Luanda - É diplomata de carreira, durante largos anos deu o rosto pela UNITA nalgumas capitais ocidentais para defender os ideais do seu partido de sempre, aderiu a UNITA, em 1976, vai fazer formação militar em Marrocos, na década de 80, torna-se arauto de Jonas Savimbi  na diplomacia, a sua estreia é precisamente na capital Inglesa, Londres, faz parte da equipa que reforça o grupo que vai preparar a visita de Jonas Savimbi aos Estados Unidos da América em 1986, no tempo da Administração Reagan, tendo mais tarde sido escolhido por Jonas Savimbi para o representar nos Estados Unidos da América. Fez parte de várias delegações do galo negro no ocidente, é hoje professor em algumas Universidades na capital americana  Washington, onde lecciona a disciplina de relações internacionais, esteve em Luanda à  participar do IX congresso do galo negro, foi com  este fito que mantivemos uma conversa com o político,  procuramos ouvir as suas  virtudes e razão em torno da  visão  americana em relação Angola, do papel que os diplomatas da UNITA desempenhavam na Europa, do futuro do UNITA, da Organização sócio-política  da Jamba o  seu quartel general de sempre.


* Cláudio Fortuna
Fonte: Club-k.net
         

Jardo Muekalia -Quem o cidadão Jardo Muekalia?
Eu sou um angolano nascido na aldeia da Chitalela no Município do Mungo, província do Huambo. Fiz os estudos primários no Centro Evangélico do Zoar, depois fui para missão Evangélica do Bailundo, aos 16 anos integrei as forças de guerrilha da UNITA e fui fazendo carreira militar na UNITA até que tive oportunidade de ser transferida para missão externa em 1983. A partir daí, fiz o resto da minha carreira na missão externa da UNITA, até 2002, quando passei a docência em algumas da Universidades em Washington. Espero que este breve resumo seja útil para identificar quem sou.


JM - Aos 16 anos vai para as matas, o que lhe motivou a ir para as matas? E porquê que optou pela UNITA?
São dois os factores: primeiro é que na altura estava no Huambo, havia um certo fervor da juventude daquela cidade em relação ao processo de independência que se iniciava. Aderi a UNITA primeiro, por influência dos meus pais. O meu pai era um acérrimo defensor da UNITA e  não falava de outra coisa em casa. Claro que isso teve algum impacto sobre mim. Mais tarde fui também influenciado pelos meus colegas. O outro factor creio que foi a guerra que se seguiu ao fracasso do processo da reconciliação entre os três movimentos. A medida que às forças coligadas cubanas/FAPLA avançavam em direcção ao Huambo, sentimos-nos, de certa forma, alvos abater. Fomos então obrigados a fugir, a procura de segurança e integramos às forças de guerrilha da UNITA. Ali fomos fazendo a nossa vida, ganhando níveis cada vez mais elevados de consciencialização.  No principio foi um instinto de sobrevivência perante um perigo iminente. Mais tarde, tomamos consciência da dimensão do processo em que estávamos envolvidos.

 

Cláudio Fortuna - Esteve na mata durante quanto tempo, em que circunstâncias se torna arauto do Dr Savimbi na missão externa professor?
JM - Juntei-me exactamente no dia 16 de Maio de 1976, na base de Kanyali, província do Huambo. Estive envolvido na guerra directa ou indirectamente até 1979, quando saí, fiz parte de um grupo que foi a Marrocos fazer um curso militar. Ficamos quase treze meses em Marrocos antes de regressarmos à Angola. Naquela altura a Jamba já tinha sido criada, era portanto, a grande novidade. Tinha aprendido a falar algumas línguas estrangeiras e fui um dos seleccionados para integrar o Secretariado da Cooperação passando a fazer missões de acompanhamento aos jornalistas e outras entidades que visitavam a Jamba e o território livre num fluxo cada vez maior. Fiquei nesta área de actividade algum tempo e depois de um curso de informação militar trabalhei em alguns organismos ligados a matéria. Em 1983 fui então nomeado para coadjuvar Tito Chingunji em Londres. Pergunta quando é que me tornei arauto do Dr Savimbi na diplomacia? Ora, foi precisamente nesta altura, em 1983 quando fui para Londres. Tínhamos um projecto que era de  libertação do pais que, do nosso ponto de vista, estava sob dominação estrangeira, era a busca da alteração da mentalidade “exclusivista” que dominava o pensamento do partido no poder o MPLA. Queríamos reclamar à nossa condição de cidadãos angolanos com direitos no nosso próprio país. Isto é que nos motivou e vinha definido em três objectivos muito simples: primeiro, a retirada de todas às forças estrangeiras do pais; segundo, levar o MPLA a reconhecer a UNITA, dialogar e reconciliar-se com ela; terceiro, adoptar em Angola um sistema politico multipartidário. Eram três objectivos muito claros que motivaram a luta e fizeram com que multidões se juntassem a aquele projecto.


Quanto a contenda diplomática que existia entre os diplomatas do governo e os da UNITA, nas capitais europeias, como é que se procediam professor?
Foi um exercício interessante. A nossa diplomacia ganhou maior proeminência a partir dos anos 1984/5, porque nesta altura  o Dr Savimbi,  resolveu fazer da diplomacia uma outra arma estratégica. As nossas maiores batalhas realizaram-se ao nível da Europa, Estados Unidos, espaços que foram, e continuam a ser, palcos principais da política internacional. Na África também desenvolvemos uma actividade intensa. Ao nível da Europa e dos EUA era uma questão de mensagem. Nós estávamos ali  a promover a necessidade de reconciliação, a necessidade de adopção de um sistema democrático. Tínhamos uma mensagem que se coadunava mais com os tempos. Os diplomatas do governo defendiam a ideia de que a democracia não era parte da cultura africana e que éramos  simplesmente lacaios ao serviço dos estrangeiros. Eles tinham um problema de mensagem que complicava a diplomacia do governo e facilitava do nosso lado. O nosso discurso era um discurso dos tempos que continha reivindicações legitimas. Aos poucos fomos conseguindo criar núcleos de apoio dentro das próprias estruturas dos países onde operávamos, ao nível dos parlamentos, executivos e da sociedade civil, que se transformaram em palcos de projecção das políticas da UNITA. Diria  mesmo que nos finais dos anos 80 e princípios dos anos 90, a luta foi muito desigual, levamos uma enorme vantagem por causa dos ventos que sopravam do Leste, e a própria  África estava imbuída nos processos de conferencias nacionais, que também visavam quebrar com os Estados mono partidários. Foi de facto interessante e penso que terá sido um grande contributo para que Angola chegasse onde chegou.


