Eles continuam a ser os nossos patrões

Hoje, com a derrota do comunismo, que tanto os portugueses agradecem, e alguns angolanos  maldizem e  outros festejam, já que estes sentem-se livre de dar vazão aos seus instintos individuais e silvestres. E com  o ambiente e o discurso  inevitável de que precisamos reconstruir o país  e erguer o mesmo da destruição do passado. Mesmo os antigos mercenários  e  financiadores da guerra  que o povo angolano foi vítima e sofreu na carne, nossos patrões com ares de racistas e arrogância, muitos deles, estão de volta. Esbanjando alegria, comemorando lucros. São mais de duzentos mil desses cidadãos que aplaudem as oportunidades que estes têm tido  num  país como Angola. Que eu saiba,  mesmo em tempos de guerra, tempos difíceis, a população de Angolanos em Portugal nunca chegou a esses níveis.
 
 Não se trata de ser xenófobo ou chauvinista, não se trata de rejeitar, nem se quer  a nenhum desses cidadãos portugueses. Quantas vezes os angolanos, em tempos difíceis, precisaram no mínimo, até de um gesto  simples de solidariedade, e para ser sincero  nunca tiveram, ao contrário, muitos deles quando tentavam escapar da guerra ao chegar em terras lusas eram humilhados.  Quando tivemos ajuda, e em boa medida sempre, venho  dos incansáveis  comunistas portugueses. E que esses nunca mediram forças na sua solidariedade e colaboração com os angolanos, mesmo nunca tendo o controle do poder em Portugal  e o lobby que caracteriza  as relações  de apadrinhamento no mundo capitalista, ajudaram os angolanos em momentos difíceis. Não é a toa que a extrema direita fascista portuguesa vive culpando a esquerda  pela independência das ex-colônias. A não ser por essa ajuda, já mencionada, o resto por aí, viveram sempre de expectativa. A espera da desgraça de quem mais hoje lhes beneficia.  

 

O que se trata aqui é de sabermos diferenciar  a quadrilha de assaltantes  que agora dá- se o luxo de rir nas nossas caras. Também não se trata de penalizar cidadãos inocentes, trata-se de criar e ir  atrás de critérios  bem definidos. E critérios que estejam modulados na reciprocidade  de um verdadeiro intercambio justo e solidário. Ou seja, para bons entendedores: o tomá-la  e o dá cá,  coisa que caracteriza as boas relações entre os capitalista e os defensores do mercado livre. Quem deve entrar como cooperante ou colaborador no país e quando deverá sair? A lei tem que ser rigorosa quando for para os angolanos lá em Portugal  e branda quando  for, igualmente, para os angolanos  naquele pais.


O irônico de tudo isso é o contraste social que esse intercambio, entre Portugal e Angola, tem  provocado. Dois países e culturas que se cruzam por destinos traçados que inquietariam qualquer  alma preocupada com a justiça social, qualquer patriota, qualquer angolano  temeroso pelos destinos do país. Justiça que tanto falta nessa relação ( Angola e Portugal). Justiça que é cegada pela ambição, pela corrupção, pelos  interesses mesquinhos, pela cegueira, pela prepotência e pela falta de  carência de um projeto de políticas sociais que possam acabar com as ironias  provocadas pelos contrastes sociais.

 

O contraste social pode ser, por exemplo, aquela produzida pela incapacidade de pensarmos que a sociedade angolana não pode  e  nem  deve  traçar sua trajetória de evolução no sentido em que uns  nascem para mandar e outros para servir. No sentido em que todos nós  nascemos com as capacidades intelectuais  para poder criar e construir. E não nos limitarmos  e resignarmos em sermos serviçais de quem quer que seja.

Assim, a filha da Maria ( a antiga doméstica) ou  mesmo   a neta, que perdeu o patrão por que foi corrido pela Revolução Comunista  em 1975, não pode limitar-se a servir, mesmo depois de trinta e três anos, os  novos patrões, agora filhos  ou netos daqueles que   foram expulsos no passado. Algo do ponto vista  social e estatal deveria evitar isso. E para isso não se precisam de tantos comunistas por aí no governo, possivelmente  de nenhum, é basta termos bom senso, amor à pátria, ter compromisso com esse povo, que até hoje continua a ser humilhado e enganado.

 

Antes de terminar gostaria de fazer uma pergunta. O Pula do B.O com o seu artigo está querendo dizer o quê? Que os angolanos, os pobres ou os negros são preguiçosos? Sabe quantos angolanos com formação, muitas às  vezes melhor até  que a dos portugueses, vivem fora de Angola e não conseguem regressar? Porque são menos valorizados  que qualquer padeiro ou comerciante português?

