Luanda - É com alguma insatisfação que os membros da União dos Escritores Angolanos olham para uma das mais antigas associações culturais do país. Falta de solidariedade e de clareza lideram as queixas, que o secretário-geral desdramatiza, argumentando que há quem critique por “desconhecimento” e por “falta de participação”.

                    A união nem sempre faz a força


Fonte: NG
UEA.jpg - 140.64 KBAntónio Gonçalves, de 54 anos, foi secretário-geral da União dos Escritores (UEA) de 1995 a 2001, tendo sucedido, ao escritor e deputado João Melo. Daquele tempo, apesar de reconhecer o “défice” na publicação de livros devido à “falta de valores próprios”, este escritor realça a dimensão que se dava às ‘Makas a quarta-feira” com temas “polémicos” que “movimentavam o interesse nacional”, além da “grande relação” que a UEA tinha com os bairros, através das conferências.

“Havia um intercâmbio maior entre a União e as comunidades”, garante o autor de ‘Sobre asas e fios de rosa’, que não deixa de sublinhar o “espírito de unidade” entre os membros bem como a vinda a Angola de estudiosos de renome como o americano Russell Hamilton e o francês Michel Laban, falecido em 2008.

Embora admita ser “pouco confortável” falar do momento actual da União por ter liderado a lista que concorreu e foi derrotada nas últimas eleições daquela associação, António Gonçalves entende que tem faltado “alguma intervenção social”, sendo a UEA uma instituição que “podia debater assuntos pertinentes”, antes mesmo de serem levados à Assembleia Nacional. “Devia ser mais activa e estar à frente das grandes preocupações da Nação. Tem de ser solidária face às desgraças e os problemas que os angolanos enfrentam”.

O actual secretário-geral da UEA lembra que as associações, nos termos da legislação actual, são órgãos que apenas “complementam” as acções do Estado e que, como tal, a União “não deve fugir do seu âmbito”. Carmo Neto apela a que “não se faça confusão” sobre o papel cultural da associação que dirige, que, de acordo com os estatutos, “não pode fazer política”. “A essência da União é a promoção e divulgação da literatura e, por conseguinte, da cultura angolana”, sublinha Carmo Neto, que não tem dúvidas de que estes objectivos “têm sido alcançados”.

O actual líder da UEA justifica-se com o facto de os escritores angolanos serem estudados no mundo inteiro, além da possibilidade de haver, ainda este ano, aulas sobre Literatura Angolana na Universidade de Roma, onde se institucionalizou a cátedra ‘Agostinho Neto’, “graças ao desempenho” do seu elenco.

Ainda em 2015, prevê realizar uma ‘Mesa internacional sobre Literatura Angolana’ em Roma, Itália, e um ‘Encontro nacional dos escritores” em Angola, além de entregar “diversas antologias” – traduzidas em inglês, francês, espanhol, árabe, alemão, etc. – para o estudo comparado no Instituo de Literatura Universal, através da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. “Tudo isso eleva o bom nome e a imagem dos escritores angolanos”, reforça Carmo Neto.

A meio do segundo mandato, Carmo Neto, autor de ‘Meu réu de colarinho branco’, ‘Mahézu’ e outras obras, elege como ‘referência do seu reinado’ o aumento na edição de livros – uma média anual de mais de 40 obras –, a promoção externa da literatura que se faz em Angola, além da expansão em todas as províncias do concurso ‘Quem me dera ser Onda’ e do aumento de participantes no ‘Prémio Sonangol de Literatura’. “Há análises entusiastas. É preciso que sejamos frios”, apela, sem se preocupar que alguns elementos que fizeram parte do seu elenco se tenham oposto à sua reeleição. “Em contextos democráticos são atitudes que se devem respeitar”.

POUCOS KWANZAS

A UEA recebe mensalmente do Ministério da Cultura dois milhões e quinhentos mil kwanzas, valor que Carmo Neto considera “insuficiente”, visto que “somente a edição de um livro pode custar 10 por cento deste montante”. “Só com o que recebemos do Ministério, seria muito difícil… para a publicação de livros, contámos com o apoio de algumas empresas e das receitas que vêm dos patrimónios que temos arrendado”.

António Gonçalves, no entanto, desdramatiza a preocupação de Carmo Neto, adiantando que a Sonangol tem atribuído um valor à UEA para o uso exclusivo na edição de livros. “Eu negociei esta verba, através do então secretário-geral do MPLA, João Lourenço”, garante António Gonçalves, que não chegou a beneficiar deste acordo por ter sido nomeado conselheiro cultural da embaixada de Angola em Cuba. “Na altura, em 2001, eram 50 mil dólares, mas acredito que tenha aumentado com o tempo”.

“TRISTE”

Membro desde 2003, Kanguimbo Ananás olha para a União dos Escritores Angolanos “com muita tristeza” e considera que a actual direcção carece de algum “poder de congregação” e de “recolha de ideias”. “Não se trata de enviar mensagens, por telefone, no fim do ano a pedir que os membros mandem contribuições”, avisa. Antiga secretária para as actividades culturais, durante o mandato de Botelho de Vasconcelos, Kanguimbo Ananás entende que, actualmente, há “muito pouco diálogo” na associação e não percebe as razões por que a literatura infantil “não é reeditada”. “Porque é que a União ainda faz uma tiragem de mil cópias? Se há problemas, que se convoque os membros”, apela a autora do conto ‘O avó Sabalo’.

Apesar de elogiar o aumento na publicação, o escritor John Bella considera que a União “anda um pouco tremida” porque, “enquanto uns quase que nunca são apoiados, outros têm apoios de sobra”. “A bolsa de criação, por exemplo, até agora foi dada sempre à mesma pessoa”, lamenta John Bella, que denuncia também a “falta de solidariedade” entre os membros.

Carmo Neto, porém, entende que algumas queixas “são decorrentes do desconhecimento” do que tem acontecido na UEA. “Há colegas que nem sequer põem os pés na União. Nem sequer telefonam ao secretário-geral para saber como andámos ou expor uma pretensão que gostavam de ver transformada em realidade”.

Associação antiga

Proclamada a 10 de Dezembro de 1975, a União dos Escritores Angolanos (UEA) é uma instituição de utilidade publica que congrega actualmente cerca de 120 membros. Agostinho Neto foi o primeiro presidente da assembleia geral, enquanto o escritor Luandino Vieira o primeiro secretário-geral. Promover a defesa da cultura angolana como património da Nação, incentivar a criação literária dos seus membros, proporcionando-lhes condições favoráveis ao trabalho intelectual e à difusão das obras foram alguns dos objectivos que motivaram a sua criação. Para fazer parte dela, os candidatos têm de ter duas obras literárias publicadas que, por sua vez, são analisadas por ‘uma mesa de leitura’ cujos componentes (também membros da União) têm como grau mínimo de formação o mestrado em literatura.



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