Se calhar uma das fragilidades de alguns dos diplomatas do governo, era porque os diplomatas do governo segundo se, faziam uma espécie de diplomacia  a “ Ngola Kiluanje” não estavam preparados para as grandes frentes diplomáticas do século XX, enquanto que os jovens diplomatas da UNITA estavam melhor preparados para fazer passar a mensagem...
Não podia dizê-lo melhor. Foi exactamente isso que aconteceu...(RS), havia de facto uma questão de sistema político. Os diplomatas do governo estavam amarrados a ideologia do partido único, não tinham espaço nem flexibilidade no seu discurso. Acabavam por apresentar-se muito rígidos e de certa forma  arcaicos mesmo. Chegou um momento em que remaram contra o vento e tiramos vantagens disso.


Quando é que saí de Londres e vai para os Estados Unidos da Amarica professor?
Fui para os EUA pela primeira vez em 1986. Nesta altura Reagan estava no seu segundo mandato,  e tinha se predisposto a receber o Dr Savimbi. Fui para lá para reforçar a equipa que já lá estava a preparar aquela viagem. Fiquei até Fevereiro de 1987 quando regressei a Londres. Mais tarde, já no final de 1988, voltei aos EUA como representante em substituição do Tito Chingunji que vinha para o interior.


Depois aproveitou para fazer a sua formação académica nos Estados Unidos …
Comecei em Londres. Na altura estava mais interessado em sociologia e relações internacionais. Não terminei nenhum dos cursos. No principio dos anos 90, falava-se muito do desenvolvimento comunitário, o que acabou por me interessar e fiz um curso nesta área que terminei em 1998. Mais tarde, já em 2003, voltei para a área das relações internacionais, e conclui um mestrado no Institute of World Politics de Washington D. C. Achei que seria melhor assim para dar um cunho mais formal ao que já era a minha experiência.


Consta pelo menos na nossa história, que no dia 15 de Dezembro de 1992, a direcção da UNITA na altura reuniu-se para abordar a questão dos resultados eleitorais, tendo concluído que os resultados não eram reais , decidiu voltar à guerra, esta terá sido uma boa decisão por parte da UNITA? Por outro lado, gostaríamos de saber, se  esta atitude não terá feito com alguns dos defensores do projecto da UNITA, ao verem que se tomou a decisão de voltar para às matas, levaria o país  a um recuo no processo de democratização, qual é a sua visão a este respeito professor?
Gostaria de dizer que naquela altura eu não fazia necessariamente parte das reuniões, pelo que não estou em condições de confirmar ou desmentir o que se discutiu. No entanto, é verdade que à direcção da UNITA tinha a noção clara de que os resultados tinham sido fraudulentos. Pessoalmente, participei em alguns dos grupos que se formaram posteriormente para investigar o processo, que integravam o pessoal das Nações Unidas e dos outros partidos concorrentes naquele processo eleitoral. Andamos aí, pelo interior dos bairros para poder investigar o que se passou de facto. Não tenho duvidas nenhumas de que houve fraude naquele processo. O relatório das Nações Unidas também provou que houve irregularidades. Se fosse um processo eleitoral feito na Europa, tenho certeza que teria sido repetido. Mas era Angola e como sabemos, há padrões diferentes. Há um padrão para África e há um padrão para Europa. Portanto quanto a existência ou não de fraude em 1992, não tenho a menor duvida. Houve de facto fraude. Quanto a reacção da direcção da UNITA, acho que tem havido um bocado de simplicidade nesta avaliação quando  se chega a conclusão de que a direcção da UNITA decidiu fazer a guerra. Acho que houve um momento de indecisão, de alguma incerta, momentos de tensão. Houve um processo interno de negociação entre o Governo e a UNITA. Varias delegações se deslocaram ao Huambo outras vieram do Huambo para aqui. Estava-se a tentar resolver a situação da crise que se vivia no país naquela altura. Em que momento exacto a coisa descarrilou? Fica difícil  determinar, porque houve pequenas acções aqui e ali. Umas do governo e outras da UNITA. Houve massacres aqui nesta cidade de Luanda e toda gente sabe disso. Naquela altura em que houve massacres em Luanda, a direcção  da UNITA não tinha feito qualquer declaração de guerra. Depois dos massacres de Luanda ainda houve um encontro que teve lugar no Namibe. Depois houve a chamada limpeza das cidades que alastrou para às capitais provinciais, o modelo de “limpeza” utilizado em Luanda. Aconteceu no Lubango, no Lobito. No próprio Huambo a iniciativa coube ao governo. Ali a UNITA teve que reagir e fazer uma guerra que durou o tempo que durou. O que quero dizer aqui é que tenho a impressão de que se quisermos olhar para aquele tempo com alguma frieza, vamos concluir que houve erros dos dois lados, faltou o que eu chamaria de um pouco mais de sangue frio sobretudo dos lideres, para poderem sentar e analisar com mais clareza exactamente o que é que devíamos fazer para sairmos daquela crise. A desconfiança do meu ponto de vista, partiu mesmo do principio. Aquilo a que chamo “os ingredientes da tempestade”. Por um lado, a chamada forças de intervenção rápida que o governo criou a revelia dos acordos. Retirou unidade militares  que deviam ser desmobilizadas para formar a PIR. Por outro lado havia também a informação de que a UNITA tinha uma espécie de um exercito escondido  de dez mil homens, algures no Moxico. Creio que isto em si, criou a desconfiança que nunca foi debelada ao nível mais alto, quer do presidente da República, quer do Dr Savimbi. Ora, o que aconteceu é que se foi aumentando à desconfiança e acabamos por fazer do processo eleitoral uma espécie de “continuação  da guerra por outros meios” ao invés de ser parte da resolução de um conflito. As nossas eleições deixaram de ser um instrumento de resolução de um conflito e passaram a ser a continuação da guerra por outros meios. Não sei se isto responde a sua questão, mais esta é a minha interpretação. Agora se  foi bom para o país  ter voltado a guerra? Acho francamente que a resposta é clara. Acabamos por nos envolver num outro conflito que durou mais uma década, e só podia trazer retrocessos. Houve muitas vidas humanas que podiam ter sido poupadas. Mas felizmente, estamos aqui com todos os erros de uns e outros, com o sofrimento que tudo isso acarreta estamos aqui. O país precisa de andar e acho que hoje, o mais importante, é olharmos para atrás e perguntar: que lições tiramos do nosso passado? Do meu ponto de vista a  lição mais importante é que temos de priorizar o dialogo. As forças principais que determinam o desenvolvimento do país têm de priorizar o dialogo no  que diz respeito a condução da politica nacional, no que diz respeito às oportunidades de desenvolvimento sócio-económico, e tem de haver respeito pela diversidade. Se fizermos do dialogo a prática da nossa política, se fizermos  do consenso e da concertação instrumentos principais da nossa política nacional, julgo que poderemos ganhar alguma coisa, como nação.

