Quem é Quem

Juliana Evangelista Ferraz, professora e autora do livro ‘Gestão e Inovar para Prosperar”

Luanda - A convidada desta edição é a elegante e simpática Juliana Evangelista Ferraz, uma angolana de 40 anos que dedica a sua vida a valores nobres como transmitir conhecimento, gerir pessoas e escrever.

Fonte: Mercado

No seu próprio auto-retrato, define-se como uma pessoa autêntica, persistente, porém muito teimosa e resiliente. “Considero-me uma pessoa corajosa, forte e também boa conselheira”, confessa.

Ao longo da sua vida, destaca a mãe como uma referência, “um modelo a seguir”, e da sua infância guarda boas recordações, momentos inesquecíveis vividos na companhia dos pais e dos irmãos mais velhos. Embora confesse que era muito tímida e fechada naquela altura. “Entretanto, cresci e tornei-me uma jovem comunicativa, e hoje falo de mais”, diz a professora sorrindo. Como tudo aconteceu? Juliana acredita que tenha sido consequência da maturidade que foi adquirindo ao longo do tempo.

O seu primeiro contacto com os livros foi quando começou o ensino primário numa das escolas nos arredores do Prenda, bairro onde nasceu e cresceu. Concluiu o ensino médio no IMIL (Instituto Médio Industrial de Luanda, Makarenco). Entretanto, Juliana emigrou para Portugal, onde ingressou na Universidade Internacional e se formou em Gestão de Empresas. Fez uma pós-graduação em Auditoria na Universidade Autónoma de Lisboa e um mestrado em Planeamento Empresarial na mesma instituição. Não satisfeita, sempre procurando mais na sua formação, a professora universitária apostou no doutoramento em Economia.

Percurso profissional, análises económicas

O seu percurso fez-se sempre entre dois sectores, as telecomunicações e o sector bancário. A sua primeira experiência profissional foi nos finais de 2004 na Unitel, na coordenação da área comercial daquela instituição.

Em 2007, foi trabalhar para o Banco Millennium Angola (BMA) como gestora de clientes. Depois de algum tempo, surgiu uma nova oportunidade, Juliana decidiu abraçar e aceitar o desafio.Entrou para a Angola Telecom como auditora interna, a empresa estava numa fase de reestruturação, e foi chamada para integrar uma taskforce. “Entretanto volto para Portugal e começo a fazer o douramento em Economia”, recorda.

Enquanto esteve em Portugal, a economista não ficou de braços cruzados. “Tive uma passagem pela PT Prol, uma das empresas do grupo Portugal Telecom, em que participei num projecto de recuperação de dívida.”

“Quando regressei a Angola, começo a trabalhar no Banco de Desenvolvimento de Angola, onde estou actualmente”, conta.

Ensino e opinião

Juliana Ferraz também gosta de escrever. É muito solicitada para emitir opiniões, e desde que se iniciou junto do Jornal de Angola que não mais tem parado. Desde revistas de economia à própria agência noticiosa nacional, a Angop, a nossa entrevistada vai partilhando o seu know-how.

E foi assim que Juliana foi coleccionando as várias matérias que havia publicado e surgiu a ideia de lançar um livro. Ideias compiladas e reestruturadas, e eis que surge a sua primeira obra, intitulada Gestão e Inovar para Prosperar. Tomou-lhe o gosto e hoje já está a meio caminho de um livro de bolso intitulado Os Dez Valores de Sobrevivência.

Porquê valores sociais? “Porque nós, como pessoas, se incorporarmos estes valores no nosso dia-a-dia, se os praticarmos, eles terão efeito na família, nas organizações, na sociedade e no mundo”, explicou.

A integridade, a sinceridade, o amor ao próximo e o respeito são valores que devem ser reais e o livro abordará estes valores e muitos outros.

Face à actual conjuntura, refere que há situações que não dependem somente da própria governação mas, sim, de um contexto geral, “é consequência do que se está a passar a nível mundial, ou seja ,com a crise do petróleo (que cada dia que passa está mais baixo), é claro que vamos ter problemas, uma vez que a nossa economia ainda é dependente desta commodity”, disse.

Mas Juliana Ferraz tem uma palavra para os mais jovens, aqueles que diante da conjuntura que o País atravessa sentem medo de arriscar 26
“É difícil começar nesta situação, mas, se o desafio é a diversificação da economia, todos nós temos de contribuir para que isto aconteça, e não irmos para sectores que dependem de matérias–primas importadas”. E diz mais: “Temos de ir para uma direcção em que a matéria-prima é adquirida cá, ir para um sector em que haja oportunidades, que já esteja massificado”, presume.

Perguntámos se se sentia uma mulher realizada, sem medo de errar. Juliana diz que não. “Acho que a realização plena nunca existe na totalidade, porque nós, quando atingimos uma determinada meta, queremos atingir outra e mais outra, mas estou a caminhar para lá”, assume. Juliana Ferraz contou-nos também que neste ano pretende terminar o seu doutoramento em Economia, publicar as obras que tem em carteira e continuar a publicar as suas opiniões económicas nos media nacionais e, quem sabe?, na rádio e na televisão.

Casamento e maternidade

Juliana Ferraz é casada e tem três filhos. Confidencia que tem uma relação muito boa com a família. “Os meus filhos são a minha vida, todo o meu projecto de vida passa por eles.”

Quando está em casa, aprecia ver um filme, ler um livro, gosta de ouvir música e, para se manter em forma, faz ginástica todas as manhãs. Gosta ainda de leitura diversificada, e o seu livro preferido é o Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, uma história que envolve o patriarca de uma família ao longo de várias gerações, repleto de drama, de emoções e muito mais. Um livro marcante. Dos países que conhece, Turquia, especialmente Istambul, marcou-a pela sua diversidade cultural. “É um país oriental mas ocidental simultaneamente, achei fantástico olhar para aquela estrutura, edifícios e torres construídas por pedras.”

