Luanda – O antigo secretário-geral da UNITA, Abílio Kamalata Numa, agora deputado à Assembleia Nacional por este partido, já foi um dos mais respeitados e temidos operacionais das Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA), o antigo braço armado de Jonas Savimbi. Era um dos 13 elementos que acompanhavam o líder fundador da UNITA no dia em que este foi morto em combate pelas Forças Armadas Angolanas (FAA), no dia 22 de Fevereiro de 2002, há concretamente 11 anos. Por esta razão, O PAÍS ouviu o homem que diz ter visto Savimbi a cair.

Fonte: O País

Assinala-se mais um aniversário do passamento físico do líder fundador da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi. Angola está melhor com ele morto ou acha que faria alguma diferença se ainda fosse vivo?
Infelizmente temos de começar esta entrevista falando do Dr. Savimbi, morto em combate em 2002. A morte do Dr. Savimbi teve quase a mesma similitude do desaparecimento de Yasser Arafat. Naquela altura, os israelitas diziam que o problema palestiniano teria solução com o desaparecimento de Yasser Arafat e tudo foi feito até que lhe envenenaram e o mataram. Mas as coisas estão mais do que demonstradas que Yasser Arafat era a solução e não era o problema.

Aqui em Angola também deu-se a mesma coisa, nós tivemos transições muito turbulentas desde 1974 e, com a assumpção da independência em 1975, os angolanos nunca se entenderam. O partido ou movimento com mais força na altura era a FNLA, em termos materiais o MPLA e a UNITA em volta de si a força do seu líder, mas vinha no terceiro escalão.

Nós percebemos que naquela altura a primeira coisa que o MPLA queria era colocar a FNLA fora da arena política e é o que fez. Houve corações de pessoas que foram encontradas nos frigoríficos, falou-se que as pessoas da FNLA comiam pessoas, do Samuel Abrigada que tinha roubado dos cofres do Governo de Transição 100 mil contos. Falou-se de muita coisa, mas afinal vimos que aquilo foi feito no âmbito de uma propaganda atroz para colocar a FNLA fora do processo político angolano.

A UNITA, que resistiu, foi vista pelo MPLA como o alvo a abater a seguir. E Dr. Savimbi, nisso, foi um exímio estratega, político, militar, diplomata, que conseguiu trazer uma solução para a África Austral, porque do ponto de vista militar não se teria encontrado uma solução para o problema sul-africano nem para a independência da Namíbia.

A resistência da UNITA aqui permitiu que as Nações Unidas tivessem assumido a resolução 435 que impôs a retirada dos cubanos, independência da Namíbia, posteriormente os avanços que existiram com a solução sul-africana, a libertação de Mandela e a aproximação dos angolanos. Nesta caminhada, vocês já teriam visto, a diabolização do Dr. Savimbi foi a peça fundamental da política angolana até ao seu desaparecimento. Agora volto a dizer que o Dr. Savimbi era a solução de muitos problemas de Angola, não era o problema. Da mesma forma que Yasser Arafat não era o problema, Savimbi também não o era aqui em Angola.

Não pensa que o fim do conflito, com a sua morte em combate no Moxico, terá sido fruto de alguma intransigência da parte do líder fundador da UNITA?
Não, não. Dr Savimbi não teve intransigência nenhuma neste processo todo. O que havia era do outro lado uma política de subalternização, integração e não era isso que os Acordos de Alvor, que são o fundamento de todo processo político em Angola, diziam. Os partidos ou movimentos de libertação – FNLA, MPLA e a UNITA - eram os legítimos representantes do povo angolano, mas o MPLA arvorava-se a si próprio como se fosse o único.

Esse foi sempre o pomo da discórdia que levou Angola para conflitos desnecessários, mas o problema não está resolvido. Neste preciso momento nós temos uma paz que significa o calar das armas, mas não temos paz política ou social, as pessoas continuam a desaparecer, temos um Governo que tem medo do povo, não resolve o problema da água e luz. Os angolanos empobreceram muito mais. Eu que vi um bocadinho o tempo colonial, se o meu pai estivesse vivo diria mesmo que regredi bastante, olhando para o que nós eramos e o que somos hoje.  E isso terá tido solução com a morte do Dr. Savimbi? Não. Temos uma paz militar que significou o calar das armas, mas não temos uma paz social nem política.