        
Hoje enquanto professor Universitário nos Estados Unidos da América,  primeiro gostávamos de saber qual é à disciplina que lecciona, depois queríamos ouvir de si, sobretudo nas conversas com os seus estudantes e colegas, interessados em estudar África , que leituras é que eles fazem do nosso país hoje?
Ok! A disciplina que lecciono é relações internacionais, de quando em invés dou algumas aulas de história. Para ser franco diria que, de uma maneira geral, os meus estudantes sabem pouco de África. Uns pensam que a África é um país e, nestes momentos, sinto-me na obrigação de fazer um explicação detalhada do que é a África,  a sua diversidade geográfica, cultural e politica, fazendo recurso a comparações possíveis com os próprios  Estados Unidos da América. E verdade que se trata, no caso da América, de Estados federais, mas permite fazer analogias   que facilitam a compreensão. Os mais atentos que seguem o nosso processo, olham para Angola como uma aberração por ser um país extremamente rico, com recursos enormes, mas com índices sociais muito baixos. Para eles estes níveis de pobreza são incompreensíveis. Também é verdade que, a imprensa tem se constituído num factor de agravamento desta situação. De forma geral, transmite apenas imagens negativas. Alias, esta e uma particularidade dos jornalistas...( RS) gostam de fazer sobressair,  o que vai mal, é o que vendem os jornais. E um trabalho que por vezes me sinto obrigado a fazer, no sentido de esclarecer também o lado positivo de Angola ou de África, porque nem tudo é mau. Há coisas que são boas. No caso especifico de Angola, temos um grande deficit de imagem no exterior. As questões ligadas a corrupção são muito faladas, a falta de transparência, a questão do desrespeito pelos direitos humanos. Infelizmente somos, muitas vezes, obrigados a confirmar quando se fala nestes termos. São realidades que se verificam no nosso país e que, espero bem, que se ultrapassem com o tempo, não só porque fica mal no exterior, mas porque faz-nos mal como angolanos. Faz mal ao país, continuarmos neste estado de corrupção. Temos que ultrapassar estas coisas porque é uma necessidade interna, antes de ser uma questão de imagem para o estrangeiro.


Há um livro de um jovem angolano Valdimiro Fortuna, que foi prémio nacional de cultura na categoria de investigação  em ciências humanas, aborda o papel dos angolanos na formação dos Estados Unidos da América, tudo começa com o trafico  de escravos, a própria professora Sheila Walker, diz que existem determinados locais nos Estados Unidos que se identificam com Angola , ainda a há o caso da prisão que tem precisamente o nome de Angola, o afro-americanos que estão a fazer o teste de DNA , para conhecerem as suas origens em África que curiosamente muitos têm sido de Angola,  estes não são elementos suficientes para que os americanos, pudessem conhecer melhor Angola?
Estes são os vários aspectos de que nos podemos valer para promover, um maior interesse por parte dos estudantes por Angola. São aspectos bastante importantes que têm que ser evocados. E louvável  a iniciativa do jovem que, alias, foi bastante bem recebida. Coisas destas de certeza que ajudam, porque tornam-se atractivos sobretudo para os afro- americanos , os mais  preocupados com  às suas origens. De uma maneira geral, os americanos gostam de saber de onde partiram? Qual é a sua árvore genealógica? Parece-me que há a necessidade, não somente a nível individual, mas também a nível institucional, é de se encorajar este tipo de pesquisa para tirarmos maiores vantagens sobretudo na relação entre os povos, Afro-americano e o povo angolano. Isto pode incentivar os interesse dos americanos por Angola. Esta obra contribuiu para o melhoramento do conhecimento que os povos afro- americanos têm de Angola. Mas acho que não é suficiente. Temos que desenvolver mais trabalhos a volta disso, sobretudo o trabalho de promoção, o intercâmbio cultural a este respeito, pessoalmente vivi um episódio digno de menção, existe uma cadeia  cujo  nome é Angola, próximo da cidade de New Oleaans, no estado de Luisiana, em 1989 fiz uma viagem aquela cidade a convite do presidente da Câmara. Quando lá cheguei o amigo que me acompanhava, levou-me à recepção durante  a qual me apresentou ao presidente da câmara, ladeado pelos seus subordinados. Disse-lhes que chamava-me Jardo Muekalia, e que vinha de Angola. Um dos subordinados do presidente da Câmara, virou -se para mim e disse: mais o que é que um jovem como tu, vai fazer à Angola? O que e que fez? Ou seja, que crime cometeu?.. (RS) O homem que me acompanhava explodiu de gargalhada, e disse-me que tinha que ser mas cauteloso e dizer que vinha de Angola, África. Porque o  meu interlocutor pensava que eu vinha da cadeia e não entendia como é que eu já estava ali de fato naquela recepção...(RS).


