Estados Unidos - As redes sociais facilitam a monitorização dos cidadãos por parte das entidades governamentais, mas também disponibilizam aos cidadãos ferramentas para se organizarem e manifestarem contra regimes opressivos, de acordo com a socióloga Zeynep Tufekci.

Fonte: Telemoveis.com
Zeynep Tufekci, uma socióloga de origem turca que lecciona actualmente na Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, publicou recentemente um artigo na Medium onde classifica as redes sociais como facilitadoras da monitorização dos cidadãos por parte dos seus governos ou corporações, mas também como ferramentas úteis para ajudar dissidentes a combaterem os seus opressores.

O trabalho de Tufekci, que é especializada em investigação sobre os efeitos das redes sociais, foi importante para mostrar o papel que as redes sociais desempenharam em movimentos sociais como a Primavera Árabe em países como a Tunísia ou o Egipto, em 2011.

Mais recentemente, durante as manifestações na Turquia contra o governo do Primeiro Ministro Recep Erdogan, ela refere a importância do Twitter como meio de divulgar informação crucial aos protestantes e simpatizantes, em contraste com a falta de cobertura dos meios de comunicação mais tradicionais por receio de represálias do Estado.

"Depois de cada saraivada de gás lacrimogéneo, os manifestantes puxavam os seus smartphones e viravam-se para as redes sociais para descobrir o que estava a acontecer, ou para reportarem eles próprios eventos", afirmou no seu artigo. A socióloga nota, contudo, que estas ferramentas não criam dissidentes, mas permite conectá-los entre si, resultando num efeito que apelida de information cascade, ou efeito cascata, que contribui para ajudar os movimentos a inclinarem-se para a rebelião.

Monitorização governamental

A actividade nas redes sociais pode ser vista, monitorizada, bloqueada ou utilizada como prova pelos regimes. Os mais opressivos tentam bloquear informação - o site GigaOm dá o exemplo recente da Venezuela, que tentou bloquear a divulgação de imagens violentas no Twitter, relativas às manifestações de que tem sido palco.

No caso das recentes manifestações na Ucrânia vários dissidentes também terão sido abordados em redes sociais com uma mensagem que referia: "Querido subscritor, está registado como participante num motim em massa".

"Contudo, quanto mais nos conectamos online, mais as nossas acções se tornam visíveis aos governos e corporações. A sensação é a de perda de independência", afirma. "Mas enquanto me mantive no Parque Gezi, eu vi o quanto a comunicação digital se havia tornado numa forma de organização. Eu vi-a [a tecnologia] permitir dissentir, discordar e protestar. Resistência e vigilância - a concepção das ferramentas digitais de hoje faz com que ambas sejam inseparáveis. Como pensar nisto é um verdadeiro desafio".

O cenário não é tão Orwelliano quanto pensamos

A tendência para compararmos este contexto de cada vez mais permanente monitorização com a obra de ficção científica de George Orwell, popular por obras literárias tais como "1984", tem-se vindo a acentuar cada vez mais. Na perspectiva da autora, contudo, o cenário oferece contrapartidas positivas que tendem a não ser consideradas nestas comparações.

Cada vez disponibilizamos mais informações online relativas a dados de localização, sinais emocionais, fotografias e contactos, entre outros. Estas informações são especialmente úteis para as empresas cujos serviços nós utilizamos ou, em última instância, para monitorização governamental.

E se a autora não descarta este cenário, faz também questão de sublinhar que em vários casos essa monitorização pode ser voluntária e serve para beneficiar os utilizadores. E ao contrário do contexto vivido em "1984", contudo, estas mesmas ferramentas de monitorização permitem aos dissidentes reunirem-se com pessoas com ideologias semelhantes, discutirem ideias ou até mesmo se encontrarem.



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