanhou o Presidente Neto às exéquias de Amílcar Cabral,  em Conakry

Dadas as suas capacidades e habilidades diplomáticas, participou nas conversações de Kinshasa para os acordos com a FNLA, em Dezembro de 1972, bem como na 10ª Cimeira da OUA, em Addis-Abeba.

 

Em Agosto de 1974, participou, com o presidente Agostinho Neto, em Brazaville, na Conferência dos Países do Centro e Leste Africano que procurou remediar o insucesso do pseudo congresso de Lusaka.

Neste mesmo ano é eleito membro do Comité Central do MPLA na Conferência Inter-regional no Lundoji e participa na assinatura do cessar fogo com Portugal, nas chanas do Lunyameje.

Na sequência do derrube do regime fascista português, a 8 de Novembro de 1974, chefia a histórica primeira delegação do MPLA, recebida em apoteose em Luanda, por uma imensa multidão que se identificava com os ideias do Movimento, iniciando-se  assim, um grande e exitoso esforço de implantação do MPLA em todo o território nacional.

O histórico acontecimento paralisou Luanda. Quando a aeronave da  Zâmbia Airways  se fez a pista, no aeroporto de Luanda, então designado de Belas, a população rompeu as barreiras e invadiu a placa, ansiosa e entusiástica, para saudar os guerrilheiros, “os irmãos cambutas”, como também eram chamados.

A epopeia, em termos de mobilização e adesão, só seria superada com a chegada do Presidente do MPLA, Dr. António Agostinho Neto, no dia 4 de Fevereiro de 1975.      

Nos anos subsequentes, o Camarada  Lara, intrépido defensor dos ideais do MPLA,  trabalhou, incansavelmente, na mobilização dos diferentes sectores da sociedade angolana, para o reforço das suas fileiras e, para um enraizamento cada vez maior do Partido no seio do Povo.

Em 1955, o Camarada Lara contraiu matrimónio com Ruth Manuela Pfluger Rosemberg Lara, com quem teve 3 filhos - o Paulo, a Vanda e o Bruno, tendo com ela vivido até o seu desaparecimento físico em 20 de Outubro de 2000. O sentido solidário e humanitário do casal, levou-o a adoptarem outros filhos que cuidaram e amaram, não obstante as dificuldades em que viviam.

Em 1959, Ruth e Lúcio Lara foram os padrinhos de casamento de Maria Eugénia e Agostinho Neto, antigo companheiro da Casa dos Estudantes do Império, com o qual teceram uma amizade indestrutível.

 Pela posição de destaque que ocupava no aparelho central do MPLA, então Movimento, na sequência da proclamação da Independência Nacional, a 11 de Novembro de 1975, investiu, em nome do Comité Central e de todos os patriotas angolanos, o Camarada António Agostinho Neto, nas funções de Presidente da República Popular de Angola.

Com o desaparecimento físico do Fundador da Nação Angolana, Dr. António Agostinho Neto, coube, igualmente, ao Camarada Lara a honra de empossar o Camarada José Eduardo dos Santos, como Presidente de Angola, a 21 de Setembro de 1979.

 

A 10 de Dezembro de 1977 é eleito membro do Comité Central do MPLA Partido do Trabalho, no 1ª Congresso do MPLA, sendo posteriormente eleito membro do Bureau Político e do Secretariado do Comité Central, para a organização, tendo, também, desempenhado, interinamente, as funções de Secretário para o sector ideológico.

Em Janeiro de 1980, foi eleito presidente do Conselho Intergovernamental da Pana (Agência Pana-africana de notícias), cargo que exerceu durante 5 anos.

No mesmo ano foi eleito Deputado à Assembleia do Povo, pela província do Moxico, e eleito para a sua Comissão Permanente.  Em Março de 1986 assume as funções de 1º Secretário da Assembleia do Povo.

No 1º Congresso Extraordinário do MPLA Partido Trabalho, em 1980, é reeleito  membro do Comité Central, do Bureau Político e  Secretário  para  a Organização.

Na qualidade de Secretário do Comité Central em 1983/85, foi designado responsável pelos programas de emergência do Café e da Saúde.

A história jamais esquecerá a sua indelével ligação às jovens gerações, para quem deixa um grande legado,  e, particularmente, o seu profundo amor pelas crianças, em relação às quais, através da OPA-Organização dos Pioneiros de Agostinho Neto, não descurou o apelo para a sua educação  integral, dando destaque à necessidade de se cuidar, com intensidade, da educação patriótica, absorvendo os ensinamentos da história do MPLA e o exemplo do Guia Imortal Agostinho Neto.

O Camarada Lúcio Lara foi, sem dúvida, uma referência de humildade, de modéstia, não só pela sua forma de se apresentar e estar, como também pela sua entrega à causa do povo, amor à Pátria e ao próximo, valores que perseguiu na sua vida com indubitável verticalidade e determinação.

O Internacionalismo, princípio programático da luta do MPLA, constituiu também uma preocupação latente na gestão partidária e, sobretudo, na educação dos jovens.

Neste capítulo, o Camarada Lara dedicou especial atenção a ligação e trabalho com os jovens e crianças de outros pontos do mundo, através da participação nos Acampamentos de Pioneiros e do Movimento Juvenil e Estudantil Internacional.

Em reconhecimento às suas distintas qualidades de militante, nacionalista e combatente pela liberdade e democracia, o Camarada Lúcio Lara mereceu condecorações no País e no estrangeiro.

A nível do Partido, foram-lhe outorgadas a Medalha dos 50 anos do MPLA, a Medalha dos 55 anos do MPLA e a Medalha 10 de Dezembro, o mais alto galardão do Sistema de Distinções do Partido que ajudou a fundar, atribuído a personalidades que, de forma abnegada e reiterada, tenham contribuído, por mais de 40 anos, para a prossecução dos objectivos do MPLA.    

 

MINHAS SENHORAS, MEUS SENHORES

CAMARADAS:

Esta é a derradeira e sentida homenagem:

            Ao menino do Huambo

            Ao estudante de ciências Físico-químicas

            Ao líder juvenil da Casa dos Estudantes do Império

            Ao político forjado na clandestinidade

            Ao patriota convicto, de uma verticalidade ímpar

            Ao intelectual revolucionário  

            Ao  guerrilheiro irrepreensível das chanas do leste

            Ao  diplomata hábil na conquista de apoio aos  ideais do MPLA

            Ao chefe de família dedicado

            Ao pai exemplar, cuja postura sempre orgulhou os seus descendentes

            Ao companheiro e amigo

            Ao nosso Tchiweka, nome que adoptou em homenagem a Sua inditosa mãe.

