Luanda – O sindicalista Manuel Maria Difuila é um nome que dispensa apresentações. Doutorado em História, este professor universitário já foi um dos responsáveis máximos da União dos Trabalhadores Angolanos (UNTA), instituição que abandonou para fundar, anos mais tarde, a Confederação Geral dos Sindicatos Independentes e Livres de Angola (CGSILA), onde também foi ‘afastado’ pelos seus próximos, mas não reconhece o congresso que ditou o seu suposto afastamento. Apresentando-se ainda como líder do referido sindicato, Difuila fala nesta entrevista sobre o surgimento do sindicalismo no país, os tempos que viveu no maquis, no Congo, o seu MPLA e o suposto ostracismo a que diz ter sido votado pelos seus companheiros de outrora. Tem a palavra o antigo responsável dos estudantes do MPLA, na União Soviética.

Fonte: O País

Como é que surgiu o sindicalismo em Angola e quem são os precursores?
O sindicalismo em Angola surgiu nos anos 60 do século passado, mais concretamente em 1960 na República Democrática do Congo. Isso quer dizer que a UNTA foi fundada no dia 1 de Fevereiro de 1960. Há quem diga 16 de Abril, mas é mentira, porque sou parte integrante daquela história. A União Nacional dos Trabalhadores Angolanos (UNTA) foi fundada em Leopoldville, no dia 1 de Abril de 1960. Os precursores foram Pascoal Luvualu, Bernardo Dombele e o chamando Dombe. Nesta altura, o Pascoal Luvualu foi da Federação Geral dos Trabalhadores do Congo (FGTC) e através desta organização em Leopoldville receberam bolsas de estudos para a República Democrática Alemã. Então, a participação na República Democrática Alemã naquela altura inspirou os angolanos que se encontravam em Leopoldville para criarem a UNTA. Foi assim que surgiu o sindicalismo angolano com uma certa inspiração dos que trabalhavam na FGTC.

Qual foi o papel de Mbidi Emílio no meio de tudo isso?
Mbidi Emílio surge nos anos 60, mas foi o secretário-geral adjunto da UNTA e o secretário para a educação. E depois de criar a organização em Leopoldville, que se chamava União Nacional dos Trabalhadores Angolano, surgiram alguns sindicatos dos ramos. Foi assim que nós, principalmente os jovens, naquela altura, mais concretamente nos anos 60, porque me encontrava em Leopoldville, éramos os filhos dos angolanos nascidos dentro de Angola, mas fugimos à exploração colonial. Chegados em Leopoldville os pais colocaram-nos nas escolas, mas como os anos 60 foram da libertação de África, havia uma influência muito forte sobre o socialismo e nós jovens, naquela altura, encontrámos um lugar para seguir o caminho do socialismo. Então aderimos à UNTA. Eu aderi em 1962, o mesmo ano em que aderi ao MPLA. Mas naquela altura era euforia dos jovens em pensar que é o caminho do socialismo. Entrei e no dia 17 de Setembro de 1966 cheguei à Europa, a UNTA deu-me uma bolsa de formação para a escola sindical Chiernika de Moscovo. Implica dizer que a UNTA já envia jovens para os países socialistas, Moscovo, Checoslováquia, Bulgária, e eu beneficiei.

