Luanda - Começou por ser músico mas é nas palavras que desenvolveu a sua arte. Fez carreira no ensino e na composição. Reconhecido como intelectual é também investigador e sociólogo histórico. Os mais próximos identificam-no pelo brilho nos olhos e a enorme gargalhada

Fonte: Opais

Filipe Zau nasceu em Lisboa a 2 de Novembro de 1950, sendo hoje um dos expoentes da cultura angolana. “O meu pai era marítimo, nascido em Cabinda, e a minha mãe cabo-verdiana. Considero-me um filho da diáspora angolana e, por questões de ordem cultural, fui criado dentro dos valores africanos. Os nossos vizinhos eram de São Tomé, com quem havia uma relação muito chegada. Na altura estávamos numa casa em Lisboa, perto de Praça do Chile, e foi neste ambiente que cresci”, começa por dizer Filipe Zau que acrescenta, “tive uma infância com uma influência de diversas culturas, resultado das pessoas que estavam à minha volta e que frequentavam a nossa, casa. Reconheço que apesar de o meu pai estar ausente muitas vezes, em função da sua profissão, a predominância na minha educação teve a ver com o Norte de Angola. E falo dos hábitos, das comidas, do mar. Apesar de todas as influências, reconheço que sou “mais” de Cabinda”.

ORIGENS DE CABINDA

Nos anos 50 a comunidade africana em Portugal era muito pequena, “na minha escola primária, durante os quatro anos que lá estive, era o único negro”, o que fazia com que quase todos se conhecem e desenvolvessem uma maior ligação.

“Havia o hábito de saudar o patrício. Quando se cruzava com um negro ou um mulato cumprimentava-se, perguntava-se de onde era, o que fazia. E isso muitas vezes levava a novas amizades. Como disse, por ser pequena, a comunidade africana em Lisboa juntava-se em festas, em momentos especiais. As pessoas conheciam-se”, explica Filipe Zau.

O facto de o seu pai ser marítimo também influencia directamente a sua educação. Recorde-se que os marítimos eram aqueles que trabalhavam nos barcos, cruzando os oceanos e, numa altura em que Portugal era um país muito fechado, tinham a oportunidade de conhecer outras gentes e outras culturas. E isso dava-lhes uma maior abertura de ideias face ao que estava instalado, desenvolvendo naturalmente ideias de liberdade e nacionalismo.

Estes homens, que tinham oportunidade de tocar Angola, Brasil e Portugal, eram também muitas vezes portadores de mensagens e objectos entre os nacionalistas africanos, pois numa altura em que havia um controle apertado da PIDE (polícia política do regime salazarista), eles tinham alguma facilidade em levar e trazer informações.

“Quando os marítimos chegavam, e isso acontecia também com o meu pai, organizavam-se festas. Eles traziam produtos alimentares de África, fazia-se um calulu ou uma cachupa, apareciam os amigos e, depois dançava--se. Este era um motivo de as pessoas se juntarem e trocarem ideias. Quando comecei a crescer percebi que muitas vezes nestas festas os homens isolavam-se em outra divisão e ficavam a conversar, enquanto que as mulheres e as crianças dançavam. Foi neste ambiente que conheci alguns nacionalistas importantes, como Agostinho Neto ou Miguel Trovoada, que frequentavam a nossa casa. Havia na verdade um contacto directo e permanente entre gente de Angola, São Tomé e Cabo Verde. E foi assim até que a PIDE percebeu o que se passava e muitos deles tiveram que fugir para outros países. Foi também neste contexto que conheci muitos estudantes e intelectuais da altura e, que depois vieram a ter influência nos processos de independência dos seus países”, refere o compositor com nostalgia.

O GOSTO PELA MÚSICA

Foi também nestas reuniões que Filipe Zau começou a desenvolver o seu gosto pela música. “Os marítimos traziam também discos, aqueles que todos queriam ouvir e que nessas festas eram tocados. Havia uma grafonola, daquelas que se tinha de dar à manivela para começar a tocar, punha-se um disco, que era de 1978’’, ainda dos que quando caiam no chão se partiam, e tinha-se de substituir a agulha cada vez que tocava.

Ou seja, depois de ouvir uma música, levantava-se aquele enorme braço, trocava-se a agulha, voltava-se a pôr tudo na mesma e, só então vinha outra música”, recorda divertido.