Foi um dos poucos generais que esteve ao lado de Jonas Savimbi quando este morreu a 22 de Fevereiro, no Lucusse. É fácil lidar com esta realidade?
Olha, isso vai desaparecer comigo. Aquele dia fatídico passa por mim sempre que tiver que me recordar disso, mas faço um esforço. Primeiro, a formação religiosa que eu tive, fui seminarista, tem-me dado força mental suficiente para poder perdoar, ultrapassar todo aquele calvário que passamos naquela altura. Agora estamos numa outra luta que é a democratização do país e envolve todos vocês.

Como religioso podemos dizer que foi salvo por Deus quando foi carregar as pilhas num outro local e minutos depois o líder que acompanhava é morto na tenda em que se encontrava?
Há muita coisa que os homens não sabem explicar. Tive na minha vida situações de sobrevivência que arrepiam as pessoas. Fui 1º comissário político da UNITA no Cubal, em Benguela, e em 1975 começam as escaramuças, fui capturado pelo MPLA, com outros companheiros. Fomos parar na delegação do MPLA, ouvi que tinham sido capturados também mais de 30 e tal militares, estes até estavam desarmados, tinham chegado havia bem pouco tempo de Cangumbe. A UNITA não tinha fontes de armas, as suas tropas e aqueles jovens estavam aí só para o asseguramento da delegação. Foram capturados todos e assassinados naquele período.

E nós, na delegação do MPLA, a dado momento chegou um senhor que estava a recuar do Alto Catumbela, ali onde temos a fábrica de papel. Encontrou-nos aí e começou a falar com os responsáveis do MPLA no Cubal. Perguntou-lhes se tinham capturado os comissários políticos da UNITA, porque éramos dois: eu mais o meu colega Ernesto Vindengandenga. Eles disseram que não tinham capturado nenhum comissário político e que os senhores que ali estavam são da JURA.

E ele diz assim: “se tivessem capturado o comissário político devia ser eliminado rapidamente, porque estes é que estão a mobilizar mal o povo”. “Agora, os jovens da JURA mandem para o CIR de Benguela”. Ele quando sai e os senhores da delegação do Cubal do MPLA dizem que “se fosse um mestiço ou branco ele teria levado para Benguela, mas por se tratar de negros nós devíamos matar. Esta porcaria é que não está bem”.

E quando se deu o 27 de Maio de 1977, vim a perceber que o MPLA sofre de problemas muito graves do ponto de vista racial, porque não solucionaram bem o problema da convivência nacional. Este foi um momento da minha sobrevivência também, porque se os elementos do MPLA tivessem dito que eu era o comissário político da UNITA, teria sido morto naquela altura. Vim a saber mais tarde que afinal de contas esse senhor era membro do Comité Central do MPLA.

Sobrevivi a mais esta, que aconteceu naquela altura. Estava a conversar com o Dr. Savimbi durante a caminhada, desprendemo-nos do grupo maior que ficou com o vice-presidente Dembo. Eu e o Dr. Savimbi ficamos com 13 pessoas apenas e a dado momento achei que devia carregar as minhas pilhas para escutar o relato, porque por volta das 21 horas ocorreria o jogo Guimarães-Sporting. Quando vou para carregar as pilhas os tiros começam. Volto para o local de onde tinha saído e vejo o Dr. Savimbi a levantar-se e a cair, portanto tinha sido alvejado, e depois disso desprendi-me até que estamos aqui neste preciso momento.

As 13 pessoas de que falou há pouco estão vivas?
Todas elas, só o Dr. Savimbi é que morreu. Segundo o que me vieram dizer posteriormente, a esposa do Dr. Savimbi, dona Valentina, teria ficado ferida ligeiramente e mais um capitão, acho eu. É a informação que tive já depois de ter chegado a Luanda. Estas pessoas estão vivas.