Olhando para trás, Juliana afirma: “Não existe nada que eu tenha feito de que me tenha arrependido de ter feito, porque sou uma pessoa muito decidida em fazer as coisas”, realça.

“Tento viver a minha vida de forma a seguir certos valores, e faço questão de ser uma pessoa melhor todos os dias, tanto na vida pessoal como na vida profissional”, remata a nossa convidada, com a promessa de um novo encontro, dessa vez, só sobre o seu novo livro.

Silvestre Tulumba, empresário e testa-de-ferro de Paihama

Lisboa - Silvestre Tulumba Kaposse, é um antigo motorista de taxi  que depois de a sorte lhe bater as portas - pelas mãos do general Kundi Paihama – tornou-se num dos mais notabilizados empresários que opera no sul de Angola. Kaposse é oriundo de uma família pobre proveniente do município do Kipungo, província da Huíla, onde nasceu em 1981.

Fonte: Club-k.net 

Inicio nos negócios

 

Tulumba Kaposse começou como taxista na cidade do Lubango, atividade que desligou-se em 2002, altura em que se juntou a um tio Francisco Abílio Lumbamba. Ambos passaram a dedicar-se na compra e venda de viaturas   e tinham  como principal cliente o governo provincial da Huíla. Na sequencia de um mal estar ele  afastou-se do tio pondo também fim a parceria comercial.

 

Agora, trabalhando sozinho, Silvestre Kaposse estabeleceu contatos com um antigo amigo do seu falecido  avo que estava a trabalhar no governo central  como ministro da Defesa Nacional, de sua graça, Kundi Paihama. O então ministro disponibilizou-se a injetar  dinheiro no seu negocio de compra e venda de viaturas  concretizando assim a sua expansão, na região sul de Angola.

 

Ligações com K. Paihama.

 

Apesar de ser conhecido como o “sobrinho de Kundi Paihama”, a verdade é que ambos não tem nenhuma ligação familiar.  Paihama foi apenas amigo do avo de Silvestre Tulumba Kaposse , ambos oriundos do  Kipungo.

 

A fama de ser “sobrinho” de Paihama surgiu em Abril de 2006, quando Tulumba completou 25 anos de idade e convidou o general Paihama. Nesta festa que se realizou no restaurante Enigma, o general Kundi Paihama pediu a palavra para enaltecer o jovem   empresário  aniversariante  e  seus  irmãos apresentando-os  como se fossem seus netos.

 

Paihama teria dito mais ou menos assim “estes aqui são meus netos, estão a dizer que eles vendem droga e estão envolvidos nos negócios da camanga, quem meter-se com eles vai se ver comigo”.

 

Nesta festa estavam gerentes bancários e outros empresários locais. Desde então as pessoas ficaram com a impressão de que os irmãos Kaposse fossem familiares diretos de  Kundi Paihama.

 

Paihama e Tulumba tem agora uma relação bastante privilegiada e de confiança. Sempre que o general viaja para a cidade do  Lubango é escoltado por  três carros da empresa do jovem empresário que o apanha no aeroporto. Os irmãos Silvestre tornaram-se também gestores das empresas de Paihama, na província da Huila.

 

Em 2010, Tulumba teria encurtado os contatos com  Paihama e ao mesmo tempo se aproximou ao então presidente da Assembleia Nacional, António Paulo Kassoma. Neste mesmo ano, a empresa de Tulumba, forneceu viaturas para os funcionários da Assembléia Nacional, num acordo firmado com Paulo Kassoma.

 

Expansão dos negócios

 

Em 2007, Silvestre Tulumba e os seus irmãos criaram a empresa de transporte SRR (Silvestre, Rui, Rafael), cuja atividade para além de venda de viaturas, era a transportação de combustível da petrolífera estatal Sonangol, para as outras localidades de Angola, com realce as Lundas. Nas eleições de 2008, a sua empresa vendeu carrinhas usadas para a campanha do MPLA.

 

Em Junho de 2009, foi criada a empresa privada Serviços Executivos Aéreos de Angola, Limitada. (SEAA) na qual Silvestre Tulumba foi o seu gestor principal. Em Outubro, deste mesmo ano a Embraer, empresa de avião brasileira anunciou a venda de três jatos usados para a SEAA. Tulumba foi citado pela agencia Lusa, na altura anunciado as rotas que os aviões iriam fazer em Angola.

 

As aeronaves foram inicialmente usadas para apoiar os governos províncias mas depois a SEAA faliu e as aeronaves foram vendidas para a uma empresa angolana  Air26, do dirigente do MPLA, Frederico Cardoso. A Air26 foi a falência a poucos anos ficando sem se  saber sobre os destinos dos aviões.

 

Desavença com os irmãos

 

Em 2010, os irmãos começaram a ter desavença. Rui Silvestre, 32 anos de idade, desligou-se da SRR, cuja gestão passaria então para o seu irmão Silvestre  Kaposse. O desentendimento entre os dois começou quando Rui faz uma viagem a Namíbia e Silvestre, por sua vez, teria encontrado neste período, a   esposa a conversar com alguém num hotel, no Lubango. Este julgou que a cunhada estaria a atraiçoar e passou a hostilizar-lhe  expulsando-a do meio familiar. Quando Rui chegou ao país discutiu com o irmão advertindo-o que ele não tinha   competências para tirar a sua esposa de casa e desde então a relação entre ambos esfriaram-se.

 

Rui Silvestre ficou com a CONSTERRA – empresa de construção, que ambos partilhavam e  passou a trabalhar com o governador provincial de Benguela, Isaac dos Anjos tendo se mudado para esta mesma província.

 

Por sua vez, Silvestre Tumbula criou, neste mesmo ano, a holding S.TULUMBA - Investimentos e Participações, Limitada congregando as suas empresas. Criou a Sul-Motor e tem também a IMOSOUL, empresa que diz-se ter ganho o concurso para construção da nova centralidade da cidade do Lubango.

