Quem é Quem

Ademar Valles, Morto no “27 de Maio” por a irmã ser amiga de Nito Alves

Lisboa - Nessa noite, chegou uma brigada da DISA, com uma lista de nomes, para entrarem numa ambulância. Todos sabiam o que aquilo significava. A viagem para a morte, sem julgamento, sem o mínimo direito à defesa.


Fonte: 27 de Maio


O Ademar seria assassinado nesse dia. Os seus verdugos, esses, continuam impunes, enquanto Angola aguarda o dia em que a reconciliação seja possível, com a assumpção de responsabilidades…


O ADEMAR: ALEGRIA DE VIVER


De uma certa forma, não há duas pessoas iguais. Todos somos diferentes, mesmo quando parecemos semelhantes. De nós os três, dos três irmãos – Edgar Ademar, Sita Maria e Edgar Francisco –, o Ademar era o mais alegre e extrovertido.


Tinha aquilo a que os ingleses chamam “joy of life” (alegria de viver). Fazia de tudo uma festa. Ate a penúria de alimentos, que existia em Luanda, em 1976, era para ele uma alegria, brincando com os pratos de arroz com arroz, e um cheiro de carne, improvisados pela Fátima, fiel cozinheira que transitou dos meus pais para ele. Era essa alegria de viver e carisma que o tornavam atraente, sobretudo para o sector feminino, em que era imbatível.


Choviam tantos telefonemas para ele que, a determinada altura, me pedia para atender o telefone e para fingir que era ele. Mas, para minha infelicidade, as interlocutoras apercebiam-se do diferente timbre de voz e não aceitavam a troca.


A ADOLESCÊNCIA


Quando chegámos a Luanda, depois do nascimento em Cabinda e passagem por Silva Porto (hoje Bié) e Benguela, o Ademar tinha, em 1961, 11 anos de idade. Fomos morar para o Bairro dos Serviços de Agricultura, um conjunto de casas dispersas junto aos viveiros dos Serviços de Agricultura e Florestas de Luanda. Por essa razão, também se chamava “Florestas” ou “Barrocas” (pela existência de declives em dois morros).


Havia poucas famílias: os Ceitas, Os Batalhas, os Pompeus… Designávamos os membros de cada família pelo apelido, embora chamássemos cada um pelo seu nome próprio. Lembro-me do Filomeno Ceita, a quem chamávamos o ” Filó”, e do “Tó” Batalha…


Pela própria natureza do solo, a zona onde vivíamos proporcionava a caça aos pássaros, com espingardas de pressão de ar (as mais conhecidas, de marca “Diana”). Mas o que mais o agradava eram os jogos de futebol, no campo improvisado junto ás oficinas. Tínhamos uma equipa que era conhecida por ” Floresta”. O Ademar era um bom avançado, embora não chegasse ao nível do Filomeno. Mas desporto desporto era, para os meus pais, a natação.


Por isso, quando ainda éramos pequenos colocaram-nos no Clube Desportivo Nun’Alvares, cujas instalações ficavam no princípio da ilha de Luanda, depois de efectuada a passagem pela ponte. Não sei se o clube ainda existirá, mas na altura, nos anos sessenta, era uma verdadeira escola, com aprendizagem de natação, remo e vela.


Por lá andaram o Carlos Nascimento (mais tarde conhecido por ter representado Portugal num dos festivais da Eurovisão), o Joaquim Pablo, o Fortes, o Carlos Pacheco, os Nolascos, enfim, tantos…


1966 foi um ano marcante para o Ademar. Foi seleccionado, juntamente com o Joaquim Pablo e o Luís Filipe Nolasco, para representar Angola nos campeonatos nacionais de natação, a realizar na então metrópole. No entanto, chegados a Lisboa, os jovens angolanos foram impedidos de participar, pois a Associação Desportiva de Natação de Angola não tinha pago as quotas devidas à Federação.


Na altura, os jornais propagaram este escândalo. Como era possível os jovens nadadores terem sido seleccionado e embarcado e, depois, devido a uma questão burocrática, não participarem nas provas desportivas?


A adolescência também foi o temo das “farras”. Nesse aspecto, o Ademar tinha o seu grupo. Raras eram as sextas-feiras ou os sábados em que não havia uma festa, em Luanda. Terminado o quinto ano do liceu, no velho Salvador Correia, era chegado o momento de escolher. O Ademar escolheu a alínea f), com o objectivo de seguir Engenharia Eletrotécnica, curso que existia na Universidade de Angola.


OS ESTUDOS


Depois do 6º e do 7º ano, ingressou na Faculdade. Sem ser um aluno brilhante, passou com facilidade as diversas cadeiras do curso.


Tinha um grande à vontade. Um dia, à noite, vimos um polícia branco bater, com o cassetete, num negro. O Ademar, com escassos 16 anos, deu ordens ao polícia para não bater, tendo este acatado a “decisão”. Poderia ter-se voltado contra o Ademar, mas, em vez disso, deu conta do que estava a fazer e cessou a agressão. Concluída a licenciatura, veio para Lisboa, em 1973. Na altura, tínhamos um apartamento arrendado em Lisboa, no Campo Grande, próximo do apartamento dos pais do Rui Coelho. Por isso, o Ademar veio viver connosco, sem saber bem o que o esperava. Começou a estagiar na CPPE, actual da EDP, em Moscavide. Estava entusiasmado com o estágio, que lhe tinha permitido conhecer pessoas como o Engº Gaspar Correia, que referia como uma sumidade. Mas o que esperava o Ademar no apartamento do Campo Grande?

O apartamento, situado na então Rua Projectada ao Campo Grande, lote 1, era um local pródigo em reuniões, um centro de agitação.


Bum determinado dia de Abril de 1973, a quietude matinal foi alterada pelo repetido toque da campainha. Eram 7 horas da manhã e uma brigada da PIDE, constituída por três pessoas, entre as quais a conhecida Albertina, irrompeu pelo nosso apartamento, no intuito de prender a nossa irmã Sita. Não a tendo encontrado, iniciaram um processo de busca, vasculhando as gavetas, livros e tudo o que estivesse à mão.


Terá sido, talvez, a primeira experiência política do Ademar, que o viria a marcar, revoltado como ficou com o desrespeito dos pides. Nunca tendo sido um “activista político”, a partir daí passou a colaborar activamente no “processo revolucionário”.


O CASAMENTO

Em Dezembro de 1973, casou-se em Luanda com a Isabel Penaguião (Bicha). O namoro durava há longos anos, praticamente desde o início da adolescência. A festa foi em nossa casa, na Floresta.  As mesas estavam colocadas nos vários canteiros, no jardim. Foi um dia feliz, para o Ademar e para a Isabel. As fotografias mostram-nos sorridentes…


Depois do casamento, foi a opção: viver em Luanda, Angola, ou ir para Lisboa, Portugal?
O casal decidiu-se por ficar em Luanda, onde viria a nascer, em 4 de Agosto de 1976, o Frederico…


A VIDA EM LUANDA


Mas a vida em Luanda iria sofrer uma alteração, com o 25 de Abril. O Ademar acabaria por ingressar no serviço militar, efectuando a recruta em Nova Lisboa (actual Huambo).


Esteve envolvido num processo de desvio de armas para o MPLA, arriscando-se a uma pena de prisão. Mas o processo acabaria por ser arquivado, naquele período conturbado. O Ademar iria ainda participar nas estruturas do MPLA, no sector intelectual. Após a independência, seria o responsável da indústria pesada no Ministério da Indústria. Os que com ele contactavam guardaram sempre a imagem do sorriso franco e aberto, o riso fácil, a alegria de viver, que foi uma constante da sua vida.


O 27 DE MAIO


Bom profissional, exercia as suas tarefas meticulosamente, privilegiando o diálogo e as reuniões de trabalho, ao invés dos longos relatórios. Quando se verificou o 27 de Maio, tinha a consciência totalmente tranquila de não ter participado em qualquer acção, por mais diminuta que fosse. Porém, tinha um pecado capital: o seu apelido era “Valles” e a sua irmã Sita estava a ser impiedosamente procurada e vilipendiada.


Por isso, por uma questão de segurança, resolveu “entregar-se” à DISA, procurando o seu padrinho de casamento, Zé Vale, então um dos responsáveis da polícia política. Entrou na prisão de S. Paulo num dos últimos dias de Maio de 1977. Esteve sempre confiante de que sairia em breve.


Elaborou um relatório sobre o seu trabalho profissional, à frente da indústria pesada no Ministério da Indústria, que demonstrava em que consistia o seu dia a dia. Na prisão, procurou manter o ânimo, dando explicações de inglês, francês e outras matérias aos que menos sabiam, num processo de transmissão de conhecimentos em que as cadeias são pródigas. Passou o ano de 1977 e tudo indicava que o Ademar sairia, em breve. Mas o dia 23 de Março de 1978 foi fatídico para ele.


Nessa noite, chegou uma brigada da DISA, com uma lista de nomes, para entrarem numa ambulância. Todos sabiam o que aquilo significava. A viagem para a morte, sem julgamento, sem o mínimo direito à defesa.


O Ademar seria assassinado nesse dia. Os seus verdugos, esses, continuam impunes, enquanto Angola aguarda o dia em que a reconciliação seja possível, com a assumpção de responsabilidades…



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Alberto “Betão”, morto no 27 de Maio por colaborar num programa de Rádio

Lisboa - Decorria o ano de 1976, quando Manuel Francisco Neto recebeu, na condição de pai, a seguinte carta:


Fonte: 27Maio.org


“Exmº Senhor Saúde e felicidades.

Venho por este meio expor à família de pai da menina Jacinta que a mesma tem laços de amor com o meu filho Alberto. Por causa disso, ela mediante o pedido de meu filho, autorizou-me a escrever-lhe esta carta com o fim de pedir-vos a mão de vossa filha.

Espero que a vossa resposta seja amável, fortalecendo o meu coração e o da minha família.
Com respeito e consideração subscrevo-me.

Luís Fortunato Manuel”

 
Acontece o 27 de Maio e Jacinta que entretanto dera à luz uma menina, não concretiza o pedido do sogro, não consuma o casamento pois já a Disa anda no seu encalço, tudo porque o seu prometido e pai do seu rebento, acabara de praticar dois “crimes” capitais. Militante do MPLA, trabalha na Rádio Nacional, o que não vislumbra qualquer recriminação, mas, e no “mas” está metade da culpa, colaborava no programa radiofónico KUDIBANGUELA. Não bastando o anterior “desvio”, complete-se o delito: era membro da COMISSÃO POPULAR DE BAIRRO DO SAMBIZANGA.


Com tanto pecado às costas, e alvo das bárbaras perseguições que fizeram história na época, ALBERTO FORTUNATO MANUEL, o “BETÃO” como era conhecido, esconde-se e só se apresenta aos perseguidores quando tem conhecimento de já a sua companheira, objecto de chantagem, ter passado pela prisão e experimentado a tortura.


Betão dá entrada no MINISTÉRIO DA DEFESA em Julho de 1977, e foi o bastante para desde essa data, como a tantos outros que por aí passaram, mais ninguém saber do seu paradeiro.


Deixou uma filha que acabou, fruto do tumulto, por não merecer o seu nome. Quando indagámos por ele junto de pessoas que lhe eram próximas na época, ainda o medo ou a auto censura, todos se recusaram a contar sobre o que sabiam da sua vida e emprego.



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Nito Alves, Ex- Ministro da Administração Interna

Luanda - Com base na obra de Nito Alves, ”Memória da Longa Resistência Popular”, editada pela África Editora em 1976, procura-se traçar aqui o perfil do Guerrilheiro, do Poeta e sobretudo do Revolucionário.


Fonte: 27maio.org


Acreditando que a Revolução podia ser comparada a uma monstruosa elevação feita de vertentes escarpadas e difíceis de transpor e que só os fortes e persistentes a poderiam escalar, Nito Alves, fiel ao heróico Povo Angolano, aos guerrilheiros e a todos os colegas de armas e sofrimento, abatidos durante a guerra, seguiu o seu exemplo até às últimas consequências possíveis da sua opção política.


A 23 de Julho de 1945, na aldeia do Piri, concelho dos Dembos (actual província do Kuanza Norte ) nasceu em Angola, Alves Bernardo Baptista, filho de Bernardo Baptista Panzo e de Maria João Paulo.


Teve uma infância e adolescência, profundamente marcadas pela agressão e hostilidades permanentes de condicionalismos sociais e políticos que o rodeavam e comprimiam, frutos malditos do colonialismo opressor que mantinha ferozmente dominada a sua pátria e o seu povo.


