ImageLuanda - Tarde do dia 19 de Março. As jovens funcionárias de umas das boutiques da capital de Luanda estão assustadas pelo volume de compras que uma menina está a efectuar. Foram nada mais, nada menos, que quase dois mil dólares, tendo ela pago a conta em dinheiro.

Uma das funcionárias não se coibiu de perguntar a idade à jovem que, sem rodeios respondeu “quinze, porquê”? Sem responder à questão da cliente, as funcionárias ter-se-ão, com certeza, interrogado onde ela teria arranjado tanto dinheiro.

A resposta tiveram-na cerca de trinta minutos depois. A jovem tirou de uma pasta um telefone, ligou para alguém, dizendo “já está” para, minutos depois, em frente à loja estacionar um jeep de marca BMW, modelo X5, de cor preta, conduzida por um senhor e para o qual a jovem subiu. 

Se, entre as funcionárias, houve quem tivesse pensado que se tratava do pai da jovem, o que aconteceu no interior da viatura mostrou o contrário. O velho e a jovem puseram-se aos beijos. Apesar de ter gasto tanto dinheiro, e por lhe faltarem vinte dólares, a jovem deixou na loja um fio de ouro que gostaria de levar.

Ela parece ter explicado a situação ao companheiro que, de imediato, resolveu aumentar o dinheiro, já que ela regressou à loja para ir comprar o fio. Nessa altura, além de confirmar a relação, adiantou que namoravam há cerca de seis meses.

Tudo começou quando, num daqueles dias difíceis de apanhar táxi em Luanda, Wene e uma colega de escola não se inibiram de pedir boleia ao senhor quando subia para uma viatura estacionada no local onde elas esperavam pelo táxi, na conhecida Avenida Brasil. 

O senhor pediu o contacto delas, mas apenas welnne tinha telefone: no dia seguinte, mais ou mesmo à mesmo hora do encontro anterior, ele ligou, oferecendo boleia. A menina aceitou e desde aquele dia começou o namoro, tendo-se a amiga apercebido do facto passados cinco meses.

Ela demorou a contar à amiga por temer que esta viesse a descobrir as verdadeiras razões que a motivaram a aceitar o senhor, mais novo do que o pai dela apenas um ano. Ela tem direito a roupas, recargas para o telemóvel, assim como a um subsídio mensal para as despesas pessoais.

O dinheiro que ela levou à loja não faz parte de nenhum dos itens citados. Tratou-se de presente por ela ter concluído com sucesso um dos cursos que o namorado patrocinou. Caso tivesse mais idade, Wenne ganharia um carro, segundo promessa feita pelo namorado. Esses benefícios são o que, sobretudo, mantêm a rapariga na relação.

"No princípio, eu não gostava dele, mas o carinho e atenção que ele me presta ensinaram-me a gostar”, confessa, acrescentando que, na altura em que aceitou o senhor, estava com o seu primeiro namorado. O moço é mais velho que ela apenas quatro anos, mas ela achava-o muito mais velho.

“A diferença de idade incomodava-me, tanto que eu já estava a pensar em deixá-lo para ficar com alguém da minha idade, mas quando dei por mim estava com o “papoite”, lembra para mais adiante acrescentar que, pelo facto, tem sido muito criticada pelos amigos, “mas o que fazer?”, interroga, adiantando que quer aproveitar todas as oportunidades proporcionadas pelos senhor para se formar e poder ganhar o seu dinheiro sozinha.

Estes benefícios são, de resto, o garante dos relacionamentos chamados, por muitos, como “inter-geracionais”, ou seja, aqueles em que um dos parceiros é muito mais velho que o outro, geralmente ainda adolescente. Na maioria dos casos, o mais velho é o homem.

Os rapazes também são pescados

Engana-se quem pensa que apenas existem homens a procurar carne nova. Hoje é cada vez maior o número de senhoras a aproveitarem-se da sua condição social para namorarem com os jovens. Nícolas (nome fictício), 18 anos, é um dos jovens que já caiu nesta armadilha.

Há um ano, ou seja, com dezassete anos, começou a namorar com uma executiva de uma das maiores empresas do País. Conheceram-se num dos ginásios da capital onde o jovem treina halterofilismo e ela faz ginástica.

“Ela tinha pouco tempo de casa quando uma vez, à saída, nos cruzámos à porta e ficámos a falar um pouco”, recorda. No mesmo dia ele só não entrou no Mitsubichi Pagero dela porque iam em direcções diferentes, o que já não aconteceu no encontro seguinte, ocorrido três dias depois do primeiro.

Ela deixou-o nos arredores do Largo da Independência, trocaram os contactos telefónicos, além de se comprometerem a continuar a conversa no encontro seguinte, que aconteceu mesmo do dia a seguir. Desde aquele dia os encontros não pararam, pelo contrário, a intimidade foi caracterizando os mesmos. A amizade deu então lugar ao namoro que, entre outras coisas, garantiu um vokwagen pólo ao jovem que caracteriza a namorada como sendo “muito atenciosa, carinhosa e prestável”.