Algumas pessoas acreditam que o desfecho militar da UNITA terá sido consequência do facto de Jonas Savimbi ter-se cercado de generais mais novos e preterindo os mais experientes. Também acredita nisso?
Essa é uma outra história que um dia terei de contar aos angolanos e aos militantes do nosso partido sobre o que aconteceu naquele período. Os que faziam parte do estado-maior naquela altura eram o Bock, como chefe do Estado-Maior, eu, como vice-chefe do Estado-Maior e chefe das operações e o falecido Vatuva, como comissário-político.

O Bock e o Vatuva já são desaparecidos, ainda estou aqui eu e tenho alguns apontamentos feitos, acho que brevemente farei sair uma obra a falar disso. Quero dar mais algum tempo para deixar passar alguns processos que podem implicar muita gente. De facto, o que aconteceu é que nós tivemos uma fase mais complexa que depois retirou o protagonismo daqueles que tinham comandado, que eram os comandantes principais da UNITA até recentemente. E neste último conflito que começou em 1998 apareceram novos protagonistas e depois arrumaram com as FALA. Neste momento só é isso que lhe posso dizer.

O que é que pretende dizer com “arrumaram com as FALA”?

Sinceramente digo-lhe com toda a verdade, quando se diz que a UNITA foi derrota não acredito. As FALA não foram derrotadas. E repito-lhe: As FALA não foram derrotadas. O que aconteceu é que o alto comandante tinha morrido. Os principais generais que eram os comandantes das Forças Armadas naquela altura, os generais Kamorteiro, Samy e Kalias, tinham sido capturados.

Como você sabe, o que estou a dizer não é nenhuma heresia, eles apareceram aqui como pessoas capturadas. E a partir daí houve uma sincronização feita entre esses companheiros, as comunicações do presidente Savimbi, os seus companheiros que tinham sido capturados e as FAA, uma manobra que permitiu enviar mensagens para todas as redes da UNITA a dizer que eram ordens do vice-presidente Sebastião Dembo, já que o Dr. Savimbi tinha morrido.

Naquela altura, o falecido vice-presidente, que morreu no dia 25, três dias depois, não enviou nenhuma mensagem para que as forças armadas parassem. Mandou-se parar o conflito em todo o país e a partir daí houve uma gama de manobras que foram travadas pelo Gato, que era o secretário-geral, quando o Governo dizia que estava a negociar o problema com o grupo do Kamorteiro. E o Gato dizia que o Governo não podia discutir com os capturados, mas sim com pessoas livres. Foi nessa altura que se processou a transição da negociação do grupo do companheiro Kamorteiro que estava aqui e o do companheiro Lukamba Gato enviado para o Luena.

Ainda existem mistérios em relação a morte de Jonas Savimbi?
Para quem procura fantasmas acho que há. O que aconteceu é que nós fomos atacados e houve algum ripostar muito simples, porque também não tínhamos muito armamento no local. Poucas pessoas estavam armadas e foi um combate de pouca monta. Tínhamos feito uma manobra com um grupo de 13 pessoas numa mata muito cerrada, pensávamos que não seríamos detectados facilmente. Por isso, o nosso cordão defensivo não era uma coisa muito grande, era muito próximo, um cordão de uns 30 metros em relação a tenda onde se encontrava o Dr. Savimbi.

E depois, ainda nesta altura, das 13 pessoas ainda retiramos duas que enviamos para o patrulhamento, para ver se detectava o grosso da coluna do vice-presidente Dembo. Tínhamos ficado 11 pessoas e para quem procura fantasmas pode ver outras coisas, mas o que aconteceu foi simplesmente isso. Agora há pessoas que dizem que o Dr. Savimbi teria feito tiro contra si próprio, mas não foi isso porque ele foi eliminado. Na altura em que eu estava a correr vejo o Dr. Savimbi primeiro a cair, quando saio da zona, depois, sinto uma cadência de tiros a serem feitos ao alvo. Taus, taus, taus… E as pessoas que viram o corpo do Dr. Savimbi disseram que estava varado de tiros.