Falando um dia de si afirmou:«A minha infância é comum à de todas as crianças na minha dura condição de jovem, numa aldeia sem luz eléctrica, nem água canalizada, nem um mínimo de requisitos.»


«A minha instrução primária foi toda ela feita na Escola Rural da Missão Evangélica do piri.»


«Tinha eu treze anos de idade, quando comecei a sentir em mim um sentimento de revolta consciente contra o colono e que hoje explico fundamentalmente por quatro fenómenos que recordo com nitidez, pois marcaram-me profundamente:»

E que acontecimentos influenciaram então decisivamente este jovem de 13 anos?


O facto de um Missionário protestante, obrigar os alunos a ir nas férias para a roça dos colonos colher café.

O cenário de sangue que frequentemente se desenrolava ante os seus olhos em que mulheres e

homens-contratados eram forçados a colher café nas plantações cafeícolas da então Sousa Leal, do alemão Kay.


O da visão que este jovem tinha do drama do ajudante negro que passava em cima da camioneta do colono, sempre de cabelo enevoado de poeira.


O facto de ter sido reprovado no exame da terceira classe e de ouvir a justificação do padre católico que presidia ao júri: «ele sabe aritmética, fez bom ditado, boa cópia, um desenho regular, mas tem de reprovar porque é protestante e não sabe a Ave-Maria!»


«Concluída a instrução primária em 1960, parte para Luanda onde seu pai conseguiu matriculá-lo…Ganha uma bolsa de estudo e parte para o Quéssua, Malange, onde faz o segundo ano liceal. Regressado a Luanda, frequenta o Colégio da Casa das Beiras…»


Nito Alves nunca esqueceu a Directora daquele Colégio, Olívia de Oliveira Martins Conde, que terá contribuído decisivamente para que ele terminasse o 2º ano do ensino liceal.


«Em 1966 começa a trabalhar na Direcção Geral da Fazenda e Contabilidade, em Luanda, tentando simultaneamente prosseguir os estudos, no curso nocturno do 6º ano do então chamado Liceu salvador Correia. Entretanto, vinha desenvolvendo desde 1965 intensas actividades políticas clandestinas que acabaram por o tornar alvo das atenções da PIDE.


Muitos dos seus camaradas são presos e enviados para o terrível campo de S. Nicolau. Nito Alves, porém, no próprio dia em que iria ser preso (6 de Outubro de 1966), consegue escapar-se às garras daquela sinistra polícia.»


«Alves Bernardo Baptista e Lima Pombalino Martins (Tadeu )…,chegam à Primeira Região Político Militar do MPLA no dia 9 de Outubro de 1966»


«Sob o comando de um então já bem conhecido comandante militar, Jacob Alves Caetano, cuja lenda corre todo o norte de Angola como o grande Comandante Monstro Imortal…, instala-se na área do esquadrão Cienfuegos e anima-se toda a região.»


«Intenso e duro treino de guerrilhas aguarda o jovem Alves Bernardo Baptista: todo o ano de 1967 é o teste de sangue e fogo em que presta brilhantes provas. Em 1968 com a chegada de parte dos sobreviventes do Esquadrão Kamy, Nito Alves é chamado para a direcção do CIR. Até 1971 mergulha a fundo no estudo do Marxismo-Leninismo, como autodidacta que a própria luta quotidiana vai caldeando em permanente apuramento.»


«O ano de 1973 findava carregado e negro de perspectivas para os homens da Primeira Região. O cerco de ferro e de fogo do colonialismo agónico, apertava-se sobre a Primeira Região Militar», e foi contado assim:


«Guerra sem frente, nem retaguarda / «faltaram as munições» / «Vieram os “Flechas”», os “G.es” e “T.es” / «fizeram tiros na noite e na madrugada/ e mataram, mataram, assassinaram, assassinaram». E «vieram as doenças inimagináveis» e o monstro da fome com o seu cortejo de mortes». Porém, «O Povo não se rendeu». Na Primeira Região Militar de Angola, no mais aceso e desesperado cerco de ferro e fogo que o colonialismo cada vez mais ia apertando, «esgotaram-se todas as leis da guerrilha e toda a inteligência militar», reúnem-se os responsáveis político militares …

 

Nestes excertos do seu livro, faz-se referência a um dos momentos mais decisivos da luta da 1ª Região Político Militar. Esse momento em, que reunidos os mais velhos, se encarou a hipótese de parar a luta pelas dificuldades inultrapassáveis face à pressão do exército colonial, da FNLA e ao isolamento a que esta região militar estava votada pela impossibilidade de receber apoios da Direcção do MPLA no exterior. No entanto, esse isolamento era também na altura a realidade de todo o MPLA, que esteve mesmo em vias de ser esmagado no exterior de Angola, pela pressão de muitos estados Africanos contra a direcção de Agostinho Neto.


Nito Alves teve neste contexto, em meados de Janeiro de 1974, um papel decisivo quando foi designado pelos mais velhos para ir a Luanda clandestinamente em busca de apoios e para estudar hipóteses de lançar a guerrilha urbana. Fê-lo juntamente com o seu velho companheiro de aventura e guerrilha o camarada Adão. Sabe-se que muitas portas se lhes fecharam quando se anunciaram aos contactos de ligação que existiam. Ficaram por se saber alguns desses nomes que bateram as portas, no entanto dois nomes ficaram na história de um encontro, o de Albertino Almeida e do Dr. Macmahon Vitória Pereira. Estes receberam e apoiaram Nito Alves que no seu regresso levou à 1ª Região as boas novas que por lá soaram como um sopro de esperança de uma reviravolta eminente em Portugal. Cerrou-se então fileiras entre os combatentes para resistir por todos os meios ao desânimo que se apoderava de todos.

 

Nito Alves regressa a Luanda em Maio de 1974, depois do 25 de Abril em Portugal. Os contactos com Zé Van-Dunem,Valentin, Betinho e outros nessa ocasião, preparam as condições para se deslocar a Brazzavile a um encontro em Agosto com o Presidente Dr. Agostinho Neto.  Participa depois em representação da 1ª Região Político Militar no Congresso de Lusaka na Zâmbia aonde apoia Agostinho Neto contra as oposições internas da Revolta Activa e da revolta de Chipenda. Participa na Conferência Inter-Regional de Militantes nas chanas do Leste de Angola, logo depois do Congresso e da assinatura dos acordos de paz com o Exército Português.

 

Na CIRM de 1974, o também chamado congresso dos partidários de agostinho Neto, dá-se o encontro dos combatentes das matas vindos das várias regiões político militares com os do exílio e com os activistas das células clandestinas de Luanda. Nito Alves como representante da I Região Político Militar em estreita ligação com José Van Dunem dos comités clandestinos, tem ali um papel determinante na adesão da maioria dos dirigentes e chefes militares à liderança política de Agostinho Neto bem como da caução política que este recebe dos sectores simpatizantes dos centros urbanos . É eleito para membro do Comité Central entre os 34 militantes que sai da CIRM.


Nito Alves tem um papel importante no afluxo em massa de centenas de jovens citadinos aos CIR- Centros de Instrução Revolucionária a partir do mês de Setembro, destacando-se durante toda a segunda guerra de libertação nacional , contra as forças concertadas da África do Sul e do Zaire, que tentaram impedir a Independência de Angola a 11 de Novembro de 1975.


Grande mobilizador da massa militante do MPLA nas cidades, à frente do DOM Nacional (Departamento de Organização de Massas), homem com grande capacidade organizativa, dedicado às tarefas da revolução a cada momento, Nito Alves foi nomeado a 15 de Novembro de 1975 Ministro da Administração Interna da jovem República Popular de Angola. Nessas funções, dirigiu a organização Administrativa do país até à III reunião Plenária do Comité Central do MPLA em Outubro de 1976, implementando a Administração do território através da figura dos comissários provinciais. Foi ainda o obreiro da lei do poder popular, que criou ao nível local organismos de gestão dos problemas das populações.


Na III reunião plenária, em Outubro de 1976, Nito Alves é suspenso das funções que desempenhava no governo e no Movimento, juntamente com José Van Dunem a pretexto da acusação de terem sido protagonistas de um 2º MPLA. Estes dirigentes teriam segundo a versão oficial, de uma forma Fraccionista, reunido numa estrutura paralela grande parte da massa militante do MPLA. Estes dois dirigentes ficaram suspensos das suas funções durante um período de mais de 6 meses, aguardando as conclusões de uma suposta comissão de inquérito que apenas os ouviu em Fevereiro de 1977. Acabaram por ser expulsos do MPLA a 21 de Maio de 1977, numa reunião magna de militantes, convocada pela direcção, presidida por Agostinho Neto e realizada na cidadela em Luanda.


Vendo-lhe negado o direito à defesa e sujeito a toda uma campanha de calúnias e ataques pessoais públicos, conduzidos pelo único órgão de imprensa existente, o Jornal de Angola, dirigido por Costa Andrade, N`Dunduma, Nito Alves acabou por ser condenado antes mesmo de ser ouvido. Em legítima defesa, escreveu então as famosas “13 Teses da minha defesa “, com o intuito de dar a conhecer aos restantes membros do MPLA, bem como às organizações de massas e regionais as razões do seu afastamento.


Tal documento, ao ser divulgado indiscriminadamente, deu origem ao aumento da repressão sobre a massa militante , tendo na altura muitos deles sido conduzidos às cadeias, apenas pelo simples facto de as terem lido ou de a elas se referirem.


Nos seis dias posteriores a 21 de Maio, Nito Alves terá então encabeçado um movimento de contestação aberto às medidas repressivas da direcção do MPLA, em particular em Luanda, que não tendo as características de um golpe de estado , que lhe atribuíram, teve contudo o apoio dos sectores militares determinantes.


Estes acontecimentos terminaram a 27 de Maio de 1977, com a intervenção do exército cubano, em defesa da ala de Agostinho Neto. Não se sabe até hoje se Neto terá sido o principal mentor da acção repressiva que se seguiu ao dia 27 de Maio, ou se manietado por uma outra força mais poderosa e sombria, ficou prisioneiro das sua opções de momento ao apoiar a minoria contra a massa de militantes contestatários.


No rescaldo dos dias posteriores ao chamado “ Golpe de Estado “, Nito Alves terá fugido para a sua região de origem, a célebre I Região Político Militar do MPLA, aonde acabou por ser apresentado à televisão como supostamente capturado pelas populações locais.


A confirmar-se a hipótese de ter sido feita uma montagem da sua captura, tal confirmaria a hipótese apontada por muitos de se ter ele próprio vindo entregar a Luanda a fim de evitar mais mortes. Sabe-se também que depois de preso, foi selvaticamente torturado e humilhado. Recentemente, houve o testemunho de um militar de nome João Kandada, a residir em Espanha, que assumiu o ónus de o ter fuzilado sob ordens de Iko, Onambwe e Carlos Jorge, estando ainda a assistir Ludy Kissassunda Veloso e outros. Este confesso assassino diz ter cometido tal crime a mando da chefia da DISA, reconhecendo ainda que corpo do lendário comandante da I Região Político Militar, foi posteriormente atirado ao mar com pesos para se afundar.


Confessou também na mesma entrevista, publicada no jornal “folha 8” de 26 de Maio de 2001, que a célebre ambulância com os heróis carbonizados, teria feito parte do plano para diabolizar os apoiantes de Nito Alves tendo sido o mesmo concebido e executado por pessoas da DISA.


O mistério da sua morte, obscurece-se com o passar dos anos, em que os dirigentes ainda vivos, silenciando as suas vozes se mostraram até agora incapazes de confessar os hediondos crimes, pretendendo ocultar às gerações futuras factos históricos relevantes da Nação Angolana. Sabe-se também, que a título póstumo, Nito Alves terá recentemente sido promovido de Major a Brigadeiro.


Nito Alves disse um dia: « Os que fazem a História nem sempre podem escrevê-la»



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Rui Coelho, ex – Director do Gabinete de Nito Alves

Lisboa - Nasceu na Catumbela, viveu no Lobito, brincou nos mangais, cresceu, estudou no Compão, fez a Universidade em Lisboa, ensinou em Luanda. Voltou ao Lobito para casar. Amou Angola. Nunca chegou a conhecer o filho. Da sua execução não se conhecem local, data ou circunstâncias. Tinha 25 anos. Sobrou uma certidão de óbito, lágrimas, saudades e revolta.


