Luanda - O ex-primeiro-ministro angolano Marcolino Moco propõe aos angolanos a alternativa "da cidadania, da intervenção social".Entre a continuação do regime, que considera marcado pela "arrogância" e o nepotismo, e uma revolução violenta, como as do norte de África.


Fonte: Lusa

"Não devemos ter medo de abordar os problemas"

Em entrevista à Lusa, Marcolino Moco, que foi também o primeiro secretário-executivo da CPLP, considera que a sua alternativa, que frisou não ser um manifesto político-partidário, pode devolver a Angola a utilidade da política enquanto instrumento de desenvolvimento e não de projeto personalizado, como considera estar a ser atualmente desenvolvida.

 

"A primeira alternativa é esta presente, sermos governados por pessoas que acham que somos cegos, que não estamos a ver. Um dos princípios da democracia ocidental, que não deve ser negligenciado, é o princípio da alternância e o problema do Presidente José Eduardo dos Santos é que ele está há 32 anos, vai fazer 33 anos, no poder", salientou.

 

Antigo secretário-geral do MPLA, partido de que é atualmente apenas militante, Marcolino Moco teceu fortes críticas a José Eduardo dos Santos, cuja longevidade no poder o fez perder a sensibilidade de que "o poder está no povo".


"Ele (José Eduardo dos Santos) e as pessoas que estão a sua volta - também não são fixas, aí uma ou duas pessoas são sempre as mesmas, há uns que saem, entram, saem -, que de tanto estar no poder já perderam a sensibilidade que o poder é do povo, que os bens, o petróleo, o Banco Nacional, a televisão pública, isso é do povo", acrescentou.


A manter-se esta insensibilidade, a possibilidade de convulsões sociais é grande, cujo primeiro sinal Marcolino Moco considera ter sido dado pelas manifestações de rua antigovernamentais que marcaram a realidade sociopolítica de Angola em 2011.

 

A alternativa que defende, divulgada no seu blogue "À mesa do Café", constitui um desafio à sociedade angolana para o debate.

 

"Provavelmente, tenho um defeito: fui sempre homem de convicções demasiado profundas. Mas tenho uma virtude: nunca acreditei que algum homem fosse capaz de trazer soluções definitivas. Por isso, como sempre, o texto que vos apresento pode ser a abertura para um debate e não um conjunto de ideias acabadas", escreveu no blogue, na apresentação das suas ideias, que pretende editar em livro, a lançar em Angola e Portugal.


Marcolino Moco receia que os jovens que protagonizaram as manifestações de 2011 elevem o seu nível da contestação, reproduzindo em Angola as convulsões que modificaram o cenário político no norte de África, na Tunísia, Egito e Líbia.

 

"Não devemos ter medo de abordar os problemas. Esta proposta vem justamente nesse sentido, por isso poderá ser abraçada pelos jovens. Ou não. Se os jovens a abraçarem vão para a terceira alternativa, se não, isso tudo se a primeira alternativa continua na teimosia, na sua arrogância de que pode tudo, é dona do país, é evidente isso que está aqui escrito não vai evitar nada, a explosão da segunda alternativa por onde os jovens poderão enveredar", considerou.

 

Marcolino Moco acrescentou que os manifestantes "estão a ser reprimidos, a ser sujeitos a sevicias, as suas manifestações pacíficas são infiltradas por indivíduos da segurança do estado, de forma clara".


"Portanto quem tem que escolher é quem está no poder hoje", acentuou.
Marcolino Moco é da opinião que os problemas em Angola radicam na "longevidade do Presidente (no poder), no enriquecimento sem causa das pessoas ao lado do Presidente, no culto da personalidade".


"A terceira alternativa é uma contribuição, é uma tentativa a ver se encontramos caminhos em que a política seja útil à sociedade, porque desta maneira a política não é útil", concluiu.



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