Portanto, acho que depois de terem derrubado o Dr. Savimbi continuaram a disparar, acredito que tinham recebido ordens para que ele não saísse daquilo vivo. Não queriam o Dr. Savimbi vivo. Era uma ordem que existia, assim como outras, porque depois do Dr. Savimbi ter tombado neste combate fui perseguido durante um mês, já os meus companheiros a negociarem.

Saí do Moxico e fui parar quase na província do Bié, durante um mês, fiz uma manobra terrível a pé, a ser perseguido. Na minha coluna ainda foram capturados majores, caímos em várias emboscadas. No dia em que cheguei no Moxico, depois de ter feito as minhas manobras para que a minha localização já não constituísse problema e os outros soubessem que estava vivo, quando se dizia que o Numa tinha morrido, infiltrei um major num grupo das FALA que estava com o senhor general Condenado pronto para se movimentar para o local de aquartelamento no Moxico.

Ao lado estava já uma unidade das FAA e deste grupo os que eram mais fracos deviam ir para o Moxico por via aérea. Pedi para que esse oficial fosse por via aérea para dizer que eu estava vivo e que me encontrava na área y. E foi assim que quando chegou ao Moxico comunicou aos outros onde eu me encontrava, posteriormente também encontrei um posto-rádio, comuniquei ao Gato e ele fez a comunicação a dizer que eu tinha aparecido. Quando cheguei ao Moxico encontrei um coronel dos Comandos das FAA, que me dizia: “Agora eu posso ir para Cabinda, todas as forças já tinham sido deslocadas para Cabinda”. Porque ele estava aí exactamente com ordens de que eu tinha de aparecer vivo ou morto. Mas, pronto, felizmente tinha aparecido vivo.

Se não há mistérios em relação a morte de Jonas Savimbi, o que dizer sobre o desaparecimento de António Dembo? Porquê razão alguns supostos familiares apareceram recentemente a exigir a localização dos seus restos mortais?
O vice-presidente Dembo, estive com ele durante muito tempo na área Norte. O Dr. Savimbi começou a despedir-se havia muito tempo, falou com os quadros, deu indicações e uma das que deixou era de que não tinha certeza que iria ficar mais dois anos. Mas se ele desaparecesse o partido ficava muito bem nas mãos do Dembo.

O companheiro vice-presidente Dembo era um quadro muito querido dentro do partido e era aceite. E quando ele morre ao lado estava o filho Jeff, que alguns conhecem e ele está agora a terminar o curso de Engenharia Informática. Portanto, ele está aqui e as pessoas podem falar com o Jeff e sabem as condições em que o pai se encontrava. Uma das coisas que acho que acelerou a morte do companheiro Dembo foi a diabetes, as manobras que encetávamos durante a guerra, muito movimento, pouca comida ou nenhuma mesmo, isso afectou um bocadinho a própria resistência dele. E começou a perder muitas forças.

Num período que vai de oito a 10 dias também ficou sem a sua esposa. A dona Maria, na manobra que estávamos a fazer na mata, ficou no grupo do Dr. Savimbi. Portanto, a dona Maria faz parte do grupo das 13 pessoas que estavam no grupo do Dr. Savimbi, mas depois o presidente fundador tinha ficado apenas com o filho Jeff. Os outros seguranças tinham morrido, houve gente que morreu a fome e outros que desertaram, fugiram. Muitos de nossos guardas desertaram por causa da fome e outros foram se perdendo. E ela ficou de facto nestas condições e depois não aguentou.