Fonte: Associação 27 de Maio

O retrato

ImageO Rui Coelho, familiarmente conhecido por Zeca, era o terceiro de seis filhos. Nasceu em casa, na Catumbela (República Popular de Angola), a 31 de Março de 1952. O Bilhete de Identidade registava, contudo, como data de nascimento, o dia 21 de Março.


Na memória familiar, ficaram os seus bonitos caracóis loiros - cortados pelo mano Luís, inspirado por algum cabeleireiro, com enorme desgosto da mãe: não tinha havido oportunidade de uma fotografia que os fixassem para a posteridade…!!!


Antes da escola primária, feita no Colégio Manuel de Arriaga (à época, localizado no antigo mercado do Lobito), frequentou a pré - primária nas Madres Doroteias. Que, na altura, ele próprio descrevia como “umas meninas de brincar como as outras, que depois se vestiam de bruxas e iam para madres”. Um comentário tecido perante a mãe, quem sabe… a tentar justificar uma mordidela no rabo (ou terá sido na mão?) de uma das freiras. Episódios familiares…


Apesar de ter nascido na Catumbela, a maior parte da infância e adolescência viveu-a no Lobito. Os mangais por detrás da antiga 28 de Maio (ainda não existia a rua 15 de Agosto) eram o paraíso da garotada. Aí se apanhavam os caranguejos que eram trazidos para casa (no antigo prédio do Figueiredo, ao pé da Robiallac) como se de cachorros se tratassem: amarrados numa das patas com um cordel eram transportados à trela pela miudagem, e lá estava o Zeca… O futebol e o jogo do arco (com os aros dos barris da mercearia do pai) foram outras das suas brincadeiras de infância.


Desde muito cedo que manifestou o seu gosto pela leitura. Na casa da família o acesso aos livros era fácil, não havia proibições, era possível ler de tudo: clássicos da literatura portuguesa e estrangeira, atlas, histórias aos quadradinhos, livros mais científicos como a farmacopeia - a mãe era farmacêutica e, com o pai, co-proprietária da Farmácia Lobito. Tudo era “devorado”, Camilo Castelo Branco, Rip Kirby, Eça de Queirós, Ene 3, Karl May… e muitos outros livros emprestados ou deixados em casa pelos muitos amigos.


A curiosidade natural e a inteligência do Rui foram ainda mais espicaçadas pelas histórias (e os sempre oportunos remoques e observações) da mãe e pelos passeios, idas à praia, viagens e cantorias proporcionadas pelo pai. As idas ao Cubal, à Ganda, ao Cavimbe, a Novo Redondo ou a Benguela constituíam-se em verdadeiras aulas de Botânica e Zoologia, sempre estabelecendo pontes e relacionamentos com a fauna, flora e geografia de Portugal ou de outras partes do mundo…


As surtidas à Fazenda Agrícola da Lunda, propriedade da firma Simões Coelho de Benguela (onde o padrinho era funcionário), proporcionaram-lhe contacto com a realidade da vida nas fazendas e com a caça (capotas, gulungos, cabras do mato etc.). Amândio Ribeiro - gerente da fazenda, grande amigo da família, excelente caçador e bom contador de histórias - juntamente com a sua esposa, D. Helena, proporcionaram-lhe férias inesquecíveis. Quase tão inesquecíveis como aquela ida à fazenda do Cavimbe, propriedade de José e Cândida Marques: A Bela, a Teresinha e o Rui Marques, filhos desse casal amigo dos seus pais ficariam como companheiros quase fraternais da infância do Rui Coelho.

A estes, teríamos de juntar outros, como o Mandito e o Rui (filhos dos seus padrinhos de baptismo, D. Adelaide e Sr Licínio Barata, de Benguela) que juntamente com os Portela Marques, constituiriam algumas das amizades que ele iria preservar ao longo do tempo.


O liceu, começou por frequentá-lo ainda ele funcionava na Associação Comercial do Lobito e, a partir do 5º ano, já no edifício novo do Liceu Almirante Lopes Alves, no Compão. Desses tempos ficou a recordação dos relatos cheios de sentido de humor - feitos pelo Rui e seu mano Luís, sobre as aulas do professor de Físico-Química, carinhosamente apelidado pelos alunos de “Barbeiro” - que tornavam os jantares em família num delicioso divertimento. Um sentido de humor também condensado naquela resposta a uma determinada professora quando, sendo-lhe perguntado o nome, responde: Rói Jorge Pratos de Massa Cotovelo (em vez do Rui José Pinto de Matos Coelho que lhe tinha cabido em sorte na pia baptismal).


Já nesta fase da vida ele começava a evidenciar capacidades de liderança à mistura com uma personalidade forte. Recorde-se aquela vez em que, nomeado chefe de turma e depois de uma aula onde os colegas se terão portado menos bem e sujado a sala, a Directora de Ciclo lhe ordena que limpe aquela sujidade. Recusa-se, dizendo que não tinha sido ele a sujar e que era Chefe de Turma e não varredor…!!!


O liceu é também tempo de novas amizades, já fora do círculo de relações da família: o Tá–hy Viana, a Mila “Brasileira”, o Vasco e a Elisa Afonso, o César, o Castelão, o Patoilo, o Filipe Campos e o Filipe Nascimento engrossam o lote dos seus amigos. E é também no liceu que conhece aquela que (mais tarde, em Abril de 1975) passará a ser a sua mulher: a Mila Ferreira, conhecida lá por casa como Mila 18, numa referência a uma personagem de um livro de Leon Uris.


Com o mano Luís e os amigos Filipes, participava nos vários concursos promovidos por programas do Rádio Clube do Lobito. Eram noites divertidas em que os almanaques de casa voavam ao sabor das perguntas. E vai acumulando vários prémios, nomeadamente um conjunto de cadeiras de varanda, com a sua deliciosa espreguiçadeira…adereços que passaram a adornar a varanda da casa dos pais…


Constituiria (com o Gil, O Fililipe C. e o Castelão) o grupo Aquela Máquina que manteve uma intervenção activa na área da crítica musical através dos textos difundidos na rádio. Ficou conhecido em boa parte de Angola (graça às emissões de onda curta) e apresentava a particularidade de a identidade dos seus componentes permanecer, durante muito tempo, desconhecida. Da escuta das emissões internacionais de diversas rádios, retiravam a informação que lhes permitia sustentar a referência ás correntes e aos grupos musicais mais avançados do momento.


Nas férias, com o Luís Coelho e com os Filipes, ajuda o pai na farmácia e na mercearia. O resto do tempo livre era gasto com passeios à volta do Mercado, com as jornadas de ping-pong no Lobito Sports Club, sem perder, à noite, o Cine-Esplanada Flamingo. Claro que, antes da ida ao cinema, havia que fazer sempre uma incursão pela pastelaria Áurea. A apetência fílmica vai desenvolver-se durante os tempos de faculdade, com o gosto pela sétima arte a ser cimentado pelo acesso mais fácil aos “Cahiers du Cinéma”.


Muitas vezes, depois da ida ao cinema, vinham as caçadas nocturnas na estrada Lobito–Luanda, nas chamadas anharas de Novo Redondo. À companhia do irmão e dos Filipes acrescentava-se o Patoilo e lá vinham as caçadas de estrada com o tal farolim - que mais tarde viria a ser banido mas que naquela altura estava muito em voga! E tudo acabava em grandes patuscadas com os amigos. As mães é que achavam menos graça devido ao trabalho suplementar que tais façanhas lhes acarretavam.


Era durante as férias que se juntavam todos nos acampamentos na Ponta da Restinga. Tempo de convívio e divertimento, mas também de afirmação de necessidade de autonomia e independência. Para os irmãos mais novos, então, era um deslumbramento: entre as emoções de preparativos e montagem e as histórias de contar noite fora…


O gosto pela língua inglesa desenvolveu-o no liceu. O facto de viver numa cidade portuária e cosmopolita permitiu-lhe treinar a conversação com estrangeiros que aí chegavam e aprofundar o treino da escrita com os correspondentes que foi arranjando e que o ajudaram ainda a enriquecer a sua colecção de selos, naquele que foi outro dos seus hobbies: a filatelia.

A formação católica, inculcada pela mãe, vai conduzi-lo, nesta fase da vida, à JEC (Juventude Estudantil Católica). Os padres D. Celso e Jorge deixaram marcas profundas nos jovens que acorriam à sede da JEC, na Rua 28 de Maio. Aí o Rui Coelho vai complementar a sua formação religiosa, participar em encontros de jovens, acompanhar as visitas aos hospitais e visitar os detidos na prisão. Alguns anos mais tarde virá, porém, a pôr em causa o papel da Igreja e afastar-se-á das práticas religiosas.


Mas a JEC servia também de ponto de encontro dos jovens e de ocupação dos tempos livres. Conversava-se, jogava-se ao monopólio e à sueca e organizava-se a biblioteca. É aqui que desenvolve o gosto pelo xadrez. O amigo Calicas ensina-o e incute-lhe o gosto por este jogo. Consultando livros, estuda os diferentes tipos de aberturas possíveis num jogo de xadrez. Torna-se um bom jogador. O Calicas nunca mais lhe consegue ganhar um jogo. De referir que, para ele, os livros lhe permitiam aprender tudo, inclusive a dançar: quando decide que quer aprender a dançar o Twist, a Valsa ou o Tango, compra um livro… e durante uns tempos dedica-se à aprendizagem da dança, transformando em cobaias os irmãos mais novos…


ImageO Rui era estudioso (estudava falando alto e andando de um lado para o outro), inteligente e bom aluno. Tantos e tão diversificados interesses permitem-lhe também que todo o seu percurso escolar seja feito de uma forma fácil e sem percalços. Aliás, com um pequeno percalço: o do Latim no 7º ano - rapidamente superado com umas explicações nas férias. No exame de segunda época obtém, facilmente, 19 valores!


No ano lectivo de 1969/1970, vai para Lisboa, para fazer o curso de Direito. Os primeiros tempos são de adaptação: à faculdade, ao lar universitário (no Lumiar), aos almoços e jantares nas cantinas universitárias e ao clima. Estranhou, sobretudo, o frio. Nas férias do Natal (em casa dos avós, na Beira Alta, ao pé da serra da Estrela) dorme, por vezes, de sobretudo.


Em Lisboa ele reencontra antigos amigos de Angola, faz novos conhecimentos, trava novas amizades. A Portugal tinham chegado os ecos do Maio de 68, os movimentos estudantis em Coimbra e Lisboa transportavam ventos de mudança e renovação, vivia-se em plena fase de lutas académicas, a Oposição Democrática faz campanha nas eleições para a Assembleia Nacional mas não se apresenta às urnas, denunciando o estado de Ditadura e a burla eleitoral.

Nos finais de 1970 a mãe vai de licença graciosa a Portugal (com os filhos mais novos). Aluga um apartamento no Campo Grande: saía mais barato ter os filhos, que estavam na Universidade, todos juntos numa casa do que cada um em seu lar. E como o apartamento ficava muito próximo das faculdades de Direito e Letras, o Rui e a irmã mais velha nem precisavam sequer de utilizar transportes. Nessa altura, o mano Luís, que frequentava Engenharia em Luanda, vem também para Portugal.


E a casa do Campo Grande estava situada num ponto estratégico: mesmo ao lado da Residência Feminina das Estudantes Ultramarinas, e a uma centena de metros da “Gôndola”, café de longas conversas e de encontros de muita gente ligada a África e que, frequentemente, era local de refúgio de estudantes em debandada à frente dos cavalos da Guarda Republicana nas manifes da Cidade Universitária. Ao lado do café, a antiga barbearia dera lugar a uma tabacaria com livros… Aí se conseguia - às escondidas - encomendar quase tudo. Não espantava, por isso, que o apartamento do Campo Grande começasse a abarrotar de literatura sobre a guerra do Vietname ou as lutas na Irlanda, à mistura com os livros sobre as revoluções na Rússia ou na América Latina, os poetas de Libertação africana… E o quarto dele vai-se forrando com os posters de Ho Chi Min e de Che Guevara.


São tempos de grande companheirismo, entre as noites no “Apolo 70″ ou até às tantas na “Alga”, tempos dos Festivais de Jazz em Cascais, com música e polícia de choque à mistura, a espiral frenética dos meetings, dos plenários, dos concertos improvisados com Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, mas são também os tempos do culto do cinema, da casa sempre inundada de gente e envolta numa imensa nuvem de fumo de cigarro, com intermináveis discussões políticas entremeadas de partidas de xadrez… Nos intervalos… havia as aulas da Faculdade e os exames que sempre foi cumprindo. Quando regressou a Angola, em 1973, só lhe faltava uma ou duas cadeiras para terminar Direito. Instalado em Luanda, inicia uma carreira de Professor. Casa-se em 1975.