Hoje como é que avalia a relação dos Estados Unidos da América, com África Angola em particular?         
Do meu ponto de vista, o vector principal da politica externa americana é o combate ao terrorismo. Sendo este o vector principal, compreendemos porquê que os Estados Unidos estão muito preocupados com à corrupção, com as questões ligadas a falta de transparência, à pobreza, e a boa governação. O binómio corrupção- pobreza, torna um país frágil, mais vulnerável aos agentes destas ideologias extremistas, ou terroristas. Portanto, a relação América - África é um bocado guiada por isso. Os programas ligados ao combate à pobreza, às ajudas prestadas na área do desenvolvimento da democracia ou no quadro da estabilidade politica e da segurança dos mares, incluindo a AFRICOM, tudo isto constitui um sustentáculo do vector principal que tem a ver com o combate ao terrorismo. Claro nada é  absoluto, e que às questões económicas também têm o seu peso. A relação com Angola foi flutuando, tendo assumido características diferentes em épocas diferentes. Do lado de Angola, é uma relação que surge de uma perspectiva redutora, quer dizer que visava negar o espaço americano, a UNITA procurava  buscar mais valias para o desenvolvimento mutuo. No entanto, houve uma fase na relação em que  se notava uma espécie de “ lua de mel”no principio da ultima década, em que Angola e os Estados Unidos procuravam conhecer-se melhor. Foram andando até 2004, quando os americanos decidiram introduzir na relação a questão  da transparência na gestão dos recursos públicos, como condição da ajuda financeira que Angola buscava do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em resposta, Angola decidiu  fazer uma fuga para o Leste, melhorou a sua relação com a China e quase que se esqueceu do ocidente. A China agia naquela altura, como um “Banco de investimentos” cuja gestão dependia apenas de critérios politico-mercantilistas. A relação  entre Angola e os EUA sofreu um certo abrandamento neste período, mais tarde ressurgiu o animo nestas relações, com à história da parceria estratégica, na mesma altura em os EUA procuravam promover o AFRICOM. Nota-se um outro afrouxamento hoje, porque no meu entender, no quadro desta parceria estratégica era do interesse americano, que Angola pudesse disponibilizar os excedentes das forças armadas dos dois lados anteriormente em conflito, ou seja às forças da UNITA  e das FAPLA, para serem treinadas e enquadradas numa forca africana que interviria em casos de conflito, criando assim um instrumento de estabilidade do continente, não sei porque razão, mas à ideia não foi bem acolhida pelo executivo angolano e esta questão retirou da projectada parceria estratégia, um dos elementos importantes. Ao nível da economia, de certeza que continuará  o interesse americano pelo petróleo angolano, e não vejo qualquer mudança do lado de Angola, como não podemos beber o petróleo, temos mesmo de vende-lo alguém. Suponho que esta relação continuará e ditará durante muito tempo a relação entre Angola e os Estados Unidos já que, até hoje não foi possível diversificar de forma substancial esta relação económica. Várias delegações empresariais americanas vieram para cá, discutiram e desenharam-se  grandes projectos que não passaram do papel pois, encalharam na implementação, por causa de questões burocráticas e outras ligadas à corrupção. No mundo globalizado de hoje, esses entraves levam os investidores a colocarem o seu dinheiro em países com maiores facilidades. Estas praticas negativas no nosso tecido económico-financeiro, impedem um maior desabrochar das relações entre estes dois países e faz-nos perder enquanto Angola muitas oportunidades.


O facto dos Estados Unidos terem desenhado para Angola, a possibilidade de cooperarem com as  “ tropas residuais” (uma expressão que entrou para o nosso léxico depois dos acordos de  por aquele altura 1992) no sentido de banir alguns dos conflitos noutras partes do continente, o facto de não terem tido o retorno desejado por parte do executivo angolano, os americanos não terão entendido este gesto como uma atitude de “ meninos mal  comportados.” Por outro lado, se não terá se no fã deste desejo americano da parceria estratégica com Angola que terá levado os americanos virarem as costas ao Dr Savimbi, e pelo menos tem sido voz corrente  que eles terão sido cúmplices no derrube do líder da UNITA em combate em 2002?
Comecemos com a última parte da pergunta, os Estados Unidos como todas às potências, têm interesses. Porque as relações são movidas por interesses e não por amores. O Dr Savimbi, nos anos anteriores, sobretudo na época da guerra fria,  enquadrava-se na política geral de combate ao comunismo. É evidente, que não foram somente os Estados Unidos que beneficiaram desta relação. A UNITA também beneficiou, a nós interessava também beneficiar desta relação,  para levarmos acabo os nossos objectivos, tivemos que fazer um jogo de cinturas para sacarmos dela os nossos beneficio. Terminada a guerra fria, claro que o quadro se alterou, o desenho era diferente do ponto de vista americano.  Pessoalmente participei de uma reunião no Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, que teve  lugar em Novembro de 1998, durante a qual, praticamente, se decidiu que os Estados Unidos deviam abandonar o Dr Savimbi e apoiar a “guerra limitada” que o governo de Angola desenvolvia contra às tropas da UNITA. Estavam presentes o embaixador Ndalu, representantes das companhias petrolífera, representantes do Pentágono, do Departamento de Estado, da Casa Branca, da sociedade civil e académicos. A maioria diziam que era tempo da América abandonar à política de equidistância. Quanto a segunda parte da sua pergunta esclareço que, a ideia da parceria estratégica surgiu mais tarde, depois da morte do Dr. Savimbi. O abandono teria sido mesmo ditado pelo interesse imediato. Naquela altura falava-se muito do potencial de Angola na produção de gás natural, os americanos queriam liderar esta exploração.  Alias, esta foi uma das recomendações da reunião referida  reunião do Centro de Estudos estratégicos. Portanto a América precisava de mudar no quadro de uma corrida por espaços económicos que receava perder. Alem disso, havia às sanções contra UNITA implementadas pelo mundo quase todo, à América queria consolidar o seu interesse económico na área do petróleo e expandir o campo de acção para o gás natural. Portanto, ficou claro naquela reunião, que havia necessidade de se direccionar às baterias  contra a direcção da UNITA, contra o Dr Savimbi, para acabar com o conflito e viabilizar aquele desiderato económico.
 

Atendendo a vossa experiência como diplomatas no ocidente, não tentaram aconselhar o Dr Savimbi,  a  dar a volta ao texto, atendendo o facto de que se  estava desenhar  o abandono dos americanos a UNITA?
Bom! Claro que como diplomata fui exprimindo os meus pontos de vista, os conselheiros têm este papel de aconselhar. Agora cabe ao aconselhado fazer a leitura geral da situação em que se encontra, para depois tomar uma decisão, esta talvez seria abordagem que faria em relação a sua pergunta. Fui fazendo aquilo que era do meu ponto de vista o aconselhável, mas o Dr Savimbi, vivia a  situação, fez às leituras que fez e tomou as decisões que tomou. Penso que a dada altura sentiu-se fustigado por todos os lados, e de certeza que não era fácil para ele como homem, chegou um momento em que se sentiu só, sentiu-se abandonado pelo mundo inteiro, ele  passou por momentos difíceis.