 

O gestor principal dos seus negócios é Jeremias Miguel, 43 anos de idade, natural do Cunene. É conhecido como o seu homem de confiança.

 

Encontro  com Presidente JES

 

Durante a campanha das eleições de 2012, o empresário Silvestre Tulumba organizou um almoço para uma delegação do MPLA, chefiada pelo Presidente Dos Santos que deslocou-se a província. O almoço foi realizado no hotel Serra Chela pertencente a Tulumba.

 

Neste dia do almoço, Silvestre Tulumba teve o privilegio de se sentar na mesma mesa ao lado de JES. Diz-se que desde então, sempre que há eventos promovidos pela presidência angolana ou pelo MPLA, em Luanda ele passou a ser convidado.

 

Estilo de vida e reputação

 

Desde 2013, que mudou-se para Luanda. Estendeu a sua rede de contatos e aproximou-se da deputada Tchizé dos Santos. Ambos vivem no mesmo condomínio, em Luanda apesar de se terem conhecido no Lubango.

 

Diz-se que gosta de estar no centro das atenções. A evidencia é apoiada nos seguintes pontos a saber:

-           Nas eleições de de 2008, ofereceu a cada governador provincial uma viatura de marca Land Cruizer.

-           Em Outubro de 2011, ofereceu 30 mil dólares a cada jogadora de basquetebol da seleção feminina de Angola que foram consagradas campeã africana.

-           Em Abril, deste mesmo ano, por ocasião da data do seu aniversario, no Lubango, convidou vários dirigentes do MPLA e Ministros idos de Luanda, muitos dos quais não eram conhecidos seus. Tulumba responsabilizou-se pela hospedagem no seu hotel Serra da Chela.

- Tem a sua disposição um avião Falcon, usado para fins particulares. Pelo menos é com este avião que teria efectuado uma viagem para os Estados Unidos da América.

 

De acordo com pareceres de figuras próximas, Tulumba, é uma pessoa que desaprecia ouvir conselhos. Porém apesar de ter estudado até a oitava classe, os amigos admiram o seu gesto de ter apostado na formação acadêmica dos seus irmãos mais novos despachando-os para o exterior. A saber: Rui kapose (Estudante de direito), Rafael Arcanjo Tchiongo Kapose, Severiano André Tyihongo Kaposse “Chi” (formado em gestão no Dubai), Felix Kapose (Estudante em Portugal), e Jurema.

Horácio Dá Mesquita, o nacionalista que moveu um processo contra o DG do Jornal de Angola

Luanda - Horácio Dá Mesquita, o homem que poderia nunca ter sido soldado se não driblasse a asma no seu baptismo em Cabinda às mãos do lendário comandante Margoso, é hoje um ex-soldado, além de uns quantos ex-quase pela frente: ex-quase oficial superior, ex-quase reformado, ex-quase não vivo… A sua história preenche, com uma facilidade incrível, um bom guião cinematográfico.

*Luis Fernando
Fonte: O Pais

Depois que a Independência foi proclamada (também com o seu pequeno grão como contributo), deambulou por aí, preso a novos compromissos de guerra. Alguns dos seus camaradas de Kifangondo, Panguila, Barra do Dande, Libongos e Caxito – como o comandante Ndalu – seguiram para Norte, em perseguição do inimigo derrotado às portas de Luanda. Ele, sujeito às contingências operacionais do período, rumou para o Hebo, na frente Sul.

Trocou o perigo zairense/português/ FNLA pelo perigo sul-africano/UNITA e marchou. Foi instructor metódico. Pelas suas mãos passaram homens que viriam a ser grandes no futuro exército do país finalmente pacificado. Alguns deles são generais hoje. Mas mal aceita falar desse outro capítulo de uma vida cheia de esquinas e reentrâncias. Por modéstia, quiçá. Ou pela dor que lhe ficou por não ter podido seguir em frente como soldado do povo. Porque a asma, essa, voltou a atacar com força um dia. Em 1977, dois anos depois da Batalha de Kifangondo, o homem do palpitante percurso iniciado em Cabinda para responder ao apelo de Neto, abandonou os quartéis. A asma, sórdida e cruel, vencera! Hoje vive como muitos outros ex-soldados de diferentes latitudes. Revivendo a guerra sem se deixar acorrentar pelas horas mais trágicas e os episódios mais funestos.

Tornou-se um civil a tempo inteiro, amando como amam os ex-soldados que abraçaram carreiras firmes noutros domínios da vida: com intensidade, sempre! Decidiu viver a beira do mar, em Cacuaco, entre o bater das ondas e as histórias de pescadores que ainda lançam redes. Ali perto, nunca se esquece, combateu ele quando o país parecia que ia soçobrar antes de o ser.

Faz carreira no Banco Nacional de Angola trabalhando como consultor do governador para a área do Património, Emissões e Comunicação Institucional. Agora como durante vários anos antes, mantêm funções nas Edições Novembro, a empresa que produz o Jornal de Angola, onde – confessa entre sorrisos – lhe são feitos os descontos para a Segurança Social para a reforma que, com os anos, chega. Os tempos de jovem, de soldado em Kifangondo, ficaram para trás. Há muito!

O canhão que nunca serviu

Em todas as guerras, as grandes batalhas estão sempre rodeadas de façanhas verosímeis mescladas com relatos fantasiosos, como se os soldados precisassem desse ardil espiritual para espiaram os seus próprios demónios e fantasmas. A Batalha de Kifangondo, sem dúvidas a mais estrondosa e emblemática dos tempos prévios ao nascimento da República Popular de Angola, tem os seus interstícios que se equilibram entre a verdade que se questiona e a lenda que se cria.