Despedimo-nos hoje de um nacionalista da primeira hora, que ajudou a desbravar os tortuosos caminhos que os angolanos trilharam, com confiança e determinação, por isso, merecedor do título de precursor da Independência Nacional.

CAMARADA LÚCIO LARA

Com o peito a transbordar de mágoa, relutantes em aceitar a crueldade da morte que retirou esta relíquia do nosso convívio, eis-nos aqui, prostrados em tua homenagem, cientes de que os grandes como Tu, permanecem eternamente nos nossos corações e na memória colectiva .   

No momento em que nos despedimos dignamente de Ti, heróico combatente e militante incondicional, o MPLA e o povo angolano rendem profunda homenagem à Tua memória e, com a Bandeira estendida sobre o féretro em que repousam os Teus restos mortais, gritamos em uníssono.

 

 

 

CAMARADA LÚCIO LARA, PRESENTE

ADEUS, CAMARADA LARA

ATÉ SEMPRE!

O COMITÉ CENTRAL DO MPLA, aos 2 de Março de 2016

PortalMPLA/Sede Nacional do Partido

Sapalo António, idealizador, membro fundador e candidato a presidência do PRS

Luanda – A história triste deste político que nasceu a 15 de Setembro de 1962 é talvez semelhante ao do caro leitor. Nasceu precisamente no Luau, que no tempo de outra senhora chamava Teixeira de Sousa, hoje Móxico. Ainda na tenra idade, perdeu a sua progenitora. Se calhar é por isso que não lembra muito bem do seu rosto.

Fonte: Club-k.net

Tendo em conta a dramática situação, o seu pai biológico, forçosamente, entregou-o – após um consenso familiar por força de poucos recursos que possuía na altura – a um tio materno de nome Tchufulo Malengue, que era solteiro.

Nesta altura, o menino Sapalo não ficou somente distante dos braços e carícias do pai mas também da sua irmã mais velha que ficara aos cuidados do progenitor.  O seu tio materno, ou melhor, pai, como o mesmo faz questão de frisar que, na altura, vivia na comuna de Cazage, na província de Lunda Sul, levou-o no seu seio familiar.

Lá foi crescendo, crescendo até se tornar um valente pequeno homem que levava mensagens delicadas e perigosas aos guerrilheiros pertencentes aos movimentos de libertação que se encontravam nas matas a combater o colono português. Isto já na veste de coordenador comunal da Organização do Pioneiro de Angola (OPA), em Cazage.

Mas antes de se tornar o mensageiro dos guerrilheiros daquela região, o seu novo pai apresentou-o a sua nova mãe (de nome Joaquina), a quem talvez sente mais saudades que a sua biológica. E esta trouxe consigo um sobrinho de nome Eduardo Kuangana, o actual presidente do Partido Renovador Social.
 
Formação académica e profissionais
 
Na altura sua da transição para outra localidade, ou melhor, quando foi entregue ao seu tio materno no Luau, o seu progenitor esqueceu-se também de entregar a sua certidão de nascimento ao seu novo pai.

Razão pela qual, já na idade escolar, Malengue foi obrigado a regista-lo novamente uma vez que – como o próprio explica – na região onde se encontrava era palco de conflito armado entre o colono português e os guerrilheiros dos movimentos de libertação. Logo, era quase impossível a sair de Dala para o Luau onde havia ficado o seu documento.  Na sua nova identidade, Sapalo António já não era o filho dos seus pais biológicos, mas sim de Tchufulo Malengue e de Joaquina.   

Foi graça a este novo documento que ele fez o ensino primário em Cazage, no município de Dala, e secundário na cidade de Saurimo. Ensino médio (no Centro de Estudos Laborais) e superior na Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Mestrado (em Gestão Empresarial) pela Escola Brasileira da Administração Pública e Empresas (EBAPE) da Fundação Getúlio Vargas e doutoramento em Gestão Geral, Estratégia e Desenvolvimento Empresarial, pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresas – Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE- IUL), em Portugal.
 
Cargos partidarios 
 
Sapalo não vivia somente de estudos e trabalho, mas também da política que também foi o mundo do seu pai Malengue que servia de logístico dos guerrilheiros angolanos nas matas daquela região. Aos 12 anos, ele era coordenador comunal da OPA (Organização do Pioneiro de Angola) em Cazage, cargo que ocupou logo após 25 de Abril de 1974 até 1976.

Na altura, José Manuel [ex-vice governador do Moxico] ocupava o cargo de coordenador da JMPLA e era seu superior. A quando da saída deste para desempenhar um outro cargo no Moxico, Sapalo passou a coordenar os dois órgãos (OPA/JMLPA).

E nos anos que se seguiu ocupou os seguintes cargos:

- Coordenador da Comissão de Organização e Quadros - Núcleo da JMPLA – Centro de Estudos Laborais (CEL) 1985/87;
- Coordenador do Núcleo da JMPLA e representante da Célula do MPLA na COFA (Encodipa) /1987/89;
- Padrinho dos núcleos da JMPLA, nas empresas estatais Emproci, Condauto, Hotel Trópico e no Ministério da Educação/1987/90;
- Coordenador da Comissão de Justiça Laboral da Comissão Sindical da COFA/ 1987/89;
 
Criação do PRS

Para quem não sabia, Sapalo António é verdadeiramente o homem que idealizou e fundou o Partido de Renovação Social (PRS). Tudo começou em 1985, quando este decidiu fixar-se definitivamente em Luanda.

Com as malas feitas, este cidadão de 23 anos dirigiu-se ao aeroporto do Saurimo, para pegar o voo com destino a cidade capital. Tendo em conta o regime que se vivia na altura (do partido único) na antiga República Popular de Angola, ao passar pela segurança aeroportuária, este jovem foi convidado a entrar na sala do controle para ser minuciosamente revistado.

Durante o acto, lhe foi introduzido dedos no ânus com intuito de garantir que o mesmo não traficava diamantes para comercializar em Luanda. Esta acção deixou-lhe bastante revoltado e terá balbuciado: “Angola não pode continuar assim”. Nesta altura, ninguém ainda imaginava a brusca queda da poderosa União Soviética.  

