Kiev - Olexandre Turchinov, eleito neste domingo, 23, Presidente interino da Ucrânia, depois da destituição de Viktor Ianukovitch, é um pastor evangélico, autor de romances de ficção-científica, com uma carreira política indissociável da de Iulia Timochenko.

Fonte: DN
Desde os finais dos anos 1990 que a carreira deste homem de 49 anos, nascido na cidade de Dnipropetrovsk, na Ucrânia Oriental, anda lado a lado com a da "musa" da Revolução Laranja, Iulia Timochenko, nascida na mesma cidade.

"Um dos traços de Turchinov é que, desde que entrou para a política, sempre fez o papel de número dois", apontou o analista político Volodymyr Fessenko.

O analista disse que ele não deverá querer um cargo demasiado exposto nem deverá ser candidato às eleições presidenciais. "Ele será sempre um fiel escudeiro de Timochenko", previu Fessenko.

Com uma pós-graduação pelo Instituto de Engenharia Metalúrgica em Dnipropetrovsk, feita na altura da 'perestroika', Turchinov trabalhou durante pouco tempo como operário numa fábrica de aço para rapidamente arrancar com a sua carreira política na década de 1990.

Em 1993, tornou-se conselheiro económico do Presidente Leonid Kuchma e em 1994 criou o partido Gromada, que viria depois a ser dirigido por Pavlo Lazarenko em 1997, ex-primeiro-ministro de Leonid Kuchma, hoje em dia preso nos Estados Unidos da América por fraude e lavagem de dinheiro.

Iulia Timochenko, na altura à frente de uma grande companhia energética, entrou então para as fileiras do partido, com Turchinov a tornar-se desde logo a sua sombra.

Os dois foram eleitos deputados em 1998, tendo criado um novo partido, o Batkivchtchina (Pátria), depois de divergências dentro do Gromada. Apelidada de princesa do gás, Iulia Timochenko tornou-se a figura principal do partido e pouco tempo depois foi nomeada vice-primeira-ministra.

O Batkivchtchina tornou-se o partido da oposição após a demissão de Iulia Timochenko por Leonid Kuchma. Em 2004, a dona da famosa trança loira encabeçou a Revolução Laranja, que a levou depois ao poder como primeira-ministra, sob a presidência do pró-ocidental Viktor Yushchenko.

Olexandre Turchinov tornou-se no chefe dos serviços secretos ucranianos, mas demitiu-se quando Viktor Yushchenko despediu Timochenko. Segundo documentos divulgados mais tarde pelo 'Wikileaks', Turchinov terá, na altura, usado a sua posição para destruir documentos que ligavam Timochenko a um padrinho do crime organizado.

No final de 2007, foi nomeado vice-primeiro-ministro no Governo de Timochenko, cargo que ocupou até 2010.

Após a detenção e condenação, em 2011, de Iulia Timochenko, Turchinov assumiu a liderança do partido, mas deixando o lugar de destaque para Arseni Iatseniouk, que se distinguiu como um dos principais líderes da oposição nas manifestações que abalaram a Ucrânia nos últimos três meses.

No seu tempo livre, Olexandre Turchinov prega numa igreja evangélica batista em Kiev. É também autor de romances de ficção científica, um deles, intitulado "The Illusion os Fear", foi adaptado ao cinema.

Presidente interino pede respeito pela "escolha europeia"

Olexandre Tourtchinov pediu à Rússia para que respeite "a escolha europeia" do país, numa mensagem à nação transmitida pela televisão. Após três meses de crise política, a Ucrânia enfrenta vários desafios, a começar pelo risco de bancarrota.

"Estamos prontos para um diálogo com a Rússia, desenvolvendo as nossas relações num pé de igualdade [...] e que respeitem a escolha europeia da Ucrânia. Espero que esta orientação seja confirmada nas presidenciais", marcadas para 25 de maio, afirmou, sublinhando que a integração europeia é "uma prioridade" para o país.

A Rússia chamou a Moscovo o embaixador na Ucrânia para "consultas". Segundo um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, "devido à escalada da situação na Ucrânia e à necessidade de analisar a situação atual sobre todos os aspetos, foi tomada a decisão de chamar a Moscovo, para consultas, o embaixador da Federação Russa na Ucrânia, [Mikhail] Zourabov".

O presidente interino Olexandre Tourtchinov disse também que a Ucrânia está à beira da bancarrota e à beira "do precipício", afirmando que a governação do Presidente deposto Viktor Ianoukovich e do seu primeiro-ministro, Mykola Azarov, "arruinaram o país".

Kiev presta homenagem aos seus mártires

O rosto grave, uma menina coloca um ramo de flores sobre uma barricada no centro de Kiev, antes de correr para os braços da mãe: "Viemos aqui em família para mostrar às crianças o preço a pagar pela liberdade", explica Valentina.

Maidan, a praça da Independência, está negra de gente, mas as pessoas que ali se juntaram hoje não são apenas os habituais manifestantes hostis ao presidente deposto Vikor Ianukovich: há pessoas de todas as idades e de todos os meios, inclusive pais com carrinhos de bebés, vindos trazer flores ou acender velas diante das muitas capelas improvisadas.

"Não temos o direito de esquecer", proclama um cartaz rodeado de ícones religiosos. Pelo menos 82 pessoas foram mortas entre terça e quinta-feira em Kiev, quando a polícia abriu fogo sobre os manifestantes com balas reais. Sábado, o Parlamento destituiu Ianukovich, que se encontra desde então em parte incerta e a oposição assumiu o poder.

"Os edifícios queimados, o sangue no chão... não queremos voltar a ver isto. Vamos lutar por isso", afirma Valentina. Atrás dela, a Casa dos Sindicatos, antigo quartel-general dos manifestantes, ergue as paredes negras depois de ter sido incendiada durante os confrontos entre polícia e manifestantes.

A praça está ocupada há três meses por milhares de opositores, que ali instalaram as suas tendas em torno de um palco e que a rodearam de barricadas.   



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