O soldado que nos guia pelos labirínticos caminhos de há 37 anos atrás, Horácio Dá Mesquita, ficou com uma pulga colada à orelha quando na conferência sobre a Batalha de Kifangongo (referida por diversas vezes no seu trepidante depoimento) se falou num mítico canhão que teria feito parte do arsenal mobilizado pela FNLA para vergar a resistência das FAPLA às portas de Luanda. Exprimiu assim as suas reticências: “Bom, são coisas que ficámos agora a saber, se são verdades ou não…sabe como é a guerra.


O general Tonta de Castro disse durante a conferência que eles tinham um canhão de fabrico coreano, de grande calibre que, na óptica deles, teria resolvido a seu favor os combates. Por deficiente manuseio, disse, no seu primeiro e único disparo, o canhão explodiu matando tudo em seu redor, estilhaçando inclusive os vidros do seu jeep que se encontrava a uma distância considerável.

Além desta história do canhão, ficámos também a saber pelo general Tonta que do outro lado não havia um comando único, havia o comando das forças zairenses, o comando das forças do coronel português Santos e Castro e ainda o desalento dos sul-africanos que haviam desembarcado no Negage, província do Uíge, em dois aviões Hércules C 130 e depois foram recolhidos por duas corvetas com as suas peças de 140 mm”.

REPÓRTERES DE GUERRA?

Horácio Dá Mesquita disse-nos que é um mito a ideia de que terão andado pela frente de Kifangondo jornalistas a cobrir a guerra. É seco, cáustico e peremptório: “Não houve repórteres de guerra; encontrei sim um pequeno grupo no intervalo dos combates em Kifangondo, numa única ocasião, onde se destacava o Francisco Simons. Mas ficaram pouco tempo, tiveram de se retirar por ordem do Estado-Maior, pois não havia como garantir a sua segurança”.

O versátil Horácio Dá Mesquita

Há pessoas que nasceram para percursos extraordinários e o Horácio Dá Mesquita, um velho amigo meu, é uma delas. Somam já muitos os anos em que tenho esse frenético homem de mil ofícios como uma das minhas maiores fontes de inspiração, de controlo da adrenalina e de doseamento do humor, além de variadíssimos outros labirintos para os quais ele consegue sempre arrastar os que lhe são próximos.

O Horácio é uma figura. Começa pelo nome. Não conheço mais ninguém que tenha Dá como apelido, elemento de ligação ou lá o que isso seja. Logo por aqui se vê que detesta vidas simples pois bastaria ter optado por uma combinação mais comum e rotineira para que lhe estragassem menos vezes o nome. Encontrou a melhor maneira de passar o tempo nas repartições do Estado a reclamar com os erros em certidões, BI, certificados, diplomas, atestados de residência e demais papelada oficial, num tempo em que um familiaríssimo Francisco Manuel se escreve Franssisco Manoel pela dolorosa falência de métodos e saberes de muitos dos actuais servidores da administração pública. Se um dia o Horácio Dá Mesquita se desse ao trabalho de escrever a sua autobiografia, já se sabe que resultaria dali um desses volumosos calhamaços que nunca se terminam de ler e dão sempre um jeito providencial nas entrevistas dos jornalistas impertinentes, quando do nada se lembram de perguntar qual o livro de cabeceira.


Como é enorme, com largas centenas de páginas, ninguém leva a mal se se andar anos a dizer que a leitura ainda não terminou. A lista de coisas que o Horácio não faz é espantosamente pequena. Assim, de repente, lembro-me apenas que ele não tripula aviões, não é médico nem é pirata dos mares da Somália. Fora disso, está em quase tudo.


Conheci-o na década de 90, era eu director do Jornal de Angola e pessoa amiga pediu-me que lhe desse uma oportunidade como editor de um suplemento para miúdos. Muito antes, ainda nos meus tempos de bolseiro em Cuba, nos anos oitenta, colegas cabo-verdianos já contavam façanhas do homem no universo das letras e do jornalismo do arquipélago. Depois que se entra no mundo do Horácio, entregamo-nos a um nunca mais acabar de surpresas. Vivi e continuo a viver essa alucinante viagem ao desconhecido, descobrindo o meu amigo ora aqui, ora ali, ora acolá, sem mais fôlego para transmitir-lhe palavras de espanto ou surpresa, que se tornaram redundantes. No dinheiro que os angolanos usam todos os dias para as suas transações correntes, está lá a marca do Horácio Dá Mesquita. Os selos do pós Independência foram quase sempre pintados por ele.

O único livro que tenho ilustrado – Antes do Quarto – foi uma experiência só possível com um génio como ele por perto. Sentamo-nos no quintal de sua casa em Cacuaco, junto ao mar, e eu lia-lhe os primeiros parágrafos de cada uma das crónicas do manuscrito. Em rápidos segundos, ele captava a ideia e a uma velocidade assombrosa, fazia os desenhos. Certo dia, ligado à TPA, via uma actuação dos Kiezos. Pareceu-me descobrir entre os integrantes um rosto meu velho conhecido: “aquele aí não é o Horácio?” E era! Desconhecia, em absoluto, a sua veia de músico. Soube depois que tocava concertina, piano e dicanza. Para as coisas da tradição, o Horácio tem uma vocação singular e um respeito rígido. Quando há uns anos decidiu constituir família com uma simpática conterrânea minha, a Juliana, convidou três ou quatro amigos que preza e fez-lhes subir a colina de São José para testemunharem a cerimónia do alembamento. Um deles era eu e os outros, as Dras Maria do Carmo Medina e Ana Maria de Oliveira. Ando a pensar sentar-me com ele um dia para fazermos a lista dos seus mil ofícios. É quase seguro que ficarão por incluir uns quantos, ou porque não há registo que consiga ser tão abrangente, ou porque o esforço meio senil de dois velhos amigos encontre na quebra de memória um obstáculo pior que o Himalaia.