Há um artigo seu escrito por altura a eleição do presidente Obahma, para liderança dos Estados Unidos da América, em que falava da trajectória do jovem presidente, e do momento em que ele assumi-se como candidato ao cadeirão da nação mais poderosa do globo. Agora pergunto-lhe se a expectativa das pessoas que o acreditaram ainda se mantém na mesmo? Porque parece que a sua popularidade parece que tem sido muito flutuante, terá muito haver com a intervenção americana no continente africano, nomeadamente  na Líbia, também podemos atrelar nesta analise a recente acusação do chefe do executivo russo, Vladimir Putín, que afirmava categoricamente, que os Estados Unidos tiveram um envolvimentos  directo no derrube do Kadaff, que apreciação faz professor?
Comecemos primeiro por Obahma. De facto fiz este artigo na altura e até  hoje continuo convencido de que ele fez uma campanha suigeneris. Penso que terá representado  uma espécie de  ponto de viragem no que diz respeito a processos e histórias de campanhas  políticas americanas. Foi a primeira vez que se fez uso maciço  da INTERNET, quer para o “angariamento” de fundos quer para  própria mobilização. Ele fez o uso das novas tecnologias e conseguiu enquadra-las no processo de uma campanha politica, de uma maneira interessante. Acho que daqui para diante de certeza, que  assistiremos a um aperfeiçoamento do uso deste meios tecnológicos. Por outro lado, o Obahma cativou os americanos com seu discurso e a sua capacidade de oratória. Um homem que parecia simples, vindo do nada, tudo isso trouxe um grau de romanticismo a politica. Se o primeiro consulado corresponde às expectativas? Devo dizer que infelizmente não, e aqui creio que a dois níveis: o primeiro é que ele assumiu a presidência numa altura de facto difícil para os Estados Unidos. Com uma económica arrasada, duas guerras por gerir, numa situação de receitas decadentes, disparou o deficit e deteriorou-se a economia: vide- o mercado de emprego. O segundo aspecto é que, à campanha dele criou uma expectativa bastante elevada, as pessoas estavam a espera de milagres. Passados três anos, às coisas estão piores do que antes e isto leva a população para o outro extremo. Sabe como  é que são as multidões, tanto estão  num extremo como estão no outro. Estamos lembrados de Jesus Cristo que foi aplaudido num dia pela mesma multidão que o crucificou dias depois.
No entanto, em termos de projecção, acho que o seu segundo mandato vai depender  fundamentalmente de dois factores: primeiro, de uma melhoria da economia, mais especificamente, da oferta de emprego, o que me parece difícil, daqui até o próximo ano. O outro seria a incapacidade dos republicanos se reconciliarem com a sua franja da extrema direita, o “Tea Party”. O surgimento de um candidato presidencial do Tea Party, dividiria o eleitorado republicano e seria a melhor garantia de um segundo mandato de Obahma.  Quanto a questão ligada a intervenção na Líbia, não creio que  seja por aí. Os americanos estão numa fase em que se calhar menos de 10% prestou atenção a esta questão. Estão mais preocupados com os problemas internos e a partir de Janeiro começam com às campanhas primarias no seio dos republicanos. Ao colocar-se por de trais  dos europeus, Obahma foi hábil, pois evitaria a carga de um fracasso mas beneficiou com os louros de uma vitoria. Em relação a Putín, acho que interessa-lhe acirrar o clima de tensão entre os dois países. O Putín não acolheu bem o posicionamento americano em relação as recentes eleições russas e no âmbito da sua luta interna, precisa de fazer dos americanos o bode expiatório. O conflito de maior importância para Obahma, do ponto de vista politico,  creio ser o conflito do Iraque. O facto dele estar a concluir o processo de retirada das tropas americanas, é exactamente para ver se consegui melhorar a sua posição a partir do próximo ano, quando começar a campanha a sério.


Voltando para nossa realidade, como é que era à organização interna da Jamba professor?
A Jamba era um local interessante, que deverá merecer um estudo próprio. Alguém  deverá um dia fazer isto, estava distribuída em vários campos, havia logo a entrada sul, o chamado BI, que era o batalhão de instrução militar, a seguir havia a coordenação, onde havia às estruturas do partido, que na altura era coordenado pelo senhor Nzau Puna. Na coordenação estava também a escola  das secretárias e uma escola política. Depois havia o Hospital central e o quartel general onde estava o Dr Savimbi com o Estado maior. Mais tarde surgiram as oficinas centrais, e a alfaiataria do partido. Quanto a sua organização  havia o comandante da base, que seria uma espécie de presidente da câmara, que velava pelas questões do dia- a- dia ligadas a base, depois tinha o sector da educação, que era mas ou menos independente. Havia um director da escola, a determinada altura ia até a 12ª classe. Portanto um liceu, o  Hospital tinha também uma estrutura própria,  que estava mas ligado ao secretariado nacional da saúde. Do ponto de vista administrativo dependia mais da logística militar, se podemos assim dizer, que se ocupava das questões da alimentação, do vestuário e outras necessidades. A logística militar alimentava a cadeia de distribuição da estrutura civil da base. No que diz respeito a recreação, havia momentos de actividades desportivas,  momentos de festas, não só das datas nacionais mas também festas de privados, quando alguém fizesse anos, ou quando houvesse casamentos. A  Jamba conheceu uma evolução, no principio era um espaço para conduzir uma guerra, que depois evoluiu passando a ser um acampamento civil enorme, uma zona onde às pessoas podiam desabrochar, ter as suas festas familiares, praticar à agricultura, arte e ofícios, a  determinada  altura, toda mobília que se usava nas casas da Jamba, eram manufacturadas mesmo ali, faziam-se coisas muitos lindas.


Quais eram as datas nacionais que se comemoravam  na Jamba professor?
Na Jamba comemoravam-se às datas ligadas a fundação da UNITA, das suas forças armadas, FALA, e dos seus órgãos  de base. Celebravam-se também,  o dia da Independência nacional, o 11 de Novembro, o 25 de Dezembro e a passagem de ano.