Com os visíveis sinais da fragilização desta potência em 1988, Sapalo António procurou o seu primo (por afinidade) Eduardo Kuangana, um membro activo da segurança do Estado, para manifestar a sua ideia. Kuangana – conhecendo bem o perigo que corriam por manter esta conversa – hesitou e pediu mais tempo para reflectir sobre o assunto.  

Em 1989, com a queda da URSS, o actual presidente do PRS mobilizou António João Maxicungo. Enquanto que Sapalo António procurou uma segunda pessoa: Pedrito Cuchiri, que era director comercial da empresa “Grossista-Uee” do Bengo. Pedrito por sua vez mobilizou João Baptista Ngandajina (ex-secretário-geral do PRS) que estudava na escola nacional do MPLA. Este último também procurou mobilizar outras entidades para o projecto, dentre os quais o malogrado Luís Mainjala.

Nesta altura, Sapalo António contactou ainda o general Tchizainga, em sua casa. Este o aconselhou a falar com o José Carlos Ilenga. E este último terá sensibilizado  um grupo na comuna de Hoje-ya-Henda, no município do Cazenga, em Luanda, destacando-se o malogrado  Wassamba, que também fez a sua parte.

Porém, quando os ventos da democracia começaram a soprar para Angola, Sapalo António, coordenador do Núcleo da JMPLA e representante da Célula do MPLA na COFA (Encodipa), decidiu pôr em prática a sua ideia de mudança.

Foi assim que a 18 de Novembro de 1990, no bairro da burguesia [Alvalade], nasceu o terceiro maior partido da oposição angolana PRS, na residência de José Carlos Ilenga, o único ancião do grupo. E todos que estiveram nesta reunião se tornaram membros fundadores.

Quando já tudo estava em pratos limpos, alguns membros fundadores propuseram ao idealizador [Sapalo António] a liderar o partido, tendo declinado a favor do actual presidente. Preferindo apenas ficar com o simples cargo de secretário nacional para Organização e Quadros do PRS (pasta que ocupou até em 1995) e membro do Conselho Politico e do Comité Nacional do PRS [até então].

De 95 até aqui, este antigo vice-ministro da Indústria do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN), ficou apenas a dirigir o Departamento de Economia e Finanças do PRS.

Aliança com o MPLA
 
Com a entrada do eterno maior partido da oposição em Luanda, após o conhecido Acordo de Bicesse, o PRS – já dirigido por Kuangana – viu-se obrigado a formalizar uma aliança estratégica com o partido no poder (MPLA), isso é nas vésperas das primeiras eleições gerais em 1992, por causa dos discursos musculados do líder guerrilheiro da UNITA, Jonas Savimbi, que chamava outros partidos da oposição de “partidecos”.

Foi daí que a direcção do MPLA incumbiu Lopo de Nascimento, na altura secretário-geral, a formalizar uma aliança com os mais recentes partidos da oposição, dentre os quais o PRS, que declararam publicamente o apoio a candidatura de José Eduardo dos Santos, ao invés da UNITA.

“O apoio à candidatura de José Eduardo dos Santos, deveu-se as ameaças da UNITA e do seu líder que tratava-nos de partidecos e ameaçava excluir-nos forçosamente caso ganhasse”, revelou.

Na altura, a maior parte dos membros de direcção do PRS tinham menos de 35 anos de idade. Logo não podiam se candidatar a presidência da República, restando-lhes apenas a oportunidade de fazer parte da nova Assembleia Nacional. “Valeu apenas”, disse recentemente em conversa com o Club K.

Nestas eleições, o PRS conseguiu seis assentos na Assembleia que foram ocupados pelos deputados independentes que não eram militantes do PRS, a saber:
Circulo nacional – Paiva (em substituição de Eduardo Kuangana), António Jaime Chinguimbo e António Muachicungo;
Círculos provinciais: Lindo Bernado Tito e António Wanguiva (Lunda Sul); Domingos Tunga (Lunda Norte);

O sujeito em acção terá optado em ficar quase no último da lista dos deputados, tal como os outros seus companheiros da direcção do partido, por ingenuidade do próprio PRS que optara por adoptar uma estratégia de priorizar indivíduos que não eram militantes como forma a tornar mais credível as suas políticas de inclusão.      

Após estas eleições, o país voltou a mergulhar numa guerra sem fim. Tudo porque o MPLA recusou-se a partir para a segunda volta, sob alegação de que o seu arqui-rival político recusou os resultados divulgados pela Comissão Nacional Eleitoral. E o PRS viu-se a prolongar o seu sonho de estar na Assembleia da primeira República de Angola. Durante este período, a direcção do PRS apelou, insistentemente, o diálogo entre as partes desavindos. Mas não foi tido nem achado.   
 
A estreia a Assembleia Nacional e a aprovação da Constituição República de Angola
 
Após a morte (estranha) de Jonas Savimbi em Fevereiro de 2002, supostamente em combate, Angola realizou em 2008 as eleições legislativas. A UNITA, já fragilizado e marginalizado pelos órgãos de comunicação social do Estado, viu a reduzir surpreendentemente a sua bancada parlamentar para 16 deputados (contra 70 que tinha).

Quanto que o PRS viu a subir para oito o seu número de deputados, tornando-se assim o segundo maior partido da oposição e a histórica FNLA ficou para o terceiro. Foi nesta altura que Sapalo António (o número quatro da lista) pisou pela primeira vez nesta casa das leis e a direcção do seu partido o indigitou para cargo de presidente da Bancada Parlamentar.

Uma Assembleia totalmente desequilibrada, típico dos países dirigidos por ditadores, o PRS teve um papel relevante – que ficara registado para sempre na história política angolana – na comissão constituinte que elaborou e actual Constituição da República. Razão pela qual consta o seu nome na lista dos legisladores constituintes.   

Foi graça a este partido que hoje os membros da Sociedade Civil angolana convocam manifestações (vide art. 47º da CRA) com o intuito de protestar contra as más políticas – associada a corrupção doentia – do regime de Eduardo dos Santos.

Vale ressalvar que foi também graça a visão da bancada parlamentar do PRS que se introduziu na CRA o 217º (Autarquias locais), entre outros. Por este e outro, a bancada parlamentar do PRS se votou a favor.

“Não fomos compreendidos na altura, talvez seja por isso é que fomos penalizados nas eleições gerais de 2012. Mas hoje o povo reconhece que tínhamos razão”, disse Sapalo, realçando que “podíamos ter introduzidos mais artigos, mas a falta de visão de outros partidos por sermos minoria e mal compreendidos”.  
 