Publicado aos 9 de Novembro de 2012 pelo Jornal "O País"

Horácio Roque: as aventuras do fundador do Banif - In Memória

Lisboa - Em 1964, seis anos depois de partir para Angola com 14 anos, Horácio Roque voltou ao Mogadouro, para pagar os três contos e seiscentos (hoje 1.268 euros) que o pai lhe tinha dado para pagar o bilhete para Luanda e os 520 escudos (206 euros) que a mãe lhe tinha posto na algibeira. O jovem, que tinha começado como marçano na charcutaria Pérola de S. Paulo, estava agora bem na vida.

Fonte: Sábado

Aos 16 anos trocara a charcutaria pelo café Palladium e dois anos mais tarde, dois fazendeiros portugueses de café propuseram-lhe sociedade na cervejaria Munique.

Enquanto geria a Munique, o jovem contratou um professor para ter aulas particulares de forma a prosseguir os estudos. Chamava-se Viriato e, para ganhar mais dinheiro, improvisara um colégio em casa. Horácio Roque propôs-lhe abrir um colégio a sério. O negócio revelou-se de tal forma rentável que dois anos depois abriu o colégio Universal, dois institutos e um outro com cursos práticos. Arranjou mais sócios e lançou também o colégio Verney, em Moçambique.


O já empresário expandiu-se para outras áreas. Vendia de tudo: produtos de beleza alemães, vinho, medicamentos e perucas de Hong Kong. 

Dez anos depois de chegar a Angola deparou-se porém com os primeiros problemas. Ao abrir o terceiro colégio, as inscrições de alunos ficaram aquém do esperado e acabou por se endividar junto dos bancos e de amigos. Mas em 1967 deu a volta, fazendo um levantamento dos alunos com dificuldades. Contactou-os um a um e eles apareceram às centenas. Foi o suficiente para pagar as dívidas e regressar aos negócios, expandindo-se para o imobiliário e comprando o seu primeiro restaurante de luxo, o Farol Velho, na Ilha de Luanda.

Horácio Roque acreditava que Angola ia continuar a desenvolver-se sem parar. "Foi o maior erro da minha vida", confessou mais tarde. Em 1975, a mulher partiu com a filha para Joanesburgo. O empresário ficou até 1976. Os colégios acabaram por fechar, restou o restaurante, o preferido dos generais do MPLA e do governo, com quem mantinha boas relações. Mas não era aquela Angola que queria. Partiu para a África do Sul a jurar que não voltaria nos 10 anos seguintes. (Não foram 10, mas 17. Só regressou para resgatar a mulher, partidária da UNITA, presa pelas forças do MPLA.)

Durante um ano, o empresário viajou pelo mundo à procura do próximo negócio e sem saber exactamente o que ia fazer. Por fim, instalou-se na África do Sul, onde viviam perto de um milhão de portugueses. Com os contactos certos, começou a investir em múltiplas áreas: seguros, imobiliário, análises clínicas. Adquiriu o jornal O Século de Joanesburgo e uma gráfica. Esses negócios funcionam quase todos ainda hoje, sob a liderança da sua segunda mulher, Paula Caetano.

Aproveitou também a escassez de produtos em Moçambique e começou a exportar bens de primeira necessidade para a antiga Lourenço Marques. Entretanto, conheceu Joe Berardo, um madeirense que tinha emigrado para África do Sul com 19 anos e que fez fortuna com minas de ouro, entre outros negócios. Tornaram-se inseparáveis.

Renascer na África do Sul


Todas as quintas-feiras se encontravam na Academia do Bacalhau, um clube restrito criado por Durval Marques, presidente do Bank of Lisbon and South Africa, que queria fidelizar empresários que estavam a enriquecer na África do Sul.

Com a ajuda de Joe Berardo e Durval Marques, Horácio Roque financiou uma rede de laboratórios clínicos que mais tarde vendeu a uma farmacêutica multinacional. Abriu uma corretora de seguros, uma agência de viagem para os portugueses que viajavam frequentemente para Portugal e para a América Latina, e uma imobiliária que vendia casas em Lisboa e no Algarve a imigrantes.

Bem relacionado, em 1982 Horácio Roque tornou-se uma figura crucial na libertação dos presos políticos portugueses da UNITA na Jamba.

No dia 5 de Abril, uma comitiva de 22 pessoas embarcou num avião militar rumo à fronteira junto à Jamba. Apesar de nunca se ter envolvido na política, Horácio Roque sempre foi um negociador hábil, com boas relações com o poder, nomeadamente com Jonas Savimbi, graças à mulher Fátima Roque, muito próxima da UNITA, com o próprio regime do apartheid e o governo português.

Quando chegaram ao local combinado, o empresário português foi recebido com um cumprimento afectuoso. Percebeu-se que não era um estranho para Savimbi. Os presos foram libertados.

 

Um dos últimos episódios em África contados na biografia é a visita de João Soares a Angola: "O Zedu (José Eduardo dos Santos) convida-me para ir lá dar um recado ao Savimbi, para lhe pedir calma. O Savimbi também me convida. Não disse a ninguém que ia", recordou.

Quando o político português chegou a Joanesburgo, ninguém estava à sua espera. Tinha o número de Horácio Roque, que não conhecia, e ligou-lhe. "Ele disse-me para esperar e foi buscar-me." Entretanto foram avisados de que houvera uma ofensiva militar e o empresário aconselhou João Soares a ficar mais uma noite, prometendo levá-lo a um sítio muito divertido: Sun City, uma espécie de Las Vegas para pretos e brancos. Foram de Rolls Royce, na moda naquele tempo. O filho do antigo Presidente português regressou mais tarde a África, onde teve um acidente de avião e quase morreu: ficou 15 dias a convalescer em casa de Roque.

Nos anos 80, o empresário voltou a Portugal, e com Joe Berardo salvou a Caixa Económica do Funchal da falência, transformando-a no Banif. A 15 de Janeiro de 1988 tornou-se presidente do conselho de administração do banco.

A ambição, confessou numa entrevista, era "não passar despercebido, ser reconhecido e que me respeitassem." Morreu em 2010.

* Este artigo foi publicado inicialmente em Julho de 2015 na SÁBADO. 

