Lisboa – Xi Jinping foi eleito secretário-geral do Partido Comunista Chinês. A sua eleição decorreu durante a primeira reunião plenária do novo Comité Central do PCC, realizada na última quinta-feira, 15, no grande Palácio do Povo. Xi sucede ao Presidente Hu Jintao, que completou o segundo mandato à frente daquele partido. A nova "liderança central" da China, é constituída por apenas por sete elementos, menos dois do que no tempo de Hu Jintao, que governou a segunda maior economia mundial durante a última década.

Fonte: Público/CK/JA/CM

China só terá um governo eleito pelo povo em 2050

Em vez de nove, o Comité tem apenas sete elementos, cinco dos quais são estreantes. Além de Xi Jinping, apenas Li Keqiang, vice-primeiro-ministro-executivo, transita da anterior "liderança Central", presidida por Hu Jintao. Os outros cinco membros do Comité Permanente do Politburo, apresentados exactamente por esta ordem por Xi Jinping, são: Zhang Dejiang, Yu Zhengshen, Liu Yunshan, Wang Qishan e Zhang Gaoli.Xi Jinping e Li Keqiang são agora as figuras mais importantes da hierarquia chinesa e, também, os mais novos da liderança central, com 59 e 57 anos, respectivamente.

Os outros cinco membros do novo Comité Permanente do Politburo têm todos mais de 60 anos. Em Março de 2013 Xi Jinping deverá também assumir o cargo de presidente da Republica e Li Keqiang substituirá Wen Jiabao na chefia do governo. A promoção de Xi Jinping e de Li Keqiang assinala a transferência de poderes para a chamada "quinta-geração de líderes da Nova China", a primeira nascida já depois de o PCC ter tomado o poder, em 1949, mas como salientou um jornal oficial, "a mudança foi equilibrada pela continuidade".

Hu Jintao, que deixará a Presidência da República Popular em Março de 2013, havia já lançado a plataforma para o discurso de consagração de Xi Jinping no relatório submetido aos trabalhos do Grande Salão do Povo. Nesse testamento político, a corrupção era encarada como um fator capaz de provocar, a prazo, “o colapso do partido” e do próprio Estado. O sucessor pronunciou-se no mesmo sentido.

A palavra chinesa para estabilidade é weinwein. Todos — partido, chineses, mundo — esperam que Xi seja weinwein. Apesar do pedigree e das capacidades que mostrou ter no passado, herdou um país com vontade própria e será o que o deixarem ser. A notícia está escondida em textos recentes da “Newsweek” e da “Foreign Affairs”. As autoridades chinesas deixaram de publicar as estatísticas dos protestos no seu território porque, antes do final de 2010, estavam contabilizadas 180 mil manifestações, o dobro do ano anterior.

Em 2011 terão sido mais, este ano o número voltou a subir. Todos os dias, em algum ponto da China, a população revolta-se. Em menor ou maior número, fala contra as terras contaminadas e os alimentos estragados, o roubo de terras, a demolição de casas, as condições de trabalho.

A China está instável. E se os líderes ignorarem o descontentamento podem “desencadear uma reacção em cadeia que vá da convulsão social à revolução violenta”, advertia um relatório interno e secreto citado por outra revista, a Economist, na semana passada. Xi Jinping herdou esta China.

Mal o Presidente Hu Jintao renunciou a todos os cargos que acumulava por ser o secretário-geral do Partido Comunista Chinês (chefe das forças armadas, chefe do Politburo, chefe do Comité Permanente, chefe de Estado), Xi ficou entre a espada e a parede. Retroceder, é impossível. E para a frente o caminho é perigoso.

Pela primeira vez desde que a China se abriu à mudança económica, os líderes estão preocupados com o “desequilíbrio, a descoordenação e a insustentabilidade” que criaram palavras do primeiro-ministro que cessou funções, Wei Jiabao.

Por isso, os dez anos de Xi Jinping — na China os chefes de Estado cumprem um mandato longo, mas único — são considerados pelos analistas, dentro e fora da China, ao mesmo tempo perigosos e cruciais. Recebeu a missão de manter o poder nas mãos exclusivas do partido, assegurar o crescimento económico e encontrar uma fórmula para a estabilidade social. Tarefas incompatíveis, dizia a Economist, que questionava: “Terá coragem para perceber que a estabilidade futura depende de ele romper com o passado?”.

