A dicotomia entre o discurso e a prática política

Em Janeiro de 1992, realizou-se a reunião multipartidária, em que a UNITA não compareceu. Em Fevereiro, Miguel Nzau Puna e Tony da Costa Fernandes abandonaram a UNITA e, em Abril, denunciaram-na como não estando a desmobilizar as suas tropas, mantendo camuflados homens e armamento para recomeçar a guerra. Referiram-se ainda às execuções de dirigentes, como Tito Chingunji e Wilson dos Santos, por ordem de Savimbi. No dia 14 de Julho, Miguel Nzau Puna e Tony da Costa Fernandes regressaram a Luanda e, em conferência de imprensa, apresentaram os nomes de 70 pessoas “desaparecidas e mortas” na Jamba. Antes das primeiras eleições e da criação das FAA (27 de Setembro), a campanha eleitoral já havia sido manchada por confrontos violentos. A 5 de Outubro de 1992, a UNITA começou a ocupar militarmente municípios e comunas após terem sido conhecidos os resultados eleitorais provisórios relativos a 88% das mesas eleitorais (3 de Outubro). No dia 7 de Outubro, Jonas Savimbi retirou-se de Luanda para o Huambo e oficiais da UNITA abandonaram as FAA, no mesmo dia em que o secretário-adjunto dos EUA para os Assuntos Africanos, Hermen Cohen considerou, que Savimbi deu “um passo infeliz” e exortava-o a “reconsiderar a sua posição”.

Seguiram-se os confrontos militares entre forças governamentais e da UNITA, em Luanda (11 de Outubro) e no dia 17 foram anunciados os resultados eleitorais: o MPLA vencia as legislativas com maioria absoluta, enquanto José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi estavam apurados para uma segunda volta das presidenciais. No dia 19 de Outubro, as Nações Unidas consideraram que as eleições em Angola tinham sido “genericamente livres e justas” e pediam a realização urgente da segunda volta das presidenciais. Mas, nesse mesmo dia, a UNITA procedeu à sabotagem de um paiol de armas e munições perto do aeroporto de Luanda; tropas suas cercaram a cidade do Kuito e ocuparam 12 dos 14 municípios da província do Bié; 3 municípios da província de Benguela; 2 da Huíla, um do Kwanza-Norte e atacaram o Huambo. Registaram-se, em seguida, os primeiros confrontos armados em Luanda e o Governo deu início ao armamento de civis. No dia 31 de Outubro, ocorreu uma grande batalha nas ruas de Luanda. Dois dias depois, foram noticiadas as mortes de diversos dirigentes da UNITA nas ruas de Luanda em confrontos com forças policiais e civis armados. O MPLA, vencedor das eleições, no dia 15 de Novembro ofereceu à UNITA cinco Ministérios para a formação de um Governo de Unidade e de Reconciliação Nacional. Em resposta, no dia 18 de Novembro, Savimbi declarou, no Huambo, aceitar os resultados eleitorais, mas, através da VORGAN voltou a afirmar que as eleições tinham sido “uma fraude”.

A Assembleia Nacional tomou posse no dia 26 de Novembro sem que os deputados da UNITA estivessem presentes…
Voltava a crise político-militar a estar na agenda do dia, mas, para não sermos exaustivos, ficamos por aqui, apenas pelo ano de 1992. Não porque o cortejo de factos históricos e catástrofes que se sucederam em anos posteriores, não tenham qualquer relevância ou devam ser esquecidos. Pelo contrário. Mais tarde ou mais cedo, há que aprender a assumir perante a história os acertos e erros praticados, para o que foi negativo, não se repita.