Em Outubro de 1975, a mãe e os irmãos mais novos vêm para Portugal. O Rui fica em Angola - só o voltaríamos a ver em Junho de 1976, já nessa altura cidadão Angolano ao serviço do Ministério da Administração Interna (Gabinete de Estudos). Chegou bastante magro, instalou-se de novo no Campo Grande com a família. Foi a última vez que esteve com a mãe e os irmãos. Foi a última vez que o vimos.


Quando se dá o 27 de Maio, ficámos alarmados com as notícias do que se estava a passar em Angola. Mais alarmados ficámos quando começámos a ver a fotografia do Rui nos jornais. Não queríamos acreditar no que se estava a passar, nem nas acusações de que era alvo o Rui, que tinha querido ficar em Angola porque a amava e a queria ajudar a construir. As comunicações entre Lisboa e Angola eram muito complicadas, frequentemente quase impossíveis: não conseguíamos falar para o Lobito onde estava o pai do Rui, não conseguíamos falar com a Mila Ferreira.


Um dia, finalmente, conseguimos contactar uma pessoa amiga que vivia em Luanda. Não nos queria dizer nada, sentia-se-lhe o medo na voz, não podia falar… Tempos difíceis, tempos de ansiedade, de angústia, de desespero aqui e ali pontuados com alguma réstea de esperança no meio de indicações tão contraditórias…


A mãe escreve uma carta à mulher do então Presidente da República Portuguesa com o objectivo de ela interceder junto do marido para buscar informações e apoiar se necessário uma actuação em defesa de Direitos Humanos. Escreve também à Cruz Vermelha Portuguesa solicitando informações. Porque, até nós, só chegavam boatos dizendo que ele estava na prisão A, tinha sido visto na prisão B ou já fora transferido para a prisão C…


Depois de meses de solicitações, de pedidos, de insistências várias, a única informação oficial que obtivemos veio através de um frio telegrama da Cruz Vermelha Portuguesa: aí se anunciava, de forma crua, que ele estava morto. Ninguém queria acreditar. A mãe não se conforma. Recusa-se a aceitar a notícia do assassínio do seu filho… Em 1977, ele, quase advogado e defensor de causas, preso, sem culpa formada, apresentado como suspeito de delito de opinião, condenado à morte sem direito a defesa ou a julgamento justo??? Ele, que nem se encontrava em Angola aquando do 27 de Maio???


Recusámo-nos a acreditar e aceitar, até que recebemos a notícia (já em 1978), de que se tinha conseguido obter uma Certidão de Óbito que referia a sua morte. Ironia do destino, neste capítulo até fomos privilegiados: alguns dos desaparecidos no 27 de Maio nunca conseguiram qualquer documento que comprovasse a sua execução!!!


Durante muito tempo não fomos capazes sequer de dar a notícia à nossa mãe. Foi a Mila, a filha mais velha, que o viria a fazer. E jamais poderemos esquecer os gritos, as lágrimas e a dor de uma mãe quando recebe a notícia de que o seu filho foi assassinado, sem que nada (nem ninguém) o pudesse explicar e, muito menos, justificar.


No meio de toda aquela dor, de todo aquele desespero, apenas a boa notícia, a alegria de sabermos que o nosso pai, o Coelho da farmácia Lobito, consegue trazer o Ruca Tukayana (filho do Rui Coelho, e já então com seis meses), para Portugal, para a segurança e o carinho da restante família.

O desespero, a não aceitação dos factos, a impossibilidade de se saber em concreto o que se passou, tornam-nos ainda hoje extremamente difícil esta narrativa. É difícil falar da dor… mas ainda é mais difícil falar de uma coisa que não se entende nem se compreende. Porque foi morto o Rui, ele que nunca atentou contra ninguém? Que não pode ser acusado de crimes de sangue ou de actos de violência fosse contra quem fosse…???


Continua a ser difícil falar disto tudo. Mas estamos num tempo em que é necessário e urgente saber-se o que se passou. Exigimos que as circunstâncias do seu assassínio sejam esclarecidas e que os seus responsáveis sejam encontrados. Se Angola quer abraçar os princípios da convivência internacional não poderá escusar-se às regras de investigação dos Tribunais Internacionais. E nós, irmãos (os pais já faleceram) exigimos saber o que aconteceu (e como aconteceu) porque nada poderá justificar o assassínio do Rui Coelho.

 

Ele estará sempre na nossa memória, no nosso coração. Aquela saudável teimosia, aquela viva inteligência, o gosto pela leitura, pelo cinema, pelo xadrez e pela filatelia, a curiosidade e o interesse pelas questões sócio - políticas e pelo mundo à sua volta, aquela sede de vida e de amizade, aquele carácter carinhoso… não, não esquecemos… nem perdoamos!


Não há vidas sem história. E esta é a história de uma vida: curta, precocemente interrompida, ceifada de forma cruel, cobarde, à margem de todo o Direito Internacional e contrariando todos os princípios de defesa dos Direitos Humanos. Um crime inominável que lhe roubou a vida e com o qual todos perdemos: perdeu Angola que ele amou e por quem trabalhou e lutou, perderam os pais e irmãos, perdeu a mulher e o filho que ele nunca chegou a conhecer.


Este pequeno retrato foi feito a várias mãos. Teve o contributo das informações, das opiniões e dos relatos dos amigos (mais ou menos próximos) e dos familiares. Ele constitui, sobretudo, uma pequena homenagem a um jovem idealista e generoso, que lutou por um mundo mais justo e melhor, que lutou, em suma, pelos seus ideais.

 

*Maria da Conceição Coelho (irmã)



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Sita Vales, protagonista do “27 de Maio” – In memorium

Lisboa - Quem a conheceu em Lisboa, militando pelo comunismo, guarda dela a imagem de uma “pasionaria” empenhada com todas as forças na causa revolucionária. Quando o PCP começou a perder terreno em Portugal, Sita Valles decidiu voltar a Luanda, terra onde a “vamp” da década anterior seria agora a dinamizadora da ala mais radical do MPLA. Para deter tanto activismo foi preciso um pelotão de fuzilamento, mas, passados quase 15 anos, as autoridades de Luanda ainda recusam revelar o que se passou.


*Felícia Cabrita
Fonte: Revista “Expresso – Sábado, 25 de Janeiro 1992”

O mistério Sita

SEXTA-FEIRA, 27 de Maio de 1977 os sinos dobram em Luanda. de madrugada, populares e militares cercam o centro da cidade, ocupam prisões e quartéis, e exigem a Agostinho Neto que cumpra os estatutos do MPLA e afaste alguns ministros corruptos.

 

Acreditam ainda que podem ganhar para a sua causa o Presidente da República. Mas a reposta não tarda, as tropas cubanas entram a matar e em poucas horas a casa fica arrumada. A Sita Valles, que se celebrizara no movimento estudantil em Portugal, e aprendera as primeiras lições de Marxismo – Leninismo nas fileiras do Partido Comunista Português, tem a cabeça a prémio. É uma das cabecilhas do “golpe de estado”. Por uns, é acusado de estar ao serviço do imperialismo, por outros de ser agente secreto da KGB. Uma versão de Mata-Hari que entre lençóis decidia o destino do povo angolano. É fuzilada três meses depois, sentença assinada por Agostinho Neto, o poeta.

 

SITA Maria Dias Valles, nasce em Angola em 1951. O pai, Francisco Valles, de origem goesa acabara de se licenciar em Portugal e partira rumo à colónia para fazer carreira. A família instala-se em Cabinda. O futuro sorri ao jovem engenheiro-agrónomo, enquanto na Europa o anticolonialismo ganha forma e António Salazar continua surdo aos apelos descolonizadores. Sita cresce sem contradições no meio burguesia colonial. Desde pequena que abraça grandes causas, quer desempenhar um papel belo e nobre. Faz a sua primeira aliança com Deus, coloca pedras nos sapatos para se martirizar, não perde uma missa, é devota.


SÁBADO, 4 de Fevereiro de 1961, um grupo nacionalista, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), ataca em simultâneo duas cadeias e um quartel da polícia para libertar presos políticos. Os colonos pela primeira vez sentem-se em perigo. Sita vive agora em Luanda, num parque florestal onde o pai trabalha para os Serviços de Agricultura. A cidade está em estado de choque. As tropas portuguesas, acabadas de chegar, invadem musseques, e milícias civis incitam os soldados ao massacre. É a caça ao “turra”. Os boatos crescem na capital, é anunciado um ataque em massa a Luanda. Sita conhece pela primeira vez o medo. Apela a Deus, espalha santos pelas portas e janelas. No terraço da casa colonial, coloca estrategicamente uma fila de soldados canonizados, que defendem a família dos “terroristas”.

Mas o pânico inicial esmorece, e a adolescência traz a Sita novos modelos e referências. A moda dos anos 60 pega, ela usa mini-saias e botas altas, a sua beleza torna-se lenda, dá a volta à cabeça dos rapazes e desnorteia as famílias. Na Faculdade de Medicina, logo no primeiro ano, arrecada o título de Miss Caloira. Um colega Luís Nolasco, toma-se de amores por ela, e a chama é tão intensa que o jovem vê os exames de fim de curso a andarem para trás. A mãe do rapaz procura-a e pede-lhe que se afaste de Luanda até as provas terminarem. Francisco Valles degreda-a com o irmão Edmar, para uma missão no Quéssua, perde de Malange. Mas a rapariga não se habitua a alimentação frugal dos missionários americanos e envia uma carta ao pai clamando misericórdia. Os religiosos, que têm por hábito ler a correspondência alheia, não gostam da mensagem, e o estágio dos irmãos acaba mal.

 

NOS finais dos anos 60, chagam a Angola os ecos da revolta francesa de Maio de 68. Sita descobre as contradições da sociedade em que vive. Pertence ao grupo dos “cor-de-rosa”, cor do seu jornal preferido o “Comércio do Funchal” de Vicente Jorge Silva, que galvaniza estudantes da universidade luandense e desperta simpatias pela República Popular da China. No entanto, a luta pela independência de Angola marcha a lume brando. No próprio MPLA, anos antes, em 1963, nasciam dissensões. Viriato da Cruz, um dos seus fundadores, propõe a união com a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), mas Agostinho Neto discorda. Viriato é expulso e refugia-se na China. Matias Miguéis, vice-presidente do MPLA, que também defende a união dos movimentos, é abatido meses depois. o reforço militar português em Angola e as divergências entre os grupos nacionalistas faz com que percam terreno.

 

Em 1974, Sita e um grupo de estudantes angolanos, de origem portuguesa decidem-se. partem para a metrópole para engrossar as fileiras dos grupos antifascistas que lutam contra o regime e a favor da descolonização. Em Lisboa, reencontra com o irmão mais novo, Edgar, que partira um ano antes de Angola e se torna militante do PCP. Em poucos meses, sacode as primeiras pinceladas maoístas, é recrutada pelo PCP e apregoa um novo evangelho. Os seus profetas são Marx e Lenine e a sua causa a revolução e a ditadura do proletariado. Participa de imediato no movimento estudantil, e é membro da associação estudantil da Faculdade de Medicina, de 1971 a 1974. “Ela não sabia viver com dúvidas, tinha certezas. Era uma prática, queria concretizar-se na acção”, recorda o médico José Manuel Jara, então dirigente da célula comunista de Medicina. Alguns estudantes caem nas mãos da PIDE. O silêncio é regra de ouro, quem não resiste à tortura e denúncia é marginalizado pelos colegas. “Para a Sita, era pessoa de quem nunca mais se falava”, diz Jara.


É uma época de fervor ideológico, o movimento estudantil digladia-se, fazem-se “julgamentos populares” de estudantes, estala a pancadaria. Nas Reuniões Interassociativas saltam para a arena as várias correntes políticas, e as acusações chovem: “revisionistas”, “sectários” e “sociais-imperialistas” são os piropos recíprocos. Abatem-se as velhas amizades. Jofre Justino, colega de Sita em natação, no Clube Nun’Alvares, desde os sete anos, está agora num campo oposto: “Na altura eu era maoísta, e estava convencido de que era ela que orquestrava os golpes vindos da União dos Estudantes Comunistas (UEC) contra nós”.

