Lobito – Ex-número três da guerrilha da UNITA, António Urbano Chassanha despiu a farda em 1992, e agora, radicado no Lobito, litoral sul de Angola, trocou o passado militar pela vida de empresário, no ramo da floricultura. Do passado guarda as memórias que passou a escrito em dois livros, "Angola: Onde Os Guerreiros Não Dormem" (2000) e "Esanju: A Rebelde Do Wambu" (2003), e às quais promete voltar quando o projecto de vida que abraçou entrar, como diz, em "velocidade de cruzeiro".

Fonte: Lusa

Agora, radicado na Catumbela, entre o Lobito e Benguela, Urbano Chassanha explica que sendo reformado das Forças Armadas Angolanas (FAA) não queria passar o resto dos dias "sentado no sofá à frente de uma televisão".

Em conjunto com a mulher, Anabela, também reformada, tiveram há três anos a ideia de produzir espécies vegetais de reposição e a partir daí avançaram para a produção de árvores ornamentais, plantas e flores.

"Eu tive um mestre que dizia que quem conhece o sofrimento aprecia melhor a felicidade dos outros. Realmente, criar vida, meter a semente, esperar que ela brote, acompanhar esse crescimento, colocar nos sacos, enfim toda essa dinâmica é uma coisa que dá muito gozo", garante.

Antigo oficial superior das Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA/UNITA), Urbano Chassanha co-liderou a delegação do partido do "Galo Negro" na Comissão Conjunta, órgão criado para supervisionar a aplicação do Protocolo de Paz, assinado em 1994, em Lusaca, e foi deputado.

O despertar das armas em 1999 apanhou-o já na vida civil, mas não voltou a pegar em armas. Preferiu recorrer às memórias da guerra e publicou dois livros, em que ajustou contas com o passado. Há três anos mudou de vida e assumiu um papel para que não parecia vocacionado: criou a “Lobitus Garden Horto” e confessa-se realizado.

"Fizemos experiências com árvores autóctones, cujas sementes estamos a tirar da área do Balombo e do Bocoio (província de Benguela). Brotaram bem, estão bem de saúde, e temos capacidade, quando nos for solicitado, de produzir milhões de espécies", afirma, orgulhoso.

Consigo trabalham 42 pessoas. Ajudam-no no processo de criação de vida, que teve como ponto de partida a edificação de viveiros. "Fazem-se os viveiros. Depois de as plantas brotarem, geralmente na quarta folha, como nós chamamos, fazemos o transplante para os sacos pequenos. Vamos acompanhando o desenvolvimento da planta. Quando atingir uma determinada altura, em função das espécies, evolui para um saco médio, depois para um saco grande e depois para o chão", explica.

Convertido à nova identidade, Urbano Chassanha considera não ter sido difícil a transição de ex-guerrilheiro para floricultor. "Costumo dizer que a guerra não nos criou muitas opções. A paz cria-nos todas as opções possíveis e imaginarias. Não foi nada difícil. Gosto daquilo que faço e tenho interesse em fazer mais, porque é uma área, como disse, que me dá imenso prazer", frisa.

E Angola? Será que o país, saído há 10 anos de uma guerra civil que deixou milhares de mortos e estropiados e destruição para trás, está preparado para substituir as balas por flores? "Penso que o país tem todas as condições para seguir em frente. As insuficiências são próprias de um processo que não é fácil Também ninguém vai pensar em facilidades para o futuro. É preciso trabalhar. É preciso trabalhar muito", diz.

"Acredito que com o tempo todas as feridas podem ser saradas. Também noto, com muito agrado, a ânsia das pessoas em aprender mais, se formar, o que é um sinal extremamente positivo e nós, mais velhos, estamos aqui para contar as histórias, provavelmente", adianta.

As memórias permanecem intactas e depois de o projecto actual entrar na "velocidade de cruzeiro" diz que vai insistir em passar para o papel as histórias que protagonizou. "Estou a dar um compasso de criar este projecto, mas quando sentir que está em velocidade de cruzeiro terei depois tempo para me dedicar à escrita", conclui.



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