Foi também em 2012 que Sapalo António conheceu, infelizmente, outros dissabores da vida. Perdeu o seu segundo filho. O jovem foi raptado e morto, em Luanda, na última semana de Março de 2012.

Ao volante de uma viatura de marca «Toyota Fortuner», foram interceptados por meliantes armados, algures durante o trajecto de regresso. Durante dois dias a família não sabia nada sobre o paradeiro dos jovens, até que os corpos foram encontrados por trás dos muros do Cemitério da Camama. Entretanto, os meliantes foram detidos pela Polícia Nacional, com a viatura, em Malanje, e condenados com uma pena superior.

Apesar de tudo, este antigo vice-ministro da Indústria aceitou ser o director de campanha do seu partido (nas eleições de 2012) e os resultados alcançados foram desastrosas. Embora se diga que os referidos resultados foram fraudulentos.

PRS perdeu cinco deputados. Mesmo assim, na altura, quando os militantes deste partido pediam exigiam a demissão de Eduardo Kuangana, Sapalo apoiou a permanência frente deste partido.
 
Candidato a presidência do PRS
 
Os resultados alcançados nas eleições gerais de 2012 provocaram rupturas dentro da direcção do PRS. Vários membros de direcção que viram frustrados os seus sonhos de entrar na Assembleia Nacional abandonaram este partido, sob o pretexto de não compactuarem com a permanência de Eduardo Kuangana frente da organização que dirige há 25 anos.

Na altura, os desertores propuseram a Sapalo António a resgatar o partido. Mas este manteve-se neutro. Foi assim que dentre vários membros de direcção (incluindo os dois pesos pesados Joaquim Nafoia e David Já) e simples militantes preferiram se entregar ao MPLA e a UNITA.

A fim de salvaguardar os ideias que lhe levaram a arquitectar o Partido Renovador Social, este defensor acérrimo de federalismo – que retirou dos holofotes da política para se dedicar à docência, através do Instituto Superior de Ciências e Administração Humanas, de que é fundador – e tendo em conta o momento que se avizinha, decidiu arregaçar as mangas para salvar o partido de uma possível extinção a vista caso participar – de jeito que se encontra e com o Kuangana na liderança – as próximas eleições gerais a ter lugar no terceiro trimestre de 2017.

A ida de Sapalo à luta pela liderança terá sido também fruto de algumas solicitações de membros desta força política que não se conformam com o actual estado do partido. Eduardo Kuangana, até ao momento, ainda não se manifestou se concorre ou não à sua própria sucessão.

Vale salvaguardar que um dos objectivos da sua candidatura é reconciliar o partido com os militantes, torna-lo mais coeso e actuante de modo a resgatar a confiança e credibilidade popular.

 

Juliana Evangelista Ferraz, professora e autora do livro ‘Gestão e Inovar para Prosperar”

Luanda - A convidada desta edição é a elegante e simpática Juliana Evangelista Ferraz, uma angolana de 40 anos que dedica a sua vida a valores nobres como transmitir conhecimento, gerir pessoas e escrever.

Fonte: Mercado

No seu próprio auto-retrato, define-se como uma pessoa autêntica, persistente, porém muito teimosa e resiliente. “Considero-me uma pessoa corajosa, forte e também boa conselheira”, confessa.

Ao longo da sua vida, destaca a mãe como uma referência, “um modelo a seguir”, e da sua infância guarda boas recordações, momentos inesquecíveis vividos na companhia dos pais e dos irmãos mais velhos. Embora confesse que era muito tímida e fechada naquela altura. “Entretanto, cresci e tornei-me uma jovem comunicativa, e hoje falo de mais”, diz a professora sorrindo. Como tudo aconteceu? Juliana acredita que tenha sido consequência da maturidade que foi adquirindo ao longo do tempo.

O seu primeiro contacto com os livros foi quando começou o ensino primário numa das escolas nos arredores do Prenda, bairro onde nasceu e cresceu. Concluiu o ensino médio no IMIL (Instituto Médio Industrial de Luanda, Makarenco). Entretanto, Juliana emigrou para Portugal, onde ingressou na Universidade Internacional e se formou em Gestão de Empresas. Fez uma pós-graduação em Auditoria na Universidade Autónoma de Lisboa e um mestrado em Planeamento Empresarial na mesma instituição. Não satisfeita, sempre procurando mais na sua formação, a professora universitária apostou no doutoramento em Economia.

Percurso profissional, análises económicas

O seu percurso fez-se sempre entre dois sectores, as telecomunicações e o sector bancário. A sua primeira experiência profissional foi nos finais de 2004 na Unitel, na coordenação da área comercial daquela instituição.

Em 2007, foi trabalhar para o Banco Millennium Angola (BMA) como gestora de clientes. Depois de algum tempo, surgiu uma nova oportunidade, Juliana decidiu abraçar e aceitar o desafio.Entrou para a Angola Telecom como auditora interna, a empresa estava numa fase de reestruturação, e foi chamada para integrar uma taskforce. “Entretanto volto para Portugal e começo a fazer o douramento em Economia”, recorda.

Enquanto esteve em Portugal, a economista não ficou de braços cruzados. “Tive uma passagem pela PT Prol, uma das empresas do grupo Portugal Telecom, em que participei num projecto de recuperação de dívida.”

“Quando regressei a Angola, começo a trabalhar no Banco de Desenvolvimento de Angola, onde estou actualmente”, conta.

Ensino e opinião

Juliana Ferraz também gosta de escrever. É muito solicitada para emitir opiniões, e desde que se iniciou junto do Jornal de Angola que não mais tem parado. Desde revistas de economia à própria agência noticiosa nacional, a Angop, a nossa entrevistada vai partilhando o seu know-how.

E foi assim que Juliana foi coleccionando as várias matérias que havia publicado e surgiu a ideia de lançar um livro. Ideias compiladas e reestruturadas, e eis que surge a sua primeira obra, intitulada Gestão e Inovar para Prosperar. Tomou-lhe o gosto e hoje já está a meio caminho de um livro de bolso intitulado Os Dez Valores de Sobrevivência.

Porquê valores sociais? “Porque nós, como pessoas, se incorporarmos estes valores no nosso dia-a-dia, se os praticarmos, eles terão efeito na família, nas organizações, na sociedade e no mundo”, explicou.

A integridade, a sinceridade, o amor ao próximo e o respeito são valores que devem ser reais e o livro abordará estes valores e muitos outros.