Foi responsável do departamento de Relações Exteriores da UNTA. Nesta fase era fácil a organização ser aceite por outras instituições, uma vez que Angola ainda não era independente?
Foi já depois da independência. Porque em 1969, a formação sindical era de um ano, o que significa que estive entre 1966-1967. Em 1969 entrei na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, tudo isso também foi bolsa da UNTA. Então, a minha história da ligação com a UNTA, nas Relações Internacionais, foi a seguinte: já fui o Director Nacional da Cooperação Internacional deste país, trabalhei nos anos 80 como o chefe do departamento das Organizações Internacionais da Secretaria do Estado da Cooperação. Depois fui nomeado director nacional da Cooperação da Secretaria do Estado da Cooperação. Nomearam-me director interno, mas isso levou quase três ou quatro anos e então passei a ser director nacional da Cooperação do país. Quando saio da secretaria do Estado da Cooperação, em 1984, a UNTA entendeu que devia regressar para reforçar a organização porque fui seu bolseiro. Foi assim que na UNTA fui eleito como membro do Conselho Central e nomeado director das Relações Internacionais da UNTA, onde permaneci durante seis anos, até 1990, quando se fez a reforma dentro da UNTA.
Do qual fui parte integrante, os que estão lá se não sabem, então através desta mensagem eles vão ver os arquivos. Trabalhei, com os outros camaradas, para a UNTA passar a ser confederação sindical. Quem participou nisto fui eu, fui o primeiro secretário-geral da UNTA confederação sindical até 1996, quando me demiti. As relações internacionais na UNTA datam desde a sua fundação, levando a mensagem no plano internacional que o povo angolano estava em Luanda e a ser explorado pelo colonialismo. Nos anos 60 já me encontrava na Europa, na UNTA e como organização sindical não podíamos defender os interesses dos trabalhadores internamente, então levámos a mensagem no plano internacional explicando que o povo angolano estava ser explorado pelo colonialismo português e a sofrer porque havia guerra.

Porque razão abandonou a UNTA?
Posso dizer que não abandonei a UNTA. Posso dizer que continuo porque os ideais que defendo são os mesmos.

Então porque é que fundou a Confederação Geral dos Sindicatos Livres e Independentes de Angola (CGSILA)?
Fundei de facto. Posso dizer que em 1996, quando deixei a UNTA, foi por causa das contradições internas. Por outro lado, defendia um sindicalismo independente de todo, mas fui mal compreendido.

Não havia independência na UNTA?
Havia, mas independência sindical é coisa complicada. O que fazemos, às vezes, é ir ao 1º de Maio com panfletos, o que é discutível, porque nem toda a verdade se pode dizer. O sindicalismo é a coisa mais complicada. Como também hoje na CGSILA a independência como tal é relativa. Por exemplo, há quem pensa que ser sindicalista independente confunde-se também com as organizações políticas. Não existe nenhum ser humano chamado apolítico, o que existe são organizações que têm as suas referências perante os partidos políticos. Mas o ser humano, cada um de nós, tem a sua opção. E a minha opção desde que entrei no MPLA em 1962, em Leopoldville, foi clara: defendi sempre e segui os ideais do MPLA. Mas para algumas pessoas fui mal interpretado, inventaram coisas, mas entendo porquê. Isso até hoje continua, alguns talvez para subirem e fazerem algumas coisas têm de queimar os outros. Essa tendência na sociedade angolana é muito forte. Lamento que vocês que são jovens, que têm um futuro para viver, também tenham um caminho muito longo, porque a realidade angolana é que cada um que quer subir tem de queimar o outro, e não era necessário. Portanto, quando saio da UNTA não me declinei das minhas opções e ideais que me levaram a ser membro do MPLA, entrei em 1962, em Leopoldville, posso citar todas as figuras que conheci e que me conhecem. Muitos fingem que não me conhecem.

Há quem diga que o sindicalismo angolano está apático, não há manifestações de trabalhadores, quando sabemos que antes mesmo da independência houve movimentos do género. Há um certo conformismo em relação à situação dos próprios trabalhadores?
O que se passa é o que disse: alguns fingem ser sindicalistas, mas não o são. Esse é o maior problema que temos.

Quem é, afinal, o verdadeiro sindicalista?
O sindicalista é aquele que defende os interesses dos trabalhadores, não faz confusão, defende os interesses dos trabalhadores de acordo com a lei. Porque um sindicalista que não respeita a Lei não é sindicalista, por isso disse que muitos são parecidos com sindicatos, mas não são. Ele tem outros objectivos, mas não é sindical. Posso dizer que na forma que se interpreta no nosso país de que o sindicalista faz confusão, não é verdade. O sindicalista é aquele defensor dos interesses dos trabalhadores, mas obedecendo sempre às leis do país. É dentro da lei que vai descobrir o que está certo ou não, porque o resto é uma anarquia. Nos países democráticos, organizados, como vemos no caso da Europa, não se fazem manifestações para ocuparem cargos ou encontrarem formas de obter uns dólares. É para defender os ideais, mas não é deixar de ser apolítico. Cada sindicalista verdadeiro tem o seu partido, mas não confunde trabalho sindical ou no sindicato com o partido dele. E nós aqui parecemos ser sindicalistas mas, no fundo, não somos, é esse o motivo.

Como é que vê hoje as condições sociais e laborais dos trabalhadores?
Em princípio, não podemos dizer que neste momento as condições são as melhores ou as piores. Estamos no meio. Agora o que se exige é que se de facto há um diálogo social, num país como o nosso que sofreu tanto, porque as greves às vezes não resolvem nada temos de nos sentar com aqueles que são parceiros sociais de verdade e de boa-fé porque a situação está meio difícil. Merece a intervenção do sindicato. Mas o sindicalista está preocupado com uma viatura que não tem ou uma casa, mas isso já não é sindicalismo. Não podemos dizer que a situação é das melhores, mas também não é das piores, porque sei que a geração nova não pode fazer uma comparação porque não viveu a guerra. Mas aquilo que passávamos, de ir comprar pão na Europa, porque já comprei pão na Europa para trazer aos meus filhos em casa. Vocês já não têm este problema de ir comprar pão. Se alguém te oferecesse uma cerveja em lata nesta Angola, agradecias-lhe eternamente. Mas hoje já conseguimos e podemos ter aquilo que se buscava na Europa. O avião da Taag quando regressasse vinha cheio de caixas de carnes e tudo, o passageiro trazia coisas que não tínhamos. Há uma diferença, hoje temos carne e outras coisas. Lembro-me que um colega que estudou comigo trabalhava na embaixada da Rússia, ofereceu-me duas caixas de Coca-Cola em lata para o aniversário do meu filho, para mim foi uma coisa que deixou todos em casa satisfeitos. Por isso, digo que hoje a situação não é das melhores nem das piores e hoje o sindicalista deve discutir isso. Dizer que aqui não está certo, mas no quadro da Lei porque a República de Angola tem leis que devemos respeitar. Infelizmente há muito oportunismo mesmo a nível dos serviços, alguém tem de inventar uma forma para queimar o outro e sem necessidade. Existe uma legislação laboral e o sindicalista tem que defender os interesses dos trabalhadores de acordo com a Lei Geral do Trabalho. Neste momento, tomei conhecimento que a Lei Geral do Trabalho está a ser revista e está certo, porque a Lei dos anos 80 ou 90 já não se coaduna com a realidade actual, contrariamente o sofrimento vai continuar. O sindicalista tem que trabalhar neste sentido, infelizmente penso que não tem sido assim.

O que pensa que deve ser alterado na actual Lei Geral do Trabalho?
Creio que, no que concerne às condições sociais, financeiras - e que não se fique só no papel - que estão a criar as condições. Podemos felicitar, por exemplo, alguns esforços que estão a ser feitos na criação de escolas, hospitais. Vejo que também na área de construção de habitações, mas que seja acessível aos jovens e cidadãos necessitados que passam por dificuldades, mas há que redistribuir isso em condições que eles próprios paguem. Se tem uma casa que chega a 200 dólares mensais, por exemplo, mas ele não ganha isso, como é que vai pagar? Creio que é aqui que o sindicalista devia pensar negociar as condições sociais. Se o trabalhador vai ao serviço através daquilo que chamamos candongueiro, é preciso que se trabalhe no sentido de se criar meios de transportes acessíveis aos bolsos de cada um porque é inadmissível que isso ultrapasse o salário que a pessoa ganha. Muitas das vezes falamos no salário mínimo mas o problema não está nisso, mas sim no custo de vida. Ter um salário que lhe permite aguentar a vida da sua família e a sua própria. Porque podemos ter um salário de 500 dólares, sim senhor, porque fui um dos defensores…

Mas o professor recuou quanto à proposta de um salário mínimo de 560 dólares que havia apresentado às autoridades há anos?
Não recuei, analisei. Sou cientista e não me posso basear no entusiasmo. Vi que quando apresentámos a proposta de 560 dólares o único empregador era o Estado e hoje temos empresas privadas. Caso concreto o jornalismo privado que tem sido benéfico para a promoção da igualdade e da democracia. Mas se pensarmos que hoje em dia temos também o sector privado há que saber: será que as pequenas e médias empresas têm capacidade para pagar? Não têm. Então vamos ver o desemprego. Por isso, muitas das vezes quando se diz que o professor recuou, acho que não recuei. Adaptei-me à realidade histórica de cada momento. Aliás, eu como historiador devo-me adaptar a cada momento e não continuar porque os tempos mudam. Neste momento, o custo de vida neste país está muito elevado, então temos que analisar qual é o salário compatível, que não vai originar um batalhão de desempregados à rua. Vale mais a pena ganhar 10 do que 500 que não vai servir.

Qual seria o salário mínimo ideal, tendo em conta que o professor diz ter feito alguns estudos?
Falando a sério, nunca mais pensei nisso. Hoje em dia estou mais ligado à Universidade, analisando a minha vida, estou a participar num estudo de pós-doutoramento. Mas gostaria que os jovens que estão no sindicalismo que me consultem para lhes aconselhar. E não pensarem como alguns jovens dizem que aquele está ultrapassado no tempo e no espaço. Eles é que estão ultrapassados porque um cientista adapta-se a cada momento. Eu tenho neste momento a situação do passado, quando comprávamos uma Coca-Cola no exterior era um diamante, hoje em dia temos. Há muito lucro e procura-se saber se de facto o trabalhador angolano de base consegue. Não tenho estudos económico que me permitam responder, mas posso concluir que a situação está difícil e merece que os sindicalistas analisem com os parceiros sociais, o Governo, para que se encontre um equilíbrio.

O que pode dizer sobre o processo de angolanização nas empresas, que parece ter começado no sector petrolífero, e hoje estende-se para outros domínios?
A iniciativa é boa no processo de angolanização porque o país pertence aos angolanos. E aquilo que repito e digo é que não podemos continuar a colocar coisas no papel e que na prática não existem. Neste momento é bom, como temos muitas universidades e escolas vamos formar os angolanos para serem eles próprios a dirigirem estas empresas todas.

Apesar da formação que diz, há informações de que continuam a vir muitos técnicos expatriados. O que se passa?
Continuam, continuam a vir. Até nas universidades nomeiam-se estrangeiros para cargos de direcção. Isso existe. Há cargos de direcção onde encontras estrangeiros a dar orientações a nós antigos combatentes. Eu tenho de obedecer à orientação de um estrangeiro. Portanto, nós temos de formar e dignificar os nossos jovens formados. E a gente da minha idade não é para dirigir. Já não posso ser director ou chefe de departamento, porque já fui chefe de departamento nos anos 70, 80, agora posso servir de um bom assessor ou conselheiro. Não vou lutar por cargos. Mas contrariamente ao que temos, estamos a ser desconsiderados e vêm até estrangeiros para ser meu chefe. Eu tenho um caso concreto nestas faculdades. Será que o estrangeiro contribui mais que nós? Lutámos contra o colonialismo, a reconstrução deste país desde o primeiro dia da proclamação da independência, estávamos lá presentes, em 2013 temos que obedecer à orientação de um estrangeiro? Sempre defendi e continuo a defender que nos cargos chaves deste país temos que colocar os jovens angolanos. Se têm dificuldades, nós que temos esta idade temos de servir como conselheiros e assessores e não o contrário. Portanto, somos a favor da angolanização das nossas empresas desde que seja uma realidade e não só no papel.

Quando é que abandona Angola, vive exilado e adere ao MPLA?
O meu percurso político, para aqueles que não sabem, sou antigo combatente do MPLA, mas hoje sou tratado como antigo combatido. Não me considero como antigo combatente porque não ganho nada mesmo, mas eles sabem quando é que viram o Difuila no MPLA. O meu percurso político: eu nasci mesmo em Angola, em 1943, no município do Kuimba, na serra do Kanda, numa montanha. Vivi na minha aldeia até aos nove anos e lá não havia escola, nem primária nem igreja. Havia uma igreja em que entrávamos uma ou duas vezes por semana, às 17 horas, e lá aprendemos o I, O, A. Aos 11 anos descemos a serra até ao Kuimba, então os pais, que eram refugiados profissionais, angolanos que fugiram para procurar emprego, levaram-me. Se alguns hoje vão de carro ou de avião, eu sai de Angola até à fronteira do Congo a pé. Lembro-me de termos passado por Luvo. E foi pela primeira vez na minha vida que vi o que chamavam carro, porque na minha aldeia não chegavam. Tenho uma longa história…Não chegavam. Conheci o carro aos 11 anos.

E como foram os anos seguintes?
Nasci numa família de cinco filhos. Sou o terceiro, tenho uma irmã e um irmãos antes de mim. Para verem a pobreza como é que é, o filho que estudou fui eu. A minha irmã mais velha é analfabeta até hoje, o meu irmão analfabeto também e eu, o terceiro filho, estudei. Quando chegámos no Congo Belga levaram-me para uma escola católica, o missionário disse que “a idade que ele tinha de 11 anos já não dava para entrar numa escola primária”. Então como havia missionários do BMS (Baptist Missionary Society), que estavam em Mbanza Congo, entenderam matricular-me. É assim que comecei aos 11 anos a escola primária. Estudei numa escola primária no Congo, durante seis anos, mas a verdade é que fui um dos alunos mais fracos da minha turma. Fraco mesmo. Termino, depois fui fazer um exame de admissão, salvo erro em 1958, numa escola oficial em Leopoldville, e reprovei. Havia uma alternativa, ir a uma escola profissional com 17 anos, não consegui e reprovei, então levaram-me para uma escola que formava pedreiros e carpinteiros. Com 17 anos fui fazer a prova, aí passei, mas para ser carpinteiro. Quando terminei fui-me inscrever numa escola de horticultura, fiz o que chamavam de jogo de espírito, que são desenhos e fui admitido. Fiz quatro anos nesta escola. Entretanto, no momento que estudava nesta escola inscrevi-me na UNTA, era secretário-geral do Pascoal Luvualu e o adjunto Mbidi Emílio. Mbidi Emílio foi o meu mestre, porque na escola primária chamávamos os professores de mestre. Eu vi: se o meu mestre está neste sindicato, então vou entrar.

Mas o professor já fazia parte do MPLA?
Quando a UNTA faz, digamos, a sua adesão ao MPLA eu já lá estava em 1963. Daí que passámos a ser automaticamente membros do MPLA. Como o MPLA defendia os ideais da liberdade, independência, lutávamos porque falávamos que “havemos de voltar ao nosso país”. A consciência patriótica... Um dia um indivíduo queria ensinar-me a história do MPLA, mas não voltou mais. Ele é que sabe. Mas em 1962-63  transitámos directamente para o MPLA. A primeira reunião que nós tivemos foi na avenida Major Kamby, em Kinshasa, Taboura, onde era a sede do MPLA e ao lado estava o Corpo Voluntário de Assistência aos Refugiados (CVAR), uma das pessoas que conheci nesta reunião, e que nos deu uma palestra sobre a exploração colonial de Angola, foi Lúcio Lara “Tchyweka”. Falando a verdade, quando saio de Angola com os meus 11 anos não sabia que éramos colonizados, que havia exploração, nem tão pouco conhecia esta palavra. O tema dele foi a exploração colonial em Angola. Olhei para ele e disse: possas, este homem sabe muita coisa.

Quem indicou o nome do professor para ser bolseiro na Rússia, onde chegou a ser responsável dos estudantes que lá estavam?
A UNTA deu-me bolsa para formação sindical, em 1969 passei na Universidade da Amizade dos Povos a estudar. Fui eleito pelos estudantes que eram naquela altura membrom da secção Comandante Hojy Ya Henda, como se chamava a nossa associação de estudantes na Rússia. Se você não fosse do Movimento Popular de Libertação de Angola não podia lá ficar, todos estavam lá. Num congresso ordinário, realizado pela União dos Estudantes Angolanos, em Rostovnadanun, em 1972, fui eleito responsável dos estudantes angolanos na União Soviética.

Ainda se lembra de alguns estudantes que estavam nesta altura na União Soviética?
Não é ético citar o nome dos que estavam em vida, mas estava o Mankenda Ambroise, que está na Geologia e Minas, se a memória não me falha esteve também o falecido Nelumba e outros. Depois o MPLA mandou credenciarem-me junto das universidades e do comité de solidariedade da União Soviética. Da 2ª região veio um credencial assinado por Tchyweka, que é o Lúcio Lara. Este documento foi para todas as organizações, comité soviético de solidariedade, comité das mulheres e todos os homólogos. É assim que passei a ser o representante dos estudantes do MPLA na União Soviética até 1973, ano em que fui substituído pelo falecido médico Eduardo Nelumba. Substituiu-me porque estava na véspera de ter terminado os meus estudos de mestrado, que defendi no dia 28 de Julho de 1974.

Até hoje continua a ser membro do MPLA?
Eu nunca confundi, os meus detractores é que queriam inventar partidos. Sou membro do MPLA da primeira hora e serei também da última hora. Até hoje tenho o meu cartão, talvez a diferença é que não participo em reuniões.

Vê alguma continuidade nos ideais que o MPLA defendia naquela altura e hoje?
Bom, como não participo em reuniões é difícil dar respostas. Mas o Governo do MPLA está a cumprir as suas promessas, porque se temos aqui hoje um projecto como o Nova Vida é porque cumpriu. Há os que criticam, porque é fácil criticar, mas é difícil fazer alguma coisa. Posso dizer é que o MPLA para muitos pode não ser o melhor, mas também melhor que o MPLA neste país não existe. Podem ser alguma coisa, mas melhor que o MPLA não vejo. O MPLA é o melhor partido.

O professor chegou a ser sondado para ser o responsável do departamento de história do MPLA, recebeu uma guia, mas não ocupou o cargo porque já tinha uma outra pessoa. O que se passou?
Eles até foram simpáticos comigo. Foram eles que me chamaram. Não vou fazer aquilo que muitos angolanos fazem e depois vêm para te destruir, porque aquele senhor que se auto-intitulou presidente da CGSILA fui eu que lhe chamei para vice-presidente.

Chegou a receber a guia ou não?
Eu sou um dos colaboradores directos do coordenador da comissão. Aquilo é uma comissão militar, lógico que um militar é que deveria lá estar, mas estou satisfeito pela forma como sou tratado. Não tenho razão de queixa, os companheiros do estado militar, da direcção de investigação têm-me tratado bem.

É verdade que houve um momento da vossa vida em que havia uma proposta para se deslocar a Cuba, mas algumas pessoas pediram-lhe que não fosse, uns até se ajoelharam para o efeito?
Nunca aconteceu, é mentira. Nunca fui chamado para ir a Cuba. Sou antigo combatente, posto no túmulo do soldado desconhecido, como antigo combatido. Porque já me esqueceram completamente. Nunca fui chamado por ninguém. Aliás, não lhes faço falta, mas a verdade é que a UNESCO deu-me um diploma.

Acha que a História de Angola está bem tratada, tendo em conta que recentemente o Presidente da República criou uma comissão para a recolha de fontes orais?
Se está bem tratada ou não eu não sei. Mas a verdade histórica é que sou historiador, tenho mestrado e estou a fazer pós-PhD do doutoramento em História. Agora se me afastam é porque sabem o que fazem. E comecei a escrever e a falar da história de Angola e do MPLA em 1974. Os que me afastam hoje sabem melhor do que eu. Temos que ser também honestos, o que significa que eles conhecem melhor a história do MPLA, mas a verdade histórica é que em 1974 a tese da minha defesa foi a luta do MPLA.

Quais são os principais acontecimentos históricos que pensa terem sido esquecidos na história de Angola?
Penso que a parte da história que deve merecer um destaque na história de Angola é valorizar e dignificar todas as pessoas que participaram na luta contra o colonialismo português. Não éramos nós só, os do MPLA, mas também outras figuras. A história não pode fugir aos factos históricos que marcaram a história de Angola. Há nomes hoje em dia que estão completamente esquecidos.

Pode citar alguns destes nomes?
Por exemplo, eu mesmo. Lógico. Da forma que me meteram no túmulo do soldado desconhecido, sim. Já fui representante dos estudantes do MPLA na União Soviética, nos anos 70, fui o primeiro angolano a abrir uma faculdade na Universidade. Quem foi o responsável máximo da faculdade no Lubango, logo após a saída do colono, fui eu. Posso lhe dizer hoje em dia que há faculdades onde não tenho cadeira na licenciatura e mestrado. Isso é difícil entender. Entretanto, participei na libertação deste país. O estrangeiro licenciado tem trabalho, mas eu estou desemprego. Sou esquecido.  

Como é que está a situação na CGSILA?
Alguns dizem que há uma situação interna na CGSILA, mas digo e repito que aqueles que dizem isso estão enganados. Na CGSILA não há nenhuma situação interna.

Considera-se presidente da CGSILA?
Mas vocês que me estão a colocar a questão não vêem que isso é ridículo. Não é vocês, os que pensam nisso também. Isso é inédito, nunca se viu em nenhum país do mundo um fundador de uma instituição ser expulso. Talvez só em Angola. O fundador da CGSILA sou eu e tenho consciência de que na minha idade não é para dirigir mais, mas sim servir de conselheiro. Se existe CGSILA em Angola foi porque eu dei o nome, quando pensei no nome estava em minha casa, na Maianga. Hoje em dia, em 2013, vão expulsar o Difuila. Isso tem lógica? É inédito. É para ver que num país onde isso acontece começamos a colocar todos em dúvida. Eu sou o presidente da CGSILA e não há mais ninguém. Não é porque quero ficar eternamente, não é verdade, o problema é os que fizeram o 3º congresso ordinário, mas nós chamamos àquilo suposto 3º congresso ordinário ilegal da CGSILA.

Mas o professor esteve presente no congresso?
Não é presente, porque não participei. Assinei aquele papel para ver quem são os delegados, uma vez que não tinha havido conferências preparatórias. Os delegados foram seleccionados criteriosamente. Tenho documentos que posso apresentar, os delegados não foram eleitos, contrariamente ao que diz os estatutos. São delegados que foram escolhidos criteriosamente pelo senhor Avelino Miguel, como é jornalista vocês apareceram em bloco. Eu vi com os meus olhos. Os que conhecem o direito sabem que você não pode impugnar um congresso se não estás presente. A mesa da presidência, segundo a acta publicada no Diário da República, diz que estava o senhor Avelino ladeado do seu capanga secretário-executivo. Esta palavra ladeado foi colocada, ladeado é quando tem dois lados, mas agora ladeado com uma pessoa? Que tipo de português é esse? Eles deviam pôr aí acompanhado. E está no Diário da República. Não consigo entender a diferença entre o Diário da República, um órgão oficial do Estado, e alguns jornais privados vendidos aos sábados e domingos. Aquele artigo que meteram no Diário da República, IIIª série, n.º 67, de 11 de Abril, é vergonhoso para a República de Angola, meter mentiras, como acta do 3.º congresso, que está cheio de sofismas, mentiras e estão a levar isso a nível do mundo. E o que está lá é que Manuel Difuila foi expulso, não é ridículo isso? O Manuel Difuila é o fundador da CGSILA, vai ser expulso? Sou cientista deste país conhecido no plano internacional, posso apresentar o meu diploma da UNESCO, que me foi atribuído pelo director-geral desta organização pelo meu mérito científico. Portanto, isto é uma brincadeira de mau gosto, é ridículo. Significa que os autores do tal congresso conseguiram induzir o Diário da República em erro e enganar o país. Desde quando num Diário da República vai-se colocar palavras como “o Mais velho Difuila tentou boicotar”. Isso ridiculariza-nos. Se eu fosse alguém com algum poder neste país mandava pôr no lixo.

 

 

 



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