Kiev - Oleksander Turchinov, novo presidente do Parlamento e aliado da antiga primeira-ministra Iulia Timochenko, foi nomeado chefe de Estado interino da Ucrânia até próximas eleições, agendadas para Maio. A decisão foi tomada pelos deputados numa sessão em que começou a ser desmantelada a estrutura de poder montada desde 2010 por Viktor Ianukovich, o Presidente destituído no sábado, 22/02,  e cujo paradeiro é desconhecido.

Fonte: Público
A praça da Independência, transformada por meses de protesto numa quase zona de guerra, amanheceu tranquila, depois de na noite de sábado uma multidão ter festejado a fuga de Ianukovich e escutado o primeiro discurso da antiga primeira-ministra Iulia Timochenko, libertada da prisão horas antes. Ao longo da manhã, a praça foi-se enchendo de pessoas, mas o ambiente era sobretudo de expectativa e celebração, relatam os jornalistas no local.

A AFP conta que algumas lojas nas imediações da praça abriram portas, depois de vários dias encerradas por causa da violência. Os serviços de defesa organizados pela oposição mantinham-se de guarda às barricadas e aos edifícios públicos agora em seu poder. Ali perto, porém, a sede do partido comunista, aliado do Presidente destituído, foi saqueada e vandalizada por manifestantes. “Assassinos” e “escravos de Ianukovich, escreveram na fachada do edifício.

Turchinov, eleito na véspera presidente do Parlamento, abriu a sessão deste domingo avisando os deputados que é preciso preencher o vazio de poder. “Peço aos deputados que iniciem de imediato as discussões para a constituição de uma nova maioria parlamentar e a formação de um governo de unidade nacional. Isso deve ser feito até terça-feira”, afirmou. Vice-presidente do Pátria, o partido de Timochenko, o novo presidente interino é considerado um confidente da antiga primeira-ministra, sendo como ela oriundo de Dnipropetrovsk, cidade no Leste. Após a revolução Laranja, em 2004, chefiou os Serviços de Segurança do Estado, escreve a Reuters.

“Não temos muito tempo”, admitiu Vitali Klitscho, um dos líderes da oposição, que confirmou à BBC que será candidato às presidenciais, que o Parlamento quer realizar a 25 de Maio. A AFP adianta que os dirigentes dos três partidos da oposição e representantes dos deputados dissidentes do Partido da Regiões estiveram reunidos toda a noite para discutir a formação de um novo executivo.

Os assessores de Timochenko revelaram que a antiga primeira-ministra falou ao telefone com a chanceler alemã, Angela Merkel, que a felicitou pela saída da prisão e lhe pediu para que se empenhe na defesa da integridade territorial da Ucrânia, respondendo também às preocupações da população do Leste. Timochenko fez saber, porém, que não pretende assumir novamente o cargo de primeira-ministra, para o qual, afirma um comunicado publicado no seu site, teria sido convidada.

Parlamento nacionaliza mansão de Ianukovich

Além da eleição do novo presidente interino, os 324 deputados que se mantêm em funções aprovaram por unanimidade a restituição ao Estado de Mejiguiria, residência que a oposição diz ter sido ilegalmente privatizada e que Ianukovich transformou num luxuoso complexo – populares e jornalistas que entraram sábado na residência impressionaram-se com uma jardim zoológico privado, réplicas de um galeão e de ruínas romanas.

Na sessão da manhã foi também aprovada a destituição dos ministros dos Negócios Estrangeiros e da Educação. E o magistrado que a oposição indicou para assumir interinamente a procuradoria-geral anunciou que foram emitidos mandados de captura contra o seu antecessor, um dos responsáveis pela acusação que levou à condenação de Timochenko, em 2011, e contra o antigo ministro do Tesouro. Os novos responsáveis confirmaram também a abertura de inquéritos para apurar os responsáveis pela morte de dezenas de manifestantes, na terça e quinta-feira em Kiev, e investigar suspeitas de corrupção e abuso de poder sobre o círculo de Ianukovich.

Foi ainda anulada a lei que permitia o reconhecimento do russo como língua oficial nas regiões onde a população russófona fosse superior a 10%. A iniciativa, aprovada por 232 votos a favor, foi saudada por Oleg Tiahnibok, líder do partido de extrema-direita Svoboda, mas promete gerar grande contestação no Sul e Leste do país, região com fortes ligações à Rússia e onde a maioria da população fala russo.

