Luanda – O artista Paulo Kapela, dadas as condições precárias em que vivia nas instalações da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP) e devido à venda de drogas que afluía àquele local, foi levado na semana passada para o lar de idosos, Beiral.

Fonte: NJ
Artista Kapela.jpg - 149.65 KBA história deste artista foi só o ponto de partida para focar uma problemática que atinge a maioria dos artistas e não só. Kapela é afinal, também o retrato de uma sociedade que vive, enquanto jovem, numa informalidade sem impostos e sem descontos e mais tarde se confronta com a precariedade e o abandono.

Segundo o secretário-geral da UNAP, António Tomás Ana, Etona, cerca de 80% dos artistas "estão mal" e cansados de viver à margem de um Governo que não os ouve nem se interessa pelo que fazem. "Somos órfãos, o Governo para nós não existe", diz.

"Aonde está o Estado? Tivemos o Fenacult, atendemos aos pedidos da senhora ministra, deslocámos artistas, obras, organizamos eventos, pintamos o mural do Rocha Pinto e até agora não houve qualquer pagamento pelos custos envolvidos ou pelos serviços prestados. Nem a ministra ou mesmo a 6ª Comissão de Educação, Cultura, Assuntos Religiosos e Comunicação Social visitaram a UNAP. Se não nos conhecem, como vão defender-nos", questiona Etona.

O secretário-geral considera que é importante que esta situação do Kapela venha a público para que as pessoas saibam o que está a acontecer. "Esta questão do Kapela é um problema da nação. O problema das artes em Angola não é individual, é geral", assegura.

"O Ministério da Cultura não responde a nada, não existe. Queremos uma plataforma de diálogo, a UNAP e a UNAC estão em situações paupérrimas. Queremos sentar e discutir a nossa condição, mas a ministra não nos ouve", denuncia o responsável, acrescentando que o orçamento para as associações foi reduzido e segundo avançou, vai sofrer uma nova redução.

"A UNAP é nacional. Já esteve em dez províncias: A ideia era chegar a todas, mas por via dos cortes financeiros, teve de ficar apenas pela capital", esclarece. Etona está ciente que a classe é vista como pedinte, desorganizada e ligada a "certos ambientes", mas assegura que tudo isto está a mudar.

"Estamos a fazer um esforço para nos organizarmos. Queremos criar espaços dignos para expor os nossos trabalhos. Somos solicitados por Veneza, New Jersey, Paris para estabelecer acordos, mas nós não temos condições para receber visitas", lamenta.

E alerta: "Enquanto tivermos uma lei tributária que não protege o mercado nacional, vamos ter empresários que vão comprar peças fora, encomendar serviços a outros países e vão continuar a desvalorizar o que temos no país".

Há um ano e seis meses à frente da UNAP, Etona esclarece que o problema do Kapela não é único. "Temos vários. Quando morre um artista temos de comprar o caixão, por vezes até pagar as exéquias. Ainda na semana passada tivemos de pagar os medicamentos para uma artista que se encontrava em dificuldades. Nós também temos problemas sociais", lembra.

"Alguns artistas fazem os seus descontos para segurança social e pagam impostos, estão enquadrados entre as profissões liberais, mas esse não é o quadro geral. A associação não dispunha de capacidade para controlar todos esses mecanismos, não estava organizada e só agora estamos a atingir um pouco de organização", explica, revelando que a seguir, o objectivo, é ganhar conhecimento nesta área.

"Vou participar num workshop do Ministério do Trabalho para aprender como será a gestão do nosso processo junto do Governo. Depois a ideia é trazer essa contribuição para os artistas", adianta.

Não ao dinheiro na mão

O NJ contactou o Ministério da Cultura e também a Direcção Provincial da Cultura de Luanda. A resposta do governo provincial foi imediata. Desconheciam que o artista Paulo Kapela estava agora no Lar Beiral. "Estamos tristes com o que aconteceu. É um angolano, é um irmão e estamos abertos para ajudar. A associação tem de participar esta ocorrência, lamentamos, mas nunca nos foi colocada esta situação", refere o director provincial da cultura, Manuel Sebastião.

A percepção que os departamentos públicos têm dos artistas em geral não é positiva. Em conversa informal com alguns responsáveis conclui-se que a maior parte dos artistas procura estes serviços para procurar apoio financeiro, sobretudo músicos. Existe inclusivamente, a ideia e que o Estado tem a obrigação e o dever de providenciar verbas para financiar, indiscriminadamente as actividades que estes artistas dizem que promovem.

Só no Governo Provincial de Luanda chegam entre 15 a 20 pedidos de apoio por mês. "O dinheiro tanto pode ser para comprar um carro, como para gravar um videoclip fora do país ou gravar um disco também no estrangeiro. Não pode haver uma política de entregar dinheiro. Por exemplo, os do teatro pedem menos, mas solicitam apoios para criar salas de espectáculo e isso é diferente", refere uma fonte do GPL.

Segundo a mesma fonte, "o apoio social passa por dar trabalho aos artistas (não se percebe porque o Angola Investe não contempla a cultura), exigir profissionalismo e o cumprimento dos regulamentos que já existem. Não faz sentido que o artista reclame quando a própria classe não se organiza para defender os seus interesses".

Não há amor na União

Nasceu em Maquela do Zombo, província do Uíge, há 67 anos. De lá partiu para o Congo Kinshasa e veio para Luanda com uma bagagem que lhe permitiu construir uma arte que já percorreu vários países africanos e europeus. O mestre Kapela, como é comummente conhecido, relembra os tempos áureos de convívio entre artistas, a criação da UNAP e como ajudou a formar alguns artistas.