“Mais abaixo na nossa rua vivia a família Facatina. Foram os primeiros a ter uma grafonola eléctrica. Já não era preciso dar à manivela, os discos eram empilhados, e depois iam caindo e tocando. Lembro-me do enorme fascínio que tinha por aquela máquina. Ficava horas a ver os discos cair. Comecei a crescer e, por ter esse gosto, acho que por volta dos oito anos, tornei-me o “disco-jockey” das festas. Punha os discos que achava que as pessoas queriam ouvir, o que me obrigou a conhecer mais de música. As festas começavam sempre com um tango, do Carlos Gardel, e depois tocava-se fundamentalmente merengues e música brasileira. Hoje percebe-se que estas reuniões, para além da função recreativa, tinham uma forte componente política. Era assim em casas particulares, mas também em algumas associações como o Clube Marítimo. Eram nestes momentos que se podia ter conversas particulares mais sérias, sem levantar suspeitas.

ENFERMEIRO NA TROPA

Filipe Zau abraça a carreira do ensino, a mesma que ainda hoje tem, de uma maneira curiosa. “Quando se aproximou a ameaça da tropa, alguém que me disse que os professores primários ou enfermeiros não eram mobilizados como atiradores especiais e, como tal, estavam um pouco mais resguardados na guerra. Resolvi por isso tirar o curso do Magistério Primário”, conta. Mas a vida tem coisas estranhas, porque Filipe Zau acabou por fazer grande parte do seu serviço militar como enfermeiro. “Fui mobilizado para o Hospital Militar em Lisboa, onde tirei o curso de enfermeiro. Ainda hoje sou eu que, cá em casa, dá as injecções ou muda os pensos. Apesar de não praticar regularmente, aprendi coisas que ficaram até hoje”.

Foi destacado para a medicina de oficiais. Uma das suas funções consistia em ir buscar ao aeroporto os oficiais evacuados de Angola e da Guiné, muitas vezes em situações difíceis, e depois acompanhá-los na recuperação. Também tratava da “tropa africana”, os que sendo dos respectivos países, estavam a combater ao lado dos portugueses. “Isso permitiu-me ouvir muitas histórias. Muitas vezes homens que vinham feridos e mutilados davam de caras comigo, que sou negro, e descarregavam toda a sua carga negativa. Eu fazia a minha função, mas passei a ouvir a história dos dois lados. Passei a conviver com este lado brutal da guerra. E na verdade a minha consciência política foi aumentando face à situação que se vivia. Foram momentos difíceis confesso, mas importantes no meu crescimento como homem”, recorda mais sério Filipe Zau. Mais tarde é destacado para chefiar o sector das ambulâncias, até que foi requisitado para a banda “Alerta Está”, que tinha como função dar concertos pelos quartéis. “Na altura que fui para a tropa já era músico. Tocava, por exemplo, com o Duo Ouro Negro e foi por essa ligação que me chamaram para a banda, onde também tocava o Guilherme Inês, um bom músico português”. Enquanto executante, Filipe Zau tocava cordas e percursão, num trajecto que tinha começado muitos anos antes por influência do primo, Carlos Arsénio Barbosa da Silva. É nesta banda do exército que o 25 de Abril o apanha.

A VINDA PARA ANGOLA

Por influência directa dos marítimos e do ambiente que o rodeava, Filipe Zau entra para o Comité 4 de Fevereiro e passa a militar no MPLA. “Foi aí que se deu a minha iniciação política. Estavam neste comité pessoas como o Arménio Ferreira, Zito Van Dunen, entre muitos outros.

