Luanda - O recente encontro entre a direcção do MPLA e empresários nacionais mostrou dois aspectos que, não sendo necessariamente novidade, podem ser catalogados de fundamentais: 1 - José Eduardo dos Santos pretende manter-se à frente do país, pelo menos, pelo período do mandato a sair das próximas eleições para o que demonstrou estar preparado, até do ponto de vista físico. 2 - Impõe-se, o mais rápido possível, uma mudança geracional na classe empresarial angolana, sob o risco de ela se colapsar totalmente nos próximos tempos, com as devidas excepções que confirmam a regra.


Fonte: Club-k.net/NJ

 
A longa reunião, realizada recentemente, serviu para desanuviar o clima de descontentamento crescente que se vinha afirmando entre algumas franjas do empresariado nacional, exactamente as mesmas que fazem as mesmas reclamações há vinte anos e que na prática pouco adiantam para o crescimento económico do país, mais preocupadas que estão com o seu enriquecimento, não importa os métodos. As suas preocupações continuam as mesmas de há abertura política e económica, quando foi abandonado o regime centralizado de controlo para se escancarar as portas para o capitalismo selvagem onde, por isso, vale tudo.
 

Às eternas queixas de dificuldade de acesso ao crédito bancário aos kilapis do Estado e a falta de oportunidades de acesso aos concursos públicos, acrescentaram agora a concorrência estrangeira, que consideram desleal, em apelos a um nacional chauvinismo politicamente conveniente, sobretudo em períodos eleitorais mas que mais não são do que a máscara das suas fraquezas e desorganização, por não terem conseguido aproveitar convenientemente as muitas facilidades que foram obtendo ao longo dos anos.

 
Queixam-se do crédito, mas são os principais beneficiários dele e encabeçam a lista dos incumpridores das suas obrigações bancárias, onde acumulam dívidas milionárias, seguindo a máxima que as “dívidas não são para pagar”. Apesar da sua condição de caloteiros calejados, continuam a reclamar e a receber créditos e mais créditos, deixando algumas instituições bancárias à beira de falências, tal o volume dos empréstimos mal parados.

 
Em contrapartida, o cidadão, trabalhador, quando vai pedir um pequeno crédito para solução de alguma das suas necessidades mais imediatas, depara-se com um oceano de barreiras que o levam a desistir a meio da viagem, para não falar dos juros insuportáveis cobrados pela banca.
 

Os nossos empresários reclamam da falta de oportunidades iguais no acesso aos concursos públicos, sejam de fornecimento de bens ou serviços, seja de empreitadas, acusando o Governo de estar a seguir uma política discriminatória a favor dos estrangeiros, que acabados de desembarcar no aeroporto 4 de Fevereiro conseguem ficar com os maiores e mais rentáveis negócios concretizando a ideia do El Dorado angolano. Contudo, quando, depois das repetidas choradeiras, conseguem algum negócio de relevo, a primeira coisa que fazem é subcontratar os mesmos estrangeiros que criticam, pedindo comissões à cabeça, dando prova da sua incapacidade e incompetência para gerir seja o que for. Rápidos nas contas de somar e multiplicar, até nos discutíveis concursos com as empresas chinesas, em que estes estão obrigados a subcontratar parceiros angolanos até 30 por cento, acabam por preferir cobrar o dinheiro que essa percentagem representa e deixar a outra parte cumprir a totalidade do contrato, ao invés de serem eles a executar contribuindo para o fomento do emprego de mão de obra nacional.

 
Com as devidas e meritórias excepções, uma parte dos que se assumem como empresários nacionais está ‘demodé’ e não resiste a um investimento que não seja o cliente Estado a pagar. E quando este não paga, como é habitual, é um Deus nos acuda e lá se vão as boas intenções desses ditos investidores. Além disso, sabe-se que, sem generalizar, quando conseguem as facilidades que reclamam, parte considerável delas vai para a ostentação em projectos de luxos, onde aí, sim, há uma verdadeira concorrência, desde as viaturas top de gama, às casas no Mussulo, iates, fazendas agrícolas, jatinhos e concubinas. Não estranha, pois, que tenham feito as contas por alto e chegado à “triste” conclusão que o fundo de apoio empresarial de mais de um bilião e meio de dólares, seja insuficiente para as suas ganâncias e extravagâncias, pois repartido pelos mesmos de sempre dará “apenas” algumas dezenas de milhões a cada um! O país precisa de uma nova classe de empresários. Verdadeiros empreendedores que assumam uma ruptura com o passado e estejam à altura da livre concorrência neste mundo cada vez mais globalizado.
 
 
Empresários mais ambiciosos, não no acumular rápido da riqueza e da sua perversa ostentação, que não se fiquem com negócios de ocasião e que sejam visionários, apostando em projectos sustentados e sustentáveis capazes de sobreviver aos monopólios em que se apoiam muitos dos actuais “grandes” empresários angolanos para conseguirem as fortunas que mostram possuir. A nova classe empresarial, para a qual deve ser  encaminhada grande parte do anunciado fundo de apoio, não deve temer o mercado concorrencial aberto mas apostar no rigor, eficiência, eficácia e visão para disputar as oportunidades que um país como Angola ainda oferece, tal o grau de necessidades em todos os sectores. O fundo deve ser direccionado para as micro, pequenas e médias empresas, repartido em pequenas parcelas que propiciem desenvolvimento, resolvendo problemas onde eles existem e fomentando o emprego, por mais pequeno que possa ser. Ao invés de ser direccionado para mega projectos, que consomem milhões e cujo desfecho já se conhece, o prometido apoio deve ser direccionado para programas sustentáveis, capazes de tirar milhares de angolanos do estado de miséria em que vivem, conferindo-lhe um cunho nacional por forma a ajudar no combate as assimetrias regionais.
 

O fundo precisa de ter uma abrangência nacional e não ser dividido apenas pelos mesmos de sempre, com base em influências políticas, étnicas, rácicas, familiares ou outras, com a maioria dos projectos concentrada na capital. Cabe aqui citar o ex-presidente John Kennedy, no seu discurso de tomada de posse em 20 de Janeiro de 1961, quando disse “ não perguntes o que o teu país pode fazer por ti. Pergunta o que podes fazer pelo teu país”, uma frase que em Angola se pretende traduzir em como o país pode fazer para se ser rico sem nada dar em troca.
 

Não espanta que Angola esteja a ser, na actualidade, vítima de uma invasão silenciosa de contornos perigosos e para as quais, repete-se, não se tem dado a devida importância, apesar dos muitos exemplos públicos que deviam ser levados mais á sério, sob o risco de se estar a hipotecar o futuro do país. A imigração ilegal está a atingir proporções alarmantes e urge, pois, a tomada de posições, sejam políticas, policiais ou outras, para que o fenómeno seja estancado à montante e os que internamente o fomentam sejam exemplarmente punidos, por maior ou menor influência que possam, eventualmente, possuir junto das esferas do poder ou interesses nas sociedades que partilham!
 

*Adaptado do texto de Vítor Silva, publicado no Novo Jornal, nº 212 de 10 de Fevereiro de 2012)



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