Havia um disciplina muito rígida nas Jamba, por outro lado gostávamos de saber se chegou  fazer parte da escola de quadros da Jamba?
Claro que sim! Fiz parte dos primeiros formandos da escola de quadro que estava localizada na Bembua, uma base que distava à pouco menos de duas horas de carro. Quanto a disciplina, é  evidente que estávamos em guerra e a Jamba foi criada com o propósito  de ser o quartel general da UNITA. Logo, estava sujeita à disciplina militar, porem, quando ela cresceu esta disciplina passou a dar lugar a outros espaços, ou seja criaram-se espaços que que escapavam um pouco a rigidez da disciplina militar. Era uma combinação das duas coisas.


A rigidez daquela disciplina, teve o condão, se por um lado aqui do lado do MPLA carregam nas  costas a chacina do 27 de Maio, onde foram dizimadas centenas ou milhares de vidas, a Jamba  também teve o condão de ser um local, onde haviam praticas ditatoriais muito acentuadas, onde se dizimaram muitos quadros, o que faz com que muitas pessoas ainda em circuito fechado vão dando o “grito d`ipiránga” quando se falam do desaparecimento de figuras que causam  saudades eternas, nomeadamente os senhores Wilson dos Santos e o Tito Chingunji por exemplo, as chamadas caça as bruxas, dentre outros casos horripilantes. Qual é a sua leitura hoje professor daqueles episódios professor?
Bom! O primeiro aspecto que devo frisar aqui é que as duas coisas foram de longe diferentes. Quando falamos do 27 de Maio, estamos a falar de uma  chacina que ocorreu em várias cidades que levou milhares e milhares de pessoas. Portanto, não comparemos as duas coisas, que são completamente diferentes. Do lado da Jamba sim, houve sim situações que levaram a vida de pessoas que se podem contar, não quero com isso minimizar à importância  daquelas vidas, alias, na obra que escrevi, procurei abordar em parte esta questão para deixar de ser uma questão tabu. Quer dizer, são coisas que aconteceram no quadro daquele processo de guerra, temos de passar a falar disso com  racionalidade e sem emoções. Os casos do Jorge Sangumba, Tito Chingunji, Wilson dos Santos, Vakulukuta, o caso das bruxas, de facto são questões que aconteceram naquele fervor revolucionário. Se tivéssemos que repetir à história de certeza que seria muito melhor que aqueles episódios não tivessem ocorrido. Mas a história não oferece alternativas, o que aconteceu, aconteceu. Também é verdade que para os familiares é sempre uma grande perda. No âmbito do próprio partido, também olhamos hoje para trás e percebemos que foi uma perda de quadros úteis que podiam nesta fase dar maior projecção ao partido e contribuir para o desenvolvimento do país. Pronto! São coisas que aconteceram das quais precisamos de tirar lições, nas guerras há excessos e o próprio Dr Savimbi fez pessoalmente uma abordagem critica de todos estes acontecimentos,  durante a 16ª conferência, tendo- as considerado como parte do passivo da UNITA. Chegados até aqui, precisamos de ter à transparência suficiente para abordarmos estas questões, sobretudo termos alguma coragem para confrontarmos este passado, para se fazer a devida reconciliação com os familiares, com à própria organização e avançar. No fundo, ninguém pode mudar o passado mas temos um futuro por construir, se não podemos mudar o passado, podemos influenciar, temos à obrigação de forjar o nosso futuro, é importante termos a noção disto, e virarmos às nossas atenções para a conquista das oportunidades que este país pode oferecer aos seus filhos. Em suma, reconhecidos os erros, tiradas as lições que se impõem, precisamos de usar estas lições para projectarmos o futuro.


Existe esta vontade por parte da UNITA em se reconciliar de facto com os seus filhos, por outro lado gostaríamos  perguntar qual é a interpretação que faz do guia pratico de quadros?
Quanto a primeira parte da sua questão, em que pretende saber se existe ou não esta vontade da UNITA? Devo dizer que o presidente Samakuva, colocou esta questão no seu informe ao congresso, lançou um desafio ao partido. A questão foi também discutida pela comissão política, refiro-me portanto a reconciliação interna que deve ser entendida num quadro mais amplo, não é só reconciliar os diferendos actuais, mais voltar um pouco para o passado,  ver se seremos capazes de aproximar às várias sensibilidades que se sentiram vitimas dos excessos do passado. A resposta a sua pergunta é positiva, existe sim, existe esta vontade, o presidente do partido lançou este repto aos  demais quadros. O importante agora é fazer caminho e passarmos das palavras à acção. Quanto ao guia pratico de quadros, claro que o li, quando fui para  o curso não existia, foi concebido depois, salvo o erro, no segundo curso. Penso que é preciso entender o guia pratico de quadros no contexto em que ele foi concebido. Foi concebido para responder a certas preocupações do Dr Savimbi. Começava a surgir no seio do partido um debate, o chamado “debate ideológico” naquela altura que em certa medida tendia mais para a esquerda, e se afigurava demasiadamente teórico, desconexo com a realidade que nos trouxera à Jamba. Havia a necessidade de se orientar o debate à acção, o crescimento do partido, cujas actividades já se faziam sentir a norte do CFB. Já tínhamos actividades de guerrilha nas províncias do norte, nomeadamente, na Lunda Norte, Malanje, e um pouco no Uíge. Este estado de coisas revelou a necessidade de se formar quadros que fossem capazes de ir para estas regiões sustentar à acção política do partido, as operações das forças armadas.  Por último, foi precisamente naquela altura em 1982, que Reagan estava a alterar a ordem mundial com o seu primeiro mandato. Era preciso fazer da diplomacia uma arma estratégica da luta para podermos tirar vantagens da nova ordem internacional. Isto também requeria a formação de quadros capazes de interpretar aquela situação, para fazerem a projecção da UNITA no exterior. Foi neste contexto que surgiu a escola de quadros. O manual retrata simplesmente às opiniões, ou seja o que Dr Savimbe achou naquela altura ser importante salientar, com o tempo foi se aumentando um ou outro capitulo, na base naquilo  que se achou ter sido a necessidade de então. Existem alguns aspectos que tem a ver com o despertar de  consciências, a definição daquilo que era o inimigo de então. Por isso, se tiver que ler hoje o guia pratico de quadros, terá de se colocar naquele tempo.


