Luanda - Horácio Dá Mesquita, o homem que poderia nunca ter sido soldado se não driblasse a asma no seu baptismo em Cabinda às mãos do lendário comandante Margoso, é hoje um ex-soldado, além de uns quantos ex-quase pela frente: ex-quase oficial superior, ex-quase reformado, ex-quase não vivo… A sua história preenche, com uma facilidade incrível, um bom guião cinematográfico.

*Luis Fernando
Fonte: O Pais

Depois que a Independência foi proclamada (também com o seu pequeno grão como contributo), deambulou por aí, preso a novos compromissos de guerra. Alguns dos seus camaradas de Kifangondo, Panguila, Barra do Dande, Libongos e Caxito – como o comandante Ndalu – seguiram para Norte, em perseguição do inimigo derrotado às portas de Luanda. Ele, sujeito às contingências operacionais do período, rumou para o Hebo, na frente Sul.

Trocou o perigo zairense/português/ FNLA pelo perigo sul-africano/UNITA e marchou. Foi instructor metódico. Pelas suas mãos passaram homens que viriam a ser grandes no futuro exército do país finalmente pacificado. Alguns deles são generais hoje. Mas mal aceita falar desse outro capítulo de uma vida cheia de esquinas e reentrâncias. Por modéstia, quiçá. Ou pela dor que lhe ficou por não ter podido seguir em frente como soldado do povo. Porque a asma, essa, voltou a atacar com força um dia. Em 1977, dois anos depois da Batalha de Kifangondo, o homem do palpitante percurso iniciado em Cabinda para responder ao apelo de Neto, abandonou os quartéis. A asma, sórdida e cruel, vencera! Hoje vive como muitos outros ex-soldados de diferentes latitudes. Revivendo a guerra sem se deixar acorrentar pelas horas mais trágicas e os episódios mais funestos.

Tornou-se um civil a tempo inteiro, amando como amam os ex-soldados que abraçaram carreiras firmes noutros domínios da vida: com intensidade, sempre! Decidiu viver a beira do mar, em Cacuaco, entre o bater das ondas e as histórias de pescadores que ainda lançam redes. Ali perto, nunca se esquece, combateu ele quando o país parecia que ia soçobrar antes de o ser.

Faz carreira no Banco Nacional de Angola trabalhando como consultor do governador para a área do Património, Emissões e Comunicação Institucional. Agora como durante vários anos antes, mantêm funções nas Edições Novembro, a empresa que produz o Jornal de Angola, onde – confessa entre sorrisos – lhe são feitos os descontos para a Segurança Social para a reforma que, com os anos, chega. Os tempos de jovem, de soldado em Kifangondo, ficaram para trás. Há muito!

O canhão que nunca serviu

Em todas as guerras, as grandes batalhas estão sempre rodeadas de façanhas verosímeis mescladas com relatos fantasiosos, como se os soldados precisassem desse ardil espiritual para espiaram os seus próprios demónios e fantasmas. A Batalha de Kifangondo, sem dúvidas a mais estrondosa e emblemática dos tempos prévios ao nascimento da República Popular de Angola, tem os seus interstícios que se equilibram entre a verdade que se questiona e a lenda que se cria.

O soldado que nos guia pelos labirínticos caminhos de há 37 anos atrás, Horácio Dá Mesquita, ficou com uma pulga colada à orelha quando na conferência sobre a Batalha de Kifangongo (referida por diversas vezes no seu trepidante depoimento) se falou num mítico canhão que teria feito parte do arsenal mobilizado pela FNLA para vergar a resistência das FAPLA às portas de Luanda. Exprimiu assim as suas reticências: “Bom, são coisas que ficámos agora a saber, se são verdades ou não…sabe como é a guerra.


O general Tonta de Castro disse durante a conferência que eles tinham um canhão de fabrico coreano, de grande calibre que, na óptica deles, teria resolvido a seu favor os combates. Por deficiente manuseio, disse, no seu primeiro e único disparo, o canhão explodiu matando tudo em seu redor, estilhaçando inclusive os vidros do seu jeep que se encontrava a uma distância considerável.

Além desta história do canhão, ficámos também a saber pelo general Tonta que do outro lado não havia um comando único, havia o comando das forças zairenses, o comando das forças do coronel português Santos e Castro e ainda o desalento dos sul-africanos que haviam desembarcado no Negage, província do Uíge, em dois aviões Hércules C 130 e depois foram recolhidos por duas corvetas com as suas peças de 140 mm”.

REPÓRTERES DE GUERRA?

