Luanda - Até a data do seu falecimento na Europa, era administrador único e director-geral do grupo angolano Media Nova. João Van Dúnem estudou em Luanda, tendo-se alistado nas FAPLA por altura da independência. Quando dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, João Van Dúnem, então militar das FAPLA, estava em Cuba. Em Novembro de 1977 foi mandado regressar a Luanda, onde foi preso à chegada.

Fonte:  Pitigrili

Libertado mais de um ano depois, João Van Dúnem rumou à Europa. Foi jornalista, produtor e chefe dos serviços em português para África da BBC em Londres. João Van Dúnem era irmão mais novo de José Van Dúnem, um dos acusados pelo regime de Agostinho Neto pelo levantamento “fraccionista” de 27 de Maio de 1977. Numa entrevista a Lara Pawson, explicou que os fraccionistas não tentaram um golpe militar e, além disso, que isso revela um grave erro na estratégia da fraccionistas: “Se eles quisessem matar Neto, poderiam tê-lo feito. Talvez então, você poderia dizer ter sido um golpe militar. E se Neto tivesse sido morto, as coisas poderiam muito bem ter mudado para melhor em Angola. Foi um erro de cálculo do meu irmão. Até ao fim, ele defendeu a posição de que não deveria haver qualquer derramamento de sangue”.


João Van Dúnem disse a Lara Pawson que os fraccionistas discutiram a possibilidade da tomada do poder através da força – aparentemente, houve um debate – mas eventualmente todos concordaram com o Zé, que um golpe seria um erro. Diz que o seu irmão era respeitado pelos outros fraccionistas pelo seu intelecto, e foi carinhosamente apelidado de “o filósofo”. Foi esse prestígio que convenceu os fraccionistas “contra a tentativa de um golpe”.

Na verdade, João Van-Dúnem disse a Lara Pawson que poucos dias antes do 27 de maio de 1977, o presidente Neto pediu a Zé para falar com a 9ª Brigada e desencorajá-la de tentar um golpe. Nessa fase, Neto estava claramente consciente do desejo entre os fraccionistas determinados em derrubarem a facção Neto do MPLA. O malogrado Van Dúnem contou que o seu irmão respeitou os desejos de Neto e foi falar com a Nona Brigada.

No exílio em Londres, João Van Dúnem nunca descansou em querer saber o que aconteceu ao seu irmão José. Em 2007, numa carta ministro da Justiça angolano, Lázaro Dias, João Van Dúnem pedia as certidões de óbito do seu irmão José e de Sita Valles. Aquele governante limitou-se a remeter o assunto para os seus colegas da Defesa, da Saúde e da Segurança, com a seguinte alegação: «Sabido que o Ministério da Justiça só emite certificados de óbito com base em notas ou nótulas de médicos a atestar o óbito – o que não aconteceu -, solicito a informação sobre se têm algum conhecimento do falecimento das pessoas acima referidas.»


João Van Dúnem tentou também saber do papel de intelectuais angolanos nos acontecimentos seguintes a 27 de Maio de 1977. Numa carta assinada por ele e pela sua irmã Francisca Van Dúnem (jurista de formação, com residência fixa em Portugal), endereçada ao escritor angolano Pepetela, pedem respeito pelo sentimento das famílias daqueles que matou ou ajudou a matar, e lembram-lhe que “cada um de nós convive como pode com os demónios que nos atormentam”.


João e Francisca Van Dúnem acusam Pepetela de querer insinuar que não participa na repressão quem ajuda a organizar a propaganda que a “legitima”, para tanto escrutinando depoimentos obtidos através de métodos de todos conhecidos e seguramente incompatíveis com padrões mínimos de humanidade.


Os irmãos de José Van-Dúnem apelaram a Pepetela (e a outros que material ou intelectualmente participaram na repressão) para agir com coerência, dignidade, seriedade intelectual e coragem política. Por essa razão, apontam os factos que se seguem: O Ministério da Defesa, onde Pepetala diz ter estado a seleccionar depoimentos, era, na altura, em Luanda, com a Fortaleza, a cadeia de São Paulo, a Casa de Reclusão e a sede da DISA, a câmara de tortura de muitos jovens acusados, com fundamento ou não, de fraccionismo. Se todos eles tivessem sido tratados com Justiça, hoje certamente estariam a dar o seu contributo à reconstrução do País;


Era no edifício do Ministério da Defesa que estava instalado o Estado-maior da repressão, coadjuvado por assessoria cubana. Foi aí que se decidiu o destino – vida ou morte – de milhares de jovens, alguns menores de idade, como são os casos de Francisco José e Charula de Azevedo.



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