Luanda - Há indivíduos que se tornam empresários por opção. Outros, por vocação. Este foi o caso de Bartolomeu Dias, que, segundo confessa, sempre teve jeito natural para os negócios. “O que eu realmente gosto é de criar novas empresas e fazê-las crescer. Empregar mais angolanos e contribuir para a prosperidade do país”, justifica.


Fonte: Exame

“Quero ser bilionário”

Nascido no Kuando-Kubango, Bartolomeu Dias ficou órfão muito cedo. O seu pai faleceu quando ele tinha apenas 3 meses de idade. O padastro não era um homem rico. Era motorista dos comissários provinciais, pelo que a família vivia num anexo do palácio. Desde pequeno que Bartolomeu tinha o sonho de ser militar. “Aos 11 anos chamavam-me o pequeno FAPLA”, recorda. Nessa idade, criou o seu primeiro negócio. Ia à loja comprar açúcar com o qual a sua mãe fazia bebidas. O dinheiro arrecadado com a venda serviu-lhe para comprar bicicletas. Chegado a Luanda deu seguimento à vocação de comerciante. “Em 1987, comprei uma pulseira de ouro por 500 dólares e vendi-a por 1500. Na altura era uma soma elevada. Com esse dinheiro comprei uma motorizada Yamaha, enviei-a para a Lunda e ganhei 15 mil dólares. Foi a partir daí que passei a vender mercadorias para a Lunda”, explica. O negócio seguinte foi a importação de automóveis da Bélgica.


Em 1991, percebeu que havia sinais de paz no horizonte e tratou de se legalizar como empresário. A sua primeira empresa foi a Angoinform, dedicada à importação de computadores do Brasil. O destinatário principal eram as escolas. Com o dinheiro da operação resolveu apostar mais forte no trading. Escolheu a área alimentar, dirigida à classe média, pois sabia que dava excelentes margens de lucro. “Afinal, as pessoas têm sempre de comer”, justifica. A fuba de milho, vinda de Portugal, foi a sua primeira importação em grande escala (150 contentores). Seguiu-se o uísque Chivas Regal, importado do Reino Unido, que estava na moda entre os consumidores da classe alta. O negócio seguinte foi a importação de frangos, vindos do Paraguai, depois distribuídos mediante um acordo com a Frescangol. Nessa altura, o grupo Bartolomeu Dias tinha armazéns na Boavista. “Nesses anos eu ganhei uma valiosa experiência como importador. Não havia nenhum empresário com a minha idade em Angola”, diz.

 

Primeira empresa na área da segurança


Depois da paz decidiu investir na área da segurança (da pessoal à electrónica). Ainda hoje a Angoinform continua a actuar nessas áreas de negócio. Seguiu-se a Angoinform Construtora (obras) e a Diexim Transportes Rodoviários. Negócios aparentemente díspares. O facto de Bartolomeu Dias não ter experiência prévia nesses negócios nunca o preocupou. “Ninguém sabe realmente de um negócio antes de entrar nele. Não acredito no saber teórico, sem o saber prático.” Hoje, a Diexim tem 200 camiões, sendo uma das maiores frotas privadas de Angola.

 

Seguiu-se o seu primeiro negócio emocional: a companhia de aviação Diexim. “Sempre quis ser piloto. Desde criança que nunca tive medo de andar de avião. Recordo que fiz a minha primeira viagem em 1974 e fiquei fascinado. Tenho o sonho de tirar um brevet só para fins recreativos. Por agora, ainda não consegui arranjar tempo disponível para as aulas. Um dia, vou fazê-lo”, assegura. Contesta aqueles que dizem que a aviação é um negócio condenado aos prejuízos. “É um negocio arriscado, de facto. Num ano tanto podemos ganhar, como perder, 1 milhão de dólares. É um negócio com velocidade e muita adrenalina. Penso que ser empresário implica saber correr riscos. Eu gosto de arriscar. Mas faço sempre um estudo de viabilidade, com o apoio de economistas, antes de entrar num negócio”, afirma, acrescentando: “A partir daí, sigo a minha intuição. É preciso saber ler os momentos. No recrutamento também confio mais na intuição do que nos currículos. Por exemplo, quando entrei no negócio da aviação comprei logo um avião, em vez de alugar. É preciso ter auto-confiança. Eu vejo-me como um homem de acção que tem sempre um espírito positivo. O meu sentido único é vencer”, diz convicto.