Face à actual conjuntura, refere que há situações que não dependem somente da própria governação mas, sim, de um contexto geral, “é consequência do que se está a passar a nível mundial, ou seja ,com a crise do petróleo (que cada dia que passa está mais baixo), é claro que vamos ter problemas, uma vez que a nossa economia ainda é dependente desta commodity”, disse.

Mas Juliana Ferraz tem uma palavra para os mais jovens, aqueles que diante da conjuntura que o País atravessa sentem medo de arriscar 26
“É difícil começar nesta situação, mas, se o desafio é a diversificação da economia, todos nós temos de contribuir para que isto aconteça, e não irmos para sectores que dependem de matérias–primas importadas”. E diz mais: “Temos de ir para uma direcção em que a matéria-prima é adquirida cá, ir para um sector em que haja oportunidades, que já esteja massificado”, presume.

Perguntámos se se sentia uma mulher realizada, sem medo de errar. Juliana diz que não. “Acho que a realização plena nunca existe na totalidade, porque nós, quando atingimos uma determinada meta, queremos atingir outra e mais outra, mas estou a caminhar para lá”, assume. Juliana Ferraz contou-nos também que neste ano pretende terminar o seu doutoramento em Economia, publicar as obras que tem em carteira e continuar a publicar as suas opiniões económicas nos media nacionais e, quem sabe?, na rádio e na televisão.

Casamento e maternidade

Juliana Ferraz é casada e tem três filhos. Confidencia que tem uma relação muito boa com a família. “Os meus filhos são a minha vida, todo o meu projecto de vida passa por eles.”

Quando está em casa, aprecia ver um filme, ler um livro, gosta de ouvir música e, para se manter em forma, faz ginástica todas as manhãs. Gosta ainda de leitura diversificada, e o seu livro preferido é o Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, uma história que envolve o patriarca de uma família ao longo de várias gerações, repleto de drama, de emoções e muito mais. Um livro marcante. Dos países que conhece, Turquia, especialmente Istambul, marcou-a pela sua diversidade cultural. “É um país oriental mas ocidental simultaneamente, achei fantástico olhar para aquela estrutura, edifícios e torres construídas por pedras.”

Olhando para trás, Juliana afirma: “Não existe nada que eu tenha feito de que me tenha arrependido de ter feito, porque sou uma pessoa muito decidida em fazer as coisas”, realça.

“Tento viver a minha vida de forma a seguir certos valores, e faço questão de ser uma pessoa melhor todos os dias, tanto na vida pessoal como na vida profissional”, remata a nossa convidada, com a promessa de um novo encontro, dessa vez, só sobre o seu novo livro.

Silvestre Tulumba, empresário e testa-de-ferro de Paihama

Lisboa - Silvestre Tulumba Kaposse, é um antigo motorista de taxi  que depois de a sorte lhe bater as portas - pelas mãos do general Kundi Paihama – tornou-se num dos mais notabilizados empresários que opera no sul de Angola. Kaposse é oriundo de uma família pobre proveniente do município do Kipungo, província da Huíla, onde nasceu em 1981.

Fonte: Club-k.net 

Inicio nos negócios

 

Tulumba Kaposse começou como taxista na cidade do Lubango, atividade que desligou-se em 2002, altura em que se juntou a um tio Francisco Abílio Lumbamba. Ambos passaram a dedicar-se na compra e venda de viaturas   e tinham  como principal cliente o governo provincial da Huíla. Na sequencia de um mal estar ele  afastou-se do tio pondo também fim a parceria comercial.

 

Agora, trabalhando sozinho, Silvestre Kaposse estabeleceu contatos com um antigo amigo do seu falecido  avo que estava a trabalhar no governo central  como ministro da Defesa Nacional, de sua graça, Kundi Paihama. O então ministro disponibilizou-se a injetar  dinheiro no seu negocio de compra e venda de viaturas  concretizando assim a sua expansão, na região sul de Angola.

 

Ligações com K. Paihama.

 

Apesar de ser conhecido como o “sobrinho de Kundi Paihama”, a verdade é que ambos não tem nenhuma ligação familiar.  Paihama foi apenas amigo do avo de Silvestre Tulumba Kaposse , ambos oriundos do  Kipungo.

 

A fama de ser “sobrinho” de Paihama surgiu em Abril de 2006, quando Tulumba completou 25 anos de idade e convidou o general Paihama. Nesta festa que se realizou no restaurante Enigma, o general Kundi Paihama pediu a palavra para enaltecer o jovem   empresário  aniversariante  e  seus  irmãos apresentando-os  como se fossem seus netos.

 

Paihama teria dito mais ou menos assim “estes aqui são meus netos, estão a dizer que eles vendem droga e estão envolvidos nos negócios da camanga, quem meter-se com eles vai se ver comigo”.

 

Nesta festa estavam gerentes bancários e outros empresários locais. Desde então as pessoas ficaram com a impressão de que os irmãos Kaposse fossem familiares diretos de  Kundi Paihama.

 

Paihama e Tulumba tem agora uma relação bastante privilegiada e de confiança. Sempre que o general viaja para a cidade do  Lubango é escoltado por  três carros da empresa do jovem empresário que o apanha no aeroporto. Os irmãos Silvestre tornaram-se também gestores das empresas de Paihama, na província da Huila.

 

Em 2010, Tulumba teria encurtado os contatos com  Paihama e ao mesmo tempo se aproximou ao então presidente da Assembleia Nacional, António Paulo Kassoma. Neste mesmo ano, a empresa de Tulumba, forneceu viaturas para os funcionários da Assembléia Nacional, num acordo firmado com Paulo Kassoma.

 

Expansão dos negócios

 

Em 2007, Silvestre Tulumba e os seus irmãos criaram a empresa de transporte SRR (Silvestre, Rui, Rafael), cuja atividade para além de venda de viaturas, era a transportação de combustível da petrolífera estatal Sonangol, para as outras localidades de Angola, com realce as Lundas. Nas eleições de 2008, a sua empresa vendeu carrinhas usadas para a campanha do MPLA.

 

Em Junho de 2009, foi criada a empresa privada Serviços Executivos Aéreos de Angola, Limitada. (SEAA) na qual Silvestre Tulumba foi o seu gestor principal. Em Outubro, deste mesmo ano a Embraer, empresa de avião brasileira anunciou a venda de três jatos usados para a SEAA. Tulumba foi citado pela agencia Lusa, na altura anunciado as rotas que os aviões iriam fazer em Angola.