Na verdade, com todos os acontecimentos políticos que se estavam a passar, havia uma enorme vontade de vir para Angola. Comecei a questionar--me. Estava já casado na altura, mas sempre tinha dito que no dia em que Angola fosse independente eu viria”, explica. “Lembro-me que aquando dos acordos do Alvor o presidente Agostinho foi a Portugal e visitou o comité. Disse-nos que o caminho não era ficar aqui e que estava chegada a altura de descermos. Porque o país precisava de todos. Fez um apelo a que juntássemos as nossas coisas e voltássemos a Angola. Num mês preparei tudo. Desembarquei em Luanda no dia 1 de Abril de 1975”. Veio primeiro sozinho, a sua mulher ficou em Lisboa a despachar as coisas e, um mês depois, também ela estava em Angola. Iniciava assim uma nova etapa da sua vida. “Na altura nem tinha ainda bem resolvida a questão militar. Só voltei a Portugal quando já tinha todos os documentos angolanos, pois sabíamos que alguns que tinham regressado aos seus países, acabaram por ser acusados de desertores do exército português. Lembro--me também de ter trazido as minhas botas da tropa. Eu calço o 46 e é sempre um problema arranjar calçado para mim. Aquelas botas já estavam moldadas. Por isso vieram, não fosse ser necessário”, diz divertido.

Em paralelo com a vida profissional, Filipe Zau continuava ligado à música. Nesta altura revolucionária, tem contacto com os músicos de intervenção portugueses, “conheci muito bem o Fausto, que ainda hoje é meu amigo, o Zeca Afonso e a sua mulher Zélia, Vitorino, Sérgio Godinho, que também lutavam pela liberdade em Portugal. Na altura a música era de intervenção. Era necessário passar uma mensagem. Ainda hoje sou influenciado por eles e por músicos brasileiros, como o Chico Buarque. Para mim é fundamental que exista um texto forte de suporte para se possa ter uma boa música.”.

A CARREIRA NO ENSINO

Filipe Zau chega a Angola e vai dar aulas. Cada um tinha de contribuir com a sua parte dentro do que sabia fazer e de acordo com as necessidades do país que estava a nascer. “Fui colocado na Escola do Magistério Primário, na Vila Alice, e o meu chefe era o Dario de Melo. Estava longe de pensar que um dia ia musicar um poema seu. Todos diziam que era uma pessoa fechada, mas ele simpatizou comigo.

Na altura estava a escrever um livro muito interessante e revolucionário, onde defendia que o método analítico e sintético, era o melhor para ensinar. Talvez por eu também partilhar das mesmas ideias, conversámos bastante e iniciámos uma boa amizade. Nessa altura estávamos muito empenhados na resolução das questões da educação, pois era necessário definir uma estratégia para o sector. Em 1977, na reforma do ensino, fui destacado para chefe do Departamento de Ensino à Distância, tendo ido ao Brasil fazer um curso de requalificação.”.

Filipe Zau não perdeu a ligação à música. “Fazíamos música de intervenção, influenciados pelo Beto Gourgel e a Heila. Todos os que andávamos nesta “vida”, recordo o Filipe Mukenga, o Tico Costa, os Irmão Kafala, o Manuel Vitório Pereira, o Waldemar Bastos, tínhamos todos uma actividade profissional e a música completava a nossa vida. Toda a gente trabalhava noutra coisa até porque não era possível viver da música”, explica acrescentando, “hoje quando olho para o hip hop, rap ou o kuduro que esta nova geração faz, embora tenha uma influência americana, tem também uma necessidade de usar as palavras, de passar mensagens sociais. Isso também acontecia connosco. Era isso que nos motivava”.

UM HOMEM DE “LETRAS”

O aumento das suas responsabilidades no sector da educação, mistura-se com o início de uma carreira na escrita que levam Filipe Zau a fazer mais de 100 letras de canções, a publicar 5 livros, (prepara agora mais um), a animar colunas de opinião nos jornais, ganhando uma dimensão que o colocam como um dos mais importantes homens de letras do país.

Faz também uma opereta, em parceria com Filipe Mukenga, “é uma homenagem ao meu pai. Quando ele morreu fechei-me em casa e deu-me uma vontade imensa de escrever. Foi assim que fiz esta opereta, Canto da Sereia, o Encanto, que demorou 14 anos até ser gravada. Estamos agora a preparar a gravação da segunda parte da opereta, são mais 14 anos de espera, pelo que na verdade, acho que não vai haver uma terceira parte”, diz o compositor, misturando um olhar sério com aquela gargalhada contagiante que oferece aos amigos. A sua vida dá mais uma volta quando inicia a carreira diplomática. Em 1990 vai exercer as funções de adido cultural da Embaixada de Angola, em Lisboa, onde se mantém até 1997. Depois foi nomeado assessor do professor Marcolino Moco, então secretário-geral CPLP. Nessa altura completa a sua segunda licenciatura, a primeira tinha sido feita nos anos oitenta, em Administração Escolar no ISCTE. Ainda faz depois um mestrado em relações Inter-Culturais na Universidade Aberta, tendo regressado em 2006 ao Ministério da Educação.

