Lisboa - Morreu aos 47 anos. A História consagra-o como o maior exemplo de coragem da revolução de 25 de Abril de 1974. Salgueiro Maia, o capitão sem medo, desapareceu a 4 de abril de 1992.

Fonte: Expresso

"O português é caracterizado em todo o mundo pela sua capacidade de desembaraço - ou de desenrasca, como se diz na tropa. E naturalmente que (naquela madrugada) a condicionante de desenrascanço era relevante." Numa entrevista que se recorda (ver vídeo no fim do texto), Salgueiro Maia - o rosto da coragem da Revolução dos Cravos, não disfarça a forma improvisada com que foi montada a operação militar que derrubou uma ditadura com mais de 40 anos, em Portugal. Com a simplicidade que lhe era reconhecida, relata como avançou com a ideia apenas na véspera da Revolução, como a comunicação social ajudou a iludir a falta de tropa e armamento do lado dos revoltosos e como paralelamente aos cravos, o povo, em apoteose, aclamou os militares distribuindo os primeiros jornais livres de censura e... bocados de presunto.

"QUEM QUISER, QUE VENHA COMIGO!"

Nascido em Castelo de Vide, a 1 de julho de 1944, Fernando José Salgueiro Maia ingressou na Academia Militar, em Lisboa, em outubro de 1964. Terminado o curso, apresentou-se na Escola Prática de Cavalaria (EPC), em Santarém, para frequentar o tirocínio. Foi comandante de instrução em Santarém e em 1968, com a guerra colonial em curso, partiu para o Norte de Moçambique, integrado na 9ª Companhia de Comandos. Em março de 1971, foi promovido a capitão e em julho de 1971 embarcou para a Guiné. De regresso a Portugal, dois anos depois, voltou a Santarém, à EPC. Participou nas reuniões clandestinas do Movimento das Forças Armadas, integrando, como delegado de cavalaria, a Comissão Coordenadora do Movimento. Até que a 25 de abril de 1974, Salgueiro Maia teve o seu encontro com a História. Ao princípio da madrugada, na parada da Escola Prática de Cavalaria, afirmou perante 240 homens: "Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado: os Estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!" Todos cedem ao carisma de Salgueiro Maia. Às três e meia da manhã, dez viaturas blindadas atravessam a porta de armas da EPC, comandadas pelo capitão sem medo. O objetivo é atingir... Toledo, o nome de código para o Terreiro do Paço e os seus ministérios - o coração do regime.

REVOLUÇÃO IGNORA O SEMÁFORO VERMELHO

Já em Lisboa, Salgueiro Maia escuta um carro-patrulha da PSP informar o respetivo comando da passagem da coluna, impressionado com o número de chaimites. Recordaria o capitão: "Enquanto ouvia estas informações, o jipe trava de repente e dou comigo parado no sinal vermelho do cruzamento da Cidade Universitária. Olho para o lado e vejo um autocarro da Carris também parado. Achei que era demais parar a revolução ao sinal vermelho, quando o que distinguia os carros do MFA era um triângulo vermelho no lado esquerdo das viaturas ou tapando a matrícula. Mando avançar tocando as sirenes das autometralhadoras EBR até chegar ao Terreiro do Paço". A missão é cumprida com êxito, antes de ser dado o alarme geral. "Charlie Oito" (Salgueiro Maia) comunica a "Tigre" (Otelo Saraiva de Carvalho): "Ocupámos Toledo e controlamos Bruxelas e Viena (Banco de Portugal e Rádio Marconi)!" A partir deste momento, os passos do capitão confundem-se com a história do próprio 25 de abril. Ao longo do dia, ele viria a ser o comandante do movimento mais sujeito a situações de perigo e tensão, que enfrentou com grande serenidade. Ao fim da tarde daquela quinta-feira, o cerco militar montado no Terreiro do Paço força o presidente do Conselho, Marcello Caetano, à rendição. Ainda hoje, no Largo do Carmo, uma placa de homenagem a Salgueiro Maia assinala o local onde se dirigiu aos governantes sitiados no Quartel do Carmo. Salgueiro Maia viria a escoltar Marcello Caetano até ao avião que o transportaria para o exílio, no Brasil.

OS ESTUDOS DEPOIS DA REVOLUÇÃO

Filho de um ferroviário, Francisco da Luz Maia, e de Francisca Silvéria Salgueiro, frequentou a Escola Primária em São Torcato, Coruche, e fez os estudos secundários em Tomar e Leiria. Depois da revolução, licenciou-se em Ciências Políticas e Sociais, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa. Participou no 25 de novembro de 1975, saindo da EPC aos comandos de uma coluna às ordens do Presidente da República, Costa Gomes. Viria a ser transferido para os Açores, só voltando a Santarém em 1979, para comandar o presídio militar de Santa Margarida. Em 1981, foi promovido a major e em 1984, regressou à Escola Prática de Cavalaria.

CONDECORAÇÕES PÓSTUMAS

Avesso a privilégios e honrarias, ao longo dos anos, Salgueiro Maia recusaria ser membro do Conselho da Revolução, adido militar numa embaixada à sua escolha, governador civil de Santarém e pertencer à Casa Militar da Presidência da República. Em 1983, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, em 1992, a título póstumo, o grau de Grande Oficial da Ordem da Torre e Espada e, em 2007, a Medalha de Ouro de Santarém. Em 1989, foi-lhe diagnosticado um cancro que, não obstante duas intervenções cirúrgicas nos anos seguintes, o viria a vitimar, a 4 de abril de 1992. Salgueiro Maia foi sepultado no cemitério de Castelo de Vide, na presença de três ex-Presidentes da República - António de Spínola, Costa Gomes e Ramalho Eanes - e de Mário Soares, chefe de Estado em funções, uma homenagem inequívoca ao maior exemplo de coragem e valentia da Revolução dos Cravos.



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