Existem  duas facetas interligadas a sua figura de Virgílio Sotto Mayor (VSM): O envolvimento no assalto do “4 de Fevereiro” em 1961  e as circunstâncias que provocaram a sua sentença máxima três meses antes da independência nacional. Quando tinha 25 anos de idade, Virgílio Sotto Mayor alinhou-se a alguns dos responsáveis pela coordenação do assalto histórico, que tinha como principal objectivo libertar os presos políticos angolanos. Ele fazia parte de uma rede clandestina que recebia orientações do Congo. O seu interlocutor que recebia “recados” de Pinock Eduardo “Papa Pinock”  a partir do Congo, era identificado por Kiala. Pinock Eduardo foi quem  enviou 3000 escudos para que os protagonistas do assalto comprassem os calções curtos usados no acto de assalto, segundo revelações de Kiala.

 

Na sequência do atentado a subversão VSM foi detido e encarcerado da cadeia de Missombo e mais tarde deportado para São Nicolau.  Foi colocado em liberdade no início de 1970. Meses depois da soltura partiu para o Congo e aderiu ao MPLA que, a época, estava baseado naquele país. Quando regresso a Angola em 1974 encabeçou o comité “4 de Fevereiro” dentro do partido.


Nos meses seguidos a transição e a implementação dos pressupostos dos “acordos de Alvor”, VSM  já estava transformado em comandante do exército do MPLA com a responsabilidade de controlar uma unidade militar. Foram sentidos em Sotto Mayor sinais que pronunciavam contradição com os seus camaradas. As teses por si defendidas são agora esclarecidas por um órfão seu, Moisés Sotto Mayor em entrevista a  poucos anos atrás ao Jornal Folha 8. Segundo Moises,  o seu pai “Era defensor acérrimo da realização de uma frente com todas as forças nacionalista para a independência de Angola”. Esta questão, conforme analisou “era  a mais polémica conhecida no interior do MPLA, naquela altura”.  VSM defendia  o ponto de vista de que “a independência completa de Angola só seria possível com a formação da frente aglutinada do MPLA,  FNLA, UNITA e outras forças políticas internas”.
 

Na última semana de Agosto de 75, Virgílio Sotto Mayor (VSM) estava convidado para assistir ao casamento do filho mais velho do seu amigo Imperial Santana. Enquanto ele estava no casamento  um grupo de soldados que eram seus  subordinados foram interceptados na área de bom Jesus, quando intervinham uma rincha de jovens. Usaram balas de fogo atirando mortalmente contra dois jovens. Há, entretanto, suposições de  que teria havido disparo de  tiro proveniente de uma terceira pessoa ou grupo que impulsionou aos homens de VSM a responderem provocando a morte dos jovens.  Há também três versões paralelas surgidas logo após o tiroteio cujo  parecer dos familiares descreve como insinuações, criadas na altura, para desvio do assunto. Estas versões tidas como “ridículas” insinuavam que os homens de VSM teriam desviado fundos, a segunda versão  dizia que pretendiam desencadear assassinatos aos moradores e a terceira sustenta que quiseram violar uma senhora e alguém em defesa disparou os tiros contra os soldados. De entre as versões, os próximos de VSM inclinam-se na que relata a morte dos Rapazes das rinchas porque conforme tem conhecimento, apareceram pessoas a reclamar pela morte dos jovens.


Dado ao excesso protagonizado pelos soldados, o comandante VSM foi responsável pelo acto dos seus homens e  em menos de 48 horas, julgado no “tribunal da revolução” no campo Mário Santiago. Era um dia decretado tolerância. Havia  uma plateia repleta de membros influentes do MPLA que assistiam o julgamento. Da voz do então locutor João Faria que cobria a sentença, ouviu-se o seguinte: “Esse fuzilamento extrajudicial, sem matéria de crime provado foi feito em nome da revolução”. Para quem estava do outro lado do Radio , este era um sinal que o corpo de VSM acabava de ser perfurado pelas balas. Os seus restos mortais foram  retirados, uma semana depois, da casa mortuária. Um filho e um motorista identificado por Sousa reclamavam ter, ainda encontrado  o corpo no ultimo suspiro, horas após o julgamento. A lei da revolução, na altura, estipulava  que um acusado tinha direito a recuperação medica se não perdesse a vida depois de  fuzilado.


A reserva com que grupos internos passaram a ter por Virgílio Sotto Mayor  é também associada a denotada oposição que transparecia face a ligação do acto do “4 de Fevereiro” ao MPLA.  Há conhecimento de pareceres de figuras próximas ao falecido Mário Pinto de Andrade que o atribuem como mentor da ligação do “4 de Fevereiro” ao MPLA. Era entendível na altura, o partido reclamar para  si datas importantes. Na percepção de Mário Pinto de Andrade a ponderação de (f)actos violentos como o “4 de Fevereiro” quebrava a faceta que se tinha de que o MPLA era um movimento/partido apenas de intelectuais.


* José Gama
Fonte: Club-k



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