a sociologia histórica “Onde me sinto bem é na investigação. É aí que estão os meus interesses. O último livro que fiz, sobre os marítimos, que já vai na segunda edição, é um exemplo do que gosto de fazer. A sociologia histórica motiva-me. Por isso quando me perguntam porque não escrevo um romance, respondo sempre que o meu espaço literário está ocupado pela investigação. Gostava de fazer um trabalho rigoroso sobre a história da Educação, por exemplo”, confessa.

“ As crónicas que faço para o Jornal de Angola dão-me algum treino para poder escrever um livro de contos ou um romance. Mas isso obedece a outra construção, ao enquadramento das diversas personagens. Quem sabe, se um dia não faço mesmo uma obra literária desse género. Mas para já estou sem tempo”. Embora não goste muito de falar das suas vitórias, a verdade é que nos últimos vinte anos emprestou as suas palavras a muitos êxitos musicais, ganhou concursos, fez trabalhos de investigação premiados, ganhou distinções pela sua obra e mais um conjunto de reconhecimentos que dão sentido a uma vida que se prepara para completar 60 anos. Filipe Zau manteve sempre a Educação e a Música como bandeiras do seu trajecto.

Autores do hino do can2010 “Angola, país de futuro”, de autoria da dupla Filipe Mukenga/Filipe Zau, acompanhados pela banda Maravilha, é o hino do Campeonato Africano das Nações em futebol, a disputar em Janeiro de 2010. “P’pros jogos de mano-a-mano, a Angola bem-vindo és! Angola te abre os braços p’pro CAN de 2010” é o refrão do tema vencedor.

A PARCERIA DOS FILIPES

Esta é uma parte muito importante da sua vida. São 31 anos de composição em conjunto onde foram produzidas mais de 80 canções. “Quem me disse foi o Mukenga, que é muito organizado e arquiva tudo. Eu sou mais “faço e está a andar”. Ele não. É meticuloso e quando começámos a preparar o espectáculo comemorativo dos nossos 30 anos de parceria, ele deu-me esta informação. Muitas delas não foram gravadas e ainda estão na gaveta”, diz. O espectáculo dos dois Filipes vai acontecer nos próximos dias 23, 24 e 25 de Abril no Nacional Cine-Teatro e está inserido nas comemorações dos 20 Anos da Associação Chá de Caxinde.

“A primeira vez que vi o Mukenga foi na televisão a cantar um tema seu. A força das palavras e da melodia não me deixaram indiferente. Lembro-me de ter comentado, tenho que conhecer este músico”, recorda. “A verdade é que vimos, desde o primeiro contacto, que tínhamos muitas coisas em comum. Além de meu parceiro musical é um grande amigo. Foi também o facto de nos conhecermos bem que levou a que eu fizesse as letras e ele as músicas. Eu deixei praticamente de compor e, ele que também fazia as letras, também deixou de escrever. Penso que estamos melhor assim. Cada um faz o que sabe melhor”. Este é um ano especial para a dupla que ganhou o concurso para o hino do CAN2010. “Foi uma enorme alegria. Penso que temos uma boa música, que vai correr o mundo, mostrando a nossa arte”, diz. Também está para sair no final de Abril o novo de Filipe Mukenga, onde grande parte das letras é escrita por Filipe Zau. Concorreram igualmente ao Carnaval com uma música da sua autoria.

INVESTIGADOR E HISTORIADOR

Filipe Zau assume a investigação como prioridade. A vertente de historiador e sociólogo resultou no livro Angola – Trilhos para o Desenvolvimento. O levantamento sobre o papel dos marítimos na história do país foi compilado no livro Marítimos Africanos e um Clube com História, cuja segunda edição saiu no início deste ano. Em Abril lançou Educação em Angola. Novos Trilhos de Desenvolvimento. Filipe Zau escreveu dois livros de poesia Encanto de um Mar que eu Canto e Meu Canto, a Razão e a Quimera das Circunstâncias. E um livro de prosa Notas Fora da Pauta.



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