Frota de sete aviões com voos para as províncias

 

Hoje, o grupo tem uma frota de sete aviões que voam para as províncias do Soyo, Cabinda, Benguela, Huambo, Lubango e Ondjiva. A vantagem competitiva face aos rivais não está nos preços baixos. “Está na pontualidade, regularidade (procuro nunca cancelar voos) e nos serviços em terra e a bordo”, esclarece. Bartolomeu Dias concorda, no entanto, que a aviação está a viver um momento sensível devido ao preço do combustível. Daí que, à semelhança do que sucedeu na maior parte das companhias em todo o mundo, a Diexim Expresso tenha tido prejuízos nos últimos dois anos. Mas nem por isso o empresário pensa em desistir. Pelo contrário, confessa que o negócio da aviação é o que lhe dá mais gozo.


O seu grande ídolo internacional no mundo dos negócios é o britânico Richard Branson, líder da Virgin, que também tem uma companhia aérea que se bate com as gigantes. Bartolomeu Dias admira a sua persistência, determinação, gosto pelo risco e, é claro, o espírito empreendedor. Ainda no sector da aviação, o grupo Bartolomeu Dias fundou a Royal Jet, dirigada a clientes VIP. A aeronave Lear Jet 45 tem uma autonomia para quatro horas. “Recentemente viajei nela para as Seychelles e para o Dubai.” Bartolomeu Dias procura viajar sempre que pode. É nessas deslocações que consegue pôr as leituras em dia e gerar novas ideias de negócio. A título de exemplo, conta que foi em Herbin, na fronteira entre a China e a Coreia do Norte, “que tive a inspiração para o nome da minha empresa de investimentos: a North Investment”.


Quanto ao futuro do grupo, Bartolomeu Dias não podia estar mais optimista. “Hoje, o mercado é aberto. Temos de estruturar as empresas de modo a travar as importações e competir de igual para igual com os estrangeiros.” Para isso, sabe que é preciso ir buscar técnicos expatriados para áreas específicas. “Temos de resolver a maka dos vistos”, desabafa. Acredita, no entanto, que o mercado angolano vai continuar a crescer. “Todas as empresas ligadas à prestação de serviços, desde que bem geridas, serão certamente lucrativas”, diz.

 

Decerto terá sido por isso que Bartolomeu Dias criou várias empresas na área dos serviços. Além da referida Angoinform (segurança), há a City Deliver Service (trading), a City Deliver Cleaning (limpeza e serviços para condomínios), a Elizabeth Service (marca de perfumes) e Inter-Cidades (autocarros turísticos).

 


Bartolomeu Dias acredita firmemente nas potencialidades turísticas de Angola. “Como muitas pessoas não gostam de andar de avião, decidi apostar em autocarros turísticos que ofereçam conforto e qualidade.” É também a pensar no turismo que criou a agência de viagens International Travel, que está associada a uma empresa de rent-a-car. Este negócio funciona tanto para os estrangeiros que querem visitar Angola, como para os residentes que pretendam viajar para o exterior.

 

O imobiliário é outra área de negócios onde o grupo está a investir fortemente. A entrada neste segmento começou com o condomínio Cuchi, em Talatona. “A operação correu muito bem. Os apartamentos já estavam vendidos antes de serem concluídos”, esclarece. Os preços vão desde 300 mil dólares (T3) a 400 mil (T4). Mas a jóia da coroa vai ser o BD Residence, um novo condomínio na Avenida do Brasil. Trata-se de um edifício moderno com 60 apartamentos, dirigidos às classes média e alta. Os preços vão desde 400 mil dólares a 2 milhões (T4). As obras arrancam em Maio e demorarão cerca de 18 meses a ficar concluídas. O investimento é de 24 milhões de dólares.


Seguem-se dois grandes empreendimentos luxuosos, dirigidos à classe alta. Ambos ainda estão em fase de maqueta e serão edificados em Talatona. As obras do Business Center, um centro de escritórios onde vai estar localizada a nova sede do grupo, começam em Junho e representam um investimento de 28 milhões de dólares. Há ainda o Business Park, que para além dos escritórios e apartamentos, incluirá um hotel e um centro comercial. Neste caso, o investimento previsto é de 75 milhões de dólares. Ambos deverão estar prontos dentro de dois anos. Na área turística, o projecto mais ambicioso é o Catumbela Resort Master Plan, que ainda está em fase de projecto. Trata-se de um complexo turístico de grande dimensão, cujas obras demorarão três anos e o investimento rondará os 200 milhões de dólares.