PRÍNCIPE DA ARISTOCRACIA VERMELHA

Há 12 anos Xi já se preparava para subir na hierarquia, sonhando em chegar ao topo. Mas se soubesse como iria encontrar a China quando fosse a sua vez de liderar, talvez tivesse moderado o discurso que fez ao dar uma entrevista promocional — foi encomendada pelo partido para dar a conhecê-lo ao público — à revista chinesa Zhonghua Ernü.

“Não devemos ter medo das dificuldades e dos desafios quando nos preparámos bem. A política é arriscada e a boa vontade não é um caminho. (...) A receita do sucesso é darmos continuidade ao nosso trabalho. Quando entramos na política, começamos a atravessar um rio. Não interessa quantos obstáculos nos aparecem pelo caminho, só há um caminho: seguir em frente. Eu já me deparei com dificuldades e obstáculos. É inevitável”, disse, na tradução inglesa do Nordic Institute of Asian Studies.

Xi Jinping nasceu no dia 1 de Junho de 1953 e nasceu bem — é um príncipe da aristocracia vermelha. Foi o segundo filho de Xi Zhongxun, um dos fundadores da guerrilha comunista e general de Mao Tsetung durante a revolução que fez nascer a República Popular da China, em 1949. O pai foi chefe do departamento de propaganda do partido e vice-secretário-geral do Congresso Nacional do Povo antes de Mao ter decidido limpar a estrutura dirigente e enviá-lo para trabalhar numa fábrica.

Tinha Xi Jinping 15 anos quando o pai foi preso; estava-se em 1968 e acontecia na China a Revolução Cultural. O rapaz, como milhões de outros, foi deslocado para o campo para se reeducar e adaptou-se. Quando saiu, aos 21 anos, era o chefe de produção do partido no “seu” campo de trabalho agrícola. “Foi muito emocional — disse sobre a experiência à imprensa chinesa —, vivíamos um estado de espírito, e quando se percebeu que os ideais da Revolução Cultural não se podiam concretizar provou-se que era tudo uma ilusão.”

Mal as universidades reabriram, depois da morte de Mao, Xi Jinping inscreveu-se. Queria ter uma educação superior e o pai, de regresso ao aparelho de Pequim, voltava a poder ajudá-lo. Licenciou-se em Engenharia Química (mais tarde, quando a liderança quis apostar na tecnologia e na ciência e enviou estudantes para o estrangeiro, coube-lhe ir aprender como era a agricultura americana no Iowa, nos Estados Unidos da América; tinha 35 anos e passou a gostar de exercício físico e de basquetebol).

A reabilitação do pai deu ao filho a vida privilegiada. Como muitos outros príncipes (os filhos dos revolucionários), quando acabou a formação não foi dirigir fábricas ou quintas, foi ser político. Trabalhou como secretário do secretário-geral da Comissão Militar, Geng Biao.

Ambicioso, casou Ke Lingling, filha do embaixador chinês em Londres no início dos anos 1980, e percebeu que se queria uma rampa de lançamento teria que sair de Pequim e ir para as províncias. Em Fujian destacou-se, em Hebei solidificou a ascensão, em Zhejiang (na mediática e influente cidade de Xangai) foi catapultado para o topo. Antes de ser Presidente, era vice-presidente.

PAI PARA UM LADO, FILHO PARA POUTRO

Ao mesmo tempo que o filho fazia o seu percurso, o velho revolucionário Xi Zhongxun também refazia o dele. Defendeu as reformas económicas e arriscou-se ao defender mudanças políticas, quando condenou a repressão das manifestações pró-democracia na praça Tiananmen, em 1989.

Xi Jiping manteve-se neutro e o jornal de Hong Kong (região chinesa onde a imprensa é considerada mais independente) South China Morning Post diz que se manteve fiel à sua ala política (aquela que lhe permitiu ter uma carreira de sucesso), que é o conservadorismo chinês.

É por isso que os analistas (na Foreign Affairs, por exemplo, no artigo Before and After Hu), dizem que não se deve esperar muito do novo Presidente chinês — por convicção ou fidelidade, Xi Jinping é um homem do status quo.

