Luanda - Filipe Mukenga é o resultado de uma peregrinação apaixonada por vários estilos e tendências musicais, que passam pela recolha da música tradicional angolana, pelas influências da Música Popular Brasileira, pelo rock e pelas sugestões rítmicas e vocais do jazz.

*Jomo Fortunato

Fonte: Club-k.net

Filipe Mukenga pisou o palco pela primeira vez no programa “Chá das seis’’, realizado no antigo cinema restauração, em Luanda, com apenas catorze anos de idade, interpretando a canção “Donne tes seize ans” de Charles Aznavour. Na adolescência viveu intensamente o período em que a música portuguesa e a eclosão dos “Conjuntos de música moderna”, conviviam, nos míticos anos sessenta, com os segmentos mais representativos da Música Popular Angolana.Tal facto deu azo à sedimentação e continuidade do período da renovação estética, movimento que teve como principais arautos Rui Mingas, André Mingas, Filipe Zau, Waldemar Bastos, e o próprio Filipe Mukenga.

 

Modernidade

 

Grupos como “Os electrónicos’’, do Vum-Vum, “Os rocks’’ de Eduardo Nascimento, os “Black stars’’ do Gerónimo Belo, os “ The windes”, do baterista Beto Silva, “A nave”, de José Eduardo Sambo e João Silvestre, “Os gémeos 4”, do José Agostinho, e os “Five kings”, do Mello Xavier e Tito Saraiva, contribuíram para que se efectivasse a abertura dos ritmos de raiz angolana,   às experiências de renovação, inclusão e fusão.

 

 

Filipe Mukenga, que recorda e valoriza a influência do canto litúrgico da Igreja Metodista na sua música, passou pelos Indómitos e Apollo XI, dois conjuntos da então apelidada música moderna. De notar que a designação “Conjuntos de música moderna”, surgiu em oposição aos agrupamentos de música de raiz angolana, tal como os Kiezos e Jovens do Prenda.

 

A passagem de Filipe Mukenga pelo exército colonial foi de suma importância para a construção de uma consciência artística voltada para revalorização estética da música de emanação rural. Neste período, Filipe Mukenga aprendeu a filosofia e a cultura musical de várias regiões do país, sobretudo a dos umbundus e dos kwanyamas, através do convívio com os soldados que cumpriam o serviço obrigatório da tropa colonial, provenientes de diferentes grupos étnicos angolanos.

 

Misoso

 

Terminado o serviço militar, em 1973, Filipe Mukenga fundou, com José Agostinho, que conhecera no conjunto Apolo XI, o Duo Misoso, uma formação que transportava para o canto e guitarra os ritmos absorvidos da experiência no exército. Em 1980, um facto importante marcou o início da internacionalização de Filipe Mukenga- o encontro com o cantor alagoano Djavan. Integrado numa importante caravana artística brasileira, Djavan visitou Angola através do histórico Projecto Kalunga, e decidiu incluir no seu álbum Seduzir (1982) os temas “Nvula’’ e “Humbiumbi’’, transformando-os em sucessos internacionais, com interpretações de Flora Purim, Estevão Gibson, Silva Nazário, Paulo de Carvalho, Abel Duerê e dos grupos brasileiros Banda Mel e do Fundo do Quintal.

 

Duo

 

Com a morte de José Agostinho, seu companheiro do Duo Misoso, Filipe Mukenga homenageia o seu amigo com a canção “ Blues pala nguxi’’, numa das interpretações mais notáveis da sua carreira. Sobre o assunto Filipe Mukenga disse, nostálgico, o seguinte: “É um tema que muito me sensiliza e que gosto muito. Quando oiço esta canção recordo-me e presto homenagem a um grande amigo e músico com quem tive a felicidade de privar e de trabalhar durante anos, tendo como motivo essencial a nossa musica’’. José Agostinho era um músico de extrema sensibilidade, sabia o que queria, tinha uma personalidade muito forte, e era detentor de um timbre vocal que dialogava perfeitamente com a voz de Filipe Mukenga. Os contra-cantos do duo eram perfeitos, consequência da natureza vocal de José Agostinho, que permitia atingir notas musicais muito altas.

 

Discografia

 

Em 1990, Filipe Mukenga cria a banda Madizeza com Kinito Tridande (baixo), Rui César (teclas) Marito Furtado (bateria) e Joãozinho Morgado (tumbas). A Banda Madizeza foi a formação de base com a qual Filipe Mukenga gravou, em Portugal, o álbum “Novo Som’’ (1991), o primeiro da sua carreira, com a participação do cantor Rui Veloso na harmónica. “Kianda Ki Anda” (1995), o segundo álbum de Filipe Mukenga, é uma proposta musical mais africana, ao nível das harmonias, um CD que consagrou a versatilidade de Filipe Mukenga junto das elites musicais africanas com residência em paris. “Kianda Ki Anda” foi eleita no Top Kilimanjaro da Rádio 1, do Gabão, emparceirando com ícones da música africana.

 

A parceria entre Filipe Mukenga e Filipe Zau, a nível da produção textual, em mais de 80 canções, muitas das quais não gravadas, data de 1978. Com Filipe Zau surgiu “ O canto da sereia, o encanto” uma opereta em duplo álbum que narra a saga dos marinheiros angolanos na época colonial, conto com as participações de Carlos Burity, Eduardo Paim, Katila Mingas e o cantor português Fernando Tordo. “Muimbu iami” (minhas canções), gravado no Brasil (Salvador da Bahia), a penúltima obra discográfica de Filipe Mukenga, contou com a prestimosa colaboração de Djavan. Um reencontro que exalta o lado “afro” do cantor Brasileiro. “Nós somos nós”, último trabalho discográfico de Filipe Mukenga, acusa, de forma visível, o lirismo das guitarras da banda de Zeca Baleiro, um cantor e compositor do Maranhão da geração pós-tropicalista. Gravado no Rio de Janeiro e São Paulo, o CD conta com as participações especiais de Vânia Abreu, na canção “Aprisionar a negra noite”, de Martinho da Vila, no tema “Paquete”, e do produtor do CD, Zeca Baleiro, na canção “Uma volta e meia”.

 

Tradição

 

Num outro atalho de reflexão crítica, julgamos que a imposição da música de Filipe Mukenga no universo da música africana de expressão internacional, passa pela recolha e interpretação da música tradicional angolana, um segmento importante da sua obra artística. Canções como “Nga buila”, “Kakadona ko p’oikhwa-po”, “Dilombe”, “Mandume”, “Balabina”, “haipolo”, “hailwa yangue oike mbela”, e “omukwanango” (tema inédito, não gravado), são exemplos de uma poeticidade ímpar na história da Música Popular Angolana, passíveis de integração e internacionalização no universo do afro-jazz.

 



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