Lisboa - Até aos finais do ano 2013, era conhecido nas lides dos jovens manifestantes, em Luanda, como Tukayano Rosalino. Era assim que ele assinava os comunicados enviados ao Governo Provincial de Luanda (GPL) anunciando realização de manifestações para forçar a retirada do Presidente José Eduardo dos Santos do poder. A sua história terminaria quando se despoletou o caso Cassule/Kamulingue, em que se ficou a saber que seu verdadeiro nome  é Benilson Bravo da Silva, funcionário dos Serviços de Inteligência, infiltrado no Movimento contestatário ao regime.

Fonte: Club-k.net 

Benilson Silva tratado no seio familiar por “Benny” ou “Tuchinho” é um jovem que cresceu no município da Maianga (bairro Alvalade). Nasceu aos 13 de Agosto de 1985. É filho de Ana bravo , já falecida e António Luís da Silva.

Durante sua a infância passou pela escola primária “Aplicação Ensaio” e pela secundária “Ngola Kanine”, em Luanda. Porém, seria na fase adulta que ele obteve uma bolsa de estudo, facilitada pelos Serviços de Apoio a Presidência da República, dando-lhe acesso a Universidade Privada de Angola (UPRA), onde por dois anos frequentou o curso de Relações Internacionais. 

A entrada no SINSE

Em  2005, Benilson Silva deixou de ser visto na Universidade. Os seus vizinhos deixaram também de o ver e mais tarde houve, no seu bairro, rumores desencontrados de que estaria numa estrutura do aparelho de segurança ou na DNIC.   Supõe-se que terá sido nesta fase que entrou para os Serviços de Inteligência e Segurança de Estado (SINSE).

As suspeitas, no seu bairro, de que estaria a trabalhar numa estrutura de segurança foram se acentuando devido ao antecedente histórico da sua família. A sua falecida mãe, Ana Bravo, foi funcionária da segurança de Estado, onde teria conhecido, o seu então   padrasto. A sua irmã mais-velha seguiu igualmente a mesma carreira. Foi também através do SINSE que Benilson privou com uma colega, N.C. (nome propositadamente ocultado) com quem passaria a ter uma união de facto. A noiva está presentemente no passivo, dedicando-se a um negócio de confeição de bolos por encomenda. 

De acordo com dados da sua trajectória, Benilson da Silva recebeu treinos numa base secreta do SINSE, localizado no Morro da Luz, arredores do distrito da Samba. Foi um dos melhores alunos do seu curso, e logo a seguir passou como operativo de uma área sob alçada da Direcção de Investigação Especializada (também conhecida internamente por área de Observação Visual).

Ao longo da sua breve carreira, frequentou cursos de superação nas Repúblicas da Rússia e de Israel. Fez parte de uma equipa de avanço que, a dada altura, foi despachada para o Israel, a fim de escolher uma escola para um “short course” de inteligência para José Filomeno dos Santos “Zenú”.

Infiltração no seio dos manifestantes

Em Março de 2011, tiveram lugar em Luanda uma onda de manifestações inspiradas pela "primavera árabe" que estavam a ser acompanhadas pela área operativa do SINSE. Antes de Setembro deste ano, o SINSE através da sua delegação em Luanda, decidiu penetrar no grupo de jovens contestatários, na qual Benilson da Silva seria um dos escolhidos para a missão. 

O agente tinha a missão de fazer-se passar por manifestante, ganhar a confiança destes e passar toda a informação a um outro funcionário do SINSE, Lourenço Sebastião, seu chefe, baseado numa célula da segurança de Estado, do distrito da Maianga. 

De acordo com registro, o agente Benilson Silva foi introduzido no grupo dos manifestantes quando alguns daqueles, foram detidos à cadeia de alta segurança de Caquila, arredores do Bengo, por terem realizado uma manifestação, em Luanda, a 3 de Setembro de 2011. Enquanto os promotores das manifestações estavam na cadeia, Benilson destacou-se, do lado de fora, como um dos elementos que reivindicava pela soltura dos detidos. Quando os seus "supostos amigos" foram soltos, Benilson ganhou aceitação dos jovens por este seu papel.

Desde então revelou-se sempre disponível para os jovens contestatários. Estava sempre por dentro dos assuntos até se ter aproximado também de Carbono Casimiro, Banza Hamza e Luaty Beirão, que davam inicialmente rosto pelo Movimento Revolucionário. A confiança avolumou-se pela sua entrega e por ser a pessoa que mais contribuía financeiramente para encomenda de camisolas com dizeres “32 é Muito”, e outros gastos adicionais. 

Benilson fazia-se transportar, em alguns casos, de uma mochila que continha uma máquina de fotografia e um micro-aparelho com capacidade de gravar as conversas nas reuniões em que os jovens manifestantes traçavam os planos das suas actividades.

Na primeira semana de Dezembro de 2011, participou numa manifestação dos jovens no Cazenga, onde lhe teriam rasgado a camisola. Numa outra manifestação, a 13 de Fevereiro de 2012, no município do Cacuaco, ele seria agredido pelos “caenches”, um grupo de milícias que o Governo angolano agenciava para agredir os promotores das manifestações anti-regime. Dentro do SINSE, ele ganhou admiração por, no exercício das suas funções, ter-se deixado ser agredido pelas melícias do regime. 

