A estratégia, segundo um «draft» a que este jornal teve acesso, passa por reunir na formação política a criar todos os antigos segmentos da UNITA, descontentes com a actual direcção, nomeadamente antigos deputados, militantes, simpatizantes e ex-integrantes do seu braço militar, as FALA. «Ou seja, se não se conseguir a implosão da actual UNITA, procurar-se-á tornar este partido o mais residual possível», assegurou uma fonte com acesso privilegiado a este dossiê.

Para dar maior embalagem à nova força política, se o curso político do país tender para aí, poderão, eventualmente, ser recrutados os descontentes da FNLA, nomeadamente os adeptos de Lucas Ngonda. Com esta táctica, a nova formação política ganharia assim um cariz nacional, congregando no seu seio elementos de várias sensibilidades.

Vê-se, então, que o projecto tem similitudes com a antiga UNITA Renovada e a facção da FNLA liderada por Ngonda. Para os seus estrategos persiste a dúvida se se deve ou não incluir o ministro Sem Pasta António Bento Bembe, cessando também a ideia de se transformar o Fórum Cabindês para o Diálogo num partido, assim como dissidentes de outras formações com reconhecida capacidade intelectual.

Logo, a nova formação política não se constituiria numa «terceira via» propriamente dita, mas seria uma «frente ampla», cuja liderança seria entregue a Jorge Valentim e, numa primeira fase, a sua missão seria surgir como alternativa à UNITA e nas eleições presidenciais apoiaria a candidatura de José Eduardo dos Santos, que, após a sua consagração como Chefe de Estado eleito, cumpriria o mandato e depois deixaria o leme da Nação e, muito possivelmente, do MPLA.

O novo partido teria o suporte financeiro do MPLA ou de organizações que lhe são afectas. Esse apoio seria discreto, mas envolveria elevadas somas em dinheiro, para a mobilização de recursos humanos e infra-estruturas, tendo em conta que se requer que a formação política a criar esteja representada em todo espaço nacional.

Se tudo isso for efectivado, a UNITA fi caria reduzida no futuro a um partido com ínfima representatividade e o sonho de Jorge Valentim de se tornar num verdadeiro substituto de Jonas Malheiro Savimbi ganharia finalmente corpo.

A sociedade tratará de julgar se é ou não correcto que um partido político, escudado na incomensurável força estrutural de que goza sobre a oposição, se abalance, ele mesmo, a fragilizar o seu adversário, fazendo nascer das suas entranhas um outra força política. Refinadamente maquiavélico, dirão muitos.

Mas o MPLA, pelos vistos, se sente respaldado pelas circunstâncias históricas presentes, que fizeram emergir um quadro político completamente desequilibrado. Em face disso, os estrategos do MPLA acham que tem de ser ele mesmo o maioritário a agir e tomar a iniciativa para repor um mínimo de equilíbrio. Consideram que no estado em que está a UNITA, praticamente exangue, ela será incapaz de reerguer-se sozinha e recuperar do torpor

Histórico de um plano refinadamente maquiavélico

É um plano que andava numa qualquer gaveta do «Kremlin». O mote para o seu ressurgimento foi dado pelo desfecho das eleições passadas, que não podia ter sido mais providencial para o MPLA. Mas a história é a seguinte: em véspera do pleito, a província de Benguela constituiu a maior preocupação das estruturas de cúpula do MPLA, nomeadamente o secretariado do Bureau Político e o estado-maior da campanha, porquanto todos os dados recolhidos na região apontavam uma tendência de votação na UNITA.

Foi então que surgiu Kundi Paihama, indigitado para reforçar as estruturas locais do partido, no sentido de angariar votos nas áreas rurais onde as pesquisas indicavam uma supremacia do «Galo Negro».

Para melhor disseminar a mensagem do majoritário, durante várias semanas Kundi Paihama efectuou diversas visitas a aldeias, povoações, vilas e cidades da província, tendo presidido a vários comícios em que se pronunciou essencialmente em língua nacional umbundu.

Um balanço efectuado mais tarde indicara que a investida «paihamista» surtira resultados apenas no interior da província: as pesquisas continuavam a fazer menção a uma forte tendência de voto favorável à UNITA nas cidades de Benguela e Lobito.

Perante tal cenário, que nas contas do estado- maior da campanha e seus estrategos não permitiria ao MPLA arregimentar a maioria absoluta de dois terços dos deputados à Assembleia Nacional, foi então gizada a possibilidade da entrada em cena de um novo actor com peso específico para influenciar o eleitorado citadino.

Assim surge a ideia de se mobilizar Jorge Valentim, que terá recebido informações pormenorizadas sobre o ponto de situação eleitoral vigente em Benguela e Lobito. Numa primeira etapa, os contactos com Valentim não terão sido efectuados com representantes do escalão superior do MPLA. Ele decide, então, partir para Lobito e aí toma posição pública favorável ao partido governamental.

Em face dos bons frutos colhidos com essa experiência em Benguela,os estrategos do regime decidiram «dar gás» ao antigo plano de fragilização e fragmentação do «Galo Negro», que havia sido suspenso após o epílogo verificado no caso dos «16 malditos» da bancada parlamentar da UNITA na anterior legislatura.

Fonte: Semanário Angolense



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