Lisboa - Dois ingleses apaixonados por África saíram do Bié, onde nasce o maior rio exclusivamente angolano, e, apesar da surpreendente ameaça dos hipopótamos, só pararam mil quilómetros depois, quando chegaram ao mar. Um feito único para ajudar a fundação que promove a desminagem naquele país

*Teresa Campos
Fonte: VISAO

Oscar Scafidi, 34 anos, é um professor de história britânico que já viveu no Sudão e agora vive em Madagáscar e que há quatro anos coincidiu em Luanda com Alfy Weston, inglês empregado numa offshore de petróleo e gás, que aterrou de caiaque debaixo do braço.

 

Oscar, que dá aulas numa rede de escolas internacionais, e escreve livros de viagens pelo caminho, tinha-se candidatado a uma vaga na capital angolana depois de ler Mais Um Dia de Vida, a epopeia do polaco Ryszard Kapuściński em plena revolução de Angola – no verão de 1975, aquele jornalista tinha sido enviado pela agência de imprensa estatal do seu país para Luanda, numa altura em os portugueses fugiam em massa e os partidos políticos combatiam pelo poder, numa guerra civil sem quartel. “Fiquei fascinado com aquele relato e cheio de curiosidade para conhecer o país”, conta Oscar à VISÃO, do outro lado do telefone.

 

Cruzar-se com Alfy, no clube de râguebi local, foi mero acaso: “Descer o rio foi ideia dele. Nunca ninguém o tinha feito e pareceu-nos uma maneira diferente de conhecer o país.” Treinaram durante uns bons meses e puseram-se a caminho. Mas aquele não era o único mote para a viagem: desde que souberam que a Halo Foundation, instituição popularizada pela viagem que a princesa Diana fizera em 1997, enfrentava dificuldades financeiras (tendo chegado a anunciar que deixaria de efetuar as operações de desminagem...) uniram o agradável da sua expedição exótica ao útil de ajudar a comunidade que tão bem os acolhera e apoiara naquela travessia inédita.

 

“A própria Halo foi de grande ajuda: em muitas zonas por onde íamos passar há explosivos escondidos”, assume Oscar, que já tinha andado um pouco por todo o país e sabia bem o risco imenso que as minas ainda constituem.

 

E foi assim que, no verão de 2016, os dois amigos saíram de caiaque para uma expedição de 1300 quilómetros, ao longo do rio mais longo de Angola. Ao todos, foram 33 dias num klepper dos anos 60, ao mesmo tempo que conheciam algumas das últimas áreas completamente selvagens que restam em solo africano.

 

“Mesmo. Ao contrário do que se possa pensar, os hipopótamos são extremamente agressivos e responsáveis por milhares de mortes todos os anos”, segue Oscar, ao confessar que sim, tiveram medo, “eles são muito rápidos”.

 

Saíam sempre antes do sol nascer e recolhiam um pouco depois de a luz desaparecer no horizonte. Comiam enquanto a corrente os levava e não saíam da água durante o dia. O recorde diário foram 70 quilómetros a remar, ao longo de 11 horas.


Ainda nem tinham completado um terço da jornada e outra aflição: quase se afundam, a tentar contrariar as correntes e por um triz Alfy não se afoga. São resgatados por garimpeiros, que os ajudam a consertar o Klepper, e acampam com eles. Pelo meio, completam alguns trechos a pé e passam pela Reserva Natural do Luiano, que abriga o Palanca Negra, uma espécie rara de antílope que só pode ser encontrada na zona do Malanje.

 

Mas não será a única surpresa indesejada da expedição. Aos 24 dias de viagem, há uma noite em que são detidos à mão armada a meio da noite, algemados e levados sob custódia sob a ameaça de espionagem. Sujeitos a um interrogatório de dois dias, acabam por ser levados para Luanda, já os equipamentos e os passaportes tinham sido confiscados. Só a intervenção das embaixadas impede a sua deportação.

 

E o que fazem então Oscar e Alfy, contra o conselho de tudo e todos? Voltam ao rio para completar a expedição. Dali para a frente hão de ser 220 quilómetros em alta velocidade e total sigilo, desviando-se o mais possível dos postos de controlo da polícia. E eis que dia 6 de julho chegam ao fim desse rio que faz uma grande curva para norte e oeste, antes de desaguar no Atlântico, na Barra do Cuanza, a sul de Luanda. São os primeiros no mundo a percorrer toda aquela extensão de água da nascente até à foz num caiaque e só isso já faz deles recordistas.

 

Como filmaram tudo, do início ao fim, não demorou que tivessem um documento para mostrar ao mundo. E o filme passou nos mais variados festivais de cinema, dos EUA ao Chipre, do Canadá à Austrália, passando, claro, pelo Reino Unido, ajudando a divulgar o projeto da Halo Trust.

 

“Arrecadámos, só com a expedição, 22 mil euros, que financiaram a instalação de duas equipas de remoção de minas no Cuito, durante um mês”, conta ainda Oscar, a lembrar que, durante a brutal guerra civil que devastou o país, entre 1975 e 2002, foram plantadas mais de 20 milhões de minas terrestres.

 

É nessa mesma linha que se preparam para lançar o livro da expedição, a 9 de março: 25% das vendas revertem a favor da Halo Fondation.

 



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