Luanda  - Fraldas políticas Em todos esses tempos de vida que já levo no lombo, entre o mundo estudantil e, agora, jornalístico, aprendi, ao passar dos anos, a olhar de forma suspeita para os políticos entre as nossas quatro paredes.


Fonte: A Capital


Sou do tipo de pessoa que aprendeu a não acreditar, piamente, nas palavras dos políticos, seja ele quem for, tenha ele a cor partidária que tiver. Para mim, não há a mínima dúvida que, na política, é ténue a fronteira entre a verdade e a mentira. Tudo o que se diz não deve ser sempre tomado a peito.


Aquilo que se ouviu ontem perde completa validade no dia seguinte. Mas isso, é claro, não elimina as minhas preferências por esta ou aquela força partidária. Tenho este direito. Aliás, é algo que me é consagrado pela Constituição. Porém, esses são contos para outro rosário. Apesar do homem se tratar de um ser iminentemente político, se entendermos a política nas suas mais variadas facetas, vejo-me cada vez mais desiludido com a prata política cá da casa, por tudo quanto, diariamente, sou obrigado a lidar. Eles, na verdade, não fazem milagres. Reconheço, pois, por isso, após aturadas reflexões, que Eça de Queirós é que tinha mesmo razão, quando estabeleceu uma analogia entre os políticos e as fraldas.

 

Devem ser trocadas todos os dias, sob pena de saturados pelo tempo acabarem por transbordar e, mais do que isso, borrar tudo. Defendo, por isso, uma troca frequente e pelas mesmas razões. Ou seja, dispõem de um determinado tempo de utilidade, mas devem ser descartadas tão logo vença este prazo de validade. Entre nós, curiosamente, não se assistem mudanças.

 

As pessoas são exoneradas e recolocadas num outro posto, mesmo com provas claras de que falhou, clamorosamente, na função anterior. É o baralhar e distribuir da mesma carta, o mesmo chover no molhado de sempre. E, como não poderia deixar de ser, tal como as fraldas, acabam por sujar tudo. Se as fraldas devem ser trocadas com frequência, os políticos não estão isentos desta troca que se recomenda, porque salutar até mesmo para a saúde física de cada um dos políticos. É que com o tempo, poucos serão aqueles - eu pelo menos não – que suportarão a catinga. Reconheço ser uma pena que passam os anos, mas permanecem as vontades caducas de então.


Os problemas e as promessas, passam anos, entram anos, continuam a ser as mesmas, com uma outra inovação, aqui e acolá, mas que, em muitos casos, representam apenas paliativas realizações, salvaguardando-se, é claro, as devidas excepções. As esperanças permanecem, cada vez mais, idosas. Devo até entender que este meu pessimismo para com os políticos intramuros pode ser ultrapassado com a mudança dos mesmos, mas receio que o poder de contaminação dos antigos seja tão forte, quanto rápido, para sujar as fraldas de quem lá for indicado. É que, verdade seja dita, a malta da oposição pouco ou nada faz para a mudança de fraldas. Acaba por ser uma e a mesma coisa.

 

 Na minha modesta opinião, farinha do mesmo saco. É como se todos estivessem conformados em manter as fraldas políticas, mesmo estando a feder demais, como alguém que decide deixar as coisas a andarem, a aguardar por cima do muro das lamentações pela bosta alheia. Reconheço, como Renato Russo, que apenas mudaram as estações e nada mudou. Defendo, ainda assim que se antes as fraldas eram reutilizáveis, mediante passagem em água quente, então, nos tempos que correm, essas mesmas fraldas são descartáveis. Porém, pelo ritmo do andamento da vida política nacional, manifesto aqui, nestas linhas, a minha modesta preocupação. Estou, pois, bastante preocupado, confesso, com a capacidade olfactiva de alguns angolanos, pela tamanha intimidade em lidarem com fraldas políticas polvilhadas de fedorentas bostas.



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