 

Sita celebriza-se no movimento estudantil, é uma activista política e destaca-se na UEC. Mas viver com ela é um inferno. José Camisão, hoje médico, cometera o erro da sua vida: largara Angola e o curso de Medicina a meio, e seguira-a para a metrópole. Ele não tem ideais nem acredita em revoluções. Filho da alta burguesia colonial, apenas alimenta uma fidelidade: Sita Valles. Vivem maritalmente num apartamento em Campo Grande, e ele quer a todo o custo não se ver envolvido nas actividades partidárias da companheira: ”Não me metas nas tuas histórias, porque se um dia sou preso pela PIDE não tenho estofo e digo tudo.” Conselhos que ela nunca seguiu. Transformou-o no motorista dos clandestinos do Partido, e a mala do seu carro é usada várias vezes sem conta para esconder panfletos, o que lhe vale uma vez um mandato de captura. Mas o pai, uma figura do regime, salva-o a tempo.

 

O 25 de Abril apanha Sita em Moscovo, é a representante da UEC no congresso do Komsommol (organização soviética da juventude). “Regressou completamente fascinada por Brejnev”, lembra Edgar Valles. E desconfia da revolução dos cravos. Dias mais tarde, reúne-se com alguns militantes da UEC num apartamento da Avenida de Berna. “Estávamos a discutir se o golpe era positivo ou negativo”, recorda Jara, um dos presentes. Sita é das mais desiludidas, o desfecho não correspondia às lições aprendidas na cartilha marxista-leninista, a dita revolução não passava de golpe militar. Mas, rapidamente, o PCP recupera: afinal tinha havido apoio popular, logo, o golpe era positivo.


Um ano mais tarde, o socialismo parece levado por maus ventos. O PCP tenta segurar o barco, mas o país desfere-lhe um golpe profundo. Nas eleições de 1975 para a Constituinte, o PS obtém a maior votação, seguido de perto pelo PPD. Um dia, Jara dá uma boleia a Sita e ela confessa-se desiludida: “A revolução aqui já deu o que tinha a dar, já não há hipótese de o país se encaminhar para o socialismo.”


Em Angola, entretanto, a desgraça adivinha-se. A Lisboa chegam rumores de que o MPLA se encontra desfeito. A guerra civil rebenta, os movimentos nacionalistas – MPLA, UNITA e FNLA – combatem-se. Tinham aprendido na escola colonial a intolerância política. Sita, que faz parte da Comissão Central da UEC, sendo considerada a número 2 , depois de Zita Seabra, arruma as malas, acena a bandeira de “Che” Guevara e vai fazer a revolução para Angola. Zita e Álvaro Cunhal tentam dissuadi-la. “O PCP estava muito interessado nas relações com Angola, mas achava que não devia mandar para lá estudantes,, porque estes tendem sempre para o desvio ideológico”, lembra a então líder da UEC. “Os quadros que enviámos para lá não eram estudantes”. Porém, cegos e surdos às orientações do partido, estudantes comunistas partem para Angola. Mas não vão sozinhos. Jovens dos vários quadrantes da extrema-esquerda portuguesa seguem-lhes os passos, convictos de que vão puxar os fios do destino africano.


Cruzam-se com os colonos que tinham perdido o lugar ao sol e corriam para a metrópole em pânico. A família Valles chegara na remessa. Maria Lúcia, a mãe, tentara convencer Sita a ficar: “Olha que te vão cortar em postas”. A filha, como resposta, oferecera-lhe um livro e resumira-o: “ Mãe, esta mulher perdeu um filho. Enquanto ele era vivo, não concordava com as posições dele. Quando ele morreu começou a lutar pelos ideais dele.” Era A Mãe, de Gorki.


Sita Valles aterra em Luanda no Verão de 1975. Agostinho Neto recusa-se a dialogar com Holden Roberto e Jonas Savimbi. Os acordos de Alvor, onde os três movimentos tinham negociado, em Janeiro, um governo de coligação que preparasse o país para eleições gerais, caem por terra. Neto recebe apoios da Jugoslávia, armamento entra nos portos de Luanda e tropas cubanas ajudam-no a correr com os adversários. È a luta pelo poder total. A 11 de Novembro, proclama a independência e reivindica o reconhecimento internacional. Mas o Presidente da República não está contente.

 

Era preciso consolidar a unidade do país, uniformizar, esmagar a divisão. E o MPLA, movimento constituído por várias tendências políticas, tem de arrumar a casa. Nito Alves, um dos heróis da guerrilha, agora ministro do Interior, é o homem de mão de Neto para combater minorias. Começam as perseguições à Organização Comunista de Angola (OCA), com ligações à extrema-esquerda portuguesa, acusada de esquerdismo; e à Revolta Activa, liderada por Joaquim Pinto de Andrade, um dos presidentes de honra do MPLA até 1973, considerado agora um pequeno-burguês.


A Direcção de Informação e Segurança de Angola (DISA) instala-se e estende as suas malhas. Vicente Pinto de Andrade, da Revolta Activa, um dos muitos presos, recorda: “Agostinho Neto era um ditador, queria eliminar todos os grupos que lhe fizessem sombra, era incapaz de dialogar”. Haverá uma só voz neste país, dizia o poeta-presidente. Nas prisões, a tortura é sistemática. A história de Angola começa mal: em nome da Revolução, a vida deixa de ter sentido.


Sita sobe depressa nas estruturas do MPLA, apoiada por Nito Alves, que se deixa fascinar pelo dinamismo da “Pasionaria” angolana. Assume importantes funções no departamento de Organização de Massas, mas depressa cria ódios entre os velhos dirigentes do MPLA. Nas reuniões do Bureau Político, acusam-na de ser uma infiltrada do PCP para controlar Angola.


E o MPLA expulsa todos aqueles que militaram anteriormente noutras organizações políticas, mesmo aliadas. Sita não escapa à exclusão, mas nem isso diminui o seu fervor revolucionário. A 4 de Janeiro de 1976, escreve aos pais e, para tranquilizar a família católica, anuncia o casamento com o angolano José Van Dunem, comissário político do Estado Maior Geral. No entanto avisa-os: “Não interessa politicamente que divulguem o casamento, porque eu fui do PCP e ele é dirigente do MPLA. Isso compromete-o politicamente. O MPLA não é comunista.”


Em Moscovo, nesse ano, Nito e Van Dunem assistem com Cunhal e Fidel Castro ao 25ª aniversário do PCUS. Passados meses, Nito perde o lugar de ministro do Interior. No MPLA cava-se novo fosso: de um lado, Neto e alguns velhos dirigentes, adeptos de uma via “terceiro-mundista”, de características semelhantes à argelina e com aproximações à Jugoslávia; do outro, Nito, Van Dunem e Sita, fiéis à ortodoxia soviética.


A 8 de Fevereiro de 1977, nasce Ernesto, o primeiro filho de Sita e de Van Dunem. “Demos-lhe o nome de “Che” em homenagem a Guevara”, escreve aos pais. Continua a defensora da causa do proletariado. E desconhece que a história revolucionária é de todas a mais sangrenta.


“Nós, na altura, desconhecíamos o que se passava na URSS, pensávamos que o que se dizia era obra da propaganda”, recorda Amadeu Neves, angolano, militante do MPLA, seu “compagnom de route” e hoje no Partido Renovador Democrático angolano. Em 21 de Maio, uma comissão de inquérito, nomeada pelo Bureau Político e dirigida por José Eduardo dos Santos, chega à conclusão de que há “fraccionismo” dentro do próprio MPLA. Nito e Van Dunem são expulsos do Comité Central nesse mesmo dia. À noite, José Mingas – irmão do actual embaixador angolano em Portugal, Rui Mingas – , chefe de operações da DISA, avisa a família Van Dunem de que vai haver muitas prisões e que Sita e o companheiro têm a cabeça a prémio. Começa a girândola que de novo mancha de sangue a história de Angola.


Nos dias seguintes, o grupo reúne-se e prepara a ofensiva. Mas nem todos estão de acordo quanto aos métodos a utilizar. Responsáveis das FAPLA (o exército angolano) pertencentes ao Comissário Político são a favor de um golpe militar. Amadeu Neves encabeça essa linha: “Tínhamos os militares todos do nosso lado. Se fosse um golpe militar, teríamos tomado o poder em meia hora.” Mas Sita e José Van Dunem, fiéis ao espírito bolchevique, não concordam: “Tem de ser uma insurreição popular. Os militares irão na retaguarda para defender o povo”. Têm um osso duro de roer pela frente: as tropas estrangeiras. “Os cubanos sabiam muito bem que havia um grande descontentamento em Angola, e nos contactos que mantivemos tinham prometido que não iam interferir nos assuntos internos do país”, garante Amadeu Neves. Num encontro na casa da família Kitumba, o conselheiro da embaixada da URSS repete sete vezes: “Só vos apoiamos se não for um golpe militar”.


Na madrugada de sexta-feira 27 de Maio, populares e militares enchem as ruas de Luanda e tomam quartéis e prisões para libertarem presos políticos.


Enquanto Sita , nos musseques, incita os operários à revolta, duas mulheres, Virinha e Nandy, dirigentes do destacamento feminino das FAPLA, dirigem o assalto à cadeia de S. Paulo. Hélder Neto, chefe da INFANAL – serviço de Informação e Análise – órgão paralelo à DISA, encontra-se desde as seis da manhã na prisão e é apanhado de surpresa. O feitiço virava-se contra o feiticeiro. Vítor Jeitoeira, um colono português recuperado pela DISA, hoje reformado e negociante de terrenos em Portugal, conta: “Hélder Neto tinha ordens para, nesse dia, começar a prender os adeptos de Nito. Estava lá a preparar a prisão para receber uma nova vaga de gente.”


Quando Hélder Neto percebe que está a perder o controlo da situação, liberta alguns presos e entrega-lhes armas para defenderem a cadeia. É um deles, Sambala, um cantor popular detido por delito comum, que o prende pelos braços, quando ele abre as portas da cadeia para negociar com os populares. Nandy, grávida de oito meses, toma a cadeia, e Hélder suicida-se.


Já não se sabe quem é quem. Sambala, ávido de acção, encosta os presos da OCA e da Revolta Activa à parede e carrega a arma. Vicente Pinto de Andrade vê a vida a andar para trás. ”Foi a Nandy que o impediu de nos matar. Abriu-nos as celas, deu-nos comida. Era uma espécie de 25 de Abril”.


O actual secretário-geral do PRD angolano, Luís dos Passos, num jipe com seis militares, dirigia a tomada da Rádio Nacional, enquanto os populares que saíam dos musseques engrossavam a coluna. Mantém-se em contacto com Sita e Van Dunem, que têm por missão a mobilização popular: “Ela estava optimista, as pessoas dos musseques estavam todas a responder ao apelo.”


Às oito da manhã, ouve-se um locutor na Rádio: “Dizem que o major Nito Alves é fraccionista, mas os verdadeiros fraccionistas são os que estão no poder e querem fechar os olhos ao nosso mais velho camarada, Agostinho Neto. São os camponeses e os operários que devem guiar o país.” Quando Saidy Mingas, fiel a Neto, entra no quartel da Nona Brigada para tentar ganhar as tropas, é preso pelos soldados. Ele e outros militares contrários à revolta são levados por populares para o musseque Sambizanga.


O Governo leva tempo a reagir, Neto está sem tropas. Mas, de repente, a situação muda. Na rádio, entre o choro de mulheres, ouvem-se gritos cubanos. O presidente tinha ganho o exército de Fidel, e, com Henrique dos Santos, nome de guerra Onambwe, director-adjunto da DISA, punha cobro à insurreição. “Conduzi a única tropa organizada do MPLA que restava para controlar o golpe”, conta o ex-responsável pela polícia secreta. Os soldados abrem fogo e os manifestantes dispersam, ficando pelo caminho muitos mortos e feridos. Para Sita, que se encontra num comando de Operações, a notícia do esmagamento da revolução chega como um dobre de finados. E prepara a fuga.


Pelas 16h00, a cidade está controlada, e os manifestantes procuram refúgio. Mas no Sambizanga ouvem-se tiros. Saidy Mingas e Eugénio Costa estão entre os comandantes mortos.

No começo da tarde, reina o silêncio na cidade. Na Rádio nacional ouve-se uma voz vacilante. Neto resume os acontecimentos que por poucas horas abalaram Luanda. Ele próprio está confuso: “Hoje de manhã, pretendeu-se demonstrar que já não há revolução em Angola. Será assim? Eu penso que não…Alguns camaradas desnortearam-se e pensaram que a nossa opção era contra eles. (…)Temos países amigos que não compreendem bem a nossa opção.” Era o recado à URSS.