A juventude e as mulheres na estratégia eleitoral

Angola é um país, onde a interiorização de um sentido de angolanidade se encontra ainda em formação. É um país caracterizado por ter uma população muito jovem, com uma taxa de crescimento, que, entre 1990 e 1997, rondava os 3,3% e que, ainda há poucos anos, 63% da mesma vivia abaixo dos índices de pobreza. Há seis anos atrás, face a um total de 173 países avaliados, Angola situava-se na 161ª posição do Índice de Desenvolvimento Humano.
Estimava-se que, no ano 2000, a população potencialmente empregável (entre os 25 e os 64 anos de idade) devesse rondar apenas 37,9%, o que, em termos de despesas e encargos sociais, suportava o peso de crianças e jovens com idades inferiores a 19 anos, que, no início deste século, correspondiam a quase 50% da população total. Nesta conformidade, as crianças e jovens, entre os 2 e os 17 anos de idade, que não votaram em 1992, passaram a constituir uma massa significativa de eleitores em 2008. Entretanto, o espaço entre os dois pleitos eleitorais foi de dezasseis anos (não quatro como seria normal e desejável) e a aposta nesta larga fatia populacional de jovens não passou despercebida ao MPLA.

As mulheres foram, de um modo geral, as que mais sofrem, ainda hoje, com as agruras da violência e as que mais sofreram com a perda dos seus pais, maridos, irmãos, filhos… e constituem uma maioria em relação aos homens. Tal como a camada juvenil, também as mulheres fizeram parte da estratégia eleitoral do MPLA. Contrariamente, jovens, mulheres e homens, anteriormente, filiados na UNITA, abandonavam, pouco tempo antes das eleições este partido político e passavam a integrar as fileiras do partido do Governo.

A guerra como factor de identidade

Com o fim da guerra em 2002, os mais jovens eleitores de hoje teriam, na altura, 12 anos de idade e paulatinamente, foram vendo as melhorias económicas e sociais que se operam em todo o país, algo jamais antes experimentado pelos seus pais e irmãos mais velhos. No fundo, a guerra ao atingir de forma directa e indirecta todos os angolanos e, em particular, a juventude, foi, na sua catástrofe, factor de identidade. Pela sua própria natureza foi factor dissociativo com a sua marcha infindável de tragédias. Paradoxalmente, face aos horrores provocados pela mesma foi, também ela, factor associativo de identidade nacional ao tocar os espíritos da sociedade angolana, quer no sentido da paz e na inculcação de um sentido político de angolanidade; quer em relação às suas expectativas de progresso económico e bem-estar social.

O futuro? Só o tempo dirá! Mas as estradas para a circulação de pessoas e bens; as escolas primárias para crianças e as escolas técnicas para jovens, abrindo-lhes maiores perspectivas de ensino e formação profissional para acesso a um primeiro emprego condigno; os postos de saúde, o aumento significativo de produtos agrícolas e industriais no mercado; a estabilização do custo de vida…; começaram a dar sinais de mudança bem antes das eleições de 2008, contrastando, de forma diametralmente oposta, com os anteriores anos de guerra entre irmãos, todos filhos de um mesmo país.

O desejo de preservação da paz

O anterior sentimento rebelde de “bater onde dói mais”, não foi, tão somente, nas lavras, caminhos e infra-estruturas (escolas, hospitais, lares, fábricas, pontes, postes de energia eléctrica, condutas de água, linhas do caminho-de-ferro, refinarias, estradas, etc.). Estas, aos poucos, vão sendo reabilitadas, lamentavelmente e uma vez mais, com o dinheiro do povo, que, face às dores de que ainda padece na carne e na alma, dificilmente esquece, quem as provocou, chegando mesmo a temer que, por parte dos mesmos protagonistas, esse sofrimento se repetissem após o resultado destas últimas eleições. Mas não. Houve gente de fora, que chegou com a missão de nos observar e parecia mais ansiosa em ver “o circo pegar fogo”. Enganam-se e rapidamente bateram palmas com as solas dos pés. Nestes seis anos, sem interferências perniciosas de fora, o cimento de uma paz por nós produzida deixou de estar fresco.

Fonte: Jornal de Angola



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