Lisboa – Angola "utiliza" e "utilizará" Portugal como uma plataforma para se posicionar no tabuleiro mundial, considera o investigador Manuel Ennes Ferreira, reconhecendo que as relações bilaterais precisam agora de "tempo" para se comporem.

Fonte: Lusa
Em declarações à Lusa, à margem do lançamento do livro "A Governação de Sociedades Anónimas nos Sistemas Jurídicos Lusófonos", na quinta-feira ao fim da tarde, o investigador do Grupo África do Instituto Português de Relações Internacionais sublinhou que Portugal "serve de ponto de intermediação" entre Angola e o resto do mundo.

Portanto, sendo verdade que Angola "vai criando condições para ser mais bem admitida na cotação da credibilidade internacional", o que lhe permitirá "fazer directamente alianças", Portugal não é apenas mais uma peça, será sempre "uma peça muito importante", assinala o professor de Economia do Instituto Superior de Economia e Gestão e consultor de organizações internacionais como o Banco Africano de Desenvolvimento.

Angola "utilizará" Portugal como plataforma "até que haja condições para que, de uma forma aberta e directa, possa ir para mercados internacionais", avalia, notando, porém, que tal "não significa que (...), a partir de determinada altura, Portugal deixe de estar na rota dos interesses económicos angolanos, não deixará de estar".

Ao contrário, acredita, Portugal "vai reforçando cada vez mais" esse papel, apesar de, "muitas vezes", as autoridades tecerem "considerações (...) de forma rápida e leviana", admite, acrescentando que as reacções angolanas a essas "considerações" são "justificáveis em determinados momentos, mas noutros não".

Reconhecendo que as relações bilaterais foram sacudidas por "um frisson um bocado complicado", Manuel Ennes Ferreira arrisca uma explicação: "Quando o amor é assolapado, tudo é irracional, a história mostra isso individualmente e entre os países também."

Em causa está o "desconforto" gerado pelas investigações judiciais do Ministério Público português a individualidades angolanas, incluindo as filhas do Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, o vice-presidente de Angola, um dos ministros de Estado e o procurador-geral da República.

Na sequência da divulgação de detalhes sobre essas investigações pela imprensa portuguesa, José Eduardo dos Santos afirmou, no discurso sobre o Estado da Nação, proferido a 15 de Outubro: "Só com Portugal, as coisas não estão bem. Têm surgido incompreensões ao nível da cúpula e o clima político actual, reinante nessa relação, não aconselha à construção da parceria estratégica antes anunciada."

Sobre a cimeira luso-angolana, anunciada em Julho de 2010 e prevista para Fevereiro de 2014, o chefe da diplomacia angolana, Georges Chicoti, disse não ter "muita certeza" sobre a sua realização.

"Angola quis mostrar algum desconforto, pelas figuras envolvidas, pela imagem que envolvia Angola", realça Manuel Ennes Ferreira, confessando que ficaria "admirado" se a reunião sobre a parceria estratégica entre Portugal e Angola se realizasse efectivamente em Fevereiro.

"Vamos ver se em Fevereiro haverá a dita parceria, mas, assim à partida, ficaria um bocado admirado se a dita reunião ocorresse nos moldes em que estava definida anteriormente. Se ocorrer é bom sinal, obviamente", frisou, estimando, porém, que "é preciso dar um bocado de tempo para que as coisas se componham" nas relações entre os dois países.



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