O prémio CICIBA (Centro Internacional de Civilizações Bantu), a participação na bienal de Joburg em 1995 e a integração das suas obras em várias colecções. Refugiava-se há 21 anos nas instalações da associação. Sexta-feira, 24 de Outubro, Paulo Kapela foi levado por um grupo de polícias que entraram UNAP adentro.

O relato dos factos chega à redacção do NJ por intermédio de uma página criada com o nome do artista numa rede social. E acrescenta mais: O mestre Kapela seria levado dali para o lar de abrigo Beiral. Os gestores da página social, que não se quiseram identificar, informam que há dois cadeados que agora impedem a entrada.

O artista entretanto, confirma que foi levado sem nada daquele espaço que por mais de duas décadas foi o seu lar e ateliê. "Ficou lá tudo. As minhas obras, o material, documentos, roupas... Não trouxe nada comigo".

O mestre diz ter ficado atordoado com o aparato e da forma como foi levado dali. Sem aviso prévio, confirma o também artista Rasta Kongo que o visitava no Beiral. Paulo Kapela ganha a designação de mestre, porque segundo afirma, por ele passaram vários artistas que hoje se destacam entre muitos, Etona, o actual secretário-geral da UNAP. Que agora é apontado por estes dois artistas de ser o instigador da apreensão e expulsão.

Quase todos os secretários-gerais que passaram pela UNAP queriam aquele espaço para fazer restaurante ou bar e tirarem proveitos, mas a pressão do Etona foi muito maior, ao ponto de chegarmos a isto, dizem. O secretário-geral refuta as acusações referindo que se tratou de uma situação criminal, a polícia tinha que conferir alguma ordem.

O mestre Kapela foi detido em flagrante delito. O processo foi atenuado e dada a idade que tem e estado de saúde, foi levado para o Beiral. "Ele foi apanhado com estupefacientes e todos sabem muito bem que naquele espaço havia uso de drogas. Não podemos estar coniventes com esse tipo de situações criminais, porque senão a UNAP deixa de existir", defende-se Etona.

Confrontado com o facto, o mestre Kapela disse apenas que o espaço era frequentado por muitos artistas e clientes, com interesses vários. Lembra que houve tempos até, em que deu formação. Segundo a UNAP, "a polícia agiu autonomamente como deveria, até porque o espaço era frequentado por toda a sorte de pessoas que sabiam que ali iriam encontrar liamba".

"A polícia sabia e veio aqui tomar medidas, não fomos nós. O Comissário-chefe Jójó avisou-nos inclusive que iria redigir uma carta à UNAP a condenar este tipo de comportamento. A juventude que denegriu a imagem do Kapela desapareceu e ele agora está em crise", diz.

Durante vários anos o mestre Kapela conta que cedeu as suas obras para serem levadas para o estrangeiro. Esteve no No Fly Zone, em Lisboa, e na colecção ENSA, em Veneza. Além dos prémios que já conquistou e da venda de obras, o que se questiona agora é como chegou a este ponto.

 "Não há amor na UNAP, somos descartados. Deixo que levem os meus trabalhos para o estrangeiro, mas quando regressam não vejo nada, dinheiro nenhum, nem mesmo as obras", revela o mestre. Os artistas dizem que cederam obras que "acabavam por ser vendidas pela direcção da UNAP a 1000 dólares".

"Desse total, nós só recebíamos 200 dólares. Não há entrega de material, não nos são dados cuidados de saúde, já que muitas vezes trabalhamos com material tóxico. Nada", conta Rasta Kongo. O grande problema, explica o artista, deu-se quando começaram a "vender directamente as obras e a direcção assim não quer".

"Preferem que as coloquemos à disposição deles, mas nãohá transparência. Muitos artistas que tinham lá as suas obras foram buscá-las e por isso, resolveram correr connosco dali", explica Rasta Kongo.

Sobre esta questão da venda de obras, Etona afirma: "Em momento algum foram vendidas obras do Kapela, mas sei que ele vendeu à muita gente. Temos vindo a exibir uma parte das obras dele, que fazem parte da colecção Sindica Dokolo. Agora como é que essa fundação poderá vir a encaminhar algum valor que ele tenha direito? A lei dos direitos de autor foi aprovada, podemos tentar ver e seguir o passo de alguns coleccionadores que compraram as suas obras. A UNAP vai assinar um acordo com gabinete jurídico para acautelarmos algumas circunstâncias e salvaguardar os direitos do artista e provavelmente, neste âmbito, a situação do Kapela poderá ser ultrapassada".
Futuro do artista
No lar de idosos Kapela confessa que sente falta do convívio com os artistas. Não sabe bem como será o seu futuro, mas espera voltar a ter o seu espaço para se sentir encorajado a trabalhar. Durante uma reunião extraordinária que ocorreu esta quarta-feira, 29, na UNAP, o mestre Kapela foi o assunto em discussão.

Um empresário, conhecido coleccionador, terá proposto ajudar, alojando o mestre num ateliê em Cacuaco. Entretanto a UNAP decidiu procurar os familiares para entregar algumas obras que permanecem no antigo ateliê. "Como membro com direitos, a direcção da UNAP, na devida altura, também poderá fazer visitas e vamos começar a registar algumas preocupações latentes para depois fazermos um acompanhamento para que o Kapela não esteja ali, simplesmente abandonado sem ter esse calor familiar dos membros da UNAP", garante Etona.



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