Horácio Dá Mesquita disse-nos que é um mito a ideia de que terão andado pela frente de Kifangondo jornalistas a cobrir a guerra. É seco, cáustico e peremptório: “Não houve repórteres de guerra; encontrei sim um pequeno grupo no intervalo dos combates em Kifangondo, numa única ocasião, onde se destacava o Francisco Simons. Mas ficaram pouco tempo, tiveram de se retirar por ordem do Estado-Maior, pois não havia como garantir a sua segurança”.

O versátil Horácio Dá Mesquita

Há pessoas que nasceram para percursos extraordinários e o Horácio Dá Mesquita, um velho amigo meu, é uma delas. Somam já muitos os anos em que tenho esse frenético homem de mil ofícios como uma das minhas maiores fontes de inspiração, de controlo da adrenalina e de doseamento do humor, além de variadíssimos outros labirintos para os quais ele consegue sempre arrastar os que lhe são próximos.

O Horácio é uma figura. Começa pelo nome. Não conheço mais ninguém que tenha Dá como apelido, elemento de ligação ou lá o que isso seja. Logo por aqui se vê que detesta vidas simples pois bastaria ter optado por uma combinação mais comum e rotineira para que lhe estragassem menos vezes o nome. Encontrou a melhor maneira de passar o tempo nas repartições do Estado a reclamar com os erros em certidões, BI, certificados, diplomas, atestados de residência e demais papelada oficial, num tempo em que um familiaríssimo Francisco Manuel se escreve Franssisco Manoel pela dolorosa falência de métodos e saberes de muitos dos actuais servidores da administração pública. Se um dia o Horácio Dá Mesquita se desse ao trabalho de escrever a sua autobiografia, já se sabe que resultaria dali um desses volumosos calhamaços que nunca se terminam de ler e dão sempre um jeito providencial nas entrevistas dos jornalistas impertinentes, quando do nada se lembram de perguntar qual o livro de cabeceira.


Como é enorme, com largas centenas de páginas, ninguém leva a mal se se andar anos a dizer que a leitura ainda não terminou. A lista de coisas que o Horácio não faz é espantosamente pequena. Assim, de repente, lembro-me apenas que ele não tripula aviões, não é médico nem é pirata dos mares da Somália. Fora disso, está em quase tudo.


Conheci-o na década de 90, era eu director do Jornal de Angola e pessoa amiga pediu-me que lhe desse uma oportunidade como editor de um suplemento para miúdos. Muito antes, ainda nos meus tempos de bolseiro em Cuba, nos anos oitenta, colegas cabo-verdianos já contavam façanhas do homem no universo das letras e do jornalismo do arquipélago. Depois que se entra no mundo do Horácio, entregamo-nos a um nunca mais acabar de surpresas. Vivi e continuo a viver essa alucinante viagem ao desconhecido, descobrindo o meu amigo ora aqui, ora ali, ora acolá, sem mais fôlego para transmitir-lhe palavras de espanto ou surpresa, que se tornaram redundantes. No dinheiro que os angolanos usam todos os dias para as suas transações correntes, está lá a marca do Horácio Dá Mesquita. Os selos do pós Independência foram quase sempre pintados por ele.

O único livro que tenho ilustrado – Antes do Quarto – foi uma experiência só possível com um génio como ele por perto. Sentamo-nos no quintal de sua casa em Cacuaco, junto ao mar, e eu lia-lhe os primeiros parágrafos de cada uma das crónicas do manuscrito. Em rápidos segundos, ele captava a ideia e a uma velocidade assombrosa, fazia os desenhos. Certo dia, ligado à TPA, via uma actuação dos Kiezos. Pareceu-me descobrir entre os integrantes um rosto meu velho conhecido: “aquele aí não é o Horácio?” E era! Desconhecia, em absoluto, a sua veia de músico. Soube depois que tocava concertina, piano e dicanza. Para as coisas da tradição, o Horácio tem uma vocação singular e um respeito rígido. Quando há uns anos decidiu constituir família com uma simpática conterrânea minha, a Juliana, convidou três ou quatro amigos que preza e fez-lhes subir a colina de São José para testemunharem a cerimónia do alembamento. Um deles era eu e os outros, as Dras Maria do Carmo Medina e Ana Maria de Oliveira. Ando a pensar sentar-me com ele um dia para fazermos a lista dos seus mil ofícios. É quase seguro que ficarão por incluir uns quantos, ou porque não há registo que consiga ser tão abrangente, ou porque o esforço meio senil de dois velhos amigos encontre na quebra de memória um obstáculo pior que o Himalaia.

Publicado aos 9 de Novembro de 2012 pelo Jornal "O País"



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