Tema relacionado:

Morreu Horácio Roque, Presidente do Banif

Isabel Nicolau, a misteriosa procuradora dos revús

Lisboa - Tornou-se no centro das atenções desde que começou, em Luanda, o julgamento dos jovens angolanos acusados pela Procuradoria Geral da República, do general João Maria de Sousa, de rebelião nos termos de um “golpe de Estado”.

Fonte: Club-k.net

A magistrada que se sente envergonhada com o caso dos presos políticos 

A forma como se apresentou em Tribunal na qualidade de representante do Ministério Público, cobrindo o rosto, usando óculos escuros, e exageros de maquilhagem fizeram com que individualidades a suspeitassem que estaria a se sentir incomodada em seguir um processo que a população toma como fabricação do próprio regime para abafar o massacre do Monte Sume, contra a Igreja de Júlino Kalupeteka.

 

Nas lides judiciais ela é mais conhecida por Isabel Fançony, porém, desde o recente casamento passou a usar a extensão “Nicolau”, que é o sobrenome do seu conjugue. Isabel Fançony, na casa dos 40 anos de idade, terminou o seu curso de direito no ano de 2003/4, tendo optado pela magistratura.

 

Ao longo da sua carreira representou o Ministério Público em casos mediáticos como o caso SME, caso BNA, caso Mingão e igualmente o caso Gindungo, envolvendo um dirigente do MPLA, Miguel Catraio.  

 

Em todos estes casos, esta sempre a contrapor com o juiz Januário José Domingos, causando reparos de que os juízes não deveriam ter representantes do Ministério Públicos exclusivos, uma vez que depois acabam por desenvolver amizades, e na hora do trabalho, ou condenações, procuram não entrarem em contradições.

 

Assim aconteceu no caso SME, em que a dupla Isabel Fançony e o Januário José Domingos condenaram obedecendo alegadas ordens superiores, e caso acabaria por ser desmontado quando seguiu para o Tribunal Constitucional, que detectou erros graves na condenação.

O disfarce que Isabel Fancony tem usado começou na verdade desde o inicio do “caso gindungo”. Porém sofisticou quando lhe deram a “ingrata” tarefa de representar a PGR, no processo de acusação contra os revús.

 

Em condições normais, teria ocorrido um sorteio, e dai sairia o nome do procurador e do juiz da causa. A ausência do sorteio por parte do Tribunal Provincial de Luanda, é vista como um sinal claro de que “mãos invisíveis”, puseram propositadamente o processo destes jovens nas mãos da dupla Juiz Januário José Domingos e da procuradora Isabel Fancony Nicolau.

 

Em meios com apurado conhecimento do tema, diz-se que o julgamento dos jovens revolucionários está a ser um acto formal, em que o juiz já tem uma ideia concebida da condenação, razão pela qual entende-se a conduta de Isabel Fancony Nicolau em não quer mais o seu nome nem o seu rosto, em processos pré-concebidos.

 

Já o fez no processo SME, e ao voltar a fazer no caso dos revús, corre o risco de ser vista pelos seus filhos e familiares como uma mulher que recebe instruções para usar a lei para melindrar adversários políticos e críticos das politicas erradas do regime do MPLA.

 

Filipe Mukenga, músico e compositor

Luanda - Filipe Mukenga é o resultado de uma peregrinação apaixonada por vários estilos e tendências musicais, que passam pela recolha da música tradicional angolana, pelas influências da Música Popular Brasileira, pelo rock e pelas sugestões rítmicas e vocais do jazz.

*Jomo Fortunato

Fonte: Club-k.net

Filipe Mukenga pisou o palco pela primeira vez no programa “Chá das seis’’, realizado no antigo cinema restauração, em Luanda, com apenas catorze anos de idade, interpretando a canção “Donne tes seize ans” de Charles Aznavour. Na adolescência viveu intensamente o período em que a música portuguesa e a eclosão dos “Conjuntos de música moderna”, conviviam, nos míticos anos sessenta, com os segmentos mais representativos da Música Popular Angolana.Tal facto deu azo à sedimentação e continuidade do período da renovação estética, movimento que teve como principais arautos Rui Mingas, André Mingas, Filipe Zau, Waldemar Bastos, e o próprio Filipe Mukenga.

 

Modernidade

 

Grupos como “Os electrónicos’’, do Vum-Vum, “Os rocks’’ de Eduardo Nascimento, os “Black stars’’ do Gerónimo Belo, os “ The windes”, do baterista Beto Silva, “A nave”, de José Eduardo Sambo e João Silvestre, “Os gémeos 4”, do José Agostinho, e os “Five kings”, do Mello Xavier e Tito Saraiva, contribuíram para que se efectivasse a abertura dos ritmos de raiz angolana,   às experiências de renovação, inclusão e fusão.

 

 

Filipe Mukenga, que recorda e valoriza a influência do canto litúrgico da Igreja Metodista na sua música, passou pelos Indómitos e Apollo XI, dois conjuntos da então apelidada música moderna. De notar que a designação “Conjuntos de música moderna”, surgiu em oposição aos agrupamentos de música de raiz angolana, tal como os Kiezos e Jovens do Prenda.

 

A passagem de Filipe Mukenga pelo exército colonial foi de suma importância para a construção de uma consciência artística voltada para revalorização estética da música de emanação rural. Neste período, Filipe Mukenga aprendeu a filosofia e a cultura musical de várias regiões do país, sobretudo a dos umbundus e dos kwanyamas, através do convívio com os soldados que cumpriam o serviço obrigatório da tropa colonial, provenientes de diferentes grupos étnicos angolanos.