 

As aeronaves foram inicialmente usadas para apoiar os governos províncias mas depois a SEAA faliu e as aeronaves foram vendidas para a uma empresa angolana  Air26, do dirigente do MPLA, Frederico Cardoso. A Air26 foi a falência a poucos anos ficando sem se  saber sobre os destinos dos aviões.

 

Desavença com os irmãos

 

Em 2010, os irmãos começaram a ter desavença. Rui Silvestre, 32 anos de idade, desligou-se da SRR, cuja gestão passaria então para o seu irmão Silvestre  Kaposse. O desentendimento entre os dois começou quando Rui faz uma viagem a Namíbia e Silvestre, por sua vez, teria encontrado neste período, a   esposa a conversar com alguém num hotel, no Lubango. Este julgou que a cunhada estaria a atraiçoar e passou a hostilizar-lhe  expulsando-a do meio familiar. Quando Rui chegou ao país discutiu com o irmão advertindo-o que ele não tinha   competências para tirar a sua esposa de casa e desde então a relação entre ambos esfriaram-se.

 

Rui Silvestre ficou com a CONSTERRA – empresa de construção, que ambos partilhavam e  passou a trabalhar com o governador provincial de Benguela, Isaac dos Anjos tendo se mudado para esta mesma província.

 

Por sua vez, Silvestre Tumbula criou, neste mesmo ano, a holding S.TULUMBA - Investimentos e Participações, Limitada congregando as suas empresas. Criou a Sul-Motor e tem também a IMOSOUL, empresa que diz-se ter ganho o concurso para construção da nova centralidade da cidade do Lubango.

 

O gestor principal dos seus negócios é Jeremias Miguel, 43 anos de idade, natural do Cunene. É conhecido como o seu homem de confiança.

 

Encontro  com Presidente JES

 

Durante a campanha das eleições de 2012, o empresário Silvestre Tulumba organizou um almoço para uma delegação do MPLA, chefiada pelo Presidente Dos Santos que deslocou-se a província. O almoço foi realizado no hotel Serra Chela pertencente a Tulumba.

 

Neste dia do almoço, Silvestre Tulumba teve o privilegio de se sentar na mesma mesa ao lado de JES. Diz-se que desde então, sempre que há eventos promovidos pela presidência angolana ou pelo MPLA, em Luanda ele passou a ser convidado.

 

Estilo de vida e reputação

 

Desde 2013, que mudou-se para Luanda. Estendeu a sua rede de contatos e aproximou-se da deputada Tchizé dos Santos. Ambos vivem no mesmo condomínio, em Luanda apesar de se terem conhecido no Lubango.

 

Diz-se que gosta de estar no centro das atenções. A evidencia é apoiada nos seguintes pontos a saber:

-           Nas eleições de de 2008, ofereceu a cada governador provincial uma viatura de marca Land Cruizer.

-           Em Outubro de 2011, ofereceu 30 mil dólares a cada jogadora de basquetebol da seleção feminina de Angola que foram consagradas campeã africana.

-           Em Abril, deste mesmo ano, por ocasião da data do seu aniversario, no Lubango, convidou vários dirigentes do MPLA e Ministros idos de Luanda, muitos dos quais não eram conhecidos seus. Tulumba responsabilizou-se pela hospedagem no seu hotel Serra da Chela.

- Tem a sua disposição um avião Falcon, usado para fins particulares. Pelo menos é com este avião que teria efectuado uma viagem para os Estados Unidos da América.

 

De acordo com pareceres de figuras próximas, Tulumba, é uma pessoa que desaprecia ouvir conselhos. Porém apesar de ter estudado até a oitava classe, os amigos admiram o seu gesto de ter apostado na formação acadêmica dos seus irmãos mais novos despachando-os para o exterior. A saber: Rui kapose (Estudante de direito), Rafael Arcanjo Tchiongo Kapose, Severiano André Tyihongo Kaposse “Chi” (formado em gestão no Dubai), Felix Kapose (Estudante em Portugal), e Jurema.

Horácio Dá Mesquita, o nacionalista que moveu um processo contra o DG do Jornal de Angola

Luanda - Horácio Dá Mesquita, o homem que poderia nunca ter sido soldado se não driblasse a asma no seu baptismo em Cabinda às mãos do lendário comandante Margoso, é hoje um ex-soldado, além de uns quantos ex-quase pela frente: ex-quase oficial superior, ex-quase reformado, ex-quase não vivo… A sua história preenche, com uma facilidade incrível, um bom guião cinematográfico.

*Luis Fernando
Fonte: O Pais

Depois que a Independência foi proclamada (também com o seu pequeno grão como contributo), deambulou por aí, preso a novos compromissos de guerra. Alguns dos seus camaradas de Kifangondo, Panguila, Barra do Dande, Libongos e Caxito – como o comandante Ndalu – seguiram para Norte, em perseguição do inimigo derrotado às portas de Luanda. Ele, sujeito às contingências operacionais do período, rumou para o Hebo, na frente Sul.

Trocou o perigo zairense/português/ FNLA pelo perigo sul-africano/UNITA e marchou. Foi instructor metódico. Pelas suas mãos passaram homens que viriam a ser grandes no futuro exército do país finalmente pacificado. Alguns deles são generais hoje. Mas mal aceita falar desse outro capítulo de uma vida cheia de esquinas e reentrâncias. Por modéstia, quiçá. Ou pela dor que lhe ficou por não ter podido seguir em frente como soldado do povo. Porque a asma, essa, voltou a atacar com força um dia. Em 1977, dois anos depois da Batalha de Kifangondo, o homem do palpitante percurso iniciado em Cabinda para responder ao apelo de Neto, abandonou os quartéis. A asma, sórdida e cruel, vencera! Hoje vive como muitos outros ex-soldados de diferentes latitudes. Revivendo a guerra sem se deixar acorrentar pelas horas mais trágicas e os episódios mais funestos.

Tornou-se um civil a tempo inteiro, amando como amam os ex-soldados que abraçaram carreiras firmes noutros domínios da vida: com intensidade, sempre! Decidiu viver a beira do mar, em Cacuaco, entre o bater das ondas e as histórias de pescadores que ainda lançam redes. Ali perto, nunca se esquece, combateu ele quando o país parecia que ia soçobrar antes de o ser.

