Luanda – Depois do anúncio das mortes, curiosamente num mesmo dia, do fundador da “Xicola ya Semba”, Mário Clington, do Nito Nunes e do jovem intérprete, Chissica Artz, artistas de gerações diferentes e figuras referenciais da música popular, morreu no último sábado (08), no hospital central do Windhoek, vítima de doença prolongada, o cantor e compositor José António Janota, sob o pseudónimo artístico, Zecax, uma das vozes mais prestigiadas e representativas da história dos Jovens do Prenda.

Fonte: JA

A forma como Zecax se movimentava em palco fazia lembrar os artifícios dos grandes nomes do carnaval luandense, sobretudo as figuras que se notabilizaram na “Kazucuta”, estilo de dança do “Kabocomeu”, o histórico grupo de carnaval do Bairro Sambizanga.

Porta-voz da sociologia cultural dos musseques, Zecax cantava as contradições e alegrias do seu meio, enformando uma personalidade artística, tipicamente luandense, facilmente identificável no conteúdo textual das suas canções. O cantor distinguiu-se em palco pela forma muito peculiar de interpretar as suas canções, aliada ao impressionante impacto da dança, caracterizada por passos coreográficos artisticamente calculados.

Numa altura em que a colonização portuguesa dava os derradeiros suspiros, Zecax compôs, com apenas 15 anos, uma canção que lembrava o luto deixado pela violência da presença colonial e denunciava a deportação dos seus amigos mais próximos no campo de concentração de São Nicolau. Esta atitude, considerada ousada na época, determinou a primeira fase da carreira do compositor e a sua entrada, precoce, no universo simbólico e interventivo da canção política.

Filho de José António Janota Júnior e de Luzia Bento Anita, José António Janota nasceu em Luanda, no Bairro Marçal, no dia 2 de Junho de 1959 e assistiu aos melhores momentos dos grupos de carnaval do seu Bairro. Zecax, escolhido por uma criteriosa selecção, entre os amigos do seu bairro, integrou em 1970, como cantor, o agrupamento infantil “Mini-Bossa 70”.

O conjunto “Mini- Bossa 70”, formação apadrinhada pelo empresário Pedro Franco, embora fosse constituída por músicos muito jovens, teve a oportunidade de se apresentar no Clube Maxinde, Bom Jesus, Desportivo União de São Paulo, Ginásio e Centro Social de São Paulo, importantes espaços de recreação e entretenimento cultural da cidade de Luanda.

A aprendizagem e solidez criativa, adquirida no interior do “Mini-Bossa 70”, levaram-no a integrar, três anos depois, o agrupamento “Surpresa 73”. Estávamos numa época de intensa rebeldia e contestação estudantil e o produtor e técnico de gravação, Jofre Neto, solicita ao Zecax uma canção de teor revolucionário.

É assim que surge o tema “Colono”, uma canção que ficou famosa e que marcou a introdução de Zecax no universo da canção revolucionária: Tundé nga giba pangue jetu/ Angola tua xala ni luto ué/ kamba diami Meirim/ ua um tumissa kuá São Nicolau/ kamba diami Inocêncio éé/ Colono ué, uá mujiba/ kamba diami, São Pedro/ colono ué uá mujiba/ Colono palanhi ku tu jiba/ mukonda dia ngola ietu ué…, cantava Zecax.

Militância política

A militância política de Zecax na JMPLA, numa altura em que os jovens assumiam, de forma progressiva, a contestação política, como principal arma de mudança social, esteve relacionada, de forma directa, com a sua aproximação ao associativismo cultural estudantil. Zecax fez parte do histórico agrupamento “Kissanguela”, em 1976, formação musical ligada à JMPLA, como cantor, gravando o seu nome nesta importante banda musical, que representa o ponto mais alto da canção revolucionária. O cantor passou ainda pelos “Angolenses”, grupo musical engajado politicamente, que defendia, nos textos das suas canções, a libertação total de África.

Conjunto Merengues

Zecax passou ainda pelos “Merengues”, como viola ritmo e vocal, em substituição de Zeca Tirylene, tendo feito uma importante digressão pela França e União Soviética. Como funcionário do Ministério da Cultura, Zecax integrou os “Diamantes Negros”. Da época dos “Diamantes Negros”, ficou na memória a canção “Caminhar é difícil”, interpretada por Zecax.

A passagem de Zecax pelos “Jovens do Prenda” não foi menos importante, de 1981 a 1984, como intérprete e guitarra ritmo. Nesta formação ficaram na história os sucessos: “Undengue uami”, uma belíssima canção em que o cantor exalta a memória da sua infância nos becos do Capolo Boxi, no Bairro Marçal, “Makota mami” e “Fim-de semana”.

Zecax interpretou ainda os sucessos “Maximbombo”, “Boleia” e “Donzela”, nos Kiezos, onde passou de 1984 a 1988. Ainda na condição de funcionário do Ministério da Cultura, Zecax fez parte do agrupamento “Semba África”. No agrupamento “Semba África” ficaram conhecidos os sucessos “Mana Tita” e “Caçador”.

Registos e participações

Até à data da sua morte, Zecax preparava o seu primeiro CD de originais e canções com nova roupagem, que incluía os principais sucessos da sua longa e notável carreira.
O cantor participou em várias colectâneas, uma das quais, “Memórias do Marçal”, com vários cantores oriundos deste histórico bairro da cidade de Luanda. O palco foi, nos últimos momentos de vida, uma das suas mais frequentes residências, onde revelou o seu dinâmico talento.

Para além das digressões e participações em festivais internacionais, Zecax foi uma presença ordinária nas sessões do “Caldo do Poeira”, da Rádio Nacional da Angola, e no “Muzonguê da Tradição”, onde foi um dos convidados da sua primeira edição, em Fevereiro de 2006, realizado pelo Centro Cultural e Recreativo Kilamba. O cantor participou também, em Outubro de 2010, no concerto de homenagem ao cantor e compositor Alberto Teta Lando.

Ministra da Cultura lamenta a morte do músico Zecax

Rosa Cruz e Silva, ministra da Cultura, lamentou, em Luanda, a morte do compositor e cantor Zecax. Numa nota de imprensa, a ministra sublinha que a morte do músico Zecax deixa um vazio irreparável no conjunto das figuras referenciais da música popular angolana. “Em meu nome pessoal e do colectivo de trabalhadores do Ministério da Cultura endereço à família enlutada, à classe artística em geral, os meus mais profundos sentimentos de pesar”, refere o documento.

Desde Setembro deste ano, Zecax preparava o seu primeiro trabalho disco a solo, intitulado “Avó Sara”, uma síntese da sua trajectória artística de 30 anos, e que seria dedicado à sua avó, que muito o incentivou na carreira musical.



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