 

Não é só o português que vêm lá da península ibérica com cede de ganhar dinheiro. Milhares de Angolanos ou milhões  acordam todos os dias com essa intenção e fazem tudo por tudo nesta vida para alcançar  o mínimo que um ser  humano precisa para viver. Se não fosse assim, nos tempos de guerra muitos deles, até com qualificação, não arriscavam suas vidas e tempo trabalhando nas pedreiras lá em Portugal. Tem africano com classificação e muito bem instruído e até formado, que na Europa faz  trabalho que os cidadãos europeus não aceitam fazer . Sim embargo, o português em Angola mesmo sendo padeiro ou um simples comerciante, está muito melhor num país como Angola do que em qualquer país da Europa.
Todos sabem que os cidadãos europeus, ou qualquer cidadão português vive melhor num país como Angola. Não por que eles sejam inteligentes ou mais trabalhadores  que os Angolanos, jamais! Eles vivem melhor como consequência do racismo e o  preconceito que  existe mesmo em países africanos. Onde os governantes por burrice e ignorância identificam a burguesia, o ato de se tornar rico, viver em volta do luxo, ter de tudo e do melhor como um fenômeno europeu ou de quem tem a pele um pouco mais clara.

 

O problema não é nem cultural, o problema é político e  ideológico. O racismo é um instrumento da burguesia, quer  seja branca ou negra. O racismo é um instrumento da luta de classe usado pela burguesia e os grupos ou seitas reacionárias existentes por aí, e que serve para humilhar o ser humano, tornar ele ineficaz  e incompetente. É a manifestação mais descarada  do individualismo, e até daqueles que entram aqui para defender a ideia: de que quem é pobre, é pobre porque é preguiçoso, e de que pobre e preguiçoso só deve ser negro ou africano ou então de pele escura.

 

Nós temos um país  e uma instituição chamada Angola, e esse país, queiram ou não nos pertence, essa instituição deve aprender a nos defender dentro e fora  do mesmo! Não foi fundado para satisfazer ambições   burguesas  e para o Capitalismo que existe por aí. As riquezas desse país devem ser investidas para saciar a fome e tirar da miséria milhares dos seus filhos, e com trabalho justo e  remuneração  justa. Para tirar da ignorância e educar o povo que aí está.

 

Dizer que o racismo nessas relações de emprego não existe e que tudo é normal, ou até inveja de quem mais uma vez reclama, é patético. Da mesma forma que o africano, o negro ou angolano tem uma visão diferente do racismo, o branco, o  europeu caucasiano tem uma visão diferente. E essa diferença é fomentada pelos vícios  e  a injustiça social que só o Capitalismo sabe oferecer.  Está  diferença está na posição em que cada um pode se colocar. É a diminuição dessas distâncias, com relação a uma posição e outra que se acaba com o racismo. Definitivamente, o  fato de se querer  erguer uma sociedade de economia de mercado  com os valores burguês em alta, isso já gera o racismo. Isso já põe em desvantagem os nativos num país como Angola, mesmo eles sendo uma maioria. O racismo não respeita minorias nem maiorias ( perguntem aos sul-africanos  ou aos americanos,ou então aos brasileiros), perguntem  aos historiadores  e o percurso dos 500 anos do colonialismo  nesse continente; o racismo  não respeita a dignidade humana. A posição daqueles ( dos brancos) e a mania que os mesmos têm de pensar que em qualquer  grupo social devem ser preferidos é o que gera o racismo, a arrogância burguesa e a falta de solidariedade. Assim como a falta de cultura  e a ignorância  de quem devia evitar isso o Estado e o Governo, numa sociedade traumatizada pela sua historia  passada de colônia.
 
E quando entramos aqui reclamando do racismo, não é simplesmente o típico racismo em que o branco  descrimina o negro, ou  quando aquele se sente superior sobre esse. Referimos-nos a todas as formas de preconceito provocado por aquele fenômeno. Quando essa burguesia que aí está que se identifica como nacional e  que a maioria  dela diz que representa os nativos, e que está à frente do governo e do estado angolano, por incompetência e desleixo, reafirma deliberadamente aquele fenômeno em cima mencionado. E não têm uma política de governo e de estado para poder lidar com a mesma e evitar o preconceito que a emigração estrangeira vinda da península Euroasiática  nos tem acostumado.

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* Nelo de Carvalho / Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
Fonte: WWW.blog.comunidades.net/nelo