Faz carreira no Banco Nacional de Angola trabalhando como consultor do governador para a área do Património, Emissões e Comunicação Institucional. Agora como durante vários anos antes, mantêm funções nas Edições Novembro, a empresa que produz o Jornal de Angola, onde – confessa entre sorrisos – lhe são feitos os descontos para a Segurança Social para a reforma que, com os anos, chega. Os tempos de jovem, de soldado em Kifangondo, ficaram para trás. Há muito!

O canhão que nunca serviu

Em todas as guerras, as grandes batalhas estão sempre rodeadas de façanhas verosímeis mescladas com relatos fantasiosos, como se os soldados precisassem desse ardil espiritual para espiaram os seus próprios demónios e fantasmas. A Batalha de Kifangondo, sem dúvidas a mais estrondosa e emblemática dos tempos prévios ao nascimento da República Popular de Angola, tem os seus interstícios que se equilibram entre a verdade que se questiona e a lenda que se cria.

O soldado que nos guia pelos labirínticos caminhos de há 37 anos atrás, Horácio Dá Mesquita, ficou com uma pulga colada à orelha quando na conferência sobre a Batalha de Kifangongo (referida por diversas vezes no seu trepidante depoimento) se falou num mítico canhão que teria feito parte do arsenal mobilizado pela FNLA para vergar a resistência das FAPLA às portas de Luanda. Exprimiu assim as suas reticências: “Bom, são coisas que ficámos agora a saber, se são verdades ou não…sabe como é a guerra.


O general Tonta de Castro disse durante a conferência que eles tinham um canhão de fabrico coreano, de grande calibre que, na óptica deles, teria resolvido a seu favor os combates. Por deficiente manuseio, disse, no seu primeiro e único disparo, o canhão explodiu matando tudo em seu redor, estilhaçando inclusive os vidros do seu jeep que se encontrava a uma distância considerável.

Além desta história do canhão, ficámos também a saber pelo general Tonta que do outro lado não havia um comando único, havia o comando das forças zairenses, o comando das forças do coronel português Santos e Castro e ainda o desalento dos sul-africanos que haviam desembarcado no Negage, província do Uíge, em dois aviões Hércules C 130 e depois foram recolhidos por duas corvetas com as suas peças de 140 mm”.

REPÓRTERES DE GUERRA?

Horácio Dá Mesquita disse-nos que é um mito a ideia de que terão andado pela frente de Kifangondo jornalistas a cobrir a guerra. É seco, cáustico e peremptório: “Não houve repórteres de guerra; encontrei sim um pequeno grupo no intervalo dos combates em Kifangondo, numa única ocasião, onde se destacava o Francisco Simons. Mas ficaram pouco tempo, tiveram de se retirar por ordem do Estado-Maior, pois não havia como garantir a sua segurança”.

O versátil Horácio Dá Mesquita

Há pessoas que nasceram para percursos extraordinários e o Horácio Dá Mesquita, um velho amigo meu, é uma delas. Somam já muitos os anos em que tenho esse frenético homem de mil ofícios como uma das minhas maiores fontes de inspiração, de controlo da adrenalina e de doseamento do humor, além de variadíssimos outros labirintos para os quais ele consegue sempre arrastar os que lhe são próximos.

O Horácio é uma figura. Começa pelo nome. Não conheço mais ninguém que tenha Dá como apelido, elemento de ligação ou lá o que isso seja. Logo por aqui se vê que detesta vidas simples pois bastaria ter optado por uma combinação mais comum e rotineira para que lhe estragassem menos vezes o nome. Encontrou a melhor maneira de passar o tempo nas repartições do Estado a reclamar com os erros em certidões, BI, certificados, diplomas, atestados de residência e demais papelada oficial, num tempo em que um familiaríssimo Francisco Manuel se escreve Franssisco Manoel pela dolorosa falência de métodos e saberes de muitos dos actuais servidores da administração pública. Se um dia o Horácio Dá Mesquita se desse ao trabalho de escrever a sua autobiografia, já se sabe que resultaria dali um desses volumosos calhamaços que nunca se terminam de ler e dão sempre um jeito providencial nas entrevistas dos jornalistas impertinentes, quando do nada se lembram de perguntar qual o livro de cabeceira.


Como é enorme, com largas centenas de páginas, ninguém leva a mal se se andar anos a dizer que a leitura ainda não terminou. A lista de coisas que o Horácio não faz é espantosamente pequena. Assim, de repente, lembro-me apenas que ele não tripula aviões, não é médico nem é pirata dos mares da Somália. Fora disso, está em quase tudo.


Conheci-o na década de 90, era eu director do Jornal de Angola e pessoa amiga pediu-me que lhe desse uma oportunidade como editor de um suplemento para miúdos. Muito antes, ainda nos meus tempos de bolseiro em Cuba, nos anos oitenta, colegas cabo-verdianos já contavam façanhas do homem no universo das letras e do jornalismo do arquipélago. Depois que se entra no mundo do Horácio, entregamo-nos a um nunca mais acabar de surpresas. Vivi e continuo a viver essa alucinante viagem ao desconhecido, descobrindo o meu amigo ora aqui, ora ali, ora acolá, sem mais fôlego para transmitir-lhe palavras de espanto ou surpresa, que se tornaram redundantes. No dinheiro que os angolanos usam todos os dias para as suas transações correntes, está lá a marca do Horácio Dá Mesquita. Os selos do pós Independência foram quase sempre pintados por ele.

O único livro que tenho ilustrado – Antes do Quarto – foi uma experiência só possível com um génio como ele por perto. Sentamo-nos no quintal de sua casa em Cacuaco, junto ao mar, e eu lia-lhe os primeiros parágrafos de cada uma das crónicas do manuscrito. Em rápidos segundos, ele captava a ideia e a uma velocidade assombrosa, fazia os desenhos. Certo dia, ligado à TPA, via uma actuação dos Kiezos. Pareceu-me descobrir entre os integrantes um rosto meu velho conhecido: “aquele aí não é o Horácio?” E era! Desconhecia, em absoluto, a sua veia de músico. Soube depois que tocava concertina, piano e dicanza. Para as coisas da tradição, o Horácio tem uma vocação singular e um respeito rígido. Quando há uns anos decidiu constituir família com uma simpática conterrânea minha, a Juliana, convidou três ou quatro amigos que preza e fez-lhes subir a colina de São José para testemunharem a cerimónia do alembamento. Um deles era eu e os outros, as Dras Maria do Carmo Medina e Ana Maria de Oliveira. Ando a pensar sentar-me com ele um dia para fazermos a lista dos seus mil ofícios. É quase seguro que ficarão por incluir uns quantos, ou porque não há registo que consiga ser tão abrangente, ou porque o esforço meio senil de dois velhos amigos encontre na quebra de memória um obstáculo pior que o Himalaia.

