Luanda - Enquanto políticos oposicionistas fazem questão do debate político e analistas acreditam numa melhor informação da população angolana, há quem defenda que o debate não elucida eleitores, devido aos inúmeros subornos.


Fonte: DW


Muitos líderes partidários concorrentes às eleições gerais angolanas, marcadas para o dia 31 de agosto, continuam a defender a realização de debates políticos durante a atual campanha eleitoral. Porém a campanha já entrou na segunda semana e até agora, nada de debates políticos.


O primeiro partido que lançou o repto foi a UNITA, quando o líder, Isaías Samakuva, convidou o candidato do MPLA, José Eduardo dos Santos – atual Presidente do país – para um debate de "ideias como contribuição política de todos para uma Angola melhor".


Um dia depois, foi a vez do líder da CASA-CE, Convergência Ampla de Salvação de Angola - Coligação Eleitoral, Abel Chivukuvuku, afirmar que nas campanhas eleitorais "os cidadãos precisam conhecer os programas e a credibilidade dos candidatos, para que as opções sejam tomadas em consciência e com conhecimento de causa".


Da mesma opinião é a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). O coordenador e porta voz da campanha política deste partido, Fernando Pedro Gomes, disse em entrevista à DW África, que a realização de debates informa e esclarece melhor o eleitorado angolano.


"Se houver respeito, haverá debate"


Mas, até ao momento, desconhece-se qualquer tentativa para a realização desses confrontos públicos de ideias e dos programas de governação, embora tenham um papel preponderante no pleito que se aproxima como disse Jorge Eurico, editor de política do Semanário Angolense.


No continente africano, salvo raras exceções, não é muito comum para aqueles que almejam o poder divulgarem as linhas mestras do que poderá ser o seu programa de governo. Muito menos por meio de debates entre os candidatos à corrida eleitoral.


"Conforme há mais informação, a consciência crítica do ponto de vista político também cresce, principalmente com a nova geração", explica Jorge Eurico. Na opinião do editor, é evidente que se os políticos tiverem um pouco de respeito pelo eleitorado, promoverão debates para mostrar as suas idéias.


Ao ser questionado se os debates ajudam os eleitores a construir uma opinião mais sólida sobre os candidatos, Jorge Eurico destacou que não é possível conhecer um futuro dirigente do país se o candidato não dialogar com o eleitor.


"Trata-se de uma política pedagógica muito importante." No caso de Angola é ainda mais importante, ressalta ele. O editor esclarece dizendo que em Angola, "eleições são sinónimo de confusão, de guerra, assim como em 1992." Desta vez, é preciso repassar outra mensagem, acredita o profissional da imprensa: "Em Angola é importante que haja mais diálogo dos políticos com os cidadãos, direto ou indireto."


Sobre a participação ou não dos candidatos em eventuais debates, Jorge Eurico disse à DW África que cada um deles deverá ter as suas razões. É um direito que lhes assiste, sublinhou o entrevistado. Mas acrescentou que numa altura em que se fala de transparência política e da consolidação de um Estado de direito, é deplorável não tomar parte nos debates. "Não acho de bom tom fugir ao debate ou ao diálogo com os eleitores", conclui Eurico.


O receio de deixar o topo


Em Cabo Verde, outro país lusófono no continente africano, os debates políticos antes das eleições presidenciais, legislativas e autárquicas começaram a fazer parte da rotina nacional somente em 1991, com as primeiras eleições multipartidárias, como lembra Ludgero Correia, analista político cabo-verdiano.


Quanto aos debates ajudarem os eleitores a terem opiniões mais sólidas sobre os candidatos, ele disse à DW África que as vezes há fortes favoritismos no início da campanha, mas que depois quando sai o resultado, "vê-se que muita coisa mudou, amadureceu, um pouco por causa das campanhas." Mas o eleitor tem exigido plataformas por escrito para distribuição, para que possam ter melhor acesso às ideais dos candidatos, ressalta Correia.


De acordo com analista cabo-verdiano, os candidatos temem os debates porque é muito mais fácil trabalharem na base da propaganda. "Se reparar, quem mais foge aos debates é quem tem o bastão do poder." Correia destaca que na hora do debate, o passado tem pouco valor. "Nós queremos saber o que nos oferecem para legislatura que virá. Nos debates, as vantagens do que já fiz, da propaganda, contam muito pouco porque a geração mais nova cobra um futuro melhor."


A compra do voto


Já Eugénio Costa Almeida, do Centro de Estudos Africanos do Instituto Universitário de Lisboa, mostra-se muito cético em relação aos debates em Angola, mesmo atribuindo grande importância aos debates políticos nas campanhas eleitorais. "Num país normal, onde as eleições são vistas como um ato habitual, [o debate] serve para o eleitorado tirar suas dúvidas."


Ao ser questionado se o debate ajuda a tornar a opinião do eleitor mais sólida, foi claro: "Quando há educação política, ajuda. No caso de Angola, não. A maioria dos eleitores em Angola segue aquele [candidato] que mais lhes dão."



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