No dia seguinte já o seu discurso mudara. Publicamente, anuncia que alguns comandantes do MPLA tinham sido mortos pelos “nitistas”. Entre eles, cita Hélder Neto. Jeitoeira um operacional da DISA, varia na versão. Assiste ao enterro do chefe da INFANAL, vê o corpo, não tem dúvidas de quem partiu o tiro. A própria viúva de Hélder confidencia-lhe: “Ele suicidou-se, mas o MPLA não quer que se saiba.” Criam-se vítimas para justificar o massacre. Para Rui Mingas, que perde dois irmãos nos dois lados da barricada, a história está por resolver. “O Saidy era uma pessoa muito odiada no MPLA. Sabia demais…” A presença de Eugénio Costa entre as vítimas também causa embaraços. Jeitoeira diz de sua justiça: “É estranho, porque nós sabemos que na noite anterior ele tinha estado com alguns fraccionistas a preparar o golpe.”


Nesse mesmo dia, centenas de pessoas são presas, fuziladas. È a caça às bruxas. Nos jornais de Angola lê-se: “Os criminosos serão fuzilados.” E Neto, publicamente, pronuncia a sentença: não haverá perdão.


No dia seguinte, às 19h00, o responsável do cemitério de Calema está a jantar com a família quando recebe um telefonema estranho. O seu chefe de repartição ordena-lhe que volte ao cemitério e aguarde. O cacimbo ensopa-lhe a roupa quando, de madrugada, param no portão dez carrinhas celulares. Carlos Jorge e Nelson Pinheiro (Pitoco), elementos da DISA, chefiam a expedição que estaciona junto a uma vala comum de 200 metros. Mal os prisioneiros se apeiam, soam as rajadas das “kalachnikov”. Alguns Aida têm tempo de gritar: “Salvem-me que eu não fiz nada”. Pitoco, chefe do pelotão de fuzilamento, atende rápido ao apelo das vítimas: “Esse é perigoso, fica para mim.” Um dos coveiros aplana a terra da vala com um tractor. Aida se ouvem gemidos. O chefe do cemitério está aterrorizado e Pitoco avisa-o: “Em Angola não pode haver contra-revolução, por isso, se falares, vais fazer companhia a estes.”

 

A própria DISA abate elementos das suas fileiras. Não há julgamentos nem advogados presentes. José Mingas, com 33 anos, é um dos 52 nomes que fazem parte da lista dos condenados à morte. Acusação: “Aproveitando-se do cargo de chefia que ocupava, desviou documentos classificados que entregou aos cabecilhas fraccionistas. Manteve contactos conspirativos com Zé Van Dunem.” Outros morriam apenas porque confessaram ter lido e divulgado as Treze Teses de Nito Alves, panfleto em que o autor acusa o MPLA de não cumprir os estatutos e denuncia ministros corruptos.

 

A norte de Angola, na Aldeia Kaleba, Francisco karicukila esconde Sita Valles. Não se lembra do ano em que nasceu, mas sabe que em 1966 já lutava pela libertação de Angola. Foi preso e torturado pela PIDE no campo de São Nicolau, onde conheceu Zé Van Dunem, companheiro de clandestinidade. Depois da independência, a UNITA por duas vezes arrasou a aldeia, matou mulheres e crianças. Agora os seus sonhos caíram por terra, os antigos perseguidos vestiam-se de perseguidores, calavam os seus próprios companheiros. Mas Sita ainda não perdeu as esperanças. “ A revolução é assim: lenta”, dizia-lhe.


Luanda tornava-se palco de horrores. Todos os que se haviam cruzado com Sita têm a vida por um fio. As cadeias enchem-se. Costa Martins, ex-ministro do Trabalho de Vasco Gonçalves, exilado em Angola desde 25 de Novembro de 1975, é novamente embrulhado pela História.


Publicamente, é acusado de pertencer aos serviços secretos franceses e de estar do lado dos fraccionistas. Mas, na cadeia, acusam-no de pertencer ao PCP e de ser espião do KGB. É um misto de tragédia shakespeariana e ópera bufa. Na sala de tortura, elementos da DISA, portugueses e angolanos, apuram técnicas. Carlos Jorge, Pitoco e Eduardo Veloso espancam-no durante um interrogatório algo insólito: se Spínola presidia ao Conselho de Ministros em Portugal, se chamou corrupto a Neto, se José Eduardo dos Santos é das suas amizades… Os objectos de tortura são um chicote e um espigão de ferro, aos quais chamam de Marx e Lenine. O capitão de Abril ainda guarda no corpo cicatrizes, e não percebe como sobreviveu. Um dia levam-no de jipe para uma praia. Guardas armados até os dentes ordenam-lhe que saia para apanhar banhos de sol. Mas o militar, que conhece a traição de longa data, recusa-se a sair.


Em Junho, Sita Valles assina a sua sentença. De Kaleba, envia, através de um filho de Karicukila, uma mensagem para a família Van Dunem. Entretanto, o seu irmão Emar já tinha sido preso, e a mulher dele, que recebe o bilhete, aposta numa troca de vidas e entrega a missiva ao director-adjunto da DISA. “Na carta, ela dizia à secretária de Agostinho Neto para pedir aos soviéticos que lhe preparassem a fuga”, garante Onambwe. O mensageiro é preso, e depois de torturado encaminha os militares para a cubata de Karicukila.
A 16 de Junho, Sita e Van Dunem entram de mão dada no Ministério da Defesa. Emagrecera, mas a paixão não abrandara. Amadeu Neves, que também lá se encontra preso, recorda-a nada intimidada. Quando alguém lhe oferecia comida, respondia: “A um comunista não se dá leite, dá-se porrada.”


Entretanto em Portugal o PCP, acusado por muitos de ter mexido os cordelinhos em Angola, lava daí as mãos. Em Agosto, as Edições Avante publicam uma brochura do MPLA. É a versão oficial do 27 de Maio. “Sita Valles, vinda de Portugal, da União dos Estudantes Comunistas, sem o mínimo conhecimento das realidades da nossa luta e do nosso movimento, é colocada por Nito Alves à testa deste esquema e imediatamente toma nas mãos o comando das operações.” Edgar Valles, que saíra de Angola meses antes do 27 de Maio, é contactado por Pedro Serra, do sector intelectual do PCP. “Pediu-me para suspender a militância e não aparecer nas sedes, a fim de evitar especulações.” Os 4200 exemplares do seu livro A Crise no Apartheid, que estava para ser editado nesse mês pela Seara Nova, foi destruído. José Garibaldi, responsável da editora, explica: “Agostinho Neto tinha muitas amizades entre os seareiros.” Todas as portas se fecham. O almirante Rosa Coutinho, antigo membro do Conselho da Revolução, assegurou ao irmão de Sita que nada havia a fazer. Pelas informações que lhe chegavam, ela já tinha sido executada.


À extrema-esquerda portuguesa salta para a arena e crucifica Sita. Apresenta-a como a mentora política do “golpe de estado” e traça-lhe um perfil de Mata-Hari. A conspiradora dormira pelo menos com dois dirigentes do MPLA: Nito e Van Dunem. No jornal “Página Um”, a 4 de Agosto, lê-se: “A conspiração nasce no quarto.” E, no mesmo número, são publicadas cartas dos “criminosos reaccionários”, em que estes admitiam ter dado ordens para matar comandantes do MPLA. Seguem a versão oficial, perdem a memória dos métodos utilizados pela PIDE para arrancar confissões.


Dias antes, às cinco da manhã de 1 de Agosto, sem julgamento, depois de ter sido torturada e violada por vários homens da DISA, Sita Valles, aos 26 anos, morria. Recusa a venda e olha o pelotão de frente: “A cabra parecia que não queria morrer”, gaba-se nessa noite um português das fileiras da DISA. Ao lado de Sita, compartilhando o mesmo destino, está José Van Dunem. Não se sabe onde foram enterrados: os seus cadáveres estão numa das muitas valas comuns, cavadas de norte a sul do país para afogar a rebelião.


Durante esse ano, jovens e velhos militantes do MPLA, ministros e chefes militares, desaparecem. Um tribunal militar, chefiado pelo coronel João Neto (Xieto), chefe de Estado-Maior Geral, decide quem deve ou não sobreviver. A corrupção campeia: guardas das prisões e chefes de operações da DISA saqueiam e apropiam-se de casas e de carros dos presos.


A madrugada de 23 de Março de 1978 fica na História como “a noite das estrelas”. Quando Pitoco entra na cadeia de S. Paulo, Costa Martins sabe como tudo vai terminar. Era a última vez que veria Edmar, o irmão mais velho de Sita. A sangria estende-se a todas as prisões de Luanda. Jeitoeira vê as listas dos condenados que chegam do Tribunal Militar. Nos cadernos não constam acusações, só o nome próprio e, ao lado, o nome de guerra das vítimas. Eram assinadas pelos dois chefes da DISA, Rodrigues João Lopes (ludy) e Onambwe, e pelo Presidente da República. “Nessa noite, Neto mandou matar 300 pessoas. A partir daí não se matou mais ninguém” – “flash-back” de Jeitoeira. No dia seguinte, as carrinhas voltam cheias de sangue e os mercenários continuam a apagar os vestígios do crime.


Em 1978, Neto sabe que tem os dias contados: os médicos diagnosticam uma cirrose a este bebedor inveterado. O Presidente sacode à última hora as culpas que lhe são atribuídas e entrega alguns dos seus fiéis seguidores. Ludy e Onambwe, os chefes da polícia secreta, caem em desgraça. No mesmo ano, são nomeadas comissões de inquérito para averiguar os “excessos” cometidos na sequência do 27 de Maio, e juízes militares deslocam-se do norte ao sul de Angola e contam as vítimas. Um deles, José Nunes, investiga os massacres cometidos no leste de Angola. Quando chega a Luena, província do Moxico, um prisioneiro do “centro de recuperação”, que deveria ser fuzilado no dia seguinte, conta-lhe como decorreu a vida ali durante esse ano.


Centenas de homens tinham morrido na mira da espingarda de Maninga, o chefe do centro, o chefe do centro. E os que escaparam, lutavam como podiam pela sobrevivência. Por uma mandioca qualquer preso se oferecia para coveiro. E era o próprio que, à noite, fugindo à vigilância dos carcereiros, levava os outros prisioneiros à vala onde se encontravam os corpos dos companheiros. Desenterravam os cadáveres para os comer: era a única forma possível de pôr cobro à fome.


“Foi um verdadeiro genocídio”, afirma José Nunes “Em Angola devem ter morrido umas 30 mil pessoas”.


Sita Valles acreditava na revolução, e essa aventura levou-a à morte. Passados 15 anos, o seu destino continua envolto em mistério. O governo angolano nunca entregou à família a certidão de óbito, e as notícias variam. Uns dizem que estava grávida quando morreu, outros que não, que teve o filho antes de ser fuzilada, e há mesmo quem afirme que não morreu. “Pode ser que ainda esteja viva”, deseja Maria Lúcia, a mãe.


Não foi difícil condená-la, e agora não é difícil desculpá-la. Mendes de Carvalho, embaixador angolano na ex-RDA, acusado de ser um dos principais repressores do 27 de Maio, viu Sita pela última vez no Ministério da Defesa, onde estava a ser interrogada. “Era mulher tão linda e fresca, não merecia morrer”. Sobe ao palco um único culpado. “ A DISA é a responsável pelo massacre que houve em Angola. Só da Juventude do MPLA morreram milhares e milhares de jovens”, denuncia o embaixador. Mas o jogo não pára. Pitoco, que foi expulso da polícia secreta em 1979, contra-ataca” “pergunte ao Mendes de Carvalho quem matou o Fortunato”. Pedro Fortunato era o Comissário Provincial de Luanda.


Pitoco quer fugir de Angola, sente que a sua vida está por um fio, que o querem matar. O destino não o poupou, está a ficar cego, mas não perdeu vícios antigos: “Se me pagarem, conto a verdadeira história dos mortos de 27 de Maio”. Não tem rebates de consciência, apenas cumpriu ordens; quando actuava não levava a farda da DISA, trajava de militar. O hábito fazia o monge. Pitoco faz o equilibrismo, agarra-se ao que pode e joga para a arena mais nomes. Vítor Jeitoeira é o atingido. E este? Que não, que não fez nada, até salvou alguns condenados! Tinha marchado na tropa com Dodó Kitumba, um dos acusados de fraccionismo, gostava dele, e quando descrubiu que o outro tinha os dias contados, forjou uma história e vendeu-a a Ludy: “Não o mates, porque o tipo tem diamantes escondidos no valor de 50 milhões de dólares e é o único que nos pode indicar o esconderijo.”