 

Misoso

 

Terminado o serviço militar, em 1973, Filipe Mukenga fundou, com José Agostinho, que conhecera no conjunto Apolo XI, o Duo Misoso, uma formação que transportava para o canto e guitarra os ritmos absorvidos da experiência no exército. Em 1980, um facto importante marcou o início da internacionalização de Filipe Mukenga- o encontro com o cantor alagoano Djavan. Integrado numa importante caravana artística brasileira, Djavan visitou Angola através do histórico Projecto Kalunga, e decidiu incluir no seu álbum Seduzir (1982) os temas “Nvula’’ e “Humbiumbi’’, transformando-os em sucessos internacionais, com interpretações de Flora Purim, Estevão Gibson, Silva Nazário, Paulo de Carvalho, Abel Duerê e dos grupos brasileiros Banda Mel e do Fundo do Quintal.

 

Duo

 

Com a morte de José Agostinho, seu companheiro do Duo Misoso, Filipe Mukenga homenageia o seu amigo com a canção “ Blues pala nguxi’’, numa das interpretações mais notáveis da sua carreira. Sobre o assunto Filipe Mukenga disse, nostálgico, o seguinte: “É um tema que muito me sensiliza e que gosto muito. Quando oiço esta canção recordo-me e presto homenagem a um grande amigo e músico com quem tive a felicidade de privar e de trabalhar durante anos, tendo como motivo essencial a nossa musica’’. José Agostinho era um músico de extrema sensibilidade, sabia o que queria, tinha uma personalidade muito forte, e era detentor de um timbre vocal que dialogava perfeitamente com a voz de Filipe Mukenga. Os contra-cantos do duo eram perfeitos, consequência da natureza vocal de José Agostinho, que permitia atingir notas musicais muito altas.

 

Discografia

 

Em 1990, Filipe Mukenga cria a banda Madizeza com Kinito Tridande (baixo), Rui César (teclas) Marito Furtado (bateria) e Joãozinho Morgado (tumbas). A Banda Madizeza foi a formação de base com a qual Filipe Mukenga gravou, em Portugal, o álbum “Novo Som’’ (1991), o primeiro da sua carreira, com a participação do cantor Rui Veloso na harmónica. “Kianda Ki Anda” (1995), o segundo álbum de Filipe Mukenga, é uma proposta musical mais africana, ao nível das harmonias, um CD que consagrou a versatilidade de Filipe Mukenga junto das elites musicais africanas com residência em paris. “Kianda Ki Anda” foi eleita no Top Kilimanjaro da Rádio 1, do Gabão, emparceirando com ícones da música africana.

 

A parceria entre Filipe Mukenga e Filipe Zau, a nível da produção textual, em mais de 80 canções, muitas das quais não gravadas, data de 1978. Com Filipe Zau surgiu “ O canto da sereia, o encanto” uma opereta em duplo álbum que narra a saga dos marinheiros angolanos na época colonial, conto com as participações de Carlos Burity, Eduardo Paim, Katila Mingas e o cantor português Fernando Tordo. “Muimbu iami” (minhas canções), gravado no Brasil (Salvador da Bahia), a penúltima obra discográfica de Filipe Mukenga, contou com a prestimosa colaboração de Djavan. Um reencontro que exalta o lado “afro” do cantor Brasileiro. “Nós somos nós”, último trabalho discográfico de Filipe Mukenga, acusa, de forma visível, o lirismo das guitarras da banda de Zeca Baleiro, um cantor e compositor do Maranhão da geração pós-tropicalista. Gravado no Rio de Janeiro e São Paulo, o CD conta com as participações especiais de Vânia Abreu, na canção “Aprisionar a negra noite”, de Martinho da Vila, no tema “Paquete”, e do produtor do CD, Zeca Baleiro, na canção “Uma volta e meia”.

 

Tradição

 

Num outro atalho de reflexão crítica, julgamos que a imposição da música de Filipe Mukenga no universo da música africana de expressão internacional, passa pela recolha e interpretação da música tradicional angolana, um segmento importante da sua obra artística. Canções como “Nga buila”, “Kakadona ko p’oikhwa-po”, “Dilombe”, “Mandume”, “Balabina”, “haipolo”, “hailwa yangue oike mbela”, e “omukwanango” (tema inédito, não gravado), são exemplos de uma poeticidade ímpar na história da Música Popular Angolana, passíveis de integração e internacionalização no universo do afro-jazz.

 

Manuel Nito Alves, o “Preso do Presidente”

Lisboa – No passado dia 20 de Junho, Manuel Nito Alves foi apanhado a ler o livro “da ditadura a democracia”. Logo a seguir, foi detido e acusado de pretender derrubar o Presidente José Eduardo dos Santos por via de um “golpe de Estado”. Porém, na cadeia onde se encontra, os agentes prisionais passaram a trata-lo por “O preso do Presidente”.

Fonte: Club-k.net

Nito Alves é agora o mais novo preso politico da história da “terceira república” em Angola. Já foi inúmeras vezes presos e torturado pelas autoridades angolanas. Ou seja, esta é a décima vez que é detido pela sua oposição ao regime.  

Em 2013, ficou internacionalmente conhecido por ter sido encarcerado e sem acesso a advogado por imprimir camisolas com os dizeres “32 é muito”. A Procuradoria do general João Maria de Sousa mandou prende-lo acusando-o de crime de ultraje ao Presidente da Republica. Nito Alves contava, 17 anos de idade.

Paralelamente, as autoridades teriam desistido de um plano que previa incrimina-lo, por crime de “falsa identidade”, porque suspeitavam que ele estaria a usar um nome que se julgava não ser seu. É que Nito Alves é também o nome de um lendário do MPLA, executado pelo partido no poder, na sequência da saga do 27 de Maio de 1977.

O regime chegou de despachar um grupo de elementos supostamente do aparelho de segurança, ao colégio Marusca, onde o menor estudava, a fim de solicitar o seu processo para confirmar os seus dados pessoais. A “segurança” confirmou que para além de ser um bom aluno, com medias de 16 valores, o seu nome de registo era mesmo Manuel Baptista Chivonde Nito Alves, o que não foi possível, dissimular uma condenação pela suposta “falsa identidade”.