Hotéis e habitações para a classe média


Há ainda outros projectos na forja. Na sua terra natal, o Kuando-Kubango, o empresário está a reabilitar um hotel, um investimento que rondará 7 milhões a 8 milhões de dólares. Tendo igualmente por destinatários os turistas e os homens de negócios, está prevista a construção de um novo hotel no Huambo. A pensar nos jovens e nos consumidores com menos rendimentos, Bartomoleu Dias tem em mente a criação de uma cadeia de bed & breakfast (dormida e pequeno-almoço) que terá como inspiração a cadeia francesa Formule 1, que oferece um serviço standard, a preços razoáveis. No âmbito da política de responsabilidade social do grupo Bartolomeu Dias, o empresário já se comprometeu a construir habitações dirigidas à classe média, nas províncias. “Não serão bairros sociais. Serão casas com qualidade, mas cujo preço máximo será de 100 mil dólares.” Ele tenciona construir já este ano 200 casas: 100 na província do Huambo e outras 100 na do Lubango.

 

Apesar de continuar a acreditar no desenvolvimento dos sectores imobiliário e do turismo, o empresário queixa-se do elevado custo do terrenos (o preço do metro quadrado é o triplo do dos países vizinhos) e das empreitadas. Por isso, Bartolomeu Dias também investe na compra e venda de propriedades no estrangeiro.


Recorde-se que o grupo tem escritórios de representação em Hong-Kong (que apoia a área de trading), no Dubai (que funciona como placa giratória) e na Namíbia. Neste país, Bartolomeu Dias actua no sector imobiliário e tenciona construir um hotel, que também terá escritórios e um centro comercial. O próximo escritório a inaugurar será em Lisboa. Porém, o empresário confessa que tem um fascínio especial pela Ásia. Uma foto sua com Osamu Suzuki (que hoje já tem mais de 80 anos) ocupa um lugar de destaque no seu gabinete.


A China e a Coreia são dois dos destinos que mais tem visitado ultimamente. “Comecei a ir mais para a Ásia em 2008. Já visitei a LG, a Hyundai e a Suzuki, por exemplo. Os coreanos estão a surpreender o mundo ao nível da qualidade. Já são a 11.ª maior economia mundial”, recorda. Bartolomeu Dias não ambiciona, no entanto, internacionalizar o seu negócio. “Ainda existem muitas oportunidades em Angola”, justifica.

Na área industrial, o grupo fundou, em 1996, a empresa Nori, que hoje tem cerca de 200 trabalhadores. O objectivo do grupo é substituir as importações e esgotar a procura que, por enquanto, ainda é superior à oferta.

 

"Quero ser bilionário"


Quem entra na sede do grupo Bartolomeu Dias, localizada numa rua modesta do Morro Bento, não imagina o que vai encontrar. A frota de automóveis, embora coberta, permite reconhecer as formas de vários carros de luxo: Audi, BMW e Mercedes. No átrio principal pontifica a fotografia do fundador e as bandeiras das empresas que compõem o grupo. A sala de espera é imponente. Destaca-se um enorme aquário e uma decoração baseada em esculturas e quadros africanos.


Quando se abre a sólida porta do gabinete do presidente deparamos com um escritório amplo e luxuoso, que poderia servir como salão de festas. Nem sequer falta, logo à entrada, um bar e uma sala de estar com sofás. Os retratos e as várias obras de arte africana conferem ao espaço um toque humano.


Não admira que Bartolomeu Dias tenha escolhido o Morro Bento, onde opera a área industrial do grupo, para sede. “Gosto de trabalhar no Morro Bento, pois estou perto da fábrica e não tenho problemas de estacionamento ou segurança”, diz. Outro argumento de peso é o facto de o ginásio, perfeitamente equipado, estar do outro lado do corredor. “Eu acordo cedo e todos os dias estou na sede entre as 8 e as 21 horas. Durante a hora do almoço, ou ao fim do dia, faço um pouco de ginásio para manter a forma.” O exercício parece resultar, pois Bartolomeu Dias, aos 43 anos, conserva um ar jovial e sorridente. “Sou um optimista”, confessa.


Todos os dias visita uma das suas empresas


Ele é um daqueles empresários irrequietos que precisa de adrenalina. “Gosto de criar negócios e 
fazê-los crescer. Sou daqueles gestores que põe a ‘mão na massa’. Todos os dias visito uma das empresas do grupo. Sou o único dono. Não tenho de delegar pelouros noutros sócios. Os directores não têm qualquer participação no capital da empresa”, refere.


David Neto, director-geral da Nori, reconhece que o grupo foi moldado à imagem do seu fundador. Não obstante, Bartolomeu Dias cultiva uma personalidade discreta e avessa a mediatismos.


Por ironia, o empresário recorda que, quando era criança, dizia sempre que queria ser piloto. Afinal acabou por criar uma empresa de aviação, o que não é bem a mesma coisa, mas anda lá perto. Bartolomeu Dias confessa que este é o negócio que lhe dá mais gozo. E como gosta de realizar os seus sonhos, garante que ainda não desistiu da ideia de tirar o brevet.