É Eduardo dos Santos, quando assume as rédeas do país, que faz o ajuste de contas. Alguns ministros fiéis ao seu antecessor são afastados do governo. Entre eles, Iko Carreira, ministro da Defesa, acusado por Nito de ser traficante de diamantes.


Luís dos Passos, que dirigiu o assalto aos quartéis e tomada da Rádio Nacional em 27 de Maio, só volta a Luanda em 1990. Durante 13 anos viveu escondido na mata, a norte de Angola. Comeu raízes de árvores, sofreu de paludismo mas sobreviveu. “se a DISA não tivesse sido extinta garanto que ele não ficava tantos anos escondido”, são os velhos rancores de Onambwe, que entretanto foi expulso do MPLA. O antigo companheiro de luta de Neto recusa responsabilidades, limpa a sua biografia e joga outra cabeça para a intriga, a do agora general Xieto, que presidia durante a noite o Tribunal Militar que condenava os prisioneiros políticos. Este, aos gritos, põe os jornalistas porta fora: “Perguntem aos chefes da DISA quem são os responsáveis.”


O 27 de MAIO permanece uma ferida aberta na sociedade angolana. Familiares das vítimas da repressão insistem junto de organizações internacionais para que o Governo seja levado a esclarecer tudo o que se passou, mas as autoridades de Luanda permanecem mudas. Em Dezembro último, João Van Dunem, jornalista da BBC, requer ao ministro da Justiça angolano, Lázaro Dias, certidões de óbito do seu irmão José e Sita. O governante limita-se a remeter o assunto para os seus colegas da Defesa, da Saúde e da Segurança, alegando: “Sabido que o Ministério da Justiça só emite certificados de óbito com base em notas ou nótulas de médicos a atestar o óbito – o que não aconteceu – , solicito a informação sobre se têm algum conhecimento do falecimento das pessoas acima referidas.”


Longe das intrigas de Estado, em Kaleba, Francisco Karicukila envelheceu e perdeu a esperança. Ouviu dizer que a União Soviética, a mãe de todas as revoluções, está moribunda. Também ele acreditou no socialismo e em Neto, mas na sua aldeia os homens trabalham na lavra e bebem vinho de palma para esquecer a fome. A casa onde escondeu Sita está agora abandonada e cercada de capim, o filho que levava as mensagens dos fugitivos também foi fuzilado, e ele foi torturado durante dois anos. Com um sorriso triste, recorda as últimas palavras de Sita: ”Fomos traídos, mas um dia haverá igualdade no nosso país.



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Brigadeiro Azevedo “Xavita”, DG Adjunto do SIE

Lisboa –  Actualmente a  exercer as funções de Director adjunto do Serviço de Inteligência Externa (SIE), o brigadeiro Azevedo Xavier Francisco “Xavita” é um dos quadros mais proeminentes  do aparelho de segurança de Estado em Angola oriundo das estruturas militares.


Fonte: Club-k.net

Conhecido como “O estratega”

Na década de 70 era um jovem morador do bairro terra nova, (mais tarde no Nelito Soares, rua C-11) em Luanda que depois  chegada dos  movimentos de libertação nacional  vinculou-se ao MPLA.  Em princípios  de 1975  foi enviado para instrução militar numa base do CIR – Centro de Integração Revolucionaria, em Belize, província de   Cabinda,  onde se cruzaria    com Pedro Sebastião, Joao Silva “Mayunga”,  Alberto Correia  Neto e Bornito de Sousa. 


Em finais da década de 80 tornou-se num quadro em ascensão, no aparelho de segurança traduzida na confiança que o regime depositara em si. Em Setembro de 1991,  o Presidente José Eduardo dos Santos  nomeou-lhe Vice-Governador do Kuando Kubango para os assuntos comunitários que era uma pasta reservada  a elementos da segurança de Estado. 


De regresso a Luanda, isto em Março de 1994, a sua próxima missão seria  para  a  Alemanha como 1° Secretario da Embaixada de Angola, na altura instalada  na cidade de Bonna.  A  nível  da Inteligência Externa, era conhecido como o “Chefe do Centro” que a partir deste país, controlava a estratégia do regime em  desativar  as redes da UNITA, na Europa e proceder a colecta de dados pessoais dos  seus dirigentes para engrossar na lista de sanções impostas aos rebeldes pelas Nações Unidas.  Ficou assim notabilizado como uma figura emblemática, do aparelho da segurança passando a ser tratado como “o estratega”, por ser ele que alvitrava  muitas das missões especiais (covert actions) do SIE – nunca postas em marcha sem o aval da DG e, por vezes, do próprio JES.

Nas vésperas da morte de Jonas  Savimbi um grupo do SIE (então ainda SSE), chefiado por  Azevedo “Xavita”, do qual faziam parte vários desertores da UNITA, entre os quais o General  Jacinto Bândua, tentou, em vão, aliciar em Lomé uma irmã do antigo líder da UNITA, Judite Savimbi, bem como vários quadros em Lisboa e Bruxelas.


Entre os renegados da UNITA do grupo de  "Xavita" contavam-se indivíduos que entretanto ingressaram nos quadros do SIE e se encontram actualmente ao seu serviço, colocados no estrangeiro (Silas, em Lagos; Maria Ekulika, em Harare e outra, nome impreciso, em Malabo).


Após o fim  do conflito armado,   regressou a Luanda. Fernando Miala, então chefe do SIE, via a necessidade de colocar-lhe em paris para  funções idênticas que desempenhava na Alemanha, porem, em 2000, acabou por ser enviado sob a capa de  adido de defesa visto que o cargo de 1º Secretario da embaixada estava ocupado por um experimentado oficial da segurança,  Daniel Rosa, com vasta experiência passada pela  Ex-URSS e  Costa do Marfim.


No seguimento da queda de Fernando Miala, em 2006, o Brigadeiro “Xavita” integrou o grupo de agentes colocados nas embaixadas chamados a Luanda para uma reunião com o general Manuel Vieira Dias “Kopelipa”.  Enquanto  que os seus colegas  regressaram para os seus postos de trabalho no exterior, Azevedo “Xavita”, foi instado a ficar  no país  para ingressar  na nova direção do SIE, liderada por Oliveira Sango. Foi nomeado chefe da  Direcção Europa e Ásia do Serviço de Inteligência Externa. Enquanto responsável desta direção, o brigadeiro “Xavita”   estava  sempre presente no grupo de avanço das raras  deslocações que o PR efectua a estes dois continentes. Em Dezembro de 2008, integrou  o grupo de avanço despachado para China, uma semana antes do PR ter viajado para Pequim.  A 26 de Fevereiro de 2009, o Chefe de Estado angolano  foi a Alemanha mas, “Xavita”  ficaria  em terra. Em ultima da hora, o Serviço de Inteligência Externa  Alemão (Bundes Nachrichten Dienst-BND) interferiu comunicando sobre  a desnecessidade de enviarem muitos  operativos e que eles tratariam  da proteção do líder angolano. No seu lugar, viajou  um elemento, identificado por “Evaristo”.


Em Agosto do mesmo ano, o PR, após auscultação do general Manuel Vieira Dias “Kopelipa” e de Oliveira Sango, DG da instituição,  nomeou-lhe como DG adjunto do SIE, em substituição de Gilberto Veríssimo.  O seu posto na  direcção Direcção Europa e Ásia  seria ocupado por Felisberto Fernandes da Costa.


Conhecedor da Europa, Azevedo Xavier Francisco “Xavita” foi também a figura que as autoridades mandaram para França, depois do CAN 2010, para apurar  a constatação de irregularidades na aquisição de quatro  carros  de exterior  encomendados pelo então Ministro da Comunicação Social, Manuel Rabelais  que não chegaram  ao país pondo em  risco a cobertura televisiva do campeonato. (A solução de emergência posta em marcha, de custos considerados muito elevados, consistiu em contratar uma empresa portuguesa, Media Lusa, que fez deslocar para Angola todos os seus meios técnicos e com 100 técnicos. A RTP também foi solicitada, despachando para Angola 18 técnicos.)


Como DG adjunto do SIE, “Xavita” passou a ter sob alçada a área da cooperação internacional, chefiada por Mario Costa.  Nesta condição após uma deslocação a Índia, em Novembro de 2010  propôs a Oliveira Sango, seu superior,  a necessidade de se instalar um “desk”, em Deli, (cobrindo Malásia e Tailândia) constituído por um oficial   que teria a categoria de “Chefe de Posto”, para haver   melhor acompanhamento de um notado   crescente  volume de negócios que  as entidades  ou  empresários daquele país  estariam a  injectar  em Angola cobrindo igualmente a Malásia e Tailândia.


Pelos seus feitos, a causa angolana,  as autoridades condecoraram-lhe, a 3 de Dezembro de 2010,  numa cerimônia, realizada no centro de convenção de Talatona, com  a medalha 11 de Novembro. Fizeram parte dos condecorados outros 254 cidadãos que terão contribuído para a luta de libertação nacional.



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Isabel dos Santos, a princesa implacável nos negócios

Lisboa - A empresária é descrita por quem convive com ela de perto como sendo "simpática", "bonita" e "afável". Mas os elogios também se alargam ao lado profissional, e as fontes, citadas pelo jornal Público, descrevem-na como sendo "uma boa empresária", "extremamente dinâmica e inteligente", "profissional" e uma "dura negociante".


Fonte: Dinheirovivo.pt


Isabel dos Santos tem 39 anos e é filha de José Eduardo dos Santos e da sua primeira esposa Tatiana Kukanova, tendo nascido em 1973 na capital do Azerbaijão, Baku, uma antiga república soviética, país para onde o seu pai foi estudar Engenharia de Hidrocarbonetos e onde conheceu a sua mãe.


Mais tarde, na década de 90, a empresária, com uma fortuna avaliada em 170 milhões de dólares pela Forbes, licenciou-se em engenharia electrotécnica em Londres, onde vivia então com a sua mãe, e voltou para Angola para iniciar a sua actividade profissional.


A empresária que é conhecida por pautar pela discrição na sua vida pessoal, é casada com Sindika Dokolo, um coleccionador de arte e empresário congolês, tendo sido educado na Europa. Dokolo é filho de um milionário da República Democrática do Congo e de uma dinamarquesa. O casal casou-se em Luanda em 2003.


A empresária é a filha mais velho do presidente angolano, tendo como irmãos, Tchizé Santos, directora da revista Caras Angola e antiga deputada, e José Filomeno dos Santos.


Em Luanda, começou por dedicar-se ao sector de lazer, ao gerir um clube de praia na ilha de Luanda, o Miami Beach. Mas depressa migrou para outros sectores. Um dos seus primeiros desafios foi a gestão da Urbana 2000, empresa que detinha o monopólio de limpeza e prestação de serviços de saneamento de Luanda.


Daqui deu um salto para a segunda maior fonte de rendimentos do país após o petróleo, os diamantes. A entrada no sector foi feita pela mão de Noé Baltazar, na altura presidente da Endiama, Empresa Nacional de Diamantes de Angola. A empresária é também dona de participações na Sodiam e na Ascorp, empresas que comercializam diamantes em bruto, tendo como sócios Noé Baltazar e a Endiama, de acordo com o jornal Público.


Além dos diamantes , a empresária move-se com bastante agilidade no mundo da banca, tendo uma participação de 20% no Banco Espírito Santo Angola, fazendo parte dos accionistas iniciais, quando o BES lançou a filial angolana, presidida por Hélder Bataglia, em 2001. Nessa altura, adquiriu 25% do capital da Unitel, empresa de telecomunicações, através da empresa Geni, empresa participada pela Portugal Telecom e pela Sonangol.


Américo Amorim e Isabel dos Santos


O homem mais rico de Portugal, Américo Amorim é um parceiro privilegiado de Isabel dos Santos. Em 2005, a empresária e Amorim juntaram-se a Fernando Teles saído do BFA (que pertence ao BPI) para fundar o Banco Internacional de Crédito (BIC). O BIC Portugal, presidido pelo ex-ministro de Cavaco Silva, Mira Amaral, adquiriu este ano o BPN ao Estado português.


O BIC é detido em 25% pelo empresário português, ficando Isabel dos Santos com outros 25% através da Sociedade de Participações Financeira. Fernando Teles, presidente do banco detêm 20%, ficando o restante capital disperso por vários investidores.