Falou-se muito da existência de enormes quantidades de dinheiro e diamantes muito valiosos em posse de Jonas Savimbi no dia em que morreu. É verdade?
O que vou lhe dizer é o seguinte: no dia 22 de Fevereiro de 2002, durante a nossa marcha acordamos um bocado cedo, eu era a pessoa que estava a dirigir, operei muito tempo naquela área, a dado momento sentimos muito fogo, muito intenso e nutrido na parte Sul. Depois falei com Dr. Savimbi que era exactamente ao longo do rio Luio, com precisão para a área do general Big Jó. Era exactamente na área onde se encontrava e foi neste dia que o general Big Jó morreu.

Então tivemos de fazer um movimento para Nordeste, andamos no meio da mata e a dado momento descansamos um bocado, era praxe. Naquela altura o Dr. Savimbi levava uma pasta castanha, não sei se estou errado mas acho que era mesmo castanha. Abriu a pasta e tinha alguns documentos. Acho que tinha coisas muito queridas dele. E era nesta pasta onde, de facto, havia um monte de diamantes.

E o Dr. Savimbi dizia: olha, quando encontrarmos os outros vamos ver como utilizar estes meios para podermos socorrer o partido. Naquela altura também estávamos à procura de uma forma de reconquistar um aeroporto para começarmos a obter recursos que eram necessários. Os que encontram a pasta são os homens das FAA. Nela havia documentos e estavam aí os diamantes.

A UNITA ainda está órfã de Jonas Savimbi?
Todos nós tínhamos a consciência de que o desaparecimento do Dr. Savimbi seria um problema de extrema gravidade para a própria UNITA. Não era uma pessoa que seria fácil de substituir e a imensidão e a profundidade cognitiva, o arcaboiço que o Dr. Savimbi apresentava são raros. Mesmo aqui no nosso país é raro encontramos um homem daquela estaleca. Era um excelente estudioso nas Ciências Sociais e ele tinha ganho uma grande experiência, um líder que seguíamos sem questionar. Ninguém questionava o Dr. Savimbi, porque era um grande líder. Era um líder que falava para todas as pessoas e também sabia escutar.

Escutava pessoas quase que nada falavam. O Dr. Savimbi dizia assim: “Nunca despreze nenhuma pessoa. Em uma hora de conversa com uma pessoa que você julga que não tem nada vais apreender sempre alguma coisa”. Por isto tínhamos consciência de que o seu desaparecimento seria um problema grave para a própria UNITA e como tem-se revelado que sim. Portanto, nós continuamos com os nossos problemas que ainda não ultrapassamos e o próprio partido tem feito esforços para ver se rapidamente se ultrapassa esta fase. O importante é que os quadros estão todos motivados, envolvidos e com certeza que as soluções vão ser encontradas.

O Presidente Samavuka tem sido um substituto à altura?
O Presidente Samakuva foi uma solução ajustada para o momento. Aquele momento era muito crítico, um momento que precisava de uma pessoa com um fleuma que se ajustasse para aquela circunstância e o Presidente Samakuva conseguiu, de facto, fazer esta transição com muito sucesso.

Como vê hoje o partido em termos de democracia interna?
É um aprendizado. Internamente discutimos os nossos problemas sem errar, não temos nenhum receio de conversarmos. A UNITA nisso tem crescido imenso e é só ver que nós fazemos os nossos congressos onde o presidente é eleito. Acho eu que é o único partido que faz de forma muito aberta, limpa, os outros partidos ainda votam com as mãos no ar ou o fazem de outra forma. Ou é o Ngonda que não aparece e só o Ngola Kabangu, ora, as vezes, é o Ngola Kabangu e o Ngonda aparece sozinho. O PRS também não sei o que é que se passou por lá, vamos ver o que é que a CASA-CE vai fazer, se tem democracia suficiente para não estar a encontrar engenharias de liderança.

Mas na UNITA isso tem sido superado e não tem tido grandes problemas. Temos democracia interna sim, mas a democracia é um território de aperfeiçoamento contínuo. Sabemos que ainda não atingimos a excelência e vamos ao encontro. Vamos procurando permanentemente ir ao encontro da excelência e melhorarmos os nossos processos de discussão interna para estarmos à altura de sermos um padrão de referência no nosso país.

