Lisboa - Persuasor será a palavra certa para descrever Hélder Bataglia dos Santos, 68 anos, natural do Namibe, Baía Farta ou de Vieira de Leiria, no Centro de Portugal. O certo é de ter partido para a vida do Sul do país, pela crença forte e consistente no que faz.

Fonte : Exame

Sedutor quando comandou um pelotão de artilheiros kwanhamas em Cabinda, a tentar convencer outros a trocar de lado nas trincheiras. O sogro e os sócios a secarem bacalhau em Angola em lugar de o importarem por alturas da independência. A família Espírito Santo a acreditar em Angola, quando nenhuma notícia boa surgia nos noticiários internacionais para os convencer a investir por cá.

A mostrar aos mercados internacionais a estabilidade e prosperidade do país, após oito anos de paz. A segunda mulher, Simoneta, conquistada quando após a independência andou pelo Médio Oriente, ajudando a materializar em obras e qualidade básica de vida as receitas adicionais trazidas pelo choque do petróleo de 1973. Três longas conversas explicam como convenceu toda a gente no seu caminho: um entusiasmo fortemente estruturado em estudo e conhecimento dos assuntos; pragmatismo sempre; emoções só quando ainda não se gastou um kwanza no que poderá ser um sonho e nada mais.

Não nasceu rico, os pais foram viver para a Baía Farta e lembra-se da luta e da enorme capacidade de trabalho do progenitor. As chuvas impediam uma deslocação fácil a Benguela, ou Moçâmedes, para comprar fosse o que fosse. Vivia-se num isolamento só com um extenso mar pela frente.

A juventude passou-a em Benguela, fazendo amigos como um jovem facilmente faz na rua, conviveu com quem fugia para Argélia ou Cuba, “co-habitávamos pacificamente”. Já em Lisboa frequentou Engenharia no actual ISEL. Está em Angola desde 1985, associou-se, em 1992, à família Espírito Santo, quando esta ainda recuperava o poder económico depois das nacionalizações de todos os seus activos após a revolução portuguesa de 1974, tendo um terço do capital social.

Investiu o que tinha ganho na sua vida de trader, importando o básico que o povo precisava para suportar a guerra civil. Daí nasceu confiança no país em situação difícil. Angola premeia quem com ela está nos piores momentos.

Em 2002, Hélder Bataglia procurou aproximar a China de Angola. Não se coíbe de dizer que foi pela sua mão que as relações com os chineses começaram, assumindo proporções fundamentais no desenvolvimento de infra-estruturas essenciais. A China também vê com interesse estratégico a cooperação com Angola. O país pode ser parte de uma solução para um problema grave de alimentar uma crescente população, conseguir fontes de energia para potenciar o seu desenvolvimento e exportações

A ligação ao grupo 88 Queensway, designação nascida a partir da morada da sede em Hong-Kong, materializou-se em Angola através dos financiamentos de 2,9 mil milhões de dólares para infra-estruturas realizados pelo CIFL – China International Fund Limited e pela criação da China Sonangol que geria e operava no sector energético em parceria com a Sonangol e, mais tarde, com a colaboração da Sinopec na exploração de petróleo.

A colaboração com o grupo começou em 2004, através de uma joint-venture 40% Escom e 60% de um braço deste grupo, e designou-se China Beiya Escom tendo assumido fortes compromissos com a Argentina, República do Congo e Venezuela. “Helder? Como te sientes aqui Helder?”, são palavras de Hugo Chavéz, ao vivo, no seu programa diário de rádio para o país, em 2005. Durante dez horas, Hélder acompanhou o Presidente Chavéz numa deslocação fora de Caracas. Na República do Congo foi condecorado pelo Presidente Nguesso, como sinal de reconhecimento por serviços prestados na reconstrução do país.

Traço fundamental do seu carácter, não transparece qualquer grau de intimidade tanto com estadistas como com empresários. É óbvio o seu estreito relacionamento com Ricardo Espírito Santo Salgado e Fernando Martorell, do grupo Espírito Santo em Portugal. No entanto, nada assinala quando se trata de grandes intimidades com homens do Estado angolano ou estrangeiros. Abre excepção para o falecido Valentim Amões, cuja amizade era pública e notória. Na discrição fundamentou uma maneira de estar na vida. Habituou os seus interlocutores à confiança.

De Benguela para o mundo

Não nasceu humilde em Lisboa, mas rapidamente foi transferido para Benguela, Hélder Bataglia dos Santos é filho de pai de Vieira de Leiria e de mãe alentejana, mas foi em Angola que esteve até à independência e que sente como sua terra.

Vê em Kennedy e em Mandela dois homens com visão superior e que, em momentos certos, fizeram o mundo virar no sentido inevitável, mas que ninguém ousava alterar. Estudou em Benguela e em Lisboa e, em 1972, estreava-se como empresário com secagem de produtos alimentares em Benguela, provavelmente a primeira unidade do género em África, fundada para secar bacalhau.

A independência levou-o ao Médio Oriente onde esteve em trading durante dez anos. Depois estabeleceu empresas com ligação aos mercados do Leste da Europa e ex-União Soviética. A ligação ao grupo Espírito Santo surge em 1992 criando-se a Escom e em colaboração estreita com Luís Horta e Costa.

A Escom evoluiu de puro trading para investimentos reais no imobiliário, petróleo e gás, mineração. Hélder também esteve no nascimento do BESA, primeiro banco angolano com capitais portugueses. Uma vida a correr mundo deixou a família como o eixo menos assistido.

Casou duas vezes, tem uma irmã, duas filhas e duas netas. Todas a viver em Portugal, mas visitantes frequentes de Angola, todas com vias profissionais próprias — inclusive as estudantes .

Confessa que, mais do que palavras, mais do que os factos que o levaram a acreditar em Angola ao longo dos anos da guerra, das faltas de tudo, da pouca crença dos de fora, o investimento de 485 milhões de dólares no Edifício Escom provam o empenho e confiança que ele e o grupo têm no futuro de Angola. “Um edifício não se transporta”, conclui.

Cargos ou posições  já ocupadas

Quadro do Grupo Espírito Santo

Administrador do BNA- Banco Nacional de Angola

Director da ESCOM-ALROSA Ltd, uma empresa financeira de empresa de direito britânico activa no negócio de de diamantes, participada em 46% pelo Grupo… Espírito Santo e 44% pelo grupo industrial russo ALROSA

Mediador entre Nestor Kirchner (ex-presidente da Argentina) e Hu Jintao (secretário-geral do partido comunista chinês) em negociações com vista à realização de investimentos chineses na Argentina

Cônsul-honorário do Burkina Faso em Lisboa, por deliberação de 25 de Fevereiro de 2009 do Conselho de Ministros da dita Republica

Comendador da Ordem do Infante D. Henrique por alvará presidencial de 8 de Junho de 2007.



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