Paris - “A ausência efectiva de uma critica literária angolana e a falta de tradução das obras para outras linguas têm sido alguns dos factores de constrigimento da literatura angolana em Angola e fora do país”, considerou o escritor e editor literário Jacques dos Santos que animou nesta quinta-feira, na sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, uma palestra sobre “O Percurso da Literatura Angolana”.

Fonte: Club-k.net

Na sua abordagem histórica, Jacques dos Santos lembrou os momentos que antecederam a autonomia da literature moderna com os escritos de António de Assis Junior, em O Segredo da morta cuja narrative é um marco importante para a emancipação da literatura angolana face à literatura ultramarine ou colonial.

Ao mesmo tempo, o também Presidente da Associação Cultural Chá de Caxinde debruçou-se sobre o florescimento de jornais desde o final do século XX até meados do século XX onde vários autores se foram destacando.

No tocante à poesia, palestrante considerou que a obra de Tomás Vieira da Cruz traz já um olhar de fora, mas não distanciado, ao passo que os escritos de Castro Soromenho resgatam a vida dos sertões de Angola.

Para Jacques dos Santos, um momento importante para a literatura angolana da-se na antiga Sociedade Cultural de Angola, cuja revista “Cultura”, publicada em duas fases distintas, torna-se o veículo das vozes que clamam pela independência utilizando sobretudo a poesia e o ensaio mediante o resgate dos temas angolanos.

No entanto, citando António Jacinto, Jacques dos Santos lembrou que o movimento que se propunha “franquear a muralha do silêncio entre os anos 40 e 50 é o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola que se engajou em torno do “Vamos descobrir Angola”.

Por outro lado, e numa reflexão sobre a poesia angolana de hoje, Jacques dos Santos identificou alguns dos vectores que a carecterizam com destaque a transgresão e a metalinguagem por via de uma recreação das formas orais, e uma recreaçao ou rupture de modelos anteriores citando o caso de Frederico Ningi.

Para o palestrante, há uma grande propensão para o aparecimento de novos escritores, sobretudo ao nivel da poesia. “Todo o jovem angolano quer ser poeta, mas precisam trabalhar mais porque há muita falta de qualidade e não preocupaçao em aprimorar-se a qualidade do que se publica”.

Apesar de emergirem poucos talentos, destacou o facto de surgirem autores novos que se impõe no panorama actual como é o caso de Ondjaki que acaba de vencer um prémio literário em Portugal, reduto onde a literatura angolana, fora de Angola é mais conhecida.

Em relação aos demais países fora do espaço da lusofonia, Jacques dos Santos considera que precisam ser revistas algumas políticas e instituições. Em seu entender, as editoras precisam ter melhores condições para editar os seus livros e autores fora de Angola. Segundo disse, “a primeira grande dificuldade é a tradução”.

“É muito pouco e vejamos quem são os autores angolanos que são lidos no estrangeiro: Ondjaki, Agualusa, Pepetela, Manuel Rui são os poucos que as editoras portuguesas e eventualmente francesas editam. E os outros. Há tantos bons escritores, não em número considerável, mas temos muitos autores que mereciam ser mais divulgados e de facto temos de fazer alguma força para que isso aconteça”, afirmou.

Essa questão foi corroborada pela moderadora da palestra, Professora Benedita Basto da Universidade Sorbone - Paris IV, para quem o estudo dos autores angolanos tem esbarrado na ausência de obras e autores traduzidas. “Muitas vezes temos apenas uma obra traduzida e isso tem sido um verdadeiro obstáculo para um melhor conhecimento dos autores angolanos”.

E Jacques dos Santos completa: “Pepetela, Manuel Rui e Luandino Vieira são muito conhecidos fora de Angola. Mas temos material para mais, precisamos é que as suas obras sejam traduzidas principalmente para inglês e francês, mas estes são custos que nem sempre as pequenas editoras estão em condições de assumir”.

Durante cerca de duas horas, e diante de uma audiência onde se destacava o Embaixador de Angola em França, Miguel da Costa e alguns diplomatas e cidadãos angolanos, portugueses e franceses, Jacques dos Santos falou ainda sobre a problemática do livro e da leitura. Por isso, em seu entender, as bibliotecas escolares deveriam ser obrigadas a adquirir alguns dos títulos dos autores nacionais e este movimento ajudaria a que as tiragens se esgotassem mais rapidamente.

Concordando com o que o PR afirmou recentemente no discurso sobre o Estado da Nação em apostar na “melhoria da qualidade do ensino a todos os níveis, fundamentalmente no ensino primário e secundário”, Jacques dos Santos considera entretanto que “é o sistema de ensino, por intermédio dos professores, que melhor desempenharia um papel vital para estimular as crianças e jovens a desenvolverem hábitos de leitura”.

Esta palestra insere-se no programa da semana cultural angolana em Paris. Para está sexta-feira haverá uma mesa redonda com historiadores, antropólogos e outros interessados em sociedade e história Africana, para analisar a vida da Rainha Njinga Mbandi e o seu contributo na resistência contra a ocupação colonial no Ndongo.

Manifestando-se contra a adopção do acordo ortográfico da língua portuguesa, Jacques dos Santos que nas próximas gerações o angolanês poderá ser também uma variante da lingua portuguesa.

Jacques Arlindo dos Santos é o autor de obras como o “ABC do BO” e “Chove na grande Kitanda”. Tem no prelo o seu primeiro romance, Quimera dos Trópicos, cujo lançamento deverá ocorrer em 2014 no âmbito dos 25 anos da Chá de Caxinde, associação e editor que preside.



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