Lisboa - Jurista, autarca e militante do Bloco de Esquerda, foi na juventude ativista do MPLA em Luanda, tendo sido presa na purga desencadeada por aquele partido no dia 27 de maio de 1977.

Fonte: Esquerda

Falecida prematuramente nesta sexta-feira, aos 60 anos, Margarida Diogo era jurista da Caixa Geral de Depósitos e deputada substituta do Bloco de Esquerda na Junta de Freguesia da Penha de França, em Lisboa. Mas a sua militância começara muito antes, em Angola, ainda antes da independência.


Nascida em Luanda, de pai angolano (de Malanje, 400 km a nordeste de Luanda), e de mãe portuguesa, Margarida Diogo fez parte de uma geração de jovens ativistas universitários de Luanda que se mobilizaram contra o colonialismo português e que organizaram o MPLA no movimento estudantil ainda antes de as FAPLA chegarem à capital angolana logo a seguir à queda da ditadura salazar/marcelista.

Ligada à organização do MES

Ainda em 1973, veio para Portugal estudar na Faculdade de Direito com o seu namorado, com quem casou em 1974 (João Redinha, filho do conceituado etnólogo José Redinha). Na Faculdade, esteve ligada à organização do MES.

 

De volta a Angola em agosto de 1974, regressou a Portugal em finais de setembro para fazer exames na Faculdade, tendo-se mudado para Luanda a 18 de dezembro de 1974, com o marido. “Eu não sentia Portugal como o meu país. Eu era angolana e achava que naquele momento tão importante tinha de estar lá e não aqui”, recordaria ela mais tarde. Uma das suas maiores amigas foi a atual ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, que na sexta-feira esteve presente no velório.

Forçada a abandonar a filha recém-nascida

Em 27 de maio de 1977, a militância de Margarida Diogo no MPLA foi brutalmente interrompida quando, no decorrer da purga lançada pelo partido de Agostinho Neto contra a facção de Nito Alves, milhares de angolanos foram presos e assassinados. Margarida Diogo foi detida na primeira semana de junho de 1977, em casa, às 4h da manhã, junto com o seu marido de então, João Carlos Lara, primo do histórico dirigente do MPLA Lúcio Lara. Ambos foram levados para a Cadeia de S. Paulo.

 

Grávida, ficou presa até poucos dias antes da filha nascer; saiu da cadeia para a maternidade, onde foi assistida pelo Dr. Azancot de Menezes, velho militante do MPLA e da Revolta Ativa.

 

A filha Vanessa nasceu em janeiro de 1978, mas em fins de maio do mesmo ano a mãe foi presa de novo, regressando à cadeia de S. Paulo. A nova prisão deveu-se ao facto de, sabendo que havia uma lista de pessoas que o governo angolano pretendia fuzilar, ter tentado vir a Portugal denunciar tudo o que estava a ser perpetrado.

 

Separada à força da filha, que foi entregue a um infantário, seria a mulher de outro preso, que também tinha uma filha, de 2 anos, a criá-la.

 

Margarida Diogo foi libertada em agosto de 1979 e mudou-se para Portugal em 1980, onde trabalhou como jurista da Caixa Geral de Depósitos.

 

Só regressaria a Luanda em 1996, como representante da Associação Portuguesa das Mulheres Juristas para participar de um Congresso Internacional da Associação, que tem sede em Paris.

Elaboração de projetos de lei

Para além da sua militância bloquista no concelho de Lisboa, Margarida Diogo trabalhou junto da Comissão Nacional de Trabalho do Bloco na elaboração de projetos de lei de alteração do código de trabalho, auxiliando a então deputada bloquista Mariana Aiveca. Um parecer que elaborou sobre a contratação coletiva foi unanimemente elogiado pelos integrantes da Comissão de Trabalho da Assembleia da República.

 

Participou também de debates organizados pelo Bloco sobre legislação do trabalho, junto com o professor José João Abrantes, da Universidade Nova de Lisboa.



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