A empresária também está presente no capital da Galp, através da Amorim Energia, empresa que é detida em 55% por Américo Amorim e em 45% pela Esperanza Holding, que pertence à petrolífera estatal angolana Sonangol e a Isabel dos Santos.


A Amorim Energia pode vir a reforçar a sua posição na petrolífera portuguesa, com a anunciada saída da italiana Eni do seu capital, podendo vir a ficar com 66, 68% da Galp. Mas a Sonangol pode avançar sozinha para a compra da Eni, entrando directamente no capital da empresa, deixando Américo Amorim e Isabel dos Santos para trás.


Outro dos negócios partilhados por Amorim e dos Santos foi no mercado de cimento em Angola, que levou à saída da Cimpor do país. A cimenteira portuguesa tinha comprado em 2004, 49% da maior empresa nacional. A Nova Cimangola, onde o Estado angolano tinha uma parcela de 39,8%. Um ano depois, as duas empresas entraram em conflito levando à saída da cimenteira lusa do capital da Nova Cimangola, tendo então os 49% passado para a Ciminvest, empresa que pertencia a Américo Amorim e a Isabel dos Santos. Em 2010, o empresário vendeu a sua percentagem, que rondava os 30%, a uma empresa controlada por Sindika Dokolo, segundo o Diário Económico.


A empresária aliou-se também a outro dos grandes grupos económicos portugueses, a Sonae, para abrir uma rede de hipermercados com a marca Continente, em Angola. Ficando a empresa liderada por Paulo Azevedo com 51% da parceria e a Condis, da empresária, com 49%.



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Yola Araújo, a voz que encanta

Luanda  - A sua carreira faz 12 anos. Começou a fazer coros e hoje é uma das vozes femininas mais respeitadas da música angolana. Simples, discreta, com uma vida pacata como nos confessa, está agora a preparar um novo disco. Mas tem mais projectos a caminho.

Fonte: Soulzouk


Nasceu na Lunda Sul mas sempre viveu em Luanda, no bairro do Sameko. A vontade de cantar veio da juventude, quando se habituou a ouvir outras cantoras e a ver os primeiros espectáculos. Como tinha algum jeito, começou a fazer coros para outros artistas em 1997, um primeiro passo que lhe deu a oportunidade de entrar no meio musical. Conheceu pessoas e projectos e, em 1999, juntamente com Margareth do Rosário e Djamila D’elves arrancou com o grupo Melomanias.


Um projecto que teve um grande impacto no final dos anos noventa, ligado a um novo movimento da música angolana onde o kizomba e o semba se misturavam sem quaisquer complexos. Foi o seu primeiro cartão de visita. “O grupo acabou por desfazer-se. Cada uma de nós queria ter uma carreira a solo. A primeira a sair foi a Margareth, e depois fui eu”.


O primeiro álbum


Em 2001 lança o seu primeiro álbum a solo, Sensual, um trabalho que foi muito bem recebido pelo público. Isso valeu-lhe ganhar rapidamente notoriedade e colocar-se, na altura, entre os novos nomes da nossa música. “Este foi um álbum em que fiz cerca de 90% das letras, sendo que as músicas foram feitas fundamentalmente pelo Jorge do Rosário. Há também uma faixa do Manu Soares”, refere Yola Araújo, que acrescenta, “Eu não tenho conhecimento musical do ponto de vista da formação. Nunca estudei. Faço as letras e entrego aos produtores, que depois fazem as melodias sobre as palavras”.


VENCE UM DISCO DE PRATA


Em 2003 tem um grande sucesso com o seu segundo disco, Um Pouco Diferente, foi disco de prata, sendo que em 2006 lança Diferente e Mais um Pouco. É também premiada em diversos concursos e por várias instituições. Um trajecto que a leva a fazer muitos espectáculos pelo país, “antes de começar a cantar não conhecia a província”, e a desenvolver parcerias com outros músicos. Vai solidificando a sua carreira juntamente com a vontade em melhorar a sua voz e a sua presença em palco.


Com toda a simplicidade construiu uma carreira que faz agora 12 anos. Tempo suficiente para fazer um primeiro balanço. “Penso que neste tempo amadureci bastante. Hoje tenho o ouvido mais apurado, percebo o que pode ou não ser um sucesso. Uma intuição que vamos desenvolvendo com os anos. Também melhorei bastante a minha postura no palco. Hoje é diferente. Aprendi bastante na forma de vestir e de dançar e, também eduquei a minha voz. Com o passar dos anos e com a experiência que vamos adquirindo, temos maior preocupação com os pormenores. Quero fazer sempre melhor”.


A experiência também se estende a outras áreas. “Também aprendi a seleccionar as pessoas com quem quero trabalhar. Tenho as minhas ideias, o meu projecto, e tenho que ter pessoas em quem confio para discutir os caminhos a percorrer. Isso faz-se com bons músicos, mas também com boas pessoas. Eu tenho os meus objectivos e sei onde quero estar. Por exemplo, o Heavi C produziu o meu segundo e terceiro álbum e é uma pessoa com quem gosto muito de trabalhar. Existe uma química própria que faz com que seja mais fácil que as coisas fiquem como quero”, explica a artista.

 

Como todos os cantores, também Yola Araújo divide a sua vida profissional entre os estúdios e o palco, num equilíbrio que nos explica: “Na verdade gosto de estar em estúdio a trabalhar. A ver as músicas crescerem. Mas também gosto muito do palco, do contacto com o público. Num espectáculo tenho sempre uma vontade enorme de entrar. É uma sensação muito boa”. A cantora faz também questão em reforçar o facto de gostar muito de cantar nas principais cidades da província, reconhecendo que hoje a carreira musical dos artistas não se faz apenas na capital, mas que já tem uma dimensão nacional.


vem aí O Quarto CD


Os projectos a curto prazo passam pela gravação de um quarto disco. “Tenho gravado um CD a cada três anos. Acho que é isso…”, diz com uma grande gargalhada, acrescentando, “estou agora numa altura de idealizar o novo disco. Possivelmente vou juntar produtores das Antilhas e de Cabo Verde. Hoje existe uma fusão entre as diversas culturas e os diversos artistas. Também é verdade que a música angolana começa a expandir--se para outros países, a sair de Angola. Não é muito fácil, mas o kizomba, o kuduro ou o semba começam a ser ouvidos em outros mercados.


No outro dia estava a ver um programa do Jô Soares na Globo e começo a ouvir um “raga” meu. E não foi a primeira vez. Isso é um sinal que estamos a furar algumas barreiras e podemos pensar em lançar os nossos discos em outros mercados”.


Ainda é prematuro dizer o que vai ser este quarto CD, mas Yola Araújo tem também como objectivo fazer um grande espectáculo que marque os 12 anos da sua carreira. “Este ano ainda quero fazer outro grande espectáculo em Luanda (depois do que fez no Karl Max no dia 28 de Março). E possivelmente levá-lo também a outras províncias onde tenho os meus fãs. Em Benguela, por exemplo, existe um público muito fiel à minha música”, revela.


Acrescente-se que a artista é hoje agenciada pela LS Produções. Prova que os artistas angolanos começam a ter profissionais sérios que sabem gerir as respectivas carreiras, o que se reflectirá na qualidade e no impacto do seu trabalho. Quer seja no país ou no estrangeiro.

Vive apenas da Música


Yola Araújo faz parte de uma geração de vozes femininas que nasceu nos finais dos anos noventa e inícios de 2000, onde estão nomes como Yola Semedo, Ary, Margareth do Rosário, Patrícia Faria, entre outros. Isto pode gerar naturais invejas e desconfianças entre elas, o que para a artista merece o seguinte comentário: “Aparentemente não! Isso não acontece. Pelo menos quando estamos juntas não existe esse sentimento. Do meu ponto de vista a concorrência é importante. Não achar que somos a melhor. Procuramos todas fazer coisas com mais qualidade e isso deve-se ao facto de existirem várias cantoras de qualidade. Penso que esta concorrência é boa para todas nós”, sublinha.


O espaço da música também é cada vez maior na sociedade. O que faz com que os artistas possam viver apenas do seu talento, o que não acontecia em anos passados quando os cantores tinham quase sempre outras profissões. Isso permite maior empenho e maior profissionalismo. “Eu vivo da música desde sempre. Tem dado certo. Deus tem-me agraciado com essa sorte”, diz com um rosto mais sério.


Em casa com a filha Ayani


Em casa a música também está presente. “Procuro ouvir diversos discos. Gosto do James Blunt, da fase espanhola da Christina Aguilera, mas também oiço música angolana com regularidade. Informo-me do que vai saindo e vou ouvindo o que posso”, explica Yola Araújo, confessando com um enorme sorriso, “sou muito “noveleira”. Gosto de estar em casa como a minha filha a ver as telenovelas que passam na televisão. Isso faz com que tenha menos tempo para ler e ouvir música. Mas sempre se arranja um espaço”.


Recorde-se que a cantora foi mãe recentemente, a sua filha nasceu apenas há quatro meses. “Chama-se Ayani, que significa flor bela em etíope. Naturalmente que uma filha altera um pouco a nossa rotina. Mas é possível manter a nossa carreira e as nossas obrigações com o apoio da família. Os meus pais e os meus sogros dão uma grande ajuda, o que aliás acontece em todos os casais”, explica, acrescentando, “Eu estava preparada e queria ser mãe. Isso faz com que as coisas sejam mais simples. Naturalmente que existem questões que se colocam quando tenho ensaios e espectáculos. Quando tenho de sair de Luanda. Mas tudo se resolve. As minhas irmãs também são muito importantes no equilíbrio da família. Neste aspecto sou bastante beneficiada”.


O equilíbrio emocional é muito importante para quem quer desenvolver uma carreira de sucesso. Yola Araújo vive há muitos anos com o seu marido, Fredy Costa, que tem também um profissão desgastante, é modelo e actor. “Na verdade conseguimos conjugar bem as nossas vidas. Normalmente almoçamos sempre juntos e ele chega a casa pelas 19/20 horas. Não existe nada de especial, somos como qualquer outro casal. Quando ele tem gravações à noite é que se quebra a rotina. Quando tenho espectáculos fora de Luanda ele acompanha-me quase sempre, pelo que passamos muito tempo juntos. Tenho uma vida tranquila, nada de complicado”, revela a cantora.


Planos para o futuro

 

Inquirida sobre como se vê daqui a vinte anos, respondeu:“Não parei para pensar o que será a minha vida daqui a 15 ou 20 anos. Uma coisa sabemos, queremos ser independentes e isso passa também pela vertente financeira. Vamos desenvolver negócios nossos para podermos ser patrões de nós mesmos. Esse é um objectivo que temos e no qual estamos a trabalhar”.


Também não se esquece da vertente da solidariedade. “Gostava de fazer algo em benefício dos outros. Sempre foi uma preocupação minha. Existem outras pessoas com mais necessidades e nós podemos contribuir. Faço muitas aparições em espectáculos para causas sociais ou actividades de beneficência. Isso faz-nos também ficar bem connosco. Temos que ser mais solidários numa sociedade que é cada vez mais competitiva”, diz Yola Araújo a terminar.


Uma cantora sensual


Yola Araúo é casada com Fredy Costa, modelo e actor. Foi mãe há apenas quatro meses. A filha é orgulho do casal. Chama-se Ayani, que significa “flor bela” em etíope. Hoje considera-se uma pessoa diferente da jovem que lançou o primeiro álbum Sensual. “Hoje tenho o ouvido mais apurado. Percebo o que pode ou não ser um sucesso. Também melhorei bastante a minha postura no palco. Também aprendi a seleccionar as pessoas com quem quero trabalhar”, diz a cantora


Yolete, a sucessora


A artista é a mais velha de quatro irmãs e a única que assumiu a música como profissão. Não existem raízes musicais na sua família, excepto do lado do seu avô. “Ele não era profissional. Mas tinha uma excelente voz. Cantava no quintal, nas reuniões de amigos”. Por isso não foi fácil aceitarem esta escolha. “No início da minha carreira, o meu pai era falecido e a minha mãe não aceitou. Achava mais importante que eu continuasse a estudar. Mas à medida que a minha carreira foi crescendo, ela passou a gostar e hoje é a minha fã número um”, diz bem-disposta, acrescentando sobre quem lhe vai seguir as pisadas na família, “tenho uma sobrinha, Yolete, que também pode vir a ser artista. Diz sempre que quer ser cantora como a tia”.



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