Ainda assim, a revista de relações internacionais pede-lhe que tente ser ousado. Porque a nova sociedade chinesa, cheia de força, iniciativa e descontentamento, lhe pede que rompa com um caminho que foi traçado há muito tempo, quando a China era um país diferente e a liderança ainda falava em igualitarismo. A liderança conservadora segue esse caminho à régua — Deng Xiaoping definiu que só em 2050 a China teria um Governo eleito pelo povo.

A China é, hoje, um país de corrupção, de desigualdades, de crimes ambientais. É um país com uma classe média em ebulição — por enquanto, dizem os analistas, as manifestações são localizadas, cada uma pede uma coisa diferente, e a revolução violenta que muitos temem não está ao virar da esquina.

Mas o “império tem as periferias frágeis e sujeitas às pressões exteriores”, explica Clem Tisdell no número 90 da revista Economic Analysis & Policy. Por isso, precisa de redefinição e Xi tem nas mãos a “última oportunidade” para corrigir o caminho antes do risco aumentar.

Xi disse publicamente que representa as massas. O que as massas querem, no imediato, são decisões concretas: a privatização das terras, o registo da propriedade das casas, a mudança das leis da migração (a assistência de saúde, por exemplo, tem que ser feita na região de origem), um Estado menos asfixiante e uma reforma política que deixe os cidadãos sentirem que participam nas decisões.

SEGUNDA ESCOLHA

O South China Morning Post revelou que Xi se reuniu com reformadores nos meses que antecederam a sua ascensão. Mas não é um Presidente com plenos poderes, como era Mao Tsetung há 60 anos. Obedece a um guião redigido pelo Comité Permanente do Politburo — o mais poderoso dos órgãos que governam a China —, que foi reduzido a sete elementos, a maioria deles conservadores.

Na China, isto quer em primeiro lugar dizer que o país tem de ser cada vez mais rico, cada vez mais visível no mundo, mas o partido tem de ser a chave única do progresso e da estabilidade. Foi a Comissão Permanente que cessou funções ontem quem escolheu Xi para secretário-geral do partido e Presidente — não por ser o favorito mas por ter sido o que reuniu consenso entre as facções políticas. Muitas forças se movem na China e Xi tem de lidar com todas elas. Pedigree e capacidade são palavras que pertencem à sua biografia. Fez um bom trabalho por onde passou e, por isso, foi premiado. Pouco mais se pode adiantar.

Não tanto por o novo líder ser uma figura opaca (que também é — pouco se sabe além de que é casado pela segunda vez com uma cantora famosa na China, Peng Liyuan, e ter uma filha a estudar em Harvard com um nome falso). Muito mais por a sua presidência ir ser o que a nova China deixar.

XI JINPING EM ANGOLA

O novo Presidente chinês já esteve em Angola para uma visita de dois dias. No dia 09 de Novembro de 2010, Xi (na altura como vice-Presidente da China) fora recebido pelo Presidente angolano José Eduardo dos Santos, no palácio da Cidade Alta, onde abordaram as relações de cooperação bilateral. 

José Eduardo dos Santos e Xi Jinping conversaram mais de uma hora, depois do Vice-Presidente desembarcar na capital angolana com uma extensa delegação chinesa. Aquele país asiático financia obras de reconstrução nacional através de uma linha de crédito, resultante de vários acordos financeiros assinados desde 2004. O Governo chinês tem reiterado sucessivas vezes a sua disponibilidade para continuar a apoiar o processo de reconstrução e desenvolvimento de Angola.

A China reconheceu recentemente que as tarefas de reconstrução ainda são enormes, razão pela qual pretende requerer o reforço da cooperação entre os dois países. Neste desafio, a China já manifestou que quer continuar a desempenhar um papel importante.

Várias empresas chinesas estão a participar na reabilitação e construção de infra-estruturas rodoviárias, caminhos-de-ferro, escolas, centros médicos e outros empreendimentos.  Há cerca de dois anos, quando visitou a China, o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, reconheceu que aquele país é um parceiro importante para a reconstrução nacional e para o futuro desenvolvimento de Angola. Os dois países têm contratos e projectos de entendimento em várias áreas de cooperação, sobretudo na financeira.

Várias empresas chinesas com representação em Angola já manifestaram a intenção de reforçar a sua participação na reconstrução de Angola, com projectos avaliados em milhões de dólares.



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