Ianokovich em fuga

Multiplicam-se, entretanto rumores sobre o paradeiro do Presidente destituído e dos seus ministros, com diferentes fontes a afirmar que vários terão sido detidos quando tentavam sair do país.

Ianukovich abandonou Kiev na noite de sexta-feira para sábado, horas depois de ter assinado um acordo com os líderes da oposição que não satisfez as ruas. Várias fontes asseguraram que estaria Kharkov, no Leste do país, e numa declaração pré-gravada difundida ontem garantia que não se demite nem reconhece as decisões tomadas pelo Parlamento.

Ao final do dia, a polícia fronteiriça disse ter recusado autorização para que o avião de Ianukovich levantasse voo do aeroporto de Donetsk em direcção à Rússia, mas a informação não foi confirmada oficialmente. Um porta-voz disse já neste domingo à agência AP não saber onde está o Presidente destituído.

Num comunicado divulgado já neste domingo, os deputados dissidentes do Partido das Regiões condenam a “traição” e a “fuga cobarde” de Ianukovich, sublinhando que é dele, e do seu círculo de colaboradores, a responsabilidade pelas “ordens criminosas que levaram à perda de vida” e pelas decisões que “arrastaram o país para a beira do precipício”.

"Os heróis nunca morrem", disse Timochenko

Horas depois de ter saído da prisão, Iulia Timochenko falou aos milhares de pessoas que a esperavam na Praça da Independência de Kiev. “Os heróis nunca morrem”, disse ela quase a chorar, e a multidão respondeu num cântico: “Os heróis nunca morrem. Os heróis nunca morrem”.

Timochenko, a maior rival política do Presidente, agora demitido, estava presa há dois anos e meio, num processo com mais do que prováveis motivações vindicativas. Ao dirigir-se aos manifestantes da Maidan, no dia em que tudo aconteceu na Ucrânia, tentou incluir-se nas malhas do movimento contestatário, assumindo-lhe a herança e a liderança.

“Lamentei tanto não estar aqui, quando vocês lutavam nas barricadas, sem poder trabalhar para que tudo fosse feito de forma pacífica”, disse ela, na sua cadeira de rodas, com as suas tranças louras. “Quando vi na televisão um rapaz cair ferido e os outros a arriscarem a vida para o irem ajudar, eu chorei e rezei”, contou ainda, antes de começar a dar ordens: “Ninguém tem o direito de deixar esta praça enquanto não mudarmos o país. Enquanto não tivermos a certeza de que há uma autoridade que não permitirá que o país volte para trás, ninguém tem o direito de sair daqui.”

A multidão aplaudiu, mas não foi a apoteose. Para os milhares de manifestantes armados de bastões, escudos e capacetes, era demasiado para um só dia. Estavam esgotados, atordoados pelo seu próprio poder, num dia em que de manhã esperavam um massacre e à tarde já guardavam as portas do Parlamento.

Foi lá, no edifício à volta do qual costumavam manifestar-se os apoiantes do regime, que a situação começou a virar. Ao fim da tarde, o Parlamento demitiu o Presidente do país, Viktor Ianukovitch, cumprindo a exigência dos milhares de pessoas que se manifestaram durante meses na Praça da Independência de Kiev.

A votação decorreu quando os manifestantes já controlavam a cidade, de súbito esvaziada de forças policiais e militares, e o Presidente já voara oportunamente para Kharkiv, a segunda cidade do país e a mais próxima da Rússia, geográfica e afectivamente.

De lá, Ianukovitch anunciou, numa entrevista televisiva, que não aceitava a decisão do Parlamento, que classificou como "ilegal" e "golpista", conduzida por forças nazis. Deu a entender que se preparava para regressar a Kiev e reassumir as suas funções como se nada fosse, mas ninguém acreditou. O palácio presidencial encontrava-se desde o início da tarde abandonado, sem qualquer força de segurança que o guardasse, e pelo interior da residência de luxo do chefe de Estado já grupos de manifestantes recolhiam lembranças e se espantavam com a piscina interior, as salas de massagens, etc. Ou seja, por muito que o desejasse, Ianukovitch não teria para onde voltar.

