Inicialmente, gostaria dar a saber, que este tema, foi inspirado em três factores — A última obra de Joseph Kizerbo, intitulada «Para quando África?», fruto da entrevista do historiador e jornalista René Holestain. Um livro no qual o mestre Kizerbo faz uma abordagem generalista, realista, angustiante, dramática… sobre o continente negro, mas com muito “afro-optimismo esperançoso” (Recomendo a leitura!); Outra razão prende-se com a situação humilhante em que este continente se encontra. Marcado por conflitos interetnicos e interestaduais, penúria de diversas naturezas, estagnação tecnológico-cientifico, práticas tradicionais anti-humanas, a mulher continua em baixa em relação ao homem, banditização do mundo político em que o estado está anarquizado, etc.  

Por outro lado, sou um homem tão preocupado com a ÁFRICA, tal como me preocupo comigo mesmo, e encontrando-se no mês dedicado a ÁFRICA, não deixaria de dedicar e partilhar uma das reflexões, das muitas que tenho em torno do continente Berço.

Quando olho para o passado parcial de ÁFRICA, com uma história cheia de “sombras e penumbras” — Colonização, escravatura, neocolonização, etc, acontecimentos que impossibilitam (ram) os africanos de “escolherem” o seu futuro e construírem a sua própria história, condenando-os simplesmente a serem apêndice do tempo que passou do Ocidente, ou seja, foram transformados em instrumentos da historicidade e não sujeitos activos da dinâmica existencial. Tudo isso, inflama o meu coração de ódio, jorrando sangue no interior, mas um ódio que não fica pelo ódio, pelo contrário, interpela-me a lutar eticamente para que possamos tirar o continente do “coma” em que se encontra. Se antes não tivemos a possibilidade de fazermos as nossas opções enquanto povos, hoje já temos, mesmo que parcial, mas não entendo como é que muitos africanos, especialmente os políticos, que diziam lutar para libertar o continente das vicissitudes supracitadas, colocam o continente em situações iguais ou piores que os colonizadores, a única diferença, como diriam os bispos da CEAST, é que ontem a humilhação tinha a sua génese no ocidente, e hoje, são os próprios africanos a pisotearem e a negarem aos seus irmãos os direitos mais elementares, transformando o estado que é formalmente entidade de bem para pequenos grupos anárquicos.

Na obra «Viragem» de Castro Soromenho, num diálogo que se desenrola entre uma neta e a sua avó, vindas de Portugal, na era colonial, a neta disse a avó — A África seria melhor se não tivesse tantas enfermidades, analfabetismo e outras malícias — A avó respondeu — A África é Africa, por causa desta perversidade, se não tivesse tudo isso não seria África minha neta…

Esta forma de visionar a Africa, que remota no século passado, ainda hoje prevalece. Será que há razões poderosas (plausíveis) para aceitarmos esta forma de sermos encarados? Há exageros neste postulado ou outras intenções anti-África? 

É verdade que existe um exagero e até muitas intenções maléficas, mas nós damos azo a estes posicionamentos porque não conseguimos tirar o continente do coma, mesmo com possibilidades mil. Vejamos alguns aspectos que me levaram a questionar até quando mamá África:

A) RELAÇÃO ÁFRICA/OCIDENTE. Para analisar esta questão, gostaria de ater-me nas reflexões de Alexi Kagami, Éboussi Boulaga, Tsiamalenga Ntumba, Ngoma Mbinda, Elias Ngoenha, Cheno Achebe, Mongu Betty, alguns, dentre muitos pensadores africanos contemporâneos que denunciam (ram) a relação extremamente desigual entre a África e o Ocidente, tanto do ponto de vista político quanto económico-comercial. Nesta última a desigualdade é pior, por exemplo, as matérias-primas de África são vendidas a preços muito irrisórios e são os “centristas” que estabelecem os preços. Como se não bastasse, transformam os produtos e vendem nos países de origem a preços trinta vezes mais…. Este quadro faz com que a Africa tenha como peso na economia mundial de 1%.

B) GUERRA. Até nos nossos dias, a África continua a ser a região do mundo, onde os conflitos são numericamente mais em relação a outras partes da geografia mundial. Para além dos conflitos efectivos, temos outros factores propiciadores de novos conflitos: exclusão social, eleições fraudulentas, corrupção extrema, etc.

