Alemanha - Faleceu esta terça-feira a historiadora Dalila Cabrita Mateus, autora de uma vasta investigação ligada à guerra colonial e a outros acontecimentos nas ex-colónias portuguesas.

Fonte: DW

Image O seu livro "A PIDE/DGS na guerra colonial 1961-1974", escrito em conjunto com o marido Álvaro Mateus, falecido há cerca de um ano, é uma obra de referência para quem se interesse por estudar o papel da antiga polícia política da ditadura de Salazar e Caetano nas ex-colónias.

A historiadora mostrou que a PIDE conseguia ser ainda mais brutal em África do que na metrópole, e que, dissolvida e desmantelada na metrópole, continuou a existir nas colónias e a apoiar os colonos brancos que tentaram contrapor-se à descolonização. “Este não é um livro de fácil digestão. Fomos educados num país que nunca soube viver a História senão como História Santa”, observou na época, a autora.

Dalila Cabrita Mateus foi também autora de “A Luta pela Independência”, “Memórias do Colonialismo e da Guerra”, “Purga em Angola (o 27 de Maio de 1977)”, “Nacionalistas de Moçambique”, “Angola 61: Guerra Colonial, Causas e Consequências”.

“Purga em Angola”

Mas o livro mais polémico, escrito também em colaboração com Álvaro Mateus, foi "Purga em Angola" (2007), dedicado aos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, em Angola, quando o exército angolano, apoiado pelas tropas cubanas, reagiu a uma mobilização de contestação liderada por Nito Alves e José Van Dunen com um massacre que vitimou milhares de pessoas (a historiadora calculou em 30 mil o número de vítimas).

A historiadora não hesitou em responsabilizar diretamente o então presidente da República Popular de Angola, Agostinho Neto, pelo massacre, em que também morreu a portuguesa e ex-militante do PCP Sita Valles.

Comissão das Lágrimas

A historiadora mostrou igualmente qual foi o papel da “Comissão das Lágrimas” criada pela direção do MPLA, com o objetivo de selecionar depoimentos sobretudo de intelectuais presos no 27 de Maio. “A Comissão interrogava, provocava e decidia se o preso devia ou não ser entregue aos militares e às polícias; isto é, se ia ou não para a tortura”, explicou a historiadora numa entrevista à DW.

Estiveram nessa comissão, como interrogadores, Pepetela e Luandino Vieira, Manuel Rui Monteiro, Henrique Abranches, Costa Andrade e muitos outros. "Aos presos que ouvimos e que passaram por aquela Comissão ouvimos referências às perguntas provocatórias de Pepetela e de Costa Andrade", recordou a historiadora na mesma entrevista.

Reagindo a esse livro, a viúva de Agostinho Neto, Maria Eugénia Neto, insultou Dalila Mateus numa entrevista publicada em 5 de Janeiro de 2008 no semanário Expresso. A historiadora reagiu com um processo judicial, em que a viúva do antigo presidente angolano foi condenada em primeira instância, em 2013, mas teve provimento dado pelo Tribunal de Relação ao recurso que apresentou.



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