Quem voltou foi Iulia Timoshenko, líder do Pátria, o maior partido da oposição, e líder da chamada Revolução Laranja, que em 2004 conseguiu anular as eleições que davam a vitória a Ianukovitch. Mas não é claro o papel que poderá vir a assumir na nova estrutura do poder. Timoshenko, que foi primeira-ministra durante cerca de três anos, é por muitos conotada com a oligarquia corrupta e muito daquilo que hoje fez cair o regime.

Aliás, nada é certo neste momento na Ucrânia. O poder está na rua, e não se sabe quem domina a rua. Em algumas horas, os deputados no Parlamento afadigaram-se a fazer História. Anularam a Constituição, repondo o texto de 2004, convocaram eleições presidenciais para 25 de Maio, nomearam o número dois do partido Pátria, Oleksander Tourtchinov, para presidente da assembleia, com carácter provisório, para que possam ser aprovadas novas leis, anunciaram a constituição de novo Governo, aprovaram uma moção condenando qualquer tentativa de dividir o país.

Tudo isto enquanto cá fora tudo mudava também. Pela manhã, na Maidan, a Praça da Independência, os manifestantes organizavam-se em brigadas de combate, juntando todos os grupos armados numa Unidade de Auto-defesa de Maidan, reforçavam as barricadas, acendiam fogueiras, dispunham colunas de pneus, traziam camiões e blindados roubados à polícia, para ajudar a bloquear os acessos. Filas de pessoas passavam de mão em mão as pedras que acumulavam em montes dispostos estrategicamente, para serem facilmente alcançadas e lançadas contra os polícias.

Vários carros com os corpos de pessoas mortas nos confrontos dos últimos dias entraram na Praça. Os corpos foram retirados dos carros, mostrados à multidão, que gritou “Heróis! Heróis!”. Os mortos são levados a seguir para as suas regiões de origem. A mãe de um dos assassinados disse: “O meu filho não era um extremista nem terrorista. Só estava a manifestar-se, como todas as outras pessoas.”

Após um dia de paz, que se seguiu a outro de violenta repressão, com mais de 80 mortos, esperava-se um novo ataque da polícia ou dos militares. Ianukovith anunciara um acordo com a oposição, que ninguém levou a sério. Era decerto uma manobra de diversão, para ganhar tempo. Ninguém mata 100 pessoas em três dias, com a ajuda de snipers altamente especializados, para a seguir desistir de tudo, pensava-se na Maidan.

Mas nada aconteceu. E quando os primeiros camiões carregados de manifestantes se aventuraram pelas ruas da cidade, encontraram-nas vazias. Não havia polícias, não havia militares. A cidade era deles agora.

“Vamos ao Parlamento, e lançamos cocktails molotov sobre todos os deputados do (Partido das) Regiões”, alvitrava um manifestante ensanduichado entre centenas na caixa aberta de um camião. “Não”, respondia outro. “Vamos esperar que eles resolvam as questões lá dentro, de forma pacífica”.

No Parque Marinski, em frente ao Parlamento, começaram a concentrar-se centenas de manifestantes. Ali, onde, desde que os protestos começaram, no fim de Novembro, se reuniam frequentemente os apoiantes de Ianukovitch, restavam agora apenas restos de estrados, de bandeiras, de merendas. Alguns manifestantes removiam estes vestígios, preparando o local para um novo tipo de festa, enquanto, porém, um grupo de médicos já montava um hospital de tendas, para ajudar os feridos de um eventual confronto. “Eles disparam a matar”, disse Andrei, 27 anos, voluntário e médico dentista. “Dispararam sobre duas pessoas da Cruz Vermelha, que estavam bem identificadas.”

Ali ao lado, alguém já erguera uma espécie de altar, com um crucifixo e velas acesas, onde várias mulheres se ajoelham para rezar. Como as portas do Parlamento se encontrassem de súbito evacuadas de polícia, alguns jovens de capacetes, bastões e escudos assumiram os seus lugares, assegurando, de cócoras, que os deputados da nação cumpriam adequadamente a sua função.

A notícia da libertação da cidade correu depressa, e a meio da tarde já milhares de pessoas se concentravam junto do Parlamento. Não já os activistas do costume, com os seus equipamentos de combate, mas grupos de estudantes, famílias com crianças.



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