Publicado aos 9 de Novembro de 2012 pelo Jornal "O País"

Horácio Roque: as aventuras do fundador do Banif - In Memória

Lisboa - Em 1964, seis anos depois de partir para Angola com 14 anos, Horácio Roque voltou ao Mogadouro, para pagar os três contos e seiscentos (hoje 1.268 euros) que o pai lhe tinha dado para pagar o bilhete para Luanda e os 520 escudos (206 euros) que a mãe lhe tinha posto na algibeira. O jovem, que tinha começado como marçano na charcutaria Pérola de S. Paulo, estava agora bem na vida.

Fonte: Sábado

Aos 16 anos trocara a charcutaria pelo café Palladium e dois anos mais tarde, dois fazendeiros portugueses de café propuseram-lhe sociedade na cervejaria Munique.

Enquanto geria a Munique, o jovem contratou um professor para ter aulas particulares de forma a prosseguir os estudos. Chamava-se Viriato e, para ganhar mais dinheiro, improvisara um colégio em casa. Horácio Roque propôs-lhe abrir um colégio a sério. O negócio revelou-se de tal forma rentável que dois anos depois abriu o colégio Universal, dois institutos e um outro com cursos práticos. Arranjou mais sócios e lançou também o colégio Verney, em Moçambique.


O já empresário expandiu-se para outras áreas. Vendia de tudo: produtos de beleza alemães, vinho, medicamentos e perucas de Hong Kong. 

Dez anos depois de chegar a Angola deparou-se porém com os primeiros problemas. Ao abrir o terceiro colégio, as inscrições de alunos ficaram aquém do esperado e acabou por se endividar junto dos bancos e de amigos. Mas em 1967 deu a volta, fazendo um levantamento dos alunos com dificuldades. Contactou-os um a um e eles apareceram às centenas. Foi o suficiente para pagar as dívidas e regressar aos negócios, expandindo-se para o imobiliário e comprando o seu primeiro restaurante de luxo, o Farol Velho, na Ilha de Luanda.

Horácio Roque acreditava que Angola ia continuar a desenvolver-se sem parar. "Foi o maior erro da minha vida", confessou mais tarde. Em 1975, a mulher partiu com a filha para Joanesburgo. O empresário ficou até 1976. Os colégios acabaram por fechar, restou o restaurante, o preferido dos generais do MPLA e do governo, com quem mantinha boas relações. Mas não era aquela Angola que queria. Partiu para a África do Sul a jurar que não voltaria nos 10 anos seguintes. (Não foram 10, mas 17. Só regressou para resgatar a mulher, partidária da UNITA, presa pelas forças do MPLA.)

Durante um ano, o empresário viajou pelo mundo à procura do próximo negócio e sem saber exactamente o que ia fazer. Por fim, instalou-se na África do Sul, onde viviam perto de um milhão de portugueses. Com os contactos certos, começou a investir em múltiplas áreas: seguros, imobiliário, análises clínicas. Adquiriu o jornal O Século de Joanesburgo e uma gráfica. Esses negócios funcionam quase todos ainda hoje, sob a liderança da sua segunda mulher, Paula Caetano.

Aproveitou também a escassez de produtos em Moçambique e começou a exportar bens de primeira necessidade para a antiga Lourenço Marques. Entretanto, conheceu Joe Berardo, um madeirense que tinha emigrado para África do Sul com 19 anos e que fez fortuna com minas de ouro, entre outros negócios. Tornaram-se inseparáveis.

Renascer na África do Sul


Todas as quintas-feiras se encontravam na Academia do Bacalhau, um clube restrito criado por Durval Marques, presidente do Bank of Lisbon and South Africa, que queria fidelizar empresários que estavam a enriquecer na África do Sul.

Com a ajuda de Joe Berardo e Durval Marques, Horácio Roque financiou uma rede de laboratórios clínicos que mais tarde vendeu a uma farmacêutica multinacional. Abriu uma corretora de seguros, uma agência de viagem para os portugueses que viajavam frequentemente para Portugal e para a América Latina, e uma imobiliária que vendia casas em Lisboa e no Algarve a imigrantes.

Bem relacionado, em 1982 Horácio Roque tornou-se uma figura crucial na libertação dos presos políticos portugueses da UNITA na Jamba.

No dia 5 de Abril, uma comitiva de 22 pessoas embarcou num avião militar rumo à fronteira junto à Jamba. Apesar de nunca se ter envolvido na política, Horácio Roque sempre foi um negociador hábil, com boas relações com o poder, nomeadamente com Jonas Savimbi, graças à mulher Fátima Roque, muito próxima da UNITA, com o próprio regime do apartheid e o governo português.

Quando chegaram ao local combinado, o empresário português foi recebido com um cumprimento afectuoso. Percebeu-se que não era um estranho para Savimbi. Os presos foram libertados.

 

Um dos últimos episódios em África contados na biografia é a visita de João Soares a Angola: "O Zedu (José Eduardo dos Santos) convida-me para ir lá dar um recado ao Savimbi, para lhe pedir calma. O Savimbi também me convida. Não disse a ninguém que ia", recordou.

Quando o político português chegou a Joanesburgo, ninguém estava à sua espera. Tinha o número de Horácio Roque, que não conhecia, e ligou-lhe. "Ele disse-me para esperar e foi buscar-me." Entretanto foram avisados de que houvera uma ofensiva militar e o empresário aconselhou João Soares a ficar mais uma noite, prometendo levá-lo a um sítio muito divertido: Sun City, uma espécie de Las Vegas para pretos e brancos. Foram de Rolls Royce, na moda naquele tempo. O filho do antigo Presidente português regressou mais tarde a África, onde teve um acidente de avião e quase morreu: ficou 15 dias a convalescer em casa de Roque.

Nos anos 80, o empresário voltou a Portugal, e com Joe Berardo salvou a Caixa Económica do Funchal da falência, transformando-a no Banif. A 15 de Janeiro de 1988 tornou-se presidente do conselho de administração do banco.

A ambição, confessou numa entrevista, era "não passar despercebido, ser reconhecido e que me respeitassem." Morreu em 2010.

* Este artigo foi publicado inicialmente em Julho de 2015 na SÁBADO. 

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