O senhor foi um dos poucos defensores da realização de um congresso extraordinário na UNITA depois das eleições. Ainda é da mesma opinião?
Risos. Esta é uma questão interna a que não me vou referir. Com certeza o próprio partido, na altura da reunião da Comissão Política, fez um comunicado e este problema não é só do Numa. É um problema interno e o próprio partido vai encontrar, com certeza, soluções.

Faz sentido defender o projecto de Muanguai hoje?
Faz sentido sim senhor. Você já viu católicos sem a Bíblia? É impossível. A Bíblia é eterna, é a filosofia que alimenta uma crença e nós acreditamos nos princípios fundados em Muangai. São bem claros: democracia. O país terá de ter vários partidos políticos, dar prioridade ao campo para beneficiar a cidade. É um princípio de desenvolvimento sustentável que a UNITA vem já a falar desde os tempos idos.

Hoje muita gente utiliza estes chavões “desenvolvimento sustentável”, etc, etc, mas a UNITA vem a falar disso há bastante tempo. Hoje temos uma economia dos petróleos e as gerações futuras vão ter um problema gravíssimo, porque o petróleo não é eterno e os dinheiros que nós conseguimos obter com os petróleos andam pelo mundo, à devirá, na mão de pessoas e não criamos infra-estruturas que vão sustentar o desenvolvimento de Angola amanhã.

Hoje continuamos com um ensino pobre, uma saúde débil, uma infra-estrutura industrial inexistente, estradas assim pequeninas. Quando se fala em auto-estrada você pensa que é uma coisa respeitável, mas é só ver. Conheço um dirigente deste país que foi ao Burundi ou ao Ruanda, chegou e quando foi para a Assembleia Nacional viu a imponência da instituição e disse: “Ai meu Deus, como é que posso convidar aqui o meu homologo a ir para Angola”? E penso que deve ter partido daí a ideia de se fazer a actual Assembleia Nacional, que deve terminar em 2014.

Temos muitos recursos mas não estão a ser aplicados devidamente. Neste preciso momento temos um dos maiores orçamentos de África. O orçamento de Angola deve ser necessário juntar uns 30 países que andam por ai para se fazer um orçamento de 70 biliões. Mas isso não vai resolver os problemas de Angola, porque não vai resolver o problema da água, ensino, energia. O dinheiro vai servir outros fins e é aí onde muita gente vai debicar para se enriquecer de forma ilegal.

Felizmente Muangai recomenda-se e recomenda-se porque internamente também somos os culpados. A UNITA não tem capacidade de explicar o que é Muangai. A UNITA tem de passar para uma actividade pró-activa de forma a poder explicar melhor o que significa Muangai, para os angolanos poderem apreender melhor. O Muangai passado aqui não é o da UNITA, mas sim o Muangai da diabolização. O Muangai da UNITA não é racista, não é tribalista, porque a UNITA é União Nacional para Independência Total de Angola.

Recorda-se que em 1974, quando se definiu quem é o angolano, foi o Dr. Savimbi que escreveu a definição que ficou na Constituição. Até Lúcio Lara queria uma outra coisa, mas os outros não aceitaram e tiveram de adoptar aquilo que o Dr. Savimbi tinha explicado. E ele tem uma frase que anda nos telefones: “para mim primeiro o angolano, segundo o angolano, terceiro o angolano, quarto o angolano, o angolano sempre. Agora os outros não sei aonde ficam”. “A cooperação comigo não é muito fácil”, porque ele não definia o angolano como negro, mestiço ou branco, mas aquele que ama este país”.


Qual é a verdadeira razão da constante fuga de quadros da UNITA? Depois das eleições vimos muitos militantes do Kuando-Kubango a abandonarem as fileiras e rumarem para o MPLA.
A história do Kuando-Kubango não está bem contada. E vocês também comecem a ter um jornalismo investigativo mais profundo, para não estarmos aqui na corda bamba do MPLA. Isso vem desde 1974. Para o MPLA ainda não estamos em paz e vou mais longe: para o MPLA o resto é inimigo, não é só mais a UNITA. Porque é que se fala de indivíduos que saem de partidos e vão para o MPLA, faz-se propaganda.