Na primeira semana de Março de 2012, Benilson da Silva participou numa outra iniciativa de protesto contra a designação de Suzana Inglês para a presidência da Comissão Nacional Eleitoral de Angola. O protesto foi logo abortado pelos “caenches” que agrediram brutalmente o então secretário-geral do Bloco Democrático, Filomeno Vieira Lopes. Neste dia, Benilson, com a sua faceta dupla, destacou-se na proteção de Adão Ramos, activista que se fazia transportar na cadeira de rodas.

O papel nas mortes de Cassule e Kamulingui 

No dia 27 de Maio de 2012, os responsáveis do SINSE de Luanda estavam todos de prevenção por causa do anúncio de uma manifestação destinada a ter lugar nas mediações do palácio presidencial, em solidariedade aos ex-militares da Unidade de Guardas Presidências, integrados na Brigada Especial de Limpeza (BEL) e na Brigada de Construção e Obras Militares (BCOM). 

Neste dia, Benilson Silva recebeu um telefonema do seu chefe, Lourenço Sebastião, para apoiar o delegado adjunto do SINSE de Luanda, Paulo Mota Augusto, na identificação de Silva Alves Kamulingue que estaria supostamente reunido com uma suposta cidadã estrangeira no Hotel Skyna, em Luanda.

Cumprida a missão, o agente Benilson seria novamente contactado dias depois pelo Chefe do Gabinete Técnico do MPLA, Júnior Maurício “Cheu”, para que o ajudasse a atrair o líder do Movimento Patriótico Unido (MPU), Isaías Sebastião Cassule, que tivera feito duros pronunciamentos na Rádio Despertar contra o regime, exigindo o aparecimento do seu amigo Alves Kamulingue que fora raptado (na altura) pelas autoridades.

Benilson contactou os seus amigos do Movimento Revolucionário, solicitando o contacto de Isaías Cassule. Estes por sua vez acharam estranho seu interesse por Isaías Cassule, uma vez que o grupo do líder do MPU realizavam um outro tipo de manifestações, em prol dos antigos combatentes que nada tinham a ver com as dos jovens “revús”.

Após ter o contacto, Benilson telefonou para Isaías Cassule dizendo que tinha uma pendrive com um vídeo onde se poderia ver Alvés Kamulingue a ser raptado por forças do regime. Acertaram um encontro no município do Cazenga, por detrás do chamado Tanque de Água. Isaías Cassule apareceu no local combinado e foi logo raptado pelo responsável do MPLA, Júnior Maurício “Cheu”, e transportado numa viatura do Governo Provincial de Luanda (GPL), para nunca mais voltar. No momento em que ocorria o rapto, Benilson simulou meter-se em fuga.

A saída do Movimento Revolucionário

Depois de ter participado nos assassinatos de Cassule e Kamulingue, Benilson passou a desligar-se do Momento Revolucionário. Alegou aos seus amigos “revu” que estava saturado com o trabalho de estafeta que fazia na empresa de um suposto tio, e que ao mesmo tempo mostrava-se disponível em trabalhar num outro ramo. Passado algumas semanas, anunciou aos amigos que iria trabalhar nas sondas de petróleo ficando 28 dias em terra e outros 28 dias no mar. 

No período em que ausentou-se telefonava de quando em vez para os amigos dizendo que continuava nas sondas, local onde dizia estar a fazer os telefonemas. Em Dezembro do mesmo ano, comunicou aos seus superiores que iria de férias para fora do país. Foi autorizado, e na primeira semana de Janeiro de 2013, tirou as suas férias na República Federativa do Brasil (Rio de Janeiro e Curitiba), na companhia da sua noiva.

Porém, no final de 2013, ele viu-se exposto na capa do jornal "Folha 8", que o identificava como o agente infiltrado no seio dos manifestantes e pelo seu papel nas mortes dos dois activistas. Todos que participaram no assassinato foram detidos mas Benilson Silva seria solto pela Procuradoria Geral da República (PGR), gerando suspeitas de que estaria a beneficiar de alguma protecção das autoridades angolanas.

A percepção de que estaria a gozar de apoio avolumou-se pelo facto de o mesmo ter estado  a circular, livremente em Luanda, com dois guarda-costas, mesmo depois de ter sido condenado a 15 anos de prisão efectiva pela sua participação nos assassinatos dos dois activistas angolanos.

Restrições aos contactos e as últimas chamadas telefónicas 

No início de 2014, dois meses após a citação do seu nome como implicado nas mortes de Cassule e Kamulingue, Benilson Silva tomou outras medidas de restrição deixando de usar seus habituais terminais telefónicos (+244) 916 410 735 e 923 330 451.

De acordo com consultas, ele usou pela ultima vez o seu antigo terminal as 09h04min do dia 26 de Fevereiro, para pontualizar a sua noiva (92377**0) via SMS. Antes efectuou outras chamadas para figuras devidamente identificadas, utentes dos números que se seguem: (+244) 924 399 418; 934 396 086; 923 229 462; 991 229 462. 

Que futuro poderá ter?

Tendo em conta que passou na condição de "agente descartável", alguns entendidos em matéria de inteligência traçam dois cenários para com o mesmo, conforme praticas correntes do aparelho de segurança de Estado. Benilson poderá continuar a ter a protecção das autoridades e ser despachado para o exterior do país até prescrição da sua pena, ou aparecer misteriosamente morto algures deste país africano.



DEBATE NAS REDES SOCIAIS:




DEBATE NO ANÓNIMATO: