Lisboa - Pelo menos em três ocasiões que a Procuradoria Geral da República (PGR) inqueriu os elementos do Serviço de Inteligência e Segurança de Estado (SINSE), que se encontra sob custódia da justiça por causa dos assassinatos de Alves Kamulkingue e Isaías Cassule, forneceram elementos de informação sob o “modus operante”, ao qual incluem o papel do Governo Provincial de Luanda (GPL).

Fonte: Club-k.net

Segundo, informaram nos interrogatórios sempre que se anunciassem intenções de realização de manifestações ou protestos em Luanda, e os interessados (manifestantes) escrevessem ao governador de Luanda, Bento Francisco Bento, para comunicar conforme determina a Constituição, este, por sua vez, fazia chegar as correspondências ao SINSE, solicitando levantamento dos dados pessoais dos organizadores/líderes da anunciada manifestação.

O SINSE, por sua vez, colocava no terreno os seus homens que atendem pelo código OV (abreviação de observadores visuais) para identificar os cabecilhas e, dias antes das manifestações, facultavam os dados a Polícia Nacional para que estes os prendessem. Dai a Polícia Nacional prendia por dois ou três dias em diferentes cadeias, e depois soltava-os até que o tema da manifestação terminasse junto da sociedade civil.

Caso Kamulingue

De acordo com os mesmos, quando se tentou realizar a manifestação do dia 27 de Maio de 2012, o SINSE tomou conhecimento da mesma através do GPL e tiveram outros suplementos através do próprio Alves Kamulingue que se comunicava com alguém da segurança de Estado que se fazia passar por amigo.

Os mesmos assumem que neste dia foram os homens do SINSE que prenderam Alves Kamulingue e o entregaram a Polícia Nacional. Conforme explicaram, a PGR, este era o procedimento muito  normal que se fazia.

Naquele periodo, a então comandante provincial da Polícia de Luanda, Elizabeth Ramos Frank “Beth”, se encontrava ausente do país, e era o seu adjunto para área operativa, o comissário Dias do Nascimento Fernando Costa, quem estava a interina-la.

Conforme revelaram, o comandante Dias do Nascimento Costa telefonou para o delegado adjunto do SINSE, Augusto Mota, e este foi ter com ele no quilómetro 44, na companhia do Chefe dos serviços de Viana, João Fragoso. Postos no local, os dois responsáveis do SINSE de Luanda, contam que, encontraram Alves Kamulingue amarrado e já sem vida.

Ao regressarem do local do crime, Augusto Mota telefonou para o delegado provincial do SINSE, António Manuel Gamboa Vieira Lopes “Tó”, informando que os colegas da polícia/DNIC “limparam” Alves Kamulingue. Augusto Mota confirmou, na altura, que presenciou os seus colegas da polícia a executarem o activista mais nada poderia fazer para impedir.

Durante aos interrogatório na PGR, os elementos do SINSE foram questionados se em algum momento receberam ordem do seu então superior, Sebastião Martins, e estes disseram que “não” e esclareceram que naquele momento o antigo DG dos Serviços Secretos se encontrava ausente do país. Foram igualmente questionados, o porque não o informaram do que se estava a acontecer.

De momento, as autoridades procuram entender quem terá dado aos homens liderados pelo comandante Dias do Nascimento, as ordens para execução de Alvés Kamulingue, visto que tanto o ex-ministro do Interior, Sebastião Martins, e a ex-comandante provincial Elizabeth Frank “Beth”, os seus superiores hierárquicos, se encontravam ausentes. 

Morte de Isaías Cassule

Quanto à morte de  Isaías Cassule,  líder do Movimento Patriótico Unido, os responsáveis do SINSE revelaram que o “homem do GPL” contactou Augusto Mota pedindo o número de telefone do activista. O “homem do GPL”, referenciado atende pelo alcunho de “Tcheu” e tem sido apresentado como escolta do governador de Luanda, Bento Francisco Bento (este dirigente do partido no poder já  esclareceu publicamente que o mesmo faz parte de um suposto gabinete técnico do Comité Provincial do MPLA de Luanda).

Logo após ter sido raptado por “Tcheu”, o activista Isaías Cassule foi levado para uma esquadra da Polícia Nacional, onde foi sujeito a sessões de torturas. Cassule não resistiu tendo perdido a vida. Ele terá sido esquartejado e as partes dos seus corpos atiradas numa área do rio Dande, habitada por jacarés.

Depois de regressarem da operação de assassinato, o agente “Tcheu”  telefonou para o ex-delegado adjunto do SINSE, Augusto Mota, para transmitir que “o presunto” (termo por ele usado para descrever Isaías Cassule) estava morto e que desfizeram-se nos seus restos mortais. 



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