Os outros partidos também recebem indivíduos, uns saem para a UNITA, FNLA ou PRS. Porque é que se faz isso até hoje? As pessoas tornaram-se troféus? Humilhar outros, os casos dos Valentins, Hamukwayas, para serem apresentados ao público, olha aqui o Dr. Hamukwaya, o general Black Power. Isto está errado. Não é correcto. São angolanos e como tal têm opções. Não ficam com a UNITA, não ficam. Mas também a UNITA não está a desaparecer, é um partido que se recomenda.

A UNITA está a aproximar-se dos dois milhões de membros, não é nenhuma falácia. Há trabalho de mobilização, os dois milhões estão aí. Nós tivemos alguns problemas nas eleições passadas, vamos ser contundentes nisso porque tivemos um controlo muito deficitário. Controlamos ao nível de 35 ou 36 por cento, ao máximo. É o que levou para os 32 deputados que temos. A UNITA, se tivesse tido um controlo de 80 a 90 por cento nas eleições passadas, ter-se-ia aproximado entre os 90 ou 100 deputados. A UNITA teria chegado aí, mas o resto o MPLA foi governando sozinho, atribuiu-se os votos que quis.

Porque até ao último dia os delegados de lista da UNITA não estavam credenciados, houve tanta manobra que permitiu que chegássemos às eleições nas  condições em que chegamos. As pessoas dizem que as eleições foram livres e justas porque foram normais e não houve problemas. Somos cívicos, queremos fazer o jogo democrático de forma limpa, mas o MPLA controlou sozinho estas eleições.

A saída do deputado Abel Chivukuvuku foi um sério revés para a UNITA ou é algo que já esperavam havia muito tempo?
Primeiro, digo que o Abel é um quadro angolano como qualquer outro e se ele achou que tinha chegado o momento… O que senti inicialmente é que ele queria ser presidente da UNITA. Ele fez muito por isso, concorreu para as eleições no 11º Congresso e foi derrotado. O nome do Abel depois ficou ligado aos grupos de reflexão, até que achou que não tinha terreno aqui e foi-se embora. Agora que tenha sido um revés para a própria UNITA não, porque o Abel não mexeu na estrutura dos membros da UNITA.

Estou a lhe dizer que nós tivemos um controlo eleitoral que anda a volta dos 35 a 36 por cento, mas mesmo assim tentaram fazer tudo para baixar a UNITA e chegaram aos 32 deputados. Aqui em Luanda no mínimo teríamos eleitos três deputados. Andam aqui a dizer que a UNITA ganhou no Cacuaco, mas não foi só lá. A Viana, Kilamba Kiaxi, área do município de Belas. Tivemos sim dificuldades aqui em Luanda no centro da Cidade. Ali a UNITA tem de rever os seus métodos de trabalho para ver se encontra formas de penetração no centro da cidade, para ver se reconquista uma parte substancial de quadros que possam, a partir de determinado momento, compreender, de facto, qual é a missão da UNITA no espaço angolano. Sinto que a CASA-CE, que tem como seu líder o Abel, tirou mais membros ao MPLA e não foi buscar à UNITA.

O Huambo e o Bié podem ser considerados bastiões da UNITA?

É só ver, está demonstrado. Também teríamos tido no mínimo quatro deputados no Bié, três no Huambo, dois no Kuando-Kubango, que também é outro bastião da UNITA que temos estado a lutar para recuperarmos e vamos conseguir mesmo com a saída de ‘Black Power’ e outras pessoas. A UNITA tem projecto e vigor suficientes para voltar a liderar a área do Kuando-Kubango. Temos Benguela como nosso bastião, a Huíla, onde temos de fazer esforços em determinadas áreas para nos sentirmos à vontade, o Kuanza-Sul, onde precisamos de melhorar. Temos umas áreas onde a UNITA se sente bem, precisamos apenas de melhorar os nossos processos, as nossas lideranças, capacidade dos nossos quadros para poderem levar a mensagem e discutirmos com o MPLA na conquista destes espaços.