É fã do futebol e já foi presidente de vários clubes. Em Angola é adepto do 1.º de Agosto. No estrangeiro puxa pelo Benfica. Também vibra com o Barcelona e o Arsenal, pelo que ficou muito dividido sobre por quem torcer durante a eliminatória da Liga dos Campeões ganha pelos espanhóis. Nos tempos livres confessa já não ter condição física para jogar futebol, mas vinga-se no ginásio. Gosta muito de ler, sobretudo livros de negócios.

 

Empresário que não está  na política

 

Diz ser o maior empresário de Angola que não está ligado à politica. “Nunca estive na política. Não tenho nenhum familiar na política. Se um dia decidir participar na política deixarei de ser empresário.” Defende que Angola ainda precisa de mudar ao nível das mentalidades. Dá os parabéns ao Governo pelo trabalho que tem feito em termos de reconstrução nacional, mas gostaria que houvesse mais engajamento dos empresários nacionais. “O Governo faz muitos negócios com estrangeiros. Seria preferível entregar mais negócios a empresários angolanos, por concurso ou adjudicação directa. Estes, por sua vez, poderão recorrer a parcerias externas nas áreas em que têm lacunas”, sugere.

 

Numa entrevista recente ao jornal O País, defende que o Estado deverá cobrar taxas pelo serviços sociais que presta e que deverá, sobretudo, tributar os mais ricos. Confessa, porém, que tem vocação de empresário, pelo que não está nos seus horizontes ser politico. “Tenho 43 anos. Ainda tenho muito a fazer pelo país como empresário”, afirma convicto.

 

O seu plano de investimentos para 2010 é muito ambicioso. Vai construir uma segunda refinaria de óleo, duas novas fábricas, novos hotéis, projectos imobiliários e habitações. Também quer apostar mais forte na área da responsabilidade social. Depois de já ter doado computadores para escolas e camas para hospitais, agora quer construir escolas primárias para as províncias e proceder 
à oferta de livros e de material escolar.

 

Para o futuro gostava de alargar o seu talento como empresário a outros negócios, por exemplo, nos sectores mineiro e das  telecomunicações. “Não quero operar em diamantes, mas em commodities (matérias-primas) como o ferro, o ouro ou o cobre.” Razão tem David Neto quando sintetiza: “Ele  é um empreendedor incessante.”


“Não faz sentido continuarmos a importar bens que poderiam ser produzidos em Angola”, sentencia Bartolomeu Dias. Dá o seu próprio caso como exemplo. Decidiu investir numa refinaria de óleo a partir de soja. A razão é que o produto – o óleo Senhorita – não tem colesterol (logo é bom para a saúde) e tem um custo mais competitivo do que o girassol, por exemplo. O empresário lamenta ter de importar os grãos. “Se fossem produzidos localmente, poderíamos ter preços mais baratos para o consumidor”, assinala. É também nesta unidade industrial do Morro Bento que se produzem os sabonetes Ana. No segundo semestre deste ano vão ser criadas novas fragrâncias e uma nova linha de produtos dirigidos aos hotéis e companhias de aviação.

 

Importa referir que a actual refinaria de óleo tem capacidade para 200 toneladas diárias, o que corresponde a 16 mil caixas de óleo. Agora Bartolomeu Dias quer criar uma nova refinaria com capacidade para 400 toneladas diárias. O terreno, em Benguela, já está comprado. O grupo só aguarda a autorização governamental para construir. As obras vão demorar um ano e meio e o investimento será de 48 milhões de dólares. Num futuro próximo — quando a segunda refinaria já estiver a funcionar —, Bartolomeu Dias não rejeita a hipótese de internacionalizar as suas marcas para os países vizinhos. “Congo, Zâmbia e Namíbia são extensões naturais para os empresários angolanos”, justifica.

 

O empresário tem mais planos de expansão para a área industrial. Ele vai construir duas novas fábricas: uma para a produção de sacos de 50 quilos (investimento previsto de 5,6 milhões de dólares) e outra para o fabrico de lâmpadas de baixo consumo energético (um projecto orçado em 12 milhões de dólares).

 

Na área da logística, o grupo possui ainda a Winspeed. Criada em 2008, a empresa actua nas áreas do transporte marítimo de longo curso e na gestão do terminal de Porto Seco, no Lobito.


Por fim, há ainda a referida North Investments, que gere os activos do grupo, hoje avaliados, segundo Bartolomeu Dias, em 400 milhões de dólares. Parece muito dinheiro, mas aos 43 anos o empresário mantém vivo o seu optimismo. “Já sou milionário, agora quero ser bilionário”, diz com orgulho.


Por: Faustino Diogo e Jaime Fidalgo



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