Manuel Nito Alves, o “preso do presidente” nasceu no município do Kachiungo, província do Huambo. É filho de Adália Chivonde e de um ex-militar, Fernando Baptista que era admirador de Nito Alves do “27 de Maio” . Quando nasceu, aos 15 de Abril de 1996, o seu pai, Fernando Baptista registou-lhe como Manuel Baptista Chivonde Nito Alves, em homenagem ao lendário Alves Baptista “Nito Alves”, do partido no poder.

Quando a família mudou-se para Luanda, o pequeno Nito Alves evidenciou-se como ostentador de um pensamento próprio sobre os valores democráticos e liberdades de expressão. Criou no seu bairro, em Viana, um improvisado, jornal/mural de parede, que publicava recordes das principais manchetes de capa dos semanários angolanos com realce ao Folha-8. O mural de parede tornou-se muito concorrido no bairro, o que terá causado incomodo.

O seu activismo começou aos 15 anos de idade, quando no seguimento da primavera árabe, movimento que levou a queda de vários ditadores no norte de África, ele aderiu, ao grupo de jovens que contestavam o Presidente José Eduardo dos Santos pelas restrições as liberdades cívicas e outras argumentações por eles invocadas.  

Esteve em todas manifestações e desde então tem sido alvo de perseguição politica por parte do regime. Em Setembro de 2013, preparava-se para aderir a uma convocada manifestação dos jovens “revus”, mas não foi a tempo de participar, porque dias antes a PGR mandou prender-lhe, por ter encomendando impressões em camisolas com dizeres desfavoráveis ao Presidente José Eduardo dos Santos que seriam usadas na manifestação. O dono da loja denunciou-lhe e a PGR acusou-lhe de difamação ao Chefe de Estado.

Foi-lhe devolvida a liberdade, no seguimento de uma onda de contestação por parte da comunidade internacional e por populares que ameaçaram realizar manifestações pela sua soltura. Em, Portugal, um grupo de músicos realizou um espectáculo  exibindo um cartaz com o seu rosto voltado para plateia. 

Nito Alves continuou a sua luta pelo respeito as liberdades cívicas em Angola e ao mesmo tempo priorizando ao seus estudos. É aluno do primeiro ano de direito do Instituto São Francisco de Assis, em Luanda.

Em meados de Maio do corrente ano, esteve no Brasil para representar Angola no 14º. Colóquio Internacional de Direitos Humanos, organizado pela Conectas Direitos Humanos.

O activista angolano de 19 anos de idade debateu com mais de 50 jovens de 40 países a situação dos direitos humanos no mundo. A partir do Brasil havia declarado o seguinte sobre o seu tema:

"No meu relatório tenho os nomes de vários comandantes policiais como comandante São de Viana, Lito Chuva, da Investigação Criminal, o senhor Ngola Kilo da DPIC, comandante Noticia e Frank do Rangel que serão apresentados à Amnistia Internacional quando debatermos a situação dos direitos humanos”, explicou o activista, para quem aqueles comandantes cumprem ordens do Presidente José Eduardo dos Santos para impedirem manifestações anti-Governo, e de alguns generais como Kopelipa e Zé Maria, sem esquecer o general Filó que segundo ele “mandou matar Cassule e Kamulingue”

Mariana “Quibrilha”, a reclusa torturada na cadeia de Viana

Lisboa – Até 2012, Mariana António Joaquim era uma jovem aspirante   a carreira do estilo musical Kuduro. Quem a conhece garante que estava a notabilizar-se no seu circulo de convívio e acarretava a fama de se fazer brilhar nos palcos por onde passava. Deram-lhe o nome artístico de “A dama que brilha” e com o passar o tempo, ficou simplesmente a “Quibrilha”.

 Fonte: Club-k.net

A prematura fama de “Quibrilha”, deixou de brilhar, quando certa noite, o seu então namorado apareceu-lhe em casa com uma arma de fogo, dizendo que era de um amigo que lhe devia dinheiro e que enquanto este amigo não lhe pagasse, ele também não iria devolver  a arma. O namorado pediu-lhe para guardar em casa, e “Quibrilha” aceitou sem imaginar que o azar estava a espreita.

 

Dias depois “Quebrilha”, seria confrontada pela polícia de investigação, pôs o seu namorado e mais dois cumplices, estavam na mira das autoridades por terem a 25 de Março de 2012, interceptado dois  jovens  que vinha do Benfica e que se faziam transportar de numa viatura “Toyota Fortuner” nos arredores da comuna do camama. Os mesmos sequestraram os dois jovens   interceptados e levaram lhes até ao interior do cemitério do Camama, e assassinaram-lhes a queima roupa. O caso tornou-se notório porque um dos jovens abatido era filho do ex- deputado do PRS, Sapalo Antônio.

 

É assim que um dos executores, decide, na mesma noite do crime ir dormir em casa da namorada para guardar a arma, porque nos dias posteriores planeavam  seguir para província de Malanje vender a viatura. Foram apanhados e apresentados em tribunal. Os três executores foram sentenciados a 16 anos de cadeia, porque na altura do crime, tinha menos de 20 anos de idade. A reclusa que é o sujeito da historia de hoje, mais uma outra rapariga Hodeth Veigas foram  condenadas  a 4 anos de prisão por suposta cumplicidade.

 

Ao ser recentemente torturada pelos serviços prisionais de Viana, por ter sido apanhada com telefone, o seu nome veio a público. Porém, em meios da sua defesa, levantou se a questão da sua sentença que segundo observações, o juiz Januário José Domingos, do Tribunal de Luanda, teria naquele dia 30 de Julho 2013, “cometido” uma injustiça contra   “Mariana António Joaquim” uma vez que não ficou provado em tribunal, a sua participação no crime cometido pelo namorado. A defesa recorreu, mas até a data o Tribunal Supremo, não respondeu. Ou seja, até o  Tribunal  responder ela já terá cumprido metade da pena, que lhe habilitará a liberdade condicional.

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