A UNITA ainda se sente órfã do seu líder fundador? Por outro lado gostaríamos de saber de si, que UNITA é que temos hoje?
Bom, quando se perde um líder da estatura do Drº Savimbi ninguém pode pensar na sua substituição, as pessoas podem é fazer o seu melhor para dirigir o partido, mas é difícil  substituir um homem com aquela estatura. Penso que a UNITA ainda vai se sentir órfã por mais algum tempo. Ousaria mesmo em dizer que uma boa parte dos angolanos sentem-se órfãs do Dr Savimbi. Num determinado dia, em conversa com um padre, este dizia-me que na sua opinião, existe um pequeno Savimbi no coração de cada angolano. Achei uma observação muito interessante, quando hoje, oiço   alguns destacados oficiais do governo dizerem “primeiro o angolano, segundo o angolano...”  acredito que sim  existe de facto um pequeno Savimbi no coração de cada angolano...(RS).
Quanto a segunda questão, temos hoje uma UNITA que está a reencontrar-se,  uma UNITA  que passou por  inúmeras peripécias, mas uma UNITA que me parece melhor hoje do que estava em 2008. Este congresso foi um evento de relevante significado. Primeiro o simples acto de trazer milhares de militantes vindos de todas as províncias, para poderem trocar impressões, ideias e sobretudo traçar programas, é bom para o partido. Espero bem que daqui por diante ajude a melhorar o desempenho do partido, a sua interacção  nacional nos vários escalões. Isto é que é necessário para  se criar uma nova dinâmica rumo aos desafios que se avizinham. Penso que a UNITA vai continuar a fazer caminho. As dificuldades são enormes e algumas delas tem a ver também com o contexto nacional em que se opera. Temos um regime que continua a reprimir às actividades da oposição, temos um regime que não permite o crescimento daquilo que chamo de espaço para sociedade civil, um regime que dificulta o surgimento de um sector privado dinâmico. Tudo isso, associado aos índices altos de pobreza, faz com que não tenhamos uma sociedade civil dinâmica e actuante por um lado, por outro, não temos um sector privado de facto. A ausência destes dois factores, que no fundo são propiciadores da dinâmica dos partidos da oposição, dificulta o crescimento da nossa democracia. E preciso maior imaginação, grandes esforços, para se poder avançar e alcançar os objectivos que se pretendem. Mas estou convicto de que temos hoje uma UNITA com às suas dificuldades, mas também  com as suas potencialidades.


As dificuldades internas da UNITA, foram notadas na fase da realização  do congresso, casos houve rostos visíveis do partido que se “rebelaram” contra direcção, que tiveram que fazer pressão para que o congresso saísse, o outro candidato ao cadeirão do partido, é digamos que um “ilustre desconhecido” pelo menos para sociedade, quando alguns rostos visíveis que deviam estar mas altura das disputas internas ficaram para atrás, por razões pouco convincentes pelo menos para sociedade, fazendo com que a UNITA perdesse parte do seu potencial simbólico. Sendo a UNITA um partido que sempre se assumiu com arauto da democracia em Angola, será que a orfandade em relação ao seu líder fundador ainda pesa e influenciou também nos resultados eleitorais de 2008?
Primeiro gostaria dizer que infelizmente o Dr Savimbi já não está cá. Daqui a dias serão  completados dez anos da sua ausência. Portanto, podemos chorar o que quisermos mas ele não volta mais. E importante que nas nossas posições e actuações tenhamos em conta que ele já não volta.  O que podemos ou temos que fazer, e identificarmos como e que podemos ainda beneficiar do legado que nos deixou. Temos de estudar como beneficiar dos seus ensinamentos mas ele, já não volta e temos de crescer a sua sombra. Em relação a primeira parte da sua pergunta, deixa-me dizer que não acredito que haja algum partido no mundo que não tenha correntes de opinião no seu seio. O problema não é o facto de existirem correntes de opinião,  o problema é como gerir estas correntes de opinião, para que elas se transformem na força anímica do partido. Neste aspecto, também é conhecido, sei que está falar de questões bastante badaladas a nível da sociedade e dos jornais, mas acredito que o congresso serviu de ponto “congrega dor”,  onde estes rostos de que fala estavam todos presentes e participaram, talvez uns mais do que os outros, mas participaram nos debates havidos durante o certame. Mas afinal o que é importante agora? O que é importante agora e identificar os denominadores comuns, as  diferenças não são necessariamente ir reconciliáveis.  São opiniões divergentes em relação a certos aspectos, mas há denominadores comuns suficientes  que fazem com que os vários rostos participem e contribuam para o projecto chamado UNITA, sobretudo para confrontarmos às eleições do próximo ano. Espero não ser desmentido pelo tempo ao fazer esta afirmação, quanto às várias figuras, estes nomes sonantes da UNITA, participarão no processo preparativo para às próximas eleições. O senhor a quem chama de ilustre desconhecido, com todo respeito, penso não ser assim tão desconhecido, é  um militante corajoso do partido que merece todo o nosso carinho e encorajamento. Não podemos ser todos candidatos ou presidentes ao mesmo tempo. Temos de ter um presidente que define um  projecto, um programa colectivo e sendo um  programa colectivo, todos nós, incluindo os que tenham nomes sonantes, podem contribuir para que com este projecto possa ganhar o partido. Claro que há responsabilidades de todas as partes, mas mais ainda, da parte de quem detém o faca e o queijo na mão, O  processo democrático não é um processo perfeito, mais como dizia alguém,  ninguém descobriu ainda um processo melhor. Em suma, o partido que tem que dar oportunidades de intervenção aos vários actores e por outro, os actores têm de de se predispor a fazer uso das oportunidades, uma vez tomadas as decisões colectivas, passamos a acção ate o próximo congresso. Se  formos agir assim penso que estaremos no bom caminho.


