Luanda -  Estou hoje aqui trazendo à reflexão de quem me possa ler, um assunto  que tem que merecer a atenção da sociedade angolana, porque o assunto cresceu demasiado e rápido, tornou-se caso. E os casos devem ser tratados com cuidado e atenção.
 


Fonte: NJ


Muito de repente, talvez não tão rápido assim mas quase sem darmos por ela, instala-se em nosso redor, nas calmas, uma nova sociedade. Perigosa, pelos seus desígnios, mais perigosa ainda pelas consequências do que dela pode resultar. Constroem-se com  poderosa argamassa e perante o olhar silencioso da grande maioria, as alvenarias de uma sociedade discriminatória e intolerante, sobretudo com os que fazem do seu salário modo de subsistência.
 


Aos poucos vão-se organizando os clubes e os clãs. E reaparecem as castas sobre as quais as nossas fúrias e raivas se haviam abatido bem recentemente. Integram o sistema os que sem nunca discutirem preços, enchem diariamente os salões do que melhor existe em termos de hotéis, restaurantes, pubs, boites, centros recreativos e discotecas. Que nunca perderam tempo a falar do que acontecia no Roque Santeiro nem no que acontece hoje nos Congolenses, e preferem a comodidade dos shopings, dos super e hipermercados, onde tudo se paga bem pago, inclusive os sacos plásticos onde se transportam as compras.
 


São os que a falta de luz e água não causa grande mossa, porque há muito se preveniram e a quem as tentativas de greve ou outro tipo de protestos nada diz, por óbvias razões. Que numa saudável concorrência competem na avaliação da potência dos seus carros e barcos de recreio, assim como a comodidade e a lindeza das suas casas na paradisíaca Mussulo, a Ilha que se transformou no mais flagrante testemunho de uma discriminação difícil de explicar, quem sabe não tão difícil assim. Que só sabem viajar em 1ª. classe, como se lhes viessem do
berço tais hábitos.
 


Longe dos tempos em que vigoravam critérios que traziam vivos e resplandecentes os anseios dos operários e camponeses angolanos, nada tenho, actualmente, que reclamar sobre a vida folgada de muitos cidadãos, conseguidas umas à custa de abnegado e honrado trabalho, outras a suscitar dúvidas e reparos.


 
Todavia, num cenário de vida miserável, onde dia a dia se deterioram os salários e consequentemente pioram as condições de vida, os que se vão borrifando para os salários aproveitam com habilidade e alguma elegância a nova oportunidade que surge de discriminar e até de reprimir. Apertam subtilmente o cerco e reduzem o assalariado à condição de derrotado, a conformar-se com uma imposição da miséria social reinante, sem hipóteses de outras opções.
 

É cada vez mais nítida em cada dia que passa, aqui em Angola, esta separação social que ganha força e cujo verdadeiro nome eu receio pronunciar. Os mais pequenos detalhes da nossa vida mostram com clareza efeitos do poder que exercem, como a facilidade de conquista de espaços que definiram como sua coutada, jogando para a periferia da sociedade um cada vez maior número de angolanos.
 

*Adaptado do artigo de Jacques dos Santos publicado no Novo Jornal, 10/2/2012



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