Nícolas, que continua com a anterior namorada, tem ainda garantida a mensalidade do curso na Universidade Católica de Angola onde frequenta o segundo ano de Direito. “Ela nunca mostrou se muito preocupada com a minha namorada até porque não lhe dou motivos para sentir a minha falta”, explica, para depois aceitar que o novo relacionamento tem estado a prejudicar o antigo.

“Tem estado a faltar tempo, mas tenho-lhe dito que estou a trabalhar”. Nícolas continua com a namorada jovem, mais nova que ele apenas um ano, por temer que com a “mamoide” seja uma coisa passageira. “Confio nela, tenho estado a gostar da experiência, mas ainda tenho algumas dúvidas”, conta. Ele conhece outros jovens e até mesmo adolescentes que vivem este tipo de relacionamento, negando tratar-se de uma forma de prostituição “Tem as suas especificidades, mas não deixa de ser um namoro”, argumenta.

Um relacionamento adulto

Prova de que as relações inter-geracionais na sociedade angolana não são uma realidade tão nova, está no facto de existir o termo “Catorzinha”, que fez furor há cerca de seis anos para caracterizar este tipo de relacionamento. Entretanto, muitas das “catorzinhas” de ontem, reprovam as adolescentes de hoje que optam por este tipo de relacionamento.

“Tem as suas vantagens, oferece outras oportunidades, aprende-se mais, mas actualmente existe muita Sida, por isso não aconselho a ninguém este tipo de relacionamento”, argumenta Bela que, aos 15 anos, teve um namorado de 50.

Outra desvantagem, normalmente atribuída a este tipo de relacionamento, é a suposta diferença no desempenho sexual. Bela confirmou o referido quadro, explicando que “ele era, por acaso, muito carinhoso mas já não tinha as mesmas forças que os meus miúdos”, acrescentando que teve sempre um jovem que a satisfazia sexualmente. “Este é um dos riscos deste tipo de relacionamento”, adianta.

Por sua vez, Nícola descreve sexualmente a sua namorada como muito “esforçada”, “ritmada” e com vontade de lhe agradar, mas “falta-lhe alguma resistência,”, justifica, para depois manifestar a crença de que a ginástica a vai ajudar a melhorar a referida dificuldade.

Os sexólogos defendem, por sua vez, que a diferença de idade tem fortes possibilidades de influenciar o relacionamento, porquanto “depois de uma certa idade se registam alterações de padrão na sexualidade em ambos os sexos o que, entretanto, não significa uma vida sexual insatisfatória. No entanto”, acrescentam, “nos homens o medo da impotência e da velhice acaba empurrando muitos homens para situações de estresse, falta de auto-estima e inversão de valores. É a chamada Idade do Lobo”.

Segundo o psicólogo Oswaldo Rodrigues Jr., do Instituto Paulista de Sexualidade, algumas modificações físicas ocorrem após os 45/50 anos, mas o homem pode continuar tendo erecções suficientemente rígidas para a penetração durante toda a vida. “A influência da idade no desempenho sexual ocorre devido a mecanismos neuróticos por parte do homem. Muitos crêem que devem ter o desempenho dos 20 anos. E, quando comparam, sofrem, ficam ansiosos no momento sexual. A consequência, muitas vezes, acaba por ser a dificuldade de erecção”, disse. No caso das mulheres, as mudanças fisiológicas que ocorrem com a menopausa e a senilidade é que podem prejudicar, com maior ou menor intensidade, a sua actividade sexual.

Verdade é que tanto no caso das mulheres como no dos homens, os benefícios que garantem aos respectivos parceiros garantem a relação inter-geracional onde estes adultos vão em busca de novas aventuras e experiências que, até certo ponto, os ajudam no respectivo desempenho sexual.


Um convite à SIDA

Para os especialista na luta contra a SIDA, os relacionamentos inter-geracionais apresentam-se como um dos principais riscos de contágio da doença, por grande parte dos mais velhos ignorarem a possibilidade de o parceiro estar infectado por ser ainda criança, esquecendo o princípio de que a SIDA e outras doenças sexualmente transmissíveis não têm idade.

Verdade é que, apesar de serem sexualmente activos, esses adolescentes têm pouca informação, praticam o sexo desprotegido, sem consciência dos possíveis riscos. No caso dos que se relacionam com os adultos, soma-se à desinformação o pouco poder de negociação em relação ao sexo seguro, já que eles se vêem obrigados a submeter-se às vontades e decisões do parceiro.

Além da possibilidade do contágio de doenças, as “catorzinhas” correm o risco de contrair uma gravidez indesejada que, muitas vezes, representa o fim da relação, uma vez que o senhor desaparece ou opta pelo aborto que, nalguns casos, tem um fim triste como aconteceu com a filha da dona Marlene.

Ela morreu, há dois meses, ao tentar o aborto da gravidez de um senhor de 45 anos de idade, casado, que, “com medo de estragar o seu lar, incentivou a miúda a tirar”, recorda a senhora visivelmente entristecida.  


 
*César Silveira
Fonte: Folha8



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