Nunca pensou ser presidente da UNITA, uma vez que já foi secretário-geral do partido?
A UNITA é um partido que tem um naipe de quadros que têm perfil para serem líderes da grande instituição. Temos companheiros como o Jardo, que está nos Estados Unidos da América, Lukamba Gato, Jaka Jamba, Alcides Sakala, Adalberto da Costa Júnior... Temos aqui uma vasta gama de quadros, desde que sintam que estão em altura de solucionar os problemas de Angola com certeza que vão ter programas para se poderem apresentar no próximo congresso do partido. Agora, eu não posso dizer que desta água não beberei. É possível que esteja a pensar nisso, mas também estão aí outros companheiros.

Já ouviu das pessoas argumentos de que o senhor tem um discurso muito musculado?
Já ouvi falar disso. Já me chamaram de incendiário, racista e de tudo. O que eu lhe digo é o seguinte: não aceito em nenhum momento concordar com o que se passa neste país. E o discurso musculado é dizermos a verdade. O que temos estado a dizer é apenas a verdade. Agora, estar com a minha gravata e a dizer querido Presidente está tudo bem, isso não faço. Nasci como um homem livre e vou morrer como livre. Não aceito. Então desaparecem milhões e milhões de dinheiro do país e nós estamos aqui a dizer que está tudo bem? As pessoas não têm água.

Aliás, tenho uma casa no Kilamba e há vezes em que se passa duas semanas sem água. Como é que as pessoas fazem um plano para uma cidade como aquela, tão bonita, e depois não fazem plano das águas e da energia naquela área. É muita incompetência. Se eu disser incompetente dizem que ele tem um discurso truculento, mas não é. Só estou a falar a verdade, não estou a mentir nada.

Fui ao Mundundo, quero citar este exemplo, para ir prestar solidariedade à morte de uma companheira Dina Chinossoke, morta só por ser presidente da LIMA. Para um homem como eu, que vai encontrar uma senhora morta a pedrada, que deixa filhos de colo, xuxa, que discurso é que tenho? Digo que aqui no país está tudo bem, não há problemas. Se disser que há intolerância... quem está a comandar é o fulano de tal. Porque se o Presidente da República quisesse que este país estive em paz política e social, estaríamos. Mas ele não quer. Se isto é truculência, então que seja.

Nunca se arrependeu por ter abandonado as Forças Armadas Angolanas?
Nunca, nunca. Estou muito bem.

Quais foram as razões do seu abandono?
Fui co-fundador das FAA com o general João de Matos. E o companheiro com quem iniciei a formação das FAA tinha saído, não me iria subalternizar àqueles que eram meus subalternos no ponto de vista técnico. Do ponto de vista ético também não ficaria bem. Tenho um sentido bem firme no meu posicionamento em relação ao respeito das instituições. Não me agarro a poderes nenhuns e não há um que me faz andar de joelhos. Não quis ir às FAA porque achei que não havia razões para entrar.

Os meus companheiros que entraram agora, Kamorteiro e outros eram parte de oficiais que eu tinha levado para as FAA, fizeram comigo o primeiro estado-maior com os outros oficiais que tinham vindo das FAPLA. De certeza que tinham assumido situações de protagonismo e estava muito bem. Agora eu vir para uma posição de subalternização em relação aos oficiais que tinha comandado antes estava errado. E também não sou, não tenho muita queda para ser militar, andar de botas até aos 50 anos. FAA é para os jovens que lá estão e acho que o país tem de ter políticas de transição para que os mais velhos deixem os lugares para os mais novos que vão surgindo, agora com muito mais competência e formação.

Fala-se muito que quando abandonou as Forças Armadas deixou um filho que foi criado por um oficial general muito conhecido...
Não deixei filho nem foi criado por algum general. Isso foi maldade.



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