Luanda - O livro África e Direitos Humanos será lançado em Luanda, no dia 10 de Junho na União dos escritores Angolanos, as 15 horas. O livro tem como organizador, Domingos da Cruz. Segundo o resumo disponibilizado no site da editora, o livro "discute a questão dos direitos humanos em África, uma vez que este assunto estampa todos os dias os noticiários dos países que olham de maneira distorcida o continente. Esta questão é abordada por vários ensaios e pesquisas feitas por mais de vinte cientistas convidados para participar deste livro, com a humilde pretensão de dar uma contribuição para África, mostrando posturas criticamente construtivas para melhor conhecer o continente."


Fonte: Club-k.net

Far-se-à uma apresentação e lançamento fora do comum, uma vez que haverão vários intervenientes à comentar o livro: Fernando Macedo, Nelson Pestana (Bonavena), Sizaltina Cutaia e Filomeno Vieira Lopes.

 

Confira abaixo o prefácio do livro feito pelo Prof. da Serra Leoa, Francis Musa Boakari, Pós-Ph.D.:
“Temos em mãos uma valiosa contribuição aos esforços renovados e posturas criticamente construtivas para melhor conhecer a África, as áfricas e as/os africanas/os. Não poderia ter sido escolhido uma temática tão central nesta tarefa como a dos direitos humanos, que é um campo movediço no tocante às realidades políticas, culturais, econômicas e sociológicas, não somente no que se refere ao continente africano, mas acima de tudo, nas suas diversificadas formas de relações com o resto dos mundos, árabe, latino, oceânico, ocidental e oriental. E todos dialeticamente constituindo uma encruzilhada no pensar de políticas e outras intervenções voltadas às mudanças que africanas/os continuam precisando para usufruir melhor de seus direitos basilares porque são tão humanos como quaisquer outros da espécie humana.
 

Os Direitos Humanos são para TODOS e devem ser de TODOS! É recompensador saber que um membro de uma África Nova, de um grupo de intelectuais críticas/os e acadêmicas/os participativas/os que produzem conhecimentos de engajamento social com o calibre analítico de um Domingos da Cruz teria a coragem de convidar outras/os pesquisadoras/os para se debruçar sobre a problemática universal dos Direitos Humanos – agora, com as realidades africanas como ponto de partida para compreender a complexidade do mundo globalizado; ainda que enraizado em cosmovisões localizadas, com concepções singularmente tradicionais.


Domingos da Cruz e as/os suas/seus co-autoras/es nos conduzem a um patamar de reflexões frutíferas no que tange a humanidade, a sua própria humanidade. Afinal de contas, quem define esta realidade, este ideal que é ontológico para a maioria das/os africanas/os de hoje? Esta humanidade de que se fala é real ou é uma construção social de interesses diversos para jogos sociais diferentes?  No substrato de todos os capítulos da obra, é um questionamento bem africano: De que humanidade está falando? Para falantes de Mende de Serra Leoa, este fenômeno é melhor entendido como ngo-yilah, que pode ser traduzido como união, unidade, voz unificada, valor social primário, ou solidariedade. Para as populações que falam línguas Bantu, ubuntu, é a palavra que expressa estas características que falo aqui.  A humanidade é humana, dizem estes conceitos filosóficos e princípios organizativos da sociedade, quando há solidariedade e união na busca do melhor nas pessoas como integrantes de coletividades. Chamado ngo-yilah ou ubuntu, famílias africanas dos tempos primordiais aderiram à esta filosofia humanizadora de todas as pessoas, ao contrário de uma outra filosofia que prioriza o indivíduo, as individualidades persistentemente construindo barreiras contra uma colaboração real entre os povos e os indivíduos ... no altar da filosofia alternativa que é dominante, é o indivíduo em toda a sua incompleta (decepcionante?) magnitude que é adorado. Lendo os textos a seguir, valeria a pena lembrar que as explicações e discussões das/os intelectuais precisam de um alicerce humanizante porque elas/es não cansam de enfatizar que – De tudo que temos e somos, o mais importante é a nossa humanidade e a das/os outras/os. Sou eu porque você é, e juntas/os, podemos ser muito mais gente. Com as explicações das/os colaboradoras/es e a competência organizativa do idealizador da obra, ficou convidativo refletir sobre a humanidade que permanece a essência da África, a África e Direitos Humanos – realidade cotidiana, campo problemático, mecanismo das discriminações.
 

A seleção inteligente dos textos ajuda evidenciar a obra como bandeira, provocando reflexões criativas sobre questões de Justiça, Liberdade, Igualdade, Equidade, Solidariedade, Tolerância, Respeito e Paz. Quando a questão é da Justiça Social, os trabalhos das/os pesquisadoras/es levam o/a leitor/a a pensar sobre os ideais do mundo moderno proclamado há séculos, mas que ainda permanecem como sonhos, cuja realização é postergada com o passar dos tempos e as conquistas tecnológicas do mundo industrializado e consumista. Por outro lado, os mundos africano e indígena continuam vivendo uma justiça social pragmática, porque esta é cotidiana e ubíqua.


Textos que discutem questões de justiça na África contemporânea servem de janelas para reflexões comparativas. Num mundo de discursos, onde a escolha e organização das palavras (empacotamento discursivo) é quase tudo para a maioria das pessoas, porque procurar alcançar a essência nos ditos pelos não-ditos se tornou tarefa cada vez mais pesada. É neste sentido que as contribuições nesta publicação deveriam provocar leitores para fazer comparações históricas dos mundos africanos e outros. A leitura univocal de uma história universal da humanidade facilita comparar as realidades africanas de hoje com os avanços do mundo ocidental do século XXI, uma Europa que hoje é composta de nações políticas, e não com o mundo medieval das lutas tribais e conflitos genocidas entre os grupos étnico-culturais europeias. Focar análises nos Direitos Humanos e a África serve de incentivo para olhar para estes povos a partir de uma ótica menos etnocêntrica, eurocêntrica. É preciso que cada grupo seja observado no seu contexto (histórico-espacial), criticamente relativizando com critérios que humanizam todas as pessoas nas suas condições humanas.

 
Há necessidade de uma Educação em Direitos Humanos, com fundamentos teórico-metodológicos quando se trata da África e de sua rica realidade de diversidades? Se for assim, quais os modelos que devem servir de base epistemológica para tal exercício pedagógico? Quem seriam as/os instrutores, e quem iria instruir-orientar estas/es; africanos indígenas ou africanos das diásporas, ou ainda, africanistas – ocidentalizadas/os ou orientalizadas/os? Como berço da humanidade, porque os valores da indigeneidade africana não podem ser utilizados para uma formação em Direitos Humanos para praticar direitos humanos viáveis? Como conseguir isto considerando o que rege a Carta de Banjul (1979) - Tendo em conta as virtudes das suas tradições históricas e os valores da civilização Africana ...? Esta não é a problemática central dos Direitos Humanos na/para/da África?

 
O organizador cria um impacto quando apresenta como capítulo inicial, “Direitos Humanos: As particularidades africanas” de autoria do angolano Marcolino Moco, e como último capítulo, “África, sinais de esperança”, de sua própria autoria. Domingos da Cruz reforça a ideia de que na diversidade do continente africano reside uma riqueza ilimitada apesar do secular empobrecimento de seus povos. A obra África e Direitos Humanos é chamamento da relevância do provérbio de que - Falar de uma pessoa é de fato pensar em TODAS AS PESSOAS!”  



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