Lisboa - A Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique, no poder) escolheu Filipe Nyussi, ministro da Defesa, como candidato à Presidência da República nas eleições de 15 de Outubro. Nyussi é um fiel do Presidente cessante, Armando Guebuza.

Fonte: Publico

Nascido no distrito de Mueda, província de Cabo Delgado, 55 anos, o ministro derrotou, na noite de sábado, na segunda volta da disputa interna, Luísa Diogo, primeira-ministra entre 2004 e 2009, favorita dos que defendem reformas na Frelimo. “Significa, em termos gerais, que a ala do Presidente venceu”, disse ao PÚBLICO Jeremias Langa, jornalista da estação STV.

Filipe Nyussi obteve 135 votos de membros do comité central, equivalentes a 68%, contra 61, 31 %, da adversária. O jornal Canal de Moçambique escreveu na sua página no Facebook que de um lado era visível a desilusão do outro a euforia.

Na primeira volta, realizada também no sábado, nenhum dos cinco candidatos conseguiu os mais de 50% dos votos necessários. Nyussi obteve 91, correspondentes a 46%, e Luísa Diogo 46, equivalentes a 23%. Os outros concorrentes eram o actual primeiro-ministro, Alberto Vaquina, que recolheu 37, 19%; Aires Ali, que recebeu 19, que representavam 10%; e José Pacheco, que não foi além de três votos, 2%.

Guebuza "manterá poder"

Armando Guebuza, que não pode recandidatar-se a um terceiro mandato, disse que a eleição interna foi transparente. “Tínhamos de procurar formas de encontrar a melhor solução e conseguimos”, afirmou, citado pela agência AIM. O Presidente cessante, cuja governação foi nos últimos tempos criticada, mesmo no interior da Frelimo, mantém-se na liderança do partido. “Vai continuar a ter influência decisiva nas questões centrais. Foi ele que foi buscar Nyussi para o Governo”, considera Jeremias Langa. “Inicialmente manterá muito poder”, disse à Reuters Joseph Hanlon, académico da Open University e jornalista que há 35 anos acompanha Moçambique.

Nyussi, Vaquina e Pacheco foram indicados pela comissão política em Dezembro. Luísa Diogo e Aires Ali apresentaram as suas candidaturas no início da reunião partidária – que decorreu entre quinta-feira e este domingo na cidade de Matola – na sequência da contestação interna à intenção de limitar a escolha aos três candidatos “oficiais”.

“Qualquer um deles é muito próximo do Presidente e a sua rápida subida no partido é devida ao Presidente. Não há muita autonomia política destas pessoas, sem o Presidente não estariam onde estão”, disse sobre os três nomes propostos pela comissão política o académico moçambicano Carlos Nuno Castel-Branco, crítico da presidência Guebuza, numa entrevista publicada este domingo na revista 2.

Filipe Nyussi nunca teve cargos de destaque na Frelimo. É de origem maconde, etnia que se distinguiu na luta contra o domínio português. A sua escolha terá sido influenciada pela origem – foi em Cabo Delgado que começou a guerra colonial em Moçambique, em 1964 – e por conciliar o facto de ser filho de antigos combatentes com a pertença a uma “nova geração”, que não a dos históricos da luta pela independência.

Formado em engenharia mecânica na antiga Checoslováquia, é pós-graduado em gestão em Inglaterra. Quadro dos Caminhos –de-Ferro de Moçambique, de que foi administrador antes de entrar para o Governo, é ministro da Defesa desde 2008. Casado, tem quatro filhos.

"Figura limpa"

O agora candidato da Frelimo era tido à partida, segundo o semanário independente Savana, como o mais fraco dos três nomes propostos pela comissão política, mas “impressionou” na campanha eleitoral interna. “É visto como uma das poucas figuras limpas na governação de Armando Guebuza, mas é associado à ala belicista que defende a aniquilação da Renamo”, escreveu o jornal, há uma semana.

A corrida à sucessão presidencial agitou nos últimos meses o partido governamental. Os nomes propostos pela comissão política não geraram consenso. Mais do que isso, a afirmação do secretário-geral, Filipe Paúnde, de que o candidato presidencial sairia do lote de três – e que não haveria espaço para outros – causou polémica. Só na última semana, depois de a Associação dos Combatentes de Luta de Libertação, muito influente na Frelimo, ter defendido a abertura a outras candidaturas, a liderança partidária se viu forçada a aceitar adversários dos concorrentes “oficiais”.

Um adversário de Filipe Nyussi na corrida presidencial será Daviz Simango, líder do MDM (Movimento Democrático de Moçambique), terceiro partido no Parlamento , que já anunciou a candidatura. O MDM ganhou nas eleições autárquicas de Novembro de 2003 a presidência de quatro municípios, incluindo três capitais provinciais, Beira, Nampula e Quelimane, e teve importantes votações na capital, Maputo, e na cidade satélite de Matola.

É previsível que concorra também ao cargo de Presidente da República Afonso Dhlakama, líder da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana, principal partido da oposição, antiga guerrilha). Dhlakama concorreu às quatro eleições presidenciais desde a introdução do multipartidarismo, após o fim da guerra civil, em 1992. Na eleição última consulta eleitoral, em 2009, perdeu para Guebuza e contestou os resultados que deram 75% dos votos ao actual chefe de Estado.

Moçambique, que teve uma prolongada guerra civil logo após a independência, entre 1976 e 1992, viveu no último ano uma nova situação de conflito armado. Nas últimas semanas, o Governo da Frelimo e a Renamo retomaram o diálogo e chegaram a acordo sobre matérias que os dividiam, designadamente a composição dos órgãos eleitorais.



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