Uma das inovações deste congresso é o governo sombra, sabemos que na Jamba a forma de actuar tinham uma espécie de governo paralelo em Angola, tendo em conta as dificuldades financeiras da organização, como é que vocês pensam actuar professor?
Há vários exemplos pelo mundo de governos-sombra, mas gostaria de dizer que é da inteira responsabilidade do presidente do partido formar o governo sombra como entender. As dificuldades financeiras não impedem a criação de uma tal estrutura. Há modelos diferentes  por exemplo pode-se utilizar alguns dos membros da UNITA que estão no parlamento, assim como outros, o importante aqui é indigitar indivíduos responsáveis por áreas politicas especificas. No fundo é isto que é o governo sombra, dizer o senhor António a partir de agora responde pelas questões da educação do país, o senhor fulano responde pelos problemas de saúde. Sempre que houver um projecto nacional em discussão, o país vai identificar o rosto da UNITA para aquela área. Se houver uma questão ligada às relações internacionais, há um rosto da UNITA que se identifica com aquela área, é  isto no fundo que é o governo sombra. Os titulares terão a missão de estudar os dossieres, para poderem emitir o ponto de vista da UNITA, discordar com aquilo que vai mal, enaltecer o que vai bem, fazer propostas sobre aquilo que deve ser.


Qual foi alternativa que a UNITA encontrou para quebrar o gelo da missão externa, tendo em conta o facto de hoje já não se fazer sentir este serviço professor?
Claro, que a missão externa existiu no período e num quadro próprio. Em função do quadro legal que dá aos partidos a possibilidade de terem delegados juntos das comunidades angolanas no exterior, a UNITA vai ter delegados junto destas várias comunidades, isto permitira manter estas comunidades informadas da realidade do pais, numa perspectiva mais ampla.


O IDD, acabou por substituir o papel que era desempenhado pela missão externa?
Eu não diria exactamente isto. Em parte pode desempenhar algum papel que era exercido pela missão externa, mas o IDD tinha uma missão própria que era a de criar ao nível da sociedade um espaço de debate fora das estruturas partidárias, onde havia de congregar os sectores académicos e os sectores institucionais. Portanto um espaço de debates e de ensaios. Isto transferido para o exterior pode também servir de um canal para a mensagem da UNITA, mas não para substituir a missão externa.


Em relação ao seu livro, o que lhe motivou  escrever este livro?
Bom, há várias questões que pretendia abordar com o livro. Primeiro narrar a nossa experiência, uma experiência rica, que não pode ficar desperdiçada, ou seja, narrar a nossa experiência para ficar registada para as gerações vindouras. Segundo, e o de motivar os outros a escreverem também, porque a minha historia não é de forma alguma absoluta, nem tão pouco única. Há vários outros com experiências diferentes que espero encontrem no meu livro motivação para poderem também escrever. Por outro lado, e até a razão mais importante, quis oferecer para juventude que não têm conhecimento do que se passou, os que não estiveram lá, que sofreram um bombardeamento constante da propaganda do regime, uma alternativa. Tentei pelo menos de uma maneira desapaixonada descrever aquilo que vi, com alguma interpretação pelo meio, dos factos ocorridos. Esta juventude precisa de ler mais do que as histórias   do herói Ngangula, para chegarem às suas conclusões. Portanto penso que tem este valor, para os próprios militantes da UNITA, espero ter oferecido um trabalho no qual se possam rever, e do qual se possam orgulhar. Afinal fomos e continuamos a ser actores da historia do nosso pais. A estes quis ainda dar a minha interpretação, ou uma explicação racional, sobre as razões que levaram ao desfecho que conhecemos. Porquê que o conflito armado acabou como acabou? Acho ser importante sobretudo do ponto de vista psicológico, ter a ideia de como é que isto acabou, para ver se conseguimos projectar-nos par o futuro de outra maneira e noutro tempo. Estas são as várias razões que me levaram escrever o livro.     


Há uma faceta do livro que fala da história  dos sete cegos, cada um deles toca numa das partes de um elefante, o que pretendia dizer com esta metáfora?
Coloco esta metáfora logo no principio do livro, para dizer que são sete cegos que são convidados a tocar um elefante, e cada um tocou numa parte diferente do elefante. Como o elefante é enorme quem tocou na perna ficou com uma impressão diferente daquela colhida pelo outro que tocou no corpo. Quando são solicitados a descrever o elefante cada um tinha a sua versão, quis com isto dizer que no contexto da nossa historia recente, há várias versões. Haverá a versão do cego MPLA, haverá a versão do cego FNLA, haverá a versão do cego UNITA, versão do cego cidadão. Uns foram vitimas outros  foram actores, cada um vai ter uma versão. E  importante que encorajemos às pessoas a exprimirem as suas versões, como complementos que contribuição para aquilo  que será a nossa historia verdadeira, ou pelo menos aproximada da verdadeira. Não podemos ficar só com a versão do partido no poder que, por sinal, se afigura demasiadamente politizada, a  versão do MPLA é a  versão de um dos cegos. Portanto precisamos de ouvir as outras versões, para as gerações vindouras saibam de facto, como e que se construiu este pais, que sacrifícios foram consentidos e em que contextos regionais e internacionais. O patriotismo exige que sejamos fieis a nossa historia. Por esta razão, usei a metáfora em referencia.


Com esta metáfora, pode-se concluir que faltou uma visão política por parte dos actores em detrimento da nação professor?
Não tenho duvidas em dizer honestamente que os actores políticos principais da década de 70, faltaram a nação. Faltou a visão de congregar. O que é que se fez afinal? Porquê que tivemos guerra em 1975? Porque os políticos priorizaram a exclusão por via da violência armada. Claro que os excluídos ou morriam, ou reagiam, no caso da UNITA, ela reagiu e quando reagiu tivemos o processo de guerra que durou  os dezasseis anos. E também sabido, e se diz em muitos cantos, que o próprio Dr Agostinho Neto antes de morrer fez esforços no sentido da reconciliação. Já se tinha apercebido, naquela altura, que era necessário aproximar o Dr Jonas Savimbi, que era preciso encontrar uma forma de se acabar com conflito. Infelizmente, acabou por morrer com morreu. Diz-se hoje quase com certeza, que antes de morrer já se tinha apercebido disso. Quando os actores políticos privilegiaram a exclusão através da violência armada, aí começou a maka.


Jonas Savimbi ainda continua a ser uma espécie de “ guru espiritual” do mano  Jardo?
Guru espiritual... acho que há coisas que não passam. O Dr. Savimbi era um homem que estava sujeito as flutuações da natureza humana. Cometeu os seus erros é verdade. Mas, é como digo no livro, não podemos julgar Jonas Savimbi somente pelos seus erros. A história dos homens é o somatório dos seus actos. Neste âmbito o Dr Savimbi acaba por ser ainda o guru espiritual de muitos angolanos.



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