C) EDUCAÇÃO. A educação em África está mal, tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo, porque mais de 50% dos africanos não vão a escola e os que têm acesso são mal formados. As desistências de crianças dentro do sietema de ensino são enormes. Uma das provas da falta de qualidade da educação em África é que os governantes africanos e pessoas com poder económico enviam os seus filhos ao Ocidente.

D)HIV/SIDA. Neste horizonte de pobreza geral e serviços de saúde inadequado, a SIDA vai semeando sofrimento e morte em numerosas regiões de África. A luta contra SIDA deve ser assumida por todos em Africa. A par  desta terrível doença o continente também é campeão na tuberculose, lepra, paludismo, anemia falsiforme, etc.
Por causa do drama incomensurável que a África vive, o Papa João Paulo II, recomendou aos cientistas e aos responsáveis políticos de todo mundo para envidarem esforços para sanarem a pandemia. (Ecclesia in África, nº 116).

E) A MULHER. «A mulher africana como qualquer é igualmente digna, mas em muitas etnias do nosso continente não lhe é conferida o respeito e dignidade que merece, por isso, somos todos chamados a lutar para purificar as nossas tradições desses elementos que se apresentam como obstáculos para uma relação sã e harmoniosa entre o homem e mulher em primeira instancia, e na sociedade em geral, num segundo nível.
Tanto a Igreja como os governos são chamados a criar um conjunto de condições éticas e materiais para que se possa garantir a participação da mulher africana no banquete da socialização e da existência, para que elas se realizem aqui e na eternidade.

Tendo em conta o ambiente de instabilidade política e militar em que o continente está mergulhado, a mulher é uma das maiores vítimas desses conflitos, como refugiada ou como escrava do sexo de muitos militares da ONU que vão para desencadear a manutenção/implementação da paz. Faz-se também necessário a libertação económica e social da mulher africana, que a nossa tradição sempre preservou, mas que o colonizador destruiu ferozmente com sua visão eurocêntrica». (CRUZ, D, A dignidade da mulher no mundo contemporâneo, In Folha 8, 2007).

F) OS JOVENS. No mesmo documento pontifício de 1994, o papa caracteriza da seguinte maneira a situação dos jovens no continente: a situação económica de pobreza tem um impacto especialmente negativo sobre os jovens. Entram na vida dos adultos com escasso entusiasmo, devido a um presente marcado por não poucas frustrações, e, com esperança ainda menor, olham para o futuro que a seus olhos se desenha negro e triste. Por isso, tendem a fugir das zonas rurais transcuradas e concentram-se nas cidades, que, no fundo, pouco de melhor tem para lhes oferecer. Muitos deles saem para o estrangeiro como se fossem para um exílio, e vivem lá uma existência precária de refugiados económicos. Por outro lado o jovem africano não mostra interesse de participar na vida da nação e da sociedade em geral, especialmente na vida política, que a área de decisão pela sua natureza e forma. Não há dúvida, que este desinteresse decorre da falta de um ambiente político propício, educação para a cidadania débil, falta de condições mínimas de subsistência, etc.

 G)A GESTÃO DA VIDA PÚBLICA. O maior desafio para a realizar a justiça e a paz, na África, consiste em administrar bem a vida pública, nos campos mutuamente conexos da política e da economia. […] Muitos problemas do continente são consequências de um modo de governar frequentemente viciado pela corrupção. É necessário uma consciência bem desperta, junto com uma firme determinação da vontade, para pôr fim em acto aquelas soluções que já não é possível adiar mais. (João Paulo II, EA, nº 110).

H) A JUSTIÇA E OS DIREITOS HUMANOS. Infelizmente, na maior parte das nações africanas a justiça mão é independente. É transformada num simples apêndice do poder executivo e militar dos estados totalitários, um dos exemplos concretos é Angola.
«Os alicerces de um bom governo devem estar sobre a base das leis, que protegem os direitos e definem os direitos dos cidadãos» (IDEM, nº 112). 
Quanto aos direitos humanos, o estado actual do continente é uma atmosfera propícia para que este grande edifício ôntico para a realização do homem, aqui e na eternidade não se concretize.
Um dos instrumentos fundamentais para a erradicação deste quadro é a concretização da «democracia plena», no continente…

I) A CORRUPÇÃO. «Os problemas económicos da África são agravados ainda pela desonestidade da quase totalidade dos governantes corruptos, que, coniventes com interesses privados locais ou estrangeiros, desviam para proveito próprio os recursos nacionais, transferindo dinheiro público para contas privadas em Bancos no estrangeiro. Trata-se de verdadeiros e próprios roubos, qualquer que seja a sua cobertura legal» (Ibidem, nº113).

J) REFUGIADOS E MARGINALIZADOS. Dentre muitas vergonhas éticas do mundo contemporâneo, o escândalo dos refugiados e deslocados é um deles.

De acordo com o pontífice João Paulo II, «um dos frutos mais amargos das guerras e das dificuldades económicas é o triste fenómeno que atingiu (…) dimensões trágicas. A solução ideal acha-se no restabelecimento de uma paz justa, na reconciliação e no desenvolvimento económico. É urgente, pois, que as organizações nacionais, regionais e internacionais resolvam, de forma equitativa e duradoura, os problemas dos refugiados e marginalizados» (Ibidem, nº 119).

K) O PESO DA DÍVIDA INTERNACIONAL. A dívida externa de muitos países africanos pesa sobre o destino destas nações, e seus povos, que estão quase comprados e fatalmente incapazes de repôr o dinheiro dos países credores. A questão da dívida das nações é objecto de grande preocupação para muitos pensadores africanos, a Igreja africana em comunhão com a Igreja Universal de Roma e a sociedade em geral. «A situação de numerosos países africanos é tão dramática que não consente actitude de indiferença ou desinteresse» (Ibidem, 120).

L) OS MEDIAS. Não poucas vezes os africanos, em vez de utilizarem os meios de comunicação para o desenvolvimentos e as inúmeras vantagens que eles têm não. Usam-nos para acirrar o ódio, o tribalismo, conflitos étnicos, onde se destaca o genocídio do Ruanda em que os meios de comunicação jogaram um papel negativo. Angola também é um exemplo negativo, do lado do partido-estado se destacou Otávio Kapapa e do outro lado a Vorgan, que inflamavam os corações de ódio e guerra, só para citar estes dois exemplos entre muitos em África.

Outro aspecto que enferma os medias em África é a falta de equidade no tratamento das matérias, promovendo assim a exclusão de outros em detrimento dos partidos no poder. Esta prática é muito comum nos países da SADC. (Cf. Prevenção e Gestão de Conflitos Eleitorais na SADC, s.d).

Outro perigo decorre da e entrada violenta das influencias do estilo de vida perverso do ocidente, nas famílias africanas, um factor negativa para a moral individual, familiar e social. São conteúdos elaborados pelos meios dos países do norte sem qualquer respeita as especificidades culturais do manancial antropológico e tradicional africano. (Cf. João Paulo II, EA, nº52).

M) A FAMÍLIA. Num continente onde a crise é de tal maneira generalizada, que até ganhou estatuto de instituição, como é o caso da instituição corrupção, não se pode esperar que nesta parcela do mundo o núcleo básico do tecido social esteja bem. A família africana enquadra-se na conjuntura do continente, um continente acorrentado e falido até à medula. De acordo com alguns autores africanos, como é o caso de Nveng e o Pe Raul Taty, a crise que assola a África é de carácter antropológica, está no ontos do homem africano.

As feridas que marcam a família em África remontam desde a colonização, ao destruir-nos o substrato que sustentava o «modus essendi, vivendi e operandi» do nosso povo.

N) A IGREJA. A Igreja em África tem estado a crescer consideravelmente, fruto da intervenção do clero local que se vai autonomizando. A Igreja africana está a ser profundamente marcada pela inculturação do cristianismo, ou seja, o cristianismo vai ganhando uma roupagem propriamente africana, daí que o tema das «Igrejas independentes» em África é muito actual. Os africanos hoje são cristãos, mas, cristãos profundamente africanos.

Tal como as Igrejas contribuíram para a descolonização do continente, hoje lutam arduamente para a promoção da paz, da justiça, da reconciliação, dos direitos humanos e da democracia em África. Existem exemplos concretos da intervenção da Igreja na concretização da democracia, da paz, como é o caso de Moçambique em que comunidade de Santo Egídio negociou e mediou o conflito entre a FRELIMO e a RENAMO; Outro exemplo é o da RDC, onde um padre presidiu a comissão nacional de eleições, etc.

A Igreja tem consolado este povo que muito sofre, por meio da esperança cristã, que é alimentada pelo Espírito Santo e pela intervenção salvifico de Cristo na economia da salvação, uma salvação universalista, ou seja, sem excepção. Por isso, tal como Deus tirou os outros povos da cova também quer SALVAR ÁFRICA. «O amor redentor de Deus abraça a humanidade inteira: toda raça, tribo e nação; por conseguinte, abraça também as populações do continente africano. A Providencia divina quis também que a África estivesse presente, durante a Paixão de Cristo, na pessoa de Simão de Cirene, obrigado pelos soldados romanos a ajudar o senhor na Cruz (Cf. Mc 15, 21)» (EA, 27).
 
O) A CULTURA. A colonizaçao, a escravatura, as guerras e os ventos violentos da globalizaçao, que sopram sobre África são variáveis  que jogam negativamente para que a Áfriaca seja um continente despido culturalmente.
De acordo com o Ecclesia in Africa, documento acima referido, 'os jovens africanso devem abraçar a modernidade mas não devem descurar as suas raizes antropo-culturais, como um facrtor imprescidivel para o desenvolvimento que o continente das muralhas do Egipto e de reino de monomotapa do zimbabwe tanto desejam.
Existem muitos sinais evidentes de desenrazamento cultural nmo nosso continente: as roupas, as opções alimentares, a formaçao académica totalmente descontextualizada, etc.
 
 
ÁFRICA, UM APELO ÉTICO AO OCIDENTE
 
Tendo como pano de fundo, o estado de «crise total» em que o continente está mergulhado, devemos olhar esta crise como algo que nos interpela, dai que, esta interpelação deve motivar-nos para apresentar propostas solucionais. Neste contexto, o Ocidente enquanto uma das causas históricas da crónica existencial africana; sendo que esta situação hecatómbica ameaça a estabilidade dos países ricos, por causa da imigração massiça, decorrente da falta dos bens indispensáveis em África, a possibilidade da não continuidade do homem africano na face global.  
Os homens e mulheres dos países ricos, são chamados a saírem da ética individualistas e olharem a África como sendo uma parte da grande família humana e que tem também o direito de usufruir o prazer que o banquete da existência concede. Dai que valores éticos como — o amor, a solidariedade, a justiça económica, politica e jurídica, são chamados a serem praticados constantemente, sob pena de cometerem uma grande falta moral contra os seus irmãos. A dívida externa de África é uma oportunidade para a aplicação da solidariedade entre os povos, daí que se o ocidente perdoasse esta divida, seria de grande alívio para África e um autêntico exercício de ética politica e económica.
Portanto, nos momentos de fraqueza são oportunidades para que as pessoas e nações exercitem a os mais variados valores que constituem o edifico da ética e da moral, por isso, esta é a grande oportunidade do ocidente que sempre conspirou África…
 
BIBLIOGRAFIA
 
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..KAMABAYA, M, O Renascimento da Personalidade Africana, Nzila, Luanda, 2003..
MOMBE, P, Raios de Esperança…, Paulinas, Maputo, 2005.
MATUMONA, M, Cristianismo e Mutações Sociais…, SEDIPU, Uije, 2005.
NGOENHA, S, Filosofia Africana…, Ed. Paulistas – África, Maputo, 1993.
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         SOROMENHO, C, Viragem, União dos Escritores angolanos, 4ª Ed., 1985.
UCAN…, Prevenção e Gestão de Conflitos Eleitorais na Região da SADC, Luanda, s.d. SILVA, J, Inculturação – Desafio à Igreja de Hoje, Ed. S.Paulo